Danielle Steel

 Porto Seguro

                   Traduo        de

                    VERAWHATELY



    E D I T O R A                R E C O R D



                        2007

A meus filhos incrveis e maravilhosos,
 Beatrix, Trevor, Todd, Sam, Victoria,
      Vanessa, Maxx, Zara e Nick,
         que me do segurana, felicidade e amor,
                aqueles a quem tanto amo,
    Que sejam sempre um porto seguro um para o outro.


       E aos anjos do "Yo! Angel!":
     Randy, Bob, Jill, Cody, Paul, Tony, Younes,
             Jane e John.
      Com todo o meu amor d.s.
                  A Mo de Deus
Sempre com um sentimento de trepidao,
excitao, medo, o dia chega quando samos em
busca das almas de Deus, esquecidas, frias,
destrudas, imundas, e, ocasionalmente, mas
raramente, limpas, novas em folha nas ruas, ainda
com cabelos limpos, tranados, ou rostos bem
barbeados, porm um ms depois vemos os
estragos de dias, os mesmos rostos no so mais
os mesmos, as roupas esto em trapos as almas
comeam a esfarrapar-se e sapatos e olhos.... eu
vou  missa e rezo por eles antes de sair, como
matadores entrando na arena, nunca sabendo se a
noite lhes trar, aconchego ou desespero perigo
ou morte para eles ou para ns, minhas preces
silenciosas e sentimentos profundos, e finalmente
partimos os risos soando como sinos  nossa volta,
ento vemos os rostos, os corpos os olhos nos
procurando j nos conhecem agora, vm correndo,
e ns aparecemos muitas e muitas e muitas vezes
de novo, carregando sacolas pesadas para lhes
comprar mais um dia, mais uma noite na chuva,
mais uma hora... no frio, eu rezei por vocs... onde
vocs estavam? Eu sabia que viriam! Com camisas
coladas no corpo na chuva, sua dor e sua alegria
misturando-se s nossas ns somos os vages
cheios de esperana em um raio de ao que no
podemos medir, suas mos tocam as nossas, seus
olhos penetram fundo nos nossos, Deus os proteja,
as vozes cantam suavemente quando eles se vo,
uma perna, um brao, um olho um tempo, uma
vida que partilham conosco por um momento nas
ruas, quando seguimos e eles permanecem
gravados na nossa lembrana para sempre a
menina com feridas pelo rosto todo o menino s
com uma perna na chuva aoitante sua me teria
gritado se o visse, o homem que abaixou a cabea
e soluou fraco demais para pegar a sacola de
nossas mos, e os outros que nos assustam, que
vm farejando observando, tentando decidir se
do o bote ou participam no sabem se atacam ou
agradecem, seus olhos encontram os nossos, suas
mos tocam a minha, suas vidas interligadas com
as nossas, irrevogavelmente, imensuravelmente, e
no fim, finalmente, confiana  nosso nico elo, a
nica esperana deles, nosso nico escudo quando
os enfrentamos de novo e de novo. a noite passa
os rostos interminveis, a aparente desesperana,
interrompida pelo mais breve momento quando
nasce a esperana e uma sacola cheia de roupas
quentes e alimentos, uma lanterna, um saco de
dormir, um baralho, e alguns band-aids, um sinal
de retorno  dignidade a humanidade deles no
difere da nossa e ento finalmente um rosto com
olhos to devastados e devastadores que pra
nosso corao quebra o tempo em mnimos
fragmentos at ficarmos to destrudos ou to
inteiros, sem diferena mais entre ns somos um
s quando os olhos procuram os meus, ele deixar
que eu o veja como um de ns, ou dar um passo
 frente e me matar porque a esperana j est
longe para ser alcanada por que est fazendo
isso por ns? Porque amo vocs, quero dizer, mas
raramente encontro as palavras, quando lhes dou
a sacola junto com meu corao, minha prpria
esperana e minha f espalham-se um pouco
entre muitos, e sempre o pior rosto de todos l no
final depois de poucos rostos alegres, e alguns to
prximos da morte que no podem falar, mas esse
ltimo, sempre meu, o que levo para casa dentro
do meu corao, sua coroa de espinhos pousa na
minha mo, seu rosto destrudo, ele  o mais
imundo e o mais amedrontado de todos, levanta-
se e olha para mim, mantendo-se firme, os olhos
penetrando nos meus, vazios s vezes, ao mesmo
tempo ameaadores e cheios de desespero, eu o
vejo chegar ele vem direto para mim e eu quero
correr, mas no posso e no corro, e no ouso,
sinto o gosto do medo nos encontramos e ficamos
olho a olho, sentindo o terror mtuo como
lgrimas misturando-se em um rosto e ento eu
sei, eu me lembro se essa fosse minha nica e ltima chance de tocar em Deus, de estender a
mo e ser tocado por Ele tambm, se essa fosse minha nica chance de provar meu valor e meu
amor por Ele, eu correria? Eu me mantenho firme, lembrando que quando Ele vem sob muitas
formas, com muitos rostos, com maus cheiros, e talvez at com olhos raivosos, eu mostro a sacola,
j sem coragem, meramente respirando, lembrando por que sa nessa noite escura e para quem...
somos iguais e sozinhos a morte sobrevoando entre ns, ento ele pega a sacola finalmente sussurra
Deus lhe abenoe e vai em frente, e eu sei mais uma vez quando vamos para casa, silenciosos e
vitoriosos, que mais uma vez fomos tocados pela mo de Deus.


                                       Refgio

Uma vez quebrado, agora renovado, pensando em
voc um lugar onde encontro refgio, suas rugas,
minhas cicatrizes, o legado daqueles que nos
amaram, nossas vitrias e derrotas convergindo
lentamente, nossas histrias se fundindo em uma
s, aquecendo-se no sol de inverno os pedaos do
meu eu no mais quebrados, e todo o meu eu
finalmente inteiro, uma loua craquel de antiga beleza, os mistrios da vida no mais
parecem precisar de respostas, e voc, amigo
querido, minha mo na sua, quando ns dois nos
refazemos, e a vida comea de novo, uma cano
de amor e alegria que nunca termina.


                                 Captulo             1

ERA UM DESSES DIAS                       frios e nublados que se disfaram no vero no
norte da Califrnia, com o vento soprando na longa praia em meia-lua, levantando uma
nuvem de areia fina no ar. Uma menininha de short vermelho e moletom branco caminha-
va lentamente pela praia com a cabea virada contra o vento, enquanto seu cachorro
farejava as algas marinhas na beira da gua.
De cabelo vermelho curto e encaracolado, olhos
cor de mel e rostinho sardento, a menina devia ter
entre 10 e 12 anos. Era graciosa e pequena, com
pernas curtas e finas. O cachorro era um labrador
chocolate. Os dois vinham andando devagar do
condomnio fechado em direo  praia, na outra
extremidade. No havia quase ningum l naquele
dia, pois estava frio demais. Mas ela no se
importava. O cachorro latia quando montes de
areia eram levantados pelo vento, e depois voltava
para a beira da gua. Quando viu um caranguejo,
latiu furiosamente e saltou para trs, fazendo a
menina rir. Obviamente, a criana e o co eram
bons amigos. Alguma coisa neles sugeria uma vida
solitria   e  dava     a   impresso   de     que
freqentemente andavam juntos assim. Os dois
caminharam lado a lado durante um longo tempo.
Alguns dias eram quentes e ensolarados, como se
esperava no ms de julho, mas outros, no.
Quando a nvoa aparecia, dava a sensao de um
dia frio de inverno. Subia pelas ondas e encami-
nhava-se para o alto da ponte Golden Gate, que s
vezes podia ser vista da ponta da praia. Safe
Harbour ficava a 35 minutos de So Francisco, e
mais da metade era formada por um condomnio
fechado, com casas construdas logo depois das
dunas ao longo da praia. Uma guarita com um
guarda de planto mantinha afastados os que no
eram bem-vindos. No havia acesso  praia, a no
ser pelas casas da orla. Na outra extremidade
tinha uma praia com livre acesso e uma fileira de
casas mais simples, quase barracos, que tambm
ficavam de frente para a praia. Nos dias quentes
de sol, aquele pedao ficava apinhado de gente.
Mas na maior parte do tempo mesmo l havia
pouca gente, e na rea particular era raro ver
algum na praia.
Quando a menina chegou onde se localizavam as
casas mais simples, viu um homem sentado em
um banquinho retrtil pintando uma aquarela, com
a tela apoiada em um cavalete. Parou e observou-
o a distncia, enquanto o labrador subia pela duna
levado por um cheiro que vinha pelo vento. A
menina ficou sentada na areia, longe do artista,
vendo-o trabalhar. Estava distante o suficiente
para no ser notada. Queria observ-lo, pois sentiu
alguma coisa slida e familiar naquele homem
quando o vento bateu em seu cabelo preto. Ela
gostava de observar as pessoas, e muitas vezes
fazia isso com os pescadores, mantendo-se bem
distante, mas notando todos os seus movimentos.
Ficou ali por muito tempo, vendo o artista
trabalhar, e notou que ele pintava uns barcos que
no existiam ali. O cachorro demorou bastante
para voltar e enfim sentou-se ao lado dela na
areia. Ela acariciou-o sem olh-lo, passando os
olhos pelo mar e em alguns momentos fixando-os
no artista.
Depois de algum tempo, levantou-se e aproximou-
se um pouco mais, porm ainda sem ser vista,
apreciando o trabalho que estava sendo feito.
Gostou das cores e tambm do pr-do-sol pintado
ali. O cachorro parecia cansado e ficou parado na
areia, esperando uma ordem. Pouco depois, ela
aproximou-se de novo, agora perto o suficiente
para ser notada. O artista levantou os olhos,
assustado, quando o cachorro passou por ele e
espalhou areia. E s ento viu a menina. No disse
nada, continuou pintando, e ao virar a cabea para
misturar um pouco de gua nas tintas ficou
surpreso ao perceber que ela no tinha se mexido
e ainda o observava.
Nenhum dos dois falou, mas ela continuou a olh-
lo e finalmente sentou-se na areia. Ali estava mais
quente, mais protegida do vento. O artista usava
um moletom como ela, cala jeans e tnis bem
surrado. Seu rosto era marcado pelo vento e pelo
sol e bem bronzeado, e ela notou que suas mos
eram bonitas. Devia ter uma idade prxima a do
seu pai, por volta dos 40 anos. Quando ele se virou
para ver se ela continuava ali, seus olhos se
encontraram, mas nenhum dos dois sorriu. Ele no
conversava com uma criana h muito tempo.
-- Voc gosta de desenhar? -- No podia imaginar
uma razo para ela manter-se to quieta, a no
ser que tivesse inteno de ser artista. Caso
contrrio, j estaria entediada. Na verdade, ela
gostava da companhia silenciosa de algum,
mesmo sendo um estranho. Tinha prazer nisso.
-- s vezes -- respondeu com cautela. Afinal de
contas, ela no o conhecia; e ela sabia as regras
sobre isso. Sua me sempre lhe dizia para no
conversar com estranhos.
-- O que gosta de desenhar? -- perguntou,
limpando o pincel e olhando para baixo enquanto
falava. Seu rosto era bonito e bem delineado, com
uma covinha no queixo, os ombros eram largos e
as pernas longas. Ele inspirava uma certa calma e
fora, e, apesar de estar sentado no banquinho, via-
se que era alto.
-- Gosto de desenhar meu cachorro. Como voc desenha barcos se no existe nenhum
por aqui?
Ele sorriu dessa vez quando se virou para ela, e seus olhos encontraram-se de novo.
-- Eu imagino os barcos. Quer tentar? -- Entregou-lhe um bloco de desenho e um lpis.
Era bvio que ela no ia sair dali. Hesitou, levantou-se, aproximou-se e pegou o bloco e o
lpis.
-- Posso   desenhar meu cachorro? -- O rosto delicado estava srio quando fez a
pergunta. Sentiu-se honrada de usar aquele bloco.
--  claro. Pode desenhar o que quiser. -- Eles no se apresentaram, mas ficaram
sentados juntos por algum tempo, trabalhando. Ela se concentrou no desenho. -- Qual  o
nome dele? -- perguntou o artista, quando o labrador passou por eles perseguindo
gaivotas.
-- Mousse -- respondeu, sem levantar os olhos do
desenho.
--  um bom nome -- disse, fazendo umas correes no seu prprio desenho, franzindo
as sobrancelhas.
-- Mousse                  uma          sobremesa              francesa,             de
chocolate.
-- Acho que assim est melhor -- falou, satisfeito
de novo. Estava quase na hora de parar o
trabalho. J passava das 16h e ele tinha ido para l
depois do almoo. -- Voc fala francs? --
Perguntou, mais para dizer alguma coisa do que
por algum interesse. Ficou surpreso quando ela fez
que sim com a cabea. Fazia anos que ele no
conversava com uma criana dessa idade, e no
sabia bem o que dizer. Mas aquela menina parecia
muito  vontade com sua presena silenciosa. Ao
virar-se, notou que, com exceo do cabelo vermelho, ela se
parecia com sua filha. Vanessa tinha cabelo louro, liso e comprido naquela idade, mas
havia alguma semelhana entre as duas em termos de atitude e postura. Se apertasse bem
os olhos, podia quase ver a filha.
-- Minha me  francesa -- disse ela, sentando-se e observando seu prprio trabalho.
Tinha encontrado a mesma dificuldade, sempre que desenhava Mousse: as patas de trs
no saam direito.
-- Vamos dar uma olhada -- ele falou, estendendo a mo para pegar o
bloco, percebendo a aflio dela.
-- No consigo fazer a parte de trs -- disse, passando-lhe o
bloco. Pareciam mestre e aluna, o desenho criando um elo instantneo entre os dois. E ela
parecia estranhamente  vontade com ele.
-- Vou mostrar... Posso? -- Pediu permisso antes que ela se esforasse
mais com o desenho, e a menina assentiu. Com uns toques cuidadosos do lpis, corrigiu o
problema. Era realmente uma reproduo muito fiel do cachorro, mesmo antes de ser
melhorado. -- Voc fez um bom trabalho -- observou, entregando-lhe a folha de papel e
guardando o bloco e o lpis.
-- Obrigada por consertar o desenho. Nunca sei
como fazer essa parte.
-- Da prxima vez vai saber -- disse ele,
comeando a guardar as tintas. Estava esfriando,
mas nenhum dos dois pareceu notar.
-- Vai voltar para casa agora? -- Ela parecia
desapontada, e quando ele olhou para aqueles
olhos cor de mbar, percebeu que ela parecia
solitria. Alguma coisa neles o impressionou.
-- Est ficando tarde. -- A neblina sobre as ondas
comeou a adensar-se. -- Voc mora aqui ou est
s de passagem? -- Eles no sabiam o nome um
do outro, mas no importava.
-- Estou passando o vero aqui.
No havia entusiasmo na sua voz, e ela raramente
sorria. Ele ficou pensando sobre aquela menina,
que surgira ali no meio da tarde e criara um elo
estranho e indefinvel entre os dois.
-- No condomnio fechado? -- perguntou, supondo
que ela vinha do outro lado da praia. A resposta foi
positiva.
-- Voc mora aqui? -- perguntou ela, fazendo um
gesto com a cabea na direo de um dos
bangals logo atrs. -- Voc  artista?
-- Acho que sim. E voc tambm -- disse, sorrindo
e olhando o desenho de Mousse seguro em sua
mo com firmeza.
Os dois no pareciam querer ir embora, mas
sabiam que precisavam. Ela teria de chegar em
casa antes da me, caso contrrio criaria um
problema. Tinha fugido da bab, que ficou falando
durante horas no telefone com o namorado. Sabia
que a adolescente no se importava quando ela ia
dar uma volta. A maioria das vezes nem notava, s
quando sua me chegava e perguntava por ela.
-- Meu pai costumava desenhar tambm.
Ele notou o "costumava", mas no sabia bem se
ela queria dizer que o pai no desenhava mais ou
se tinha ido embora de casa. Provavelmente, a
segunda suposio era a correta. Ela devia vir de
uma famlia desfeita, ansiosa por ateno
masculina. Nada disso era novidade para ele.
-- Ele  artista?
-- No,  engenheiro. E inventa umas coisas. --
Olhou-o com tristeza e deu um suspiro. -- Acho
melhor eu ir para casa agora. -- E como se tivesse
sido chamado, Mousse reapareceu ao seu lado.
-- Quem sabe vejo voc por a outra vez. -- Era
incio de julho, faltava ainda muito tempo para o
final do vero. Mas como ele nunca a vira antes,
achou que ela no vinha para aqueles lados com
freqncia. Era uma boa distncia at a sua casa.
-- Obrigada por me deixar desenhar com voc --
ela disse de forma gentil, dessa vez com um
sorriso melanclico, que o deixou profundamente
comovido.
-- Gostei de fazer isso -- ele respondeu com
sinceridade, estendendo-lhe a mo, meio sem
jeito. -- A propsito, meu nome  Matthew Bowles.
A menina apertou-lhe a mo solenemente e ele
ficou impressionado com sua postura e boas
maneiras. Era uma menininha notvel, estava
contente de t-la conhecido.
-- Eu sou Pip Mackenzie.
-- Um nome interessante. Pip?  algum tipo de
apelido?
-- , eu detesto meu nome -- falou com um
risinho, mais prprio da sua idade agora. --
Phillipa, em homenagem ao meu av. No 
horrvel? -- Torceu o rosto num tom de desdm ao
ouvir o prprio nome, fazendo-o sorrir. Ela era
irresistvel, especialmente com aquele cabelo
vermelho cacheado e o rostinho sardento. Nem sabia
bem se gostava de crianas. Em geral, as evitava. Mas aquela menina era diferente. Havia
alguma magia nela.
-- Na verdade, gosto do nome Phillipa. Talvez um dia voc goste tambm.
-- Acho que no.  um nome idiota. Prefiro Pip.
-- Vou me lembrar disso quando vir voc de novo
-- disse, sorrindo.
Os dois pareciam relutar em se separar.
-- Eu volto quando minha me for  cidade. Talvez
na quinta-feira. -- Ao ouvir isso, ele teve a ntida
impresso de que ela tinha fugido ou sado de
casa sem ser notada. Ainda bem que estava
acompanhada do cachorro. De repente, sem
nenhuma razo plausvel, sentiu-se responsvel
por aquela menina.
Dobrou o banquinho, pegou a caixa velha e gasta
e guardou as tintas dentro. Colocou o cavalete
dobrado debaixo do brao, e os dois ficaram se olhando por um instante.
-- Obrigada de novo, Sr. Bowles.
-- Matt. Obrigado pela visita. At logo, Pip -- disse,
com uma ponta de tristeza.
-- At logo -- disse ela acenando, pulando como
uma folha ao vento, acenando de novo e depois
correndo pela praia, seguida de Mousse.
Matt ficou observando-a por algum tempo, imaginando se a veria novamente e se isso
importava. Afinal, ela era apenas uma criana. Virou a cabea contra o vento e subiu a
duna at sua casinha castigada pelo tempo. A porta nunca era trancada, e quando ele
entrou e colocou suas coisas na cozinha, foi tomado por uma tristeza que no sentia h
anos, e que no lhe agradava. Era seu problema com crianas, disse a si mesmo, servindo-
se de um copo de vinho. Elas entravam na sua alma como uma farpa debaixo da unha, e
doa demais quando eram retiradas. Mas talvez valesse a pena. Havia alguma coisa
excepcional naquela menina. Ao pensar nela na praia, seus olhos passaram para o retrato
que pintara anos antes de uma outra menina, muito parecida. Era sua filha Vanessa, mais
ou menos naquela idade. Pensando nisso, foi para a sala, afundou-se no sof de couro
surrado e ficou vendo a neblina descer sobre o mar. E na sua imaginao viu a menininha
de cabelo vermelho encaracolado e rostinho sardento, com olhos cor de conhaque
impressionantes.


                                Captulo             2
OPHLIE MACKENZIE                         completou a ltima curva da estrada
sinuosa     e    atravessou    em     sua     caminhonete     o    vilarejo     de    Safe
Harbour, que consistia em dois restaurantes, uma livraria, uma loja de materiais de surfe,
um mercado e uma galeria de arte. Tinha sido uma tarde difcil na cidade. Ela detestava
reunir-se com o grupo duas vezes por semana, mas tinha de admitir que ele a estava
ajudando. Ia l desde maio e tinha ainda mais dois meses pela frente. Concordara em
participar das reunies no vero, e por isso era obrigada a deixar Pip com a filha da
vizinha. Amy tinha 16 anos, gostava de trabalhar como bab, ou pelo menos dizia que
sim, e dinheiro para complementar sua mesada. Ophlie precisava de ajuda, e Pip parecia
gostar dela. Era um arranjo confortvel para todas, mas Ophlie detestava ir  cidade duas
vezes por semana, apesar de levar quarenta minutos para chegar l. Afora o trecho de 15
quilmetros cheio de curvas entre a auto-estrada e a praia, era fcil. E dirigir pelos
penhascos na estrada sinuosa, olhando para o mar, deixava-a relaxada. Mas naquela tarde
estava cansada. Era exaustivo s vezes ouvir os outros, e seus prprios problemas no
melhoravam muito desde outubro. Talvez tivessem at piorado. Mas pelo menos tinha o
apoio do grupo e gente com quem conversar. Quando precisava, abria o jogo com eles e
admitia que estava se sentindo pssima. No gostava de levar seus problemas para Pip.
No parecia justo com uma criana de 11 anos.
Ophlie        atravessou a cidade e virou  esquerda, na rua sem sada que dava no
condomnio fechado de Safe Harbour. A maioria das pessoas no notava essa entrada.
Mas ela j entrava ali sem sequer pensar. Fora uma boa deciso e o lugar ideal para passar
o vero. Ela precisava daquela paz e quietude. Da solido. Do silncio. Do longo pedao
aparentemente interminvel de praia e areia branca onde s vezes parecia inverno e em
outras era quente e ensolarado.
No se importava com a neblina e os dias frios.
Muitas vezes esse tempo era mais compatvel com
seu humor do que o sol brilhante e o cu azul com
que os outros moradores da praia sonhavam.
Alguns dias nem saa de casa. Ficava na cama ou
enroscada em um canto da sala fingindo ler um
livro, mas na verdade s pensando, voltando a
outro tempo e lugar, quando as coisas eram
diferentes. Antes de outubro. Fazia nove meses,
mas parecia uma eternidade.
Passou devagar pelo porto, o guarda da guarita
cumprimentou-a e ela retribuiu. Deu um suspiro
enquanto se dirigia para sua casa com cuidado,
passando pelos quebra-molas. Havia crianas de
bicicleta na rua, vrios cachorros e gente
caminhando. Era um desses condomnios onde as
pessoas se conheciam, mas se mantinham
afastadas. Ela e a filha estavam ali h um ms e
no tinham conhecido ningum, nem queriam
conhecer. Ao chegar na entrada de casa, desligou
o carro e ficou sentada ali um instante. Estava
cansada demais para se mexer, ver Pip ou fazer o
jantar, mas sabia que era preciso. Era tudo parte
de um esquema, a preguia interminvel que parecia impossibilit-la de
fazer qualquer coisa, alm de pentear o cabelo ou dar uns telefonemas.
Para ela, pelo menos no momento, a vida estava terminada. Sentia-se com 100 anos de
idade, embora tivesse 42 e parecesse ter 30. Seu cabelo louro era comprido, macio e
encaracolado, e os olhos tinham o mesmo tom de ferrugem dos olhos de sua filha. E era
pequena e delicada como Pip. Quando era criana queria ser danarina. Tentou fazer com
que Pip se interessasse tambm por bale desde bem pequena, mas ela detestou. Achava
difcil e montono, detestava os exerccios, a barra, as outras meninas que tentavam
atingir a perfeio. No gostava de dar piruetas, saltos e plis. Ophlie finalmente desistiu
de convenc-la e deixou-a fazer o que quisesse. Pip tomou aulas de equitao durante um
ano, fazia aulas de cermica no colgio e o resto do tempo reservava para desenhar. Era
uma menina solitria, ficava feliz quando a deixavam por conta prpria para ler, desenhar,
sonhar ou brincar com Mousse. Sob certos aspectos, parecia com a me, que tambm fora
uma criana solitria. Ophlie no sabia se era saudvel Pip manter-se to fechada dentro
de si mesma. Mas Pip parecia feliz dessa forma e conseguia sempre se divertir, mesmo
agora, que a me no lhe dava muita ateno. Para quem estava de fora, pelo menos, Pip
parecia bem, mas sua me muitas vezes sentia-se culpada por as duas conversarem to
pouco. Ela mencionara isso no grupo. Mas no se sentia capaz de quebrar o feitio da sua
prpria letargia. Nada jamais seria igual.
Ophlie guardou as chaves na bolsa, saiu do carro
e bateu a porta sem trancar. No era preciso.
Quando entrou em casa, viu Amy enchendo a
lavadora de pratos, parecendo muito ocupada.
Sempre parecia ocupada quando Ophlie chegava
em casa, o que significava que no tinha feito
nada durante a tarde e precisava apressar-se nos
ltimos minutos. No havia muito o que fazer, a
casa era arejada, alegre, bem cuidada, com
mveis modernos em estilo clean, piso de madeira
clara e uma janela panormica em toda a frente,
com vista para o mar. Havia um deque estreito e
comprido do lado de fora, com mveis de jardim. A
casa atendia perfeitamente s suas necessidades.
Era tranqila, fcil de manter e agradvel.
-- Ol, Amy. Onde est Pip? -- perguntou, com os olhos cansados. Quase no se
percebia sua origem francesa, seu ingls era fluente, e o sotaque quase perfeito. S
quando ficava extremamente cansada, ou muito perturbada,  que uma ou duas palavras a
traam.
-- No sei -- respondeu Amy com ar inexpressivo quando Ophlie olhou para ela.
As duas j tinham tido esse tipo de conversa. Amy nunca sabia onde Pip estava. Ophlie
sups que ela tivesse ficado conversando com o namorado no celular, como sempre. Era a
nica coisa da qual se queixava quase toda vez que Amy vinha fazer companhia a Pip.
Sua obrigao era no tirar os olhos dela, especialmente porque a casa ficava muito perto
do mar. Ophlie tinha pnico de pensar que alguma coisa pudesse lhe acontecer. -- Acho
que est no quarto lendo. Estava l quando a vi pela ltima vez.
Na verdade, Pip no entrou mais no quarto depois
que a me saiu naquela manh. Ophlie foi
procur-la, mas  claro que no viu ningum. Naquele exato momento,
Pip voltava para casa correndo pela praia, com Mousse atrs aos saltos.
-- Ela foi para a praia? -- perguntou Ophlie                                   nervosa
quando voltou da cozinha. Seus nervos viviam  flor da pele desde outubro, o que
anteriormente no acontecia. Mas agora tudo era diferente.
Amy ligou a lavadora de pratos e preparou-se para sair, sem se preocupar muito com sua
obrigao. Tinha a confiana da juventude. Ophlie era mais experiente e aprendera a
terrvel lio de que a vida no era confivel.
-- Acho que no. Se tivesse ido teria me dito. -- A
adolescente de 16 anos estava relaxada e despreocupada.
Ophlie estava ansiosa e, apesar de o condomnio ser supostamente seguro, como parecia,
sentia-se enfurecida e apavorada por Amy ter deixado Pip sair de casa sem ser notada. Se
por acaso se machucasse, tivesse um problema ou fosse atropelada na estrada, ningum
saberia. J tinha dito a Pip para avisar a Amy sempre que fosse a algum lugar, mas nem a
criana nem a adolescente lhe davam ouvidos.
-- At quinta-feira -- disse Amy, dirigindo-se
rapidamente para a porta, enquanto Ophlie tirava
as sandlias, andava pelo deque e olhava a praia
l embaixo com ar preocupado. Finalmente viu Pip
chegando correndo, segurando uma coisa que
voava ao vento parecendo um pedao de papel.
Ophlie desceu da duna aliviada e foi encontr-la
na praia. A pior imagem possvel sempre lhe vinha
 cabea neste momento. Eram quase cinco horas
e estava esfriando.
Ophlie acenou para a filha, que parou ao lado
dela com um risinho, e Mousse veio correndo atrs
das duas em crculos, latindo. Pip percebeu logo
que a me estava preocupada.
-- Onde voc estava? -- Ophlie perguntou com a
cara amarrada, ainda irritada com Amy. Aquela
menina no tinha jeito. Mas no havia ningum
para substitu-la. E ela precisava de algum para
olhar Pip enquanto ia  cidade.
-- Fui dar uma volta com Mousse. Fomos at l --
disse, apontando na direo da praia --, e levei
mais tempo para voltar do que imaginei. Mousse
veio perseguindo gaivotas.
Ophlie sorriu e finalmente relaxou. Pip era uma
menina muito meiga. Quando olhava para ela,
lembrava-se da sua prpria juventude em Paris e
dos veres na Inglaterra. O clima no era muito
diferente do dali. Ela gostava daqueles veres e
tinha levado Pip bem pequena l s para que ela
conhecesse o lugar.
-- O que  isso? -- perguntou, olhando o pedao
de papel e vendo que era um desenho de alguma
coisa.
-- Fiz um desenho do Mousse. Agora j sei como
fazer as patas de trs. -- Mas no falou como tinha
aprendido. Sabia que a me no aprovaria que ela
ficasse andando sozinha pela praia e conversasse
com um estranho, mesmo que ele tivesse corrigido
seu desenho e ela no tivesse feito nada demais. A
me no admitia que Pip conversasse com
estranhos. Sabia como a filha era bonita, embora
Pip no tivesse conscincia alguma disso ainda.
-- No posso imaginar Mousse parado para que
voc fizesse o desenho -- disse Ophlie, sorrindo
com um ar divertido. Quando sorria, dava para ver
o quanto era bonita. Tinha feies exticas, dentes
perfeitos, lindo sorriso e olhos que brilhavam
quando ela ria. Mas desde outubro Ophlie ria
raramente, quase nunca. E  noite, perdidas em
seus    mundos     particulares,  as    duas    mal
conversavam. Apesar de gostar muito da filha,
Ophlie no conseguia pensar em nenhum assunto
para conversar. O esforo era muito grande, maior
do que podia agentar. Tudo era demais agora, s
vezes at mesmo respirar e, principalmente, falar.
Ela ia para o quarto, noite aps noite, e ficava na
cama no escuro. Pip tambm ia para o quarto e
fechava a porta, e quando queria companhia
deixava o cachorro entrar. Mousse era seu
companheiro constante.
-- Trouxe umas conchas para voc -- disse Pip,
tirando duas lindas do bolso do moletom e dando-
as para a me. -- Encontrei tambm uma estrela-
do-mar, mas estava quebrada.
-- Elas quase sempre esto quebradas -- disse
Ophlie, pegando as conchas quando voltavam
juntas para casa. Tinha esquecido de dar um beijo
em Pip. Mas ela j estava acostumada. Era como
se qualquer forma de toque ou contato humano
fosse muito doloroso para sua me. Ela se fechara
por trs das paredes, e a me que Pip conhecera
durante 11              anos tinha desaparecido. A mulher que tomou seu lugar, embora
fosse igual, era frgil e destruda. Algum tinha levado Ophlie embora na calada da noite
e substitudo por um rob. A voz, o cheiro e o aspecto eram os mesmos, no havia nada
visivelmente diferente nela, mas tudo fora alterado. Todos os mecanismos interiores eram
irreparavelmente diferentes, e ambas sabiam disso. Pip no tinha escolha seno aceitar. E
fazia isso de forma muito tranqila.
Tinha amadurecido muito nos ltimos nove meses, mais do que as outras crianas de sua
idade. E desenvolvido uma intuio sobre as pessoas, particularmente sua me.
-- Est com fome? -- perguntou Ophlie,
preocupada. Preparar o jantar tornara-se uma
agonia para ela, um ritual penoso. E comer, mais
terrvel ainda. Fazia meses que no sentia fome.
As duas tinham emagrecido depois de nove meses
de jantares que no conseguiam engolir.
-- Ainda no. Quer que eu faa uma pizza hoje? --
Pip perguntou. Era uma das refeies que as duas
gostavam de no comer. Ophlie fingia no notar que Pip s
comia uns pedacinhos.
-- Talvez   -- disse Ophlie vagamente. -- Posso fazer alguma outra coisa, se voc
quiser. -- Comiam pizza h quatro noites seguidas. Havia pilhas delas no freezer. Mas
qualquer outra coisa parecia esforo demais para muito pouco proveito. J que no iam
comer mesmo, pelo menos as pizzas eram fceis de preparar.
-- No estou realmente com fome -- disse Pip.
Me e filha tinham essa mesma conversa toda
noite. s vezes, Ophlie assava um frango para
fazer salada, mas, como elas tambm no
comiam, era trabalho em vo. Pip sobrevivia 
base de manteiga de amendoim e pizza. E Ophlie
no comia quase nada, o que era visvel.
Foi deitar-se, e Pip foi para seu quarto e encostou
o desenho de Mousse na luminria da mesinha-de-
cabeceira. O papel do bloco de desenho era duro o
suficiente para ficar de p, e quando Pip olhou
para ele pensou em Matthew. Estava ansiosa para
v-lo novamente na quinta-feira. Tinha gostado
dele. E o desenho parecia muito melhor com as
mudanas feitas nas patas de trs. Mousse parecia
um cachorro de verdade agora, no mais meio
cachorro e meio coelho, como nos desenhos
anteriores. Matthew era nitidamente um artista
talentoso.
Estava escuro l fora quando Pip finalmente foi at
o quarto da me. a se oferecer para fazer o jantar, mas Ophlie tinha dor-
mido. Estava to imvel que por um instante Pip ficou preocupada, mas ao chegar mais
perto sentiu sua respirao. Envolveu-a com um cobertor que ficava no p da cama. A
me sentia sempre frio, provavelmente devido aos quilos que tinha perdido ou talvez
porque se sentisse triste. Ultimamente vivia dormindo.
Pip voltou para a cozinha e abriu a geladeira. No estava a fim de comer pizza naquela
noite, e normalmente comia s um pedao. Preparou um sanduche de manteiga de
amendoim e comeu na frente da televiso. Ficou assistindo ao programa calmamente por
algum tempo, com Mousse dormindo aos seus ps. Estava exausto de tanto correr pela
praia, roncava baixinho, e s acordou quando Pip desligou a televiso e as luzes da sala e
foi devagarinho para o quarto. Escovou os dentes, vestiu o pijama e um instante depois foi
para a cama e apagou a luz. Ficou em silncio, pensando em Matthew Bowles de novo,
tentando no lembrar como sua vida tinha mudado desde outubro. Alguns minutos depois
caiu no sono. Ophlie s acordou na manh seguinte.



                                 Captulo 3

A    QUARTA-FEIRA amanheceu brilhante, quente e ensolarada, um desses dias que
acontecem raramente em Safe Harbour e fazem com que todos se exponham ao sol e
fiquem se bronzeando felizes durante horas. J estava quente quando Pip saiu da cama e
foi at a cozinha de pijama. Ophlie estava sentada  mesa, tomando uma xcara de ch
fumegante, com ar exausto. Mesmo quando dormia muito, nunca acordava descansada.
Um instante depois de despertar, a realidade da sua vida destroada batia-lhe no peito
novamente. Havia sempre um momento de felicidade quando a memria falhava, seguido
do terrvel momento em que se lembrava. E entre esses dois instantes, o corredor sinistro
onde ela pressentia que alguma coisa horrvel acontecera. Quando se levantou, o efeito
chicote do acordar deixou-a vazia e exausta. As manhs nunca eram fceis.
--   Dormiu bem? -- perguntou Pip gentilmente, servindo-se de um copo de suco de
laranja e pondo uma fatia de po na torradeira. No preparou uma para a me porque
sabia que ela no comeria. Raramente a via comer, especialmente no caf-da-manh.
Ophlie       no se preocupou em responder  pergunta. Ambas sabiam que era intil.
--    Desculpe-me por ter cado no sono ontem  noite. Eu queria me levantar. Voc
jantou? -- Parecia preocupada. Sabia que estava dando pouca ateno  filha, mas no
conseguia fazer nada para melhorar a situao. Sentia-se paralisada demais para fazer
qualquer coisa pela filha, a no ser sentir-se culpada. Pip fez que sim. Ela no se
importava de cozinhar para si mesma. Isso acontecia com freqncia, na verdade quase
sempre. Comer sozinha diante da televiso, era melhor que se sentar  mesa com a me
em silncio. Fazia meses que no tinham mais o que falar uma com a outra. Foi mais fcil
durante o inverno, pois, como tinha de fazer o dever de casa, havia uma boa desculpa para
sair logo da mesa.
A fatia de po pulou da torradeira e Pip agarrou-a, passou manteiga e comeu-a, sem se
importar em pegar um prato. No precisava de prato e sabia que as migalhas de po que
cassem no cho seriam lambidas por Mousse. O aspirador canino. Saiu para o deque e
sentou-se ao sol na espreguiadeira. Um instante depois, Ophlie apareceu.
-- Andrea            disse que vem para c hoje com o beb.
Pip ficou animada com a notcia. Adorava William, o beb de trs meses de Andrea, um
smbolo da independncia e coragem da me. Aos 44 anos, ela decidira que
provavelmente no encontraria mais o prncipe encantado. Ento fez uma inseminao
artificial, utilizando um doador de esperma, e teve o beb em abril, um menino gordinho e
lindo, de cabelo escuro, olhos azuis alegres e um risinho delicioso. Ophlie era a
madrinha dele e Andrea era madrinha de Pip.
As duas eram amigas desde que Ophlie fora para
a Califrnia com o marido, h 18 anos. Antes
haviam morado em Cambridge, Massachusetts,
quando Ted ensinava fsica em Harvard. Nunca
ningum duvidou que ele fosse um gnio.
Brilhante, calmo, desajeitado, muito calado s
vezes, porm gentil, terno e, vez por outra,
amoroso. Os desafios do tempo e da vida
deixaram-no endurecido e at mesmo amargo.
Foram anos difceis de sua vida, quando nada saa
como o desejado e eles no tinham praticamente
nenhum dinheiro. Nos ltimos cinco anos, a sorte
lhe sorrira. Duas de suas invenes lhe deram uma
fortuna, e tudo ficou mais fcil. Mas seu corao e
esprito no estavam mais abertos.
Ted amava Ophlie e sua famlia, eles sabiam
disso, ou diziam que sabiam, mas no
demonstrava mais. Perdia-se em suas lutas
constantes para criar novos designs, invenes e
solues de problemas. Conseguira finalmente
ganhar milhes de dlares vendendo as patentes
de suas invenes na rea de energia. Tornara-se
no s famoso no mundo inteiro, mas tambm
reverenciado e respeitado. Tinha descoberto o
pote de ouro na ponta do arco-ris, mas no se
lembrava mais de que havia um arco-ris. Seu
mundo centrava-se no trabalho, sua esposa e
filhos eram deixados de lado. Ted tinha todas as
caractersticas de um gnio. Ophlie no tinha
dvida de que o amava. Apesar de todas as suas
dificuldades e estranhezas, no havia ningum
como ele, houve sempre uma forte ligao entre
os dois. Como Ophlie disse pacientemente para
Andrea um dia: "A vida tambm no deve ter sido
nada fcil para a Sra. Beethoven." Seu gnio
irritadio era sua natureza agressiva e infiltrava-se
em seu territrio. Ela nunca se queixava da sua
personalidade solitria, mas muitas vezes sentia
falta daqueles primeiros anos em que as coisas
ainda eram calorosas entre eles. De certa forma,
ambos sabiam que Chad mudara isso. As
dificuldades do filho tinham alterado o pai de
forma irreversvel. E quando se afastou do filho,
afastou-se tambm da me, como se, de certa
forma, a culpa fosse dela. O filho causou muitos
problemas quando era pequeno, e depois de
incessantes agonias e de um caminho tortuoso,
aos 14 anos foi diagnosticado como portador de transtorno bipolar. Mas quela
altura, para sua prpria salvao e paz de esprito, Ted se desligara completamente dele, e
o problema do garoto passara a ser s da me. Ted buscou e encontrou refgio na
negao.
--A    que horas Andrea vai chegar? -- Pip perguntou, quando terminou de comer a
torrada.
-- Assim que conseguir se organizar com o beb. Deve
chegar de manh. -- Ophlie estava feliz de receber a amiga. O beb era uma distrao
gostosa, especialmente para Pip, que o adorava. E apesar da sua idade e inexperincia,
Andrea era uma me bem tranqila. No se importava de Pip passear com ele por todo
lado, segur-lo, beij-lo ou fazer ccegas nos seus pezinhos enquanto mamava. E o beb
adorava Pip tambm. Seu bom humor trazia um raio de sol para a vida delas, aquecendo
at mesmo Ophiie.
Para surpresa de todos, Andrea tirara um ano de
licena do escritrio de advocacia para ficar em
casa cuidando do beb. Adorava estar com ele.
Dizia que William era a melhor coisa que lhe
acontecera na vida, no se arrependia da sua
deciso nem por um instante. Todos tinham lhe
dito que se tivesse um filho no conseguiria mais
encontrar um homem, mas ela no se importava.
Estava feliz com William, ficou encantada com ele
desde os primeiros dias. Ophlie estava presente
quando ele nasceu, e as duas choraram de
emoo. O parto foi rpido e fcil, e o primeiro, a
no ser o seu prprio, que Ophlie presenciara. O
mdico lhe passou o beb para ser entregue a
Andrea, minutos depois de ele nascer, e as duas
sentiram-se muito unidas depois de compar-
tilharem o nascimento de William. Foi um
acontecimento        extraordinrio,     altamente
comovente, e uma lembrana afetuosa para
ambas. Um momento decisivo na amizade delas.
Me e filha ficaram sentadas ali ao sol sem se
sentirem obrigadas a conversar. Depois de algum
tempo, Ophlie entrou para atender o telefone. Era
Andrea. Ela havia acabado de amamentar o beb
e estava vindo para a praia. Ophlie foi tomar um
banho, Pip vestiu um biquni e disse  me que ia
dar uma volta na praia com Mousse. Ainda estava
l, brincando na gua, quando Andrea chegou, 45
minutos depois. Como sempre, entrou em casa
como se fosse um furaco. Minutos depois viam-se
pela saa sacolas com fraldas, cobertores,
brinquedos e um balano. Ophlie foi at o alto da
duna e fez sinal para Pip entrar, e logo depois ela
brincava    com    o    beb         e Mousse  latia
animadamente. Duas horas mais tarde, Andrea
amamentou o beb de novo, e as coisas
finalmente se acalmaram. Pip tinha comido um
sanduche e voltado para a praia, e Andrea,
sentada no sof com toda a tranqilidade, tomava
um suco de laranja e Ophlie sorria.
-- Ele  to lindo... voc teve sorte de ter um beb assim -- disse Ophlie com inveja. O
beb passava uma sensao de calma C alegria entre elas. Tinha a ver com incios e no
fins, com esperana e no desapontamento, perda e tristeza, Da noite para o dia, a vida de
Andrea se tornara a anttese da sua. A maior parte do tempo agora Ophlie sentia que sua
vida acabara,
-- E como voc vai? Como est se sentindo aqui?
-- Andrea preocupava-se com ela, j tinham se
passado nove meses. Estendeu as pernas
compridas para sentir-se mais confortvel e
recostou-se no sof com o beb no seio, sem
pensar em se cobrir. Tinha orgulho do seu novo
papel na vida. Era uma mulher bonita, de olhos
negros penetrantes e cabelo escuro e comprido
preso em uma trana. Suas roupas formais usadas
no escritrio tinham desaparecido. Ela usava top
rosa e short branco, estava descala, e era um
palmo mais alta que Ophlie. De salto, passava de
1,80m, era uma mulher impressionante. Apesar da
sua altura, tinha uma sensualidade bvia.
-- Aqui est melhor -- respondeu Ophlie, sem ser
muito sincera, embora de certa forma estivesse
mesmo. Pelo menos morava em uma casa sem
lembranas tangveis, a no ser as que trazia
dentro da cabea. -- s vezes acho que o grupo
me deprime e s vezes acho que ajuda. Mas na
maior parte do tempo no sei distinguir bem.
-- Provavelmente as duas coisas. Como quase
tudo na vida,  uma mistura. Pelo menos voc est
com pessoas que passaram pelo mesmo. Os
outros provavelmente no compreenderiam tudo o
que voc sente. -- Era bom Andrea admitir isso.
Ophlie detestava ouvir as pessoas dizerem que
compreendiam o que ela estava sentindo, quando
no era verdade. Como podiam compreender?
Pelo menos Andrea sabia.
-- Talvez no. Espero que voc nunca sinta isso. -- Ophlie sorriu com tristeza, e
Andrea trocou o beb de um seio para o outro. Ele ainda estava mamando avidamente,
mas uns minutos depois se saciaria e cairia no sono. -- Eu me sinto culpada com Pip. No
consigo me ligar a ela.  como se estivesse flutuando em algum ponto do espao. -
E por mais que ela tentasse voltar  Terra, ou quisesse voltar, no conseguia.
-- Ela parece estar bem, apesar                              disso. Voc deve estar
conseguindo se ligar a ela de vez em quando. Pip  uma menina muito forte, j passou por
muita coisa, voc duas passaram.
Chad       tinha transmitido seu estresse para a famlia toda nos ltimos anos. E Ted
definitivamente tinha suas estranhezas. Pip era bem equilibrada apesar de tudo, e at
outubro Ophlie tambm havia sido. Era o que mantinha a famlia unida, apesar dos
inmeros traumas e quase tragdias. Andrea estava convencida de que ela se recuperaria
com o passar do tempo. E faria tudo que pudesse para ajud-la nesse perodo.
As duas eram amigas h quase duas dcadas.
Tinham se conhecido atravs de amigas em
comum e gostado uma da outra no mesmo
momento. Talvez tenham se sentido atradas por
serem to diferentes. Ophlie era quieta e gentil, e
Andrea falante e polmica e, s vezes, quase masculina nos seus pontos de vista. Era
decididamente heterossexual, quase promscua, e no permitia que homem algum lhe
dissesse o que tinha de fazer. Ophlie era infinitamente feminina, ainda muito europia
em seus valores e opinies. Fora submissa ao marido durante todo o casamento, e nunca
se sentira diminuda por isso. Andrea sempre a encorajara a ser mais independente e mais
americana em suas atitudes. As duas eram loucas por arte, msica e bom teatro, e duas
vezes tinham ido  Nova York juntas para a estria de uma pea. Andrea tinha ido 
Frana com ela no ano anterior, e ela e Ted se deram muito bem. Uma dessas raras
ocasies em que trs pessoas juntas se gostaram igualmente. Ela tinha feito mestrado em
fsica no MIT antes de cursar a faculdade de direito em Stanford, e acabara ficando na
Califrnia para sempre. No conseguia aceitar a idia de voltar para a neve do inverno em
Boston, onde tinha nascido e estudado. Foi para a Califrnia trs anos antes de Ophlie e
Ted, e ficou determinada a criar razes l. Ted gostava da sua formao de fsica e
conversava durante horas com ela sobre seus ltimos projetos. Ela compreendia bem mais
do que Ophlie o que ele estava fazendo, e esta ficava contente por a amiga ser to culta.
Mesmo Ted, difcil como era, tinha de admitir que se impressionava com a extensa
compreenso de Andrea em seu campo.
Ela representava grandes empresas em processos
legais contra o governo federal, mas s atuava
como parte autora, como convinha  sua
personalidade um tanto polmica. Era tambm
esse seu lado que permitia que ela discutisse com
Ted s vezes, e ele a admirava por isso. De
alguma forma, lidava muito melhor com ele do que
sua esposa. Mas podia fazer isso, pois no tinha
nada a perder. Ophlie no ousaria dizer metade
das coisas que Andrea dizia para ele. Mas a amiga
no tinha de viver com ele. Ted comportava-se
como um gnio e era muito respeitado por todos,
menos por Chad,  claro, que desde os 10 anos
dizia que odiava o pai. Detestava sua atitude
autoritria e seu senso de superioridade por ser
to inteligente. Chad era to inteligente quanto o
pai, mas seu circuito parecia ter se rompido e
nenhuma das conexes funcionavam, ou pelo me-
nos no as mais importantes.
Ted nunca foi capaz de aceitar que seu filho no
era perfeito, e, apesar de todos os esforos de
Ophlie para amenizar a situao, tinha vergonha
dele. E Chad percebia isso, o que causou vrias
cenas horrveis entre eles. Andrea percebia
tambm. S Pip conseguira de certa forma afastar-
se e sair sem se ferir das brigas que quase
destruram sua famlia ao longo dos anos. Mesmo
quando era bem pequena, Pip se tornara a fadinha
que voava sobre eles, tocando-os com delicadeza
e tentando fazer com que fizessem as pazes.
Andrea gostava desse seu lado. Pip era uma
criana mgica, e parecia abenoar tudo que
tocava, como fazia agora com Ophlie. Por isso era
to tolerante e compreensiva quando sua me no
conseguia fazer nada para ela, nem mesmo suas
refeies. Perdoava-a por tudo, muito mais que
Ted ou Chad teriam perdoado. Nenhum dos dois
teria conseguido tolerar as enfermidades de
Ophlie, mesmo tendo sido causadas por eles.
Ainda a teriam culpado. Ou pelo menos Ted teria.
No que Ophlie visse as coisas assim, ela nunca
via. Adorava o marido, no importava o que
fizesse, e o desculpava. Reconhecesse ele ou no,
ela era a esposa perfeita. Dedicada, apaixonada,
paciente, compreensiva, sofredora. Tinha se
mantido ao seu lado inabalavelmente, mesmo
durante os anos difceis e cheios de angstia por
falta de dinheiro.
-- E o que voc faz para se distrair aqui? -- Andrea
perguntou quando o beb dormiu.
-- No muita coisa. Leio. Durmo. Caminho na
praia.
-- Em outras palavras, foge -- disse Andrea, firme
como sempre. Era impossvel engan-la.
-- E  to terrvel assim? Talvez seja disso que eu
esteja precisando no momento.
-- Talvez. Mas faz quase um ano, e voc vai ter de voltar para o mundo em algum
momento, Ophlie. No pode se esconder para sempre. -- At mesmo o nome do
condomnio onde ficava a casa que ela alugara para o vero era um smbolo do que
queria. Safe Harbour, um porto seguro contra as tempestades que a atormentavam desde
outubro passado, e muito antes disso.
-- Por que no? -- Ophlie parecia desesperanada quando disse isso, e
Andrea sentiu pena dela, como sentia sempre. A vida de Ophlie tinha sido dura.
-- No  bom se esconder assim, no  bom nem
para voc nem para Pip. Ela vai precisar de voc
para tudo, mais cedo ou mais tarde. Voc no
pode agir como morta indefinidamente. No est
certo. Tem de recomear a viver. Precisa sair, ver
gente, arranjar um namorado em algum momento.
No pode ficar sozinha para sempre. -- Andrea achava que
ela devia arranjar um emprego, mas no ousou dizer ainda. E Ophlie ainda no estava
em condio de comear a trabalhar. Nem de comear a viver.
-- No posso nem pensar nisso -- disse Ophlie horrorizada. No
conseguia se ver com outra pessoa que no Ted. Na sua cabea ainda estava casada com
ele, e estaria sempre. No podia nem pensar em dividir a vida com qualquer outra pessoa.
A seus olhos, ningum se igualaria a Ted, por mais difcil que tivesse sido viver com ele.
-- H outras coisas que voc poderia fazer logo
para se recuperar. Pentear o cabelo seria bom,
pelo menos de vez em quando. -- Quase sempre
que Andrea a via, ela parecia despenteada, e s
vezes no se arrumava direito durante dias.
Tomava banho, mas vestia um jeans e um suter
velho e passava a mo no cabelo em vez de
pentear-se, a no ser quando ia ao grupo. Fora
isso, raramente saa. No tinha razo para sair. A
no ser para levar Pip  escola. E no penteava o
cabelo para isso. Andrea achava que j tinha
passado muito tempo, era tempo de Ophlie
reagir. Foi idia dela as duas irem para Safe
Harbour, e at a casa foi alugada atravs de uma
corretora amiga sua. Estava contente de ter insis-
tido nisso, s de olhar para a carinha de Pip e at
mesmo de Ophlie sentia que fora uma boa
deciso. Ophlie parecia mais saudvel do que h
nove meses. E pela primeira vez estava penteada,
ou semipenteada pelo menos. Apesar de tudo,
estava bronzeada e bonita.
-- O que vai fazer quando voltar para a cidade? No pode se trancar em casa de novo o
inverno inteiro.
-- Posso, sim -- disse Ophlie rindo, sem constrangimento. -- Posso fazer      qualquer
coisa que quiser agora.
E ambas sabiam que era verdade. Ted lhe deixara uma imensa fortuna, apesar disso no
ser importante para ela. Era um contraste irnico com as dificuldades medonhas que
tinham passado nos primeiros anos. No incio da vida tinham morado em um apartamento
de um quarto em um bairro lgubre. As crianas dormiam juntas e Ted e Ophlie
dormiam em um sof-cama na sala. Ted transformara a garagem em laboratrio. Estranho
que parea, apesar das dificuldades e preocupao com dinheiro, aqueles tinham sido seus
melhores anos juntos. As coisas se tornaram muito mais complicadas depois que Ted
chegou no topo da carreira. O sucesso foi muito estressante para ele.
--   Vou encher seu saco se voc voltar quela merda de vida de recluso quando for para
casa -- Andrea ameaou. -- Vou levar voc para passear no parque comigo e com
William. Quem sabe poderamos ir a uma estria no Metropolitan de Nova York. -- As
duas gostavam muito de pera e tinham ido l vrias vezes antes. -- Vou arrast-la pelos
cabelos se for preciso -- disse, brincando, e nesse momento o beb se mexeu, mas
sossegou de novo, fazendo aquele barulhinho suave que os bebs fazem. As duas sorriram
ao olhar para ele, e a me colocou-o para dormir no seu seio, onde ele se sentia mais feliz
e ela tambm.
-- Sei que voc  capaz de fazer isso mesmo --
disse Ophlie, em resposta  ameaa.
Um instante depois, Pip chegou com Mousse, trazendo uma coleo de pedras e conchas
e colocando-as com cuidado em cima da mesa de centro, espalhando um monte de areia.
Mas Ophlie no disse nada quando Pip apontou orgulhosamente para elas.
-- So para voc, Andrea. Pode levar para casa se quiser.
-- Eu adoraria. Posso levar a areia tambm? --
brincou. -- O que voc andou fazendo? Conheceu
umas crianas l na praia? -- Andrea se
preocupava com Pip tambm.
Pip deu de ombros, indiferente. No tinha
realmente conhecido ningum. Raramente via outras pessoas na praia, sua
me vivia sempre reclusa e no tinha conhecido nenhuma famlia ainda.
-- Vou ter de voltar aqui mais vezes para agitar as coisas. Deve haver umas crianas por
aqui. Precisamos encontr-las para voc.
-- Eu estou bem -- disse Pip, como sempre. Ela nunca reclamava. No adiantava. Sabia
que nada mudaria com reclamaes. Sua me no era capaz de fazer mais do que estava
fazendo no momento. As coisas tinham de ser assim por enquanto. Talvez melhorassem
um dia, mas obviamente no agora. E Pip aceitava isso. Era muito madura para sua idade.
E os ltimos nove meses tinham-na forado a amadurecer.
Andrea ficou at o fim da tarde, e saiu antes da
hora do jantar. Queria chegar em casa antes da
nvoa baixar. Mas at sair todas riram e
conversaram bastante, e Pip brincou com o beb e
fez ccegas nele. Ficaram sentadas no deque,
aproveitando o sol, e tiveram uma tarde gostosa e
alegre. Mas assim que Andrea e o beb saram, a
casa tornou-se imediatamente triste e vazia de
novo. Ela era uma presena forte, e sua ausncia
realmente tornava as coisas piores do que
estavam antes. Pip gostava da sua fora de vida.
Era sempre empolgante estar perto dela. Ophlie
sentia a mesma coisa. No conseguia mais ter sua
prpria fora, mas Andrea tinha por todas elas.
-- Quer que eu alugue um filme? -- Ophlie
sugeriu. No pensava nessas coisas h meses,
mas a visita de Andrea energizou-a tambm.
-- No precisa, mame. Fico vendo televiso mesmo -- disse Pip com calma.
-- Tem certeza?
Ela fez que sim, e as duas entraram na mesma dvida de sempre para escolher o que iam
comer. Mas naquela noite Ophlie ofereceu-se para fazer hambrguer e uma salada. Os
hambrguers estavam cozidos demais para o gosto de Pip, mas ela no disse nada. No
queria desencorajar a me, e era melhor que a pizza congelada que nenhuma das duas
comia. Pip comeu todo o hambrguer enquanto a me olhava para o prato, mas depois ela
acabou comendo toda a salada e pelo menos metade do hambrguer. As coisas tinham
definitivamente melhorado com a influncia de Andrea.
Quando Pip foi para a cama naquela noite teve
vontade de chamar a me para cobri-la. Era pedir
demais na atual situao, mas pelo menos era
bom pensar nisso. Lembrou que seu pai
costumava lev-la para a cama quando ela era
menor, mas nunca mais tinha feito isso. Ningum
mais fazia. Ele raramente estava em casa e a me
vivia ocupada com Chad. Havia sempre algo
acontecendo. E agora no havia mais nada, mas
Ophlie parecia ter desaparecido. Pip foi para o
quarto, sozinha. Ningum iria lhe dar boa-noite,
rezar com ela, cantar uma cano de ninar ou co-
bri-la. j estava habituada. Mas teria sido bom, de
qualquer forma, numa vida diferente, num mundo
diferente do que ela vivia. Sua me foi direto para
a cama depois do jantar, e Pip ficou vendo
televiso. Mousse lambeu seu rosto quando ela foi
para a cama, depois bocejou, deitou-se no cho ao
seu lado e ela esticou a mo para acariciar-lhe a
orelha.
Pip sorriu quando o sono foi chegando. Sabia que
sua me iria  cidade no dia seguinte, o que
significava que ela poderia caminhar pela praia e
encontrar-se com Matthew Bowles de novo. Sorriu
ao pensar nisso e dormiu imediatamente,
sonhando com Andrea e o beb.
                                  Captulo         4

A   QUINTA-FEIRA AMANHECEU nublada de novo, e Pip ainda estava meio adormecida
quando sua me foi para a cidade. Naquele dia, Ophlie tinha de falar com um advogado
antes de reunir-se com o grupo, e precisava estar na cidade antes das nove horas. Amy
preparou o caf-da-manh para Pip, depois foi para o telefone, como sempre, enquanto
Pip assistia aos desenhos animados na televiso. Era quase hora do almoo quando
decidiu passear na praia. Queria sair logo que acordou, mas teve medo de chegar l cedo
demais e no encontrar Matthew. Provavelmente iria para a praia na parte da tarde.
-- Onde voc vai? -- Amy perguntou ao ver Pip
descer do deque para a areia, sentindo-se
responsvel por ela pelo menos uma vez. Pip
virou-se com o ar mais inocente do mundo.
-- Vou s dar uma volta na praia com Mousse.
-- Quer que eu v com voc?
-- No precisa, obrigada -- disse, e Amy voltou para o telefone, sentindo que tinha feito
sua obrigao. Um instante depois, a menina e o cachorro caminhavam na praia.
Pip correu durante um bom tempo at que
finalmente o viu. Ele estava no mesmo lugar,
sentado no banquinho retrtil, trabalhando junto
do cavalete. Ouviu Mousse latir a distncia e virou-
se para olhar para Pip. Para sua surpresa, no a
tinha encontrado no dia anterior e ficou aliviado ao
ver aquele rostinho bronzeado sorrindo para ele.
-- Ol -- disse ela, como se estivesse falando com
um velho amigo.
-- Oi. Como voc e o Mousse vo indo?
-- Muito bem. Eu queria vir mais cedo, mas achei
que voc ainda no estaria aqui.
-- Estou aqui desde as dez horas. -- Como Pip, ele
tambm teve medo de no v-la mais. Estava to
ansioso para esse encontro quanto ela, embora
nenhum dos dois tivesse prometido voltar. Eles s
queriam estar ali, isso era o bastante.
-- Voc pintou mais um barco -- disse Pip,
examinando a pintura com cuidado. -- Gostei. Est
bonito. -- O barquinho de pesca vermelho a
distncia, ao pr-do-sol, tinha valorizado muito o
quadro. Ela gostou instintivamente e Matt ficou
contente. -- Como consegue imaginar tudo isso
to bem? -- perguntou admirada, enquanto
Mousse desaparecia na vegetao da duna.
-- Eu j vi muitos barcos -- disse, sorrindo
calorosamente. Pip gostava dele. Gostava muito,
na verdade, no tinha dvida de que ele era um
amigo. -- Tenho um pequeno veleiro ancorado na
lagoa. Um dia mostro para voc. -- Era um veleiro
pequeno e velho, mas tratado com muito carinho.
Um velho barco de madeira em que ele velejava
sozinho sempre que podia. Adorava velejar desde
que tinha a idade de Pip. -- O que voc fez ontem?
-- Ele queria saber mais sobre ela, olhar para
aquele rostinho.
Queria tambm fazer o desenho, mas gostava de
conversar com ela tambm, coisa rara nele.
-- Minha madrinha veio nos visitar com o beb. Ele
tem trs meses, se chama William e  uma
gracinha. Pus o beb no colo e ele deu muitos
risinhos. William no tem pai -- disse, com toda a
naturalidade.
-- Isso no  bom -- Matthew falou com cuidado,
interrompendo um instante o trabalho para
admir-la. -- O que houve?
-- Ela no  casada. Teve o beb em uma espcie de banco. No sei bem.  uma
coisa complicada. Minha me diz que no  importante. Ele no tem pai, s isso.
Matthew entendeu melhor que ela e ficou intrigado. Era uma coisa muito moderna para
ele. Ainda acreditava nos casamentos tradicionais, com mes e pais, embora soubesse
bem que a vida nem sempre funcionava assim. Mas era geralmente uma boa forma de
comear. Ficou imaginando de novo o que teria acontecido com o pai de Pip, tinha a
impresso que ela no morava cora ele, mas estava com medo de perguntar. No queria
incomod-la sem necessidade, nem fazer fofoca. A amizade dos dois baseava-se em
discrio e delicadeza, hbitos que faziam parte da natureza de ambos.
-- Quer desenhar hoje? -- perguntou ele,
observando-a. Ela parecia um pequeno elfo
pulando pela praia, to leve e flexvel que seus ps
mal pisavam na areia.
-- Sim,    por   favor    --     respondeu     muito
educadamente, e ele lhe deu o bloco de desenho e
o lpis.
-- O que vai desenhar hoje? Mousse de novo?
Agora que sabe fazer as patas de trs deve ser
mais fcil -- disse, com um senso prtico, e ela
ficou olhando pensativa para o trabalho dele.
-- Ser que consigo fazer um barco? -- Parecia-lhe
um grande esforo.
-- No vejo por que no. Quer tentar copiar o
meu? Ou prefere um barco  vela? Posso fazer um
esboo para voc, se quiser.
-- Posso copiar os barcos que voc est pintando,
se no se importar. -- No queria que ele tivesse
muito trabalho, coisa bem tpica dela. Estava
habituada a ser cautelosa, a no criar muitos
problemas. Foi sempre cautelosa com o pai, e se
deu bem. Ele no se zangava tanto com ela
quanto com Chad. Mas como moravam em uma
casa grande na maior parte do tempo no lhe
prestava muita ateno. Naquela poca, ele
trabalhava em um escritrio, chegava em casa
tarde e viajava muito. Aprendeu a pilotar seu
prprio avio, levou-a para voar vrias vezes logo
que o avio foi comprado e at deixou-a levar o
cachorro, com a permisso de Chad. E Mousse se
comportou muito bem.
-- D para ver de onde voc est? -- Matthew
perguntou, e ela fez que sim. Desembrulhou o
sanduche que tinha levado para comer na praia,
caso ela chegasse na hora do almoo. No queria
deixar de v-la. Ofereceu-lhe o sanduche,
empoleirado em seu banquinho. -- Est com
fome?
-- No, obrigada, Sr. Bowles. E sim, posso ver muito bem daqui.
-- Matt  melhor -- disse ele sorrindo para a menina to gentil e formal. -- Voc j
almoou?
-- No,    mas no estou com fome, obrigada. -- Um instante depois, enquanto
desenhava, deu uma informao que o surpreendeu. Era mais fcil conversar com ele sem
olh-lo, e estava concentrada no desenho do barco. -- Minha me nunca come. Quer
dizer, no come com muita freqncia. Est ficando muito magra. -- Era bvio que Pip
se preocupava com ela, e Matt ficou intrigado.
-- Por qu? Ela est doente?
-- No, s triste.
Continuaram a desenhar por algum tempo, e ele resolveu no fazer mais perguntas.
Imaginou que ela diria o que quisesse quando estivesse pronta. No tinha inteno de
pression-la. Aquela amizade parecia flutuar no espao, independente de tempo. Matt
teve a sensao de que a conhecia h muito tempo.
Finalmente, pensou numa pergunta bvia.
--  Voc tambm anda triste?
Ela balanou a cabea em silncio, sem levantar os olhos do desenho. Dessa vez ele
achou melhor no perguntar por qu. Dava para sentir que ela tinha lembranas tristes, e
teve de se conter para no tocar seu cabelo nem sua mo. No queria assust-la, nem
parecer imprprio com essa familiaridade.
-- E como est agora? -- Era uma pergunta mais
segura, e dessa vez ela olhou para ele.
-- Estou melhor.  gostoso aqui na praia. Acho que
minha me est melhor tambm.
-- Que bom ouvir isso. Talvez ela volte a comer
daqui a pouco.
-- Foi o que a minha madrinha disse. Ela se
preocupa muito com a minha me tambm.
-- Voc tem irmos e irms, Pip? -- Matt
perguntou. Parecia outra pergunta segura, e ele
estava totalmente despreparado para enfrentar o
olhar que ela deu quando levantou os olhos. Um
olhar de tristeza que lhe cortou o corao e quase
o derrubou do banquinho.
-- Eu... tenho... -- Hesitou, sem conseguir falar por
um instante, depois continuou, ainda olhando-o
com aqueles olhos tristes cor de mbar que
pareciam atra-lo para o seu mundo. -- No... quer
dizer, mais ou menos...  difcil explicar. O nome
do meu irmo era Chad. Ele tinha 15 anos...
sofreu... teve um acidente em outubro...
Ah, Deus, como ele se detestava por ter
perguntado, agora compreendia por que a me
dela estava to desolada e no conseguia comer.
No podia nem imaginar uma coisa assim, no
havia nada pior que a perda de um filho.
-- Sinto muito, Pip... -- No sabia mais o que dizer.
-- Tudo bem. Ele era muito inteligente, como meu
pai. -- E o que disse em seguida deixou-o sem
ao e explicou tudo. -- O avio do meu pai
explodiu, e os dois estavam... os dois morreram. O
avio explodiu -- disse, com um n na garganta,
mas contente de ter contado. Queria que ele
soubesse.
Matt olhou para ela durante um instante
interminvel, sem dizer coisa alguma.
-- Deve ter sido terrvel para vocs duas. Sinto
muito, Pip. Que sorte sua me ter voc.
-- Acho     que sim -- disse Pip pensativa, sem
parecer convencida. -- Mas ela anda muito triste.
Fica no quarto todo o tempo. -- s vezes pensava
se a me teria ficado triste assim se ela morresse
em vez de Chad. Era impossvel saber, mas a per-
gunta vinha inevitavelmente  sua cabea. Ela era
muito ligada a Chad e ficou desesperada quando ele morreu.
-- Eu tambm ficaria. -- Suas prprias perdas quase o tinham destrudo, mas no eram
nada comparado a isso. Sua perda era mais comum, uma coisa com a qual se tem de
conviver e aceitar. Perder o marido e o filho eram desafios muito maiores que todos que
ele enfrentara, podia imaginar o golpe que tinha sido para Pip tambm, especialmente se a
me vivia deprimida e no saa de casa, como Pip contou.
-- Ela freqenta um grupo na cidade para
conversar sobre problemas. No sei se ajuda
muito. Diz que todos l so realmente tristes.
Pareceu-lhe uma coisa mrbida, mas ele sabia que
era comum se freqentar grupos para trocar idias
sobre suas infelicidades. Mesmo assim, um grupo
de pessoas enlutadas falando de suas perdas
parecia-lhe sinistro e pouco animador.
-- Meu pai era um inventor, mais ou menos isso.
Trabalhava na rea de energia. No sei o que
fazia, mas era muito bom no seu trabalho. No
comeo ramos muito pobres, mas quando eu
tinha 6 anos fomos para uma casa grande e ele
comprou      um      avio.   --   Contou      tudo
resumidamente, e embora no ficasse muito claro
qual era sua profisso, deu-se por satisfeito com
as informaes. -- Chad era inteligente como ele.
Eu sou mais como minha me.
-- Como assim? -- Matt no aceitou aquela
explicao. Ela era uma menina excepcionalmente
brilhante e bem articulada. -- Voc tambm 
inteligente, Pip. Muito inteligente. Seus pais
tambm devem ser. Voc certamente . -- Ela
parecia ter sido deixada em segundo plano em
relao ao irmo mais velho, que talvez se
interessasse mais pelo campo do pai, qualquer
que fosse. Uma atitude muito machista, e ele
revoltou-se com a sensao bvia de Pip de vir em
segundo lugar ou, pior ainda, ser de segunda
categoria.
-- Meu pai e meu irmo brigavam muito -- disse
sem que ele perguntasse nada. Ela precisava falar
com algum, pois como a me vivia deprimida,
provavelmente ela no tinha ningum com quem
confidenciar, a no ser sua madrinha. -- Chad
disse que odiava o papai, mas no era verdade.
Ele s falava isso quando ficava com raiva dele.
-- Meninos de 15 anos so assim mesmo -- disse
Matt com um sorriso suave, embora no tivesse
essa experincia. No via os filhos h seis anos, e
a ltima vez em que estivera com eles, Robert
tinha 12 anos e Vanessa, 10.
-- Voc tem filhos? -- Pip perguntou, como se
tivesse lido seu pensamento. Era a vez dele de
contar sua vida.
-- Tenho. -- Mas no disse que no os via h seis
anos. Teria sido difcil explicar o porqu. --
Vanessa e Robert. Ela tem 16 e ele tem 18 e
moram na Nova Zelndia. -- Estavam l h mais
de nove anos. Ele tinha levado exatamente trs
anos para desistir de v-los. O silncio deles o
convenceu.
-- Onde fica? -- Pip ficou intrigada. Tinha ouvido
falar cm Nova Zelndia apenas uma vez, mas no
conseguia se lembrar onde era. Talvez fosse na
frica, ou algum outro lugar parecido, mas no
queria que Matt pensasse que ela era ignorante.
-- Fica muito longe daqui. So vinte horas de
avio. Eles moram num lugar chamado Auckland.
Acho que se sentem muito felizes l. -- Mais
felizes do que ele podia aceitar, ou sequer admitir
para ela.
-- Deve ser triste que eles vivam to longe. Voc
deve sentir saudade. Eu sinto saudade do meu pai
e de Chad -- disse, enxugando uma lgrima, uma
cena muito triste. Os dois tinham partilhado muita
coisa nesse segundo encontro, e no desenhavam
nada h uma hora. Ela no pensou em perguntar
com que freqncia ele via os filhos, mas sups
que os visse. Mesmo assim teve pena dele por
estarem to longe.
-- Tambm sinto saudades. -- Levantou-se do
banquinho e sentou-se ao lado dela. Seus pezinhos
descalos estavam enfiados na areia, e ela olhou-o com um sorriso triste.
-- Como     eles so? -- Estava curiosa, como ele a respeito dela. Era uma pergunta
razovel.
-- Robert tem cabelo escuro e olhos castanhos
como os meus. E Vanessa  loura com grandes
olhos azuis.  igual  me. Algum mais da sua
famlia tem cabelo vermelho como o seu?
Pip balanou a cabea com um sorriso
envergonhado ao ouvir a pergunta.
-- Meu pai tinha cabelo escuro como o seu e olhos
azuis, e Chad tambm. Minha me  loura. Meu
irmo me chamava de cenourinha por causa das
minhas pernas finas e do cabelo vermelho.
-- Era brincadeira dele -- disse Matt, passando a
mo no cabelo cacheado dela. -- Eu no acho voc
parecida com uma cenoura.
-- Pareo, sim -- disse ela, com orgulho. Gostava
do apelido, pois isso a lembrava do irmo. Sentia
falta at mesmo dos insultos e do mau humor,
agora que ele no existia mais. Da mesma forma
que Ophlie sentia falta dos dias difceis com Ted.
Era estranho o que se sentia sobre pessoas que
tinham desaparecido.
-- Vamos desenhar hoje? -- perguntou ele,
decidindo que tinham feito muitas confidncias e que
mereciam agora uma interrupo.
Pip ficou aliviada ao ouvir isso. Quis contar tudo aquilo para ele, mas quando falava
demais sobre o assunto ficava muito triste de novo.
-- Vamos, sim -- respondeu, pegando o bloco
quando ele voltou a sentar-se no banquinho. E nas
duas horas seguintes a pouca conversa girou em
torno de amenidades que no os comprometiam.
Perto um do outro, sentiam-se bem, especialmente
agora que conheciam mais suas respectivas
histrias. Algumas eram importantes.
Quando Pip se sentou e comeou a desenhar, e
Matt a pintar, as nuvens sumiram, o sol apareceu
e o vento parou. A tarde ficou muito bonita. To
bonita que s s cinco horas perceberam que j
era tarde. O tempo que tinham passado juntos
voou. E Pip ficou aflita quando Matt disse que j
passava das cinco.
-- J est na hora de sua me voltar? --
perguntou, parecendo preocupado. No queria que
ela tivesse problemas por causa de uma tarde
inocente e produtiva. Estava contente de terem
conversado. Esperava que tivesse ajudado de
alguma forma.
-- Provavelmente.  melhor eu voltar. Ela deve
estar zangada.
-- Ou preocupada -- disse, imaginando se devia
voltar com Pip para acalmar a me ou se seria pior
se ela aparecesse em casa com um homem
desconhecido. Olhou para o desenho dela e ficou
impressionado. -- Est timo, Pip. Voc trabalhou
bem. Agora v para casa. A gente se v outro dia.
-- Talvez eu volte amanh, se a mame cochilar
um pouco. Voc vai estar aqui, Matt? -- Falou com
ele com intimidade, como se fossem realmente
velhos amigos. Ambos se sentiam assim depois de
terem trocado tantas confidncias. Tudo o que ti-
nham partilhado deixara-os mais prximos, como
era de se esperar.
-- Venho aqui todas as tardes. No v arranjar
encrenca agora, menininha.
-- No vou, no. -- Parou um instante e sorriu para ele, como um beija-flor pousado no
ar, depois deu um adeus, com o desenho na mo, e foi correndo para casa, seguida de
Mousse. Dentro de instantes estava bem longe dali. Virou-se uma vez para dar tchau e ele
ficou bastante tempo observando-a, at ela tornar-se uma figura distante e ele s
conseguir distinguir o cachorro pulando de um lado para o outro.
Pip estava sem ar quando chegou em casa. Tinha
corrido toda a extenso da praia. Sua me estava
sentada no deque, lendo, e Amy no se encontrava por perto. Ophlie
olhou para ela de cara amarrada.
-- Amy disse que voc tinha ido para a praia, mas no a vi em lugar nenhum, Pip. Onde
voc estava? Fez alguma amiga? -- No estava zangada, mas parecia preocupada,
fazendo fora para ficar calma. No queria que a filha fosse para a casa de estranhos, e
Pip sabia disso e se conformava. Mas tambm sabia que sua me se preocupava mais
agora do que antes.
-- Eu estava l longe -- disse, mostrando vagamente o lugar de onde
tinha vindo. -- Estava desenhando um barco e no sabia que horas eram. Desculpe,
mame.
-- No faa mais isso, Pip. No quero que voc v
assim to longe. E no quero voc perto da praia.
Nunca se sabe quem so aquelas pessoas. -- Ela
teve vontade de dizer  me que algumas pessoas
eram boas, pelo menos Matt era. Mas teve medo
de falar sobre seu novo amigo. Sentiu
instintivamente que a me no compreenderia. E
estava certa. -- Fique por aqui da prxima vez. --
Ophlie sabia que a filha queria novidades. Estava
provavelmente cansada de ficar pela casa o dia
todo ou sozinha na praia com o cachorro. Mas
mesmo assim ficou preocupada. No pediu para
ver o desenho quando Pip entrou no quarto e
colocou-o na mesa-de-cabeceira, ao lado do
desenho do cachorro. Lembranas das tardes que
lhe eram preciosas e a faziam lembrar de Matt.
No o adorava, mas no havia como negar que os
dois tinham criado uma ligao especial.
-- Como foi seu dia? -- perguntou  me quando
eia voltou do deque. Mas dava para ver como
tinha sido. Ophlie parecia cansada. Quase sempre
ficava assim quando voltava do grupo.
-- Foi bom. -- Tinha ido ao advogado para tratar
do inventrio de Ted. Alguns impostos precisavam
ser pagos e a ltima parcela do seguro tinha
entrado. O inventrio ainda levaria algum tempo
para terminar. Talvez bastante tempo. Ted deixara
tudo em ordem, e ela tinha mais dinheiro do que
precisava. Provavelmente grande parte seria de
Pip um dia. Ophlie nunca tinha sido extravagante.
Na verdade, de certa forma sentia que eles tinham
sido mais felizes quando eram pobres. O sucesso
dele lhe trouxe dores de cabea e muito estresse,
coisa que desconhecia antes. Para no falar no
avio no qual tinha morrido com Chad.
Ophlie passava horas lutando contra essas
lembranas, especialmente do ltimo dia. Aquele
telefonema terrvel que alterara sua vida para
sempre. E o fato de ter forado Ted a levar Chad.
Ele tinha reunies em Los Angeles e queria ir
sozinho, mas ela achou que seria bom os dois
passarem um tempo juntos. Chad estava em uma
fase melhor, e ela achou que os dois se dariam
bem. Mas nenhum dos dois estava entusiasmado
com a viagem. Ela se culpava por ter sido egosta
tambm. O menino exigia muita ateno, ela havia
vivido uma situao difcil durante meses, e
precisava de um tempo livre para ter uma tarde
calma com Pip. Com a ateno concentrada em
Chad constantemente, nunca passava tempo
suficiente com a filha. Era a primeira oportunidade
coe teriam depois de ura longo tempo, E agora s
tinham uma  outra. A vida, a famlia e a felicidade
delas foram destrudas. A fortuna que Ted deixara
no significava nada para Ophlie. Ela teria dado
tudo aquilo para passar o resto da vida com o
marido e ver Chad vivo.
Houve momentos difceis entre ela e Ted, mas seu
amor por ele nunca diminuiu. Porm era claro que
mais de uma vez a razo das suas brigas tinha
sido Chad. Tudo isso terminara. O filho proble-
mtico estava em paz finalmente. E Ted, com todo
o seu brilho, estranheza e charme, desaparecera
da sua vida.  noite, ela ficava horas vendo o filme
de sua vida passar em sua cabea, tentando
lembrar como as coisas tinham realmente sido,
saboreando os bons tempos e tentando esquecer
os maus. Ia editando o filme com cuidado. O que
restava no final era a lembrana de um homem
que ela amara profundamente, apesar dos seus
defeitos. Ela sempre o havia amado apesar de
tudo, mas isso no importava mais.
As duas solucionaram o dilema do jantar com
sanduches, embora Pip mal tivesse comido o dia
todo e o silncio da casa fosse ensurdecedor. Elas
nunca ouviam msica, e mal se falavam. Enquanto
Pip comia o sanduche de peru que sua me
preparara, ficou pensando em Matt. Imaginou de
novo onde seria a Nova Zelndia, e teve pena de
ele viver to longe dos filhos. Devia ser bem difcil.
E ficou contente de ter lhe contado sobre seu pai e
Chad, s no explicou que Chad era muito doente.
Parecia uma deslealdade contar isso. Sabia que a
doena de Chad era um segredo entre eles. No
adiantava falar sobre isso agora. Chad no estava
mais ali.
Sua doena deixara uma marca profunda nela e
em todos eles. Conviver com ele era traumtico e
difcil, e sabia que seu pai se ressentia dele e da
doena mental cujo nome se recusava a dizer, e o
prprio Chad sabia tambm. Mencionou isso para
seu pai uma vez, quando Chad estava no hospital,
e ele comeou a gritar e a dizer que ela no sabia
do que estava falando, mas no era verdade.
Compreendia muito bem, talvez melhor que ele,
que Chad era doente. Ophlie compreendia
tambm. S Ted se negava a aceitar. Era essencial
para ele, uma questo de orgulho, no podia
admitir que o filho fosse doente. Por mais que
falassem, ou os mdicos explicassem, Ted insistia
que se Ophlie tratasse Chad de forma diferente e
criasse regras rgidas, no haveria problema
algum. Sempre culpava Ophlie e forava-se a
acreditar que Chad no era doente. Por maior que fosse a evidncia, seus
olhos permaneciam fechados.
O fim de semana foi calmo. Andrea prometera voltar, mas acabou no indo. Telefonou
dizendo que o beb tinha pegado um resfriado. No domingo  tarde, Pip ficou louca para
ver Matt. Sua me estava dormindo no deque, e depois de observ-la durante uma hora
desceu para a praia com Mousse. No pretendia ir at a praia, mas encaminhou-se para l
e comeou a correr, esperando v-lo. Matt estava no mesmo lugar de sempre, pintando
calmamente, dessa vez uma aquarela. Outro pr-do-sol, com uma criana muito pequena
de cabelo vermelho, short branco e camisa rosa. E a distncia via-se um cachorro
marrom-escuro.
-- Sou eu com o Mousse?                         -- ela perguntou, assustando-o. Ele no
tinha visto Pip aproximar-se, e quando se virou para ela,
sorriu. No a esperava antes do comeo da semana, quando sua me iria  cidade de novo.
Mas ficou claramente contente ao v-la.
--   Pode ser, minha amiga. Que tima surpresa. -- E sorriu.
--   Minha me est dormindo e eu no tinha nada para fazer, ento resolvi visitar voc.
--   Que bom que voc veio. Ela no vai se preocupar quando acordar?
Pip balanou a cabea. Ele j sabia o suficiente agora para compreender.
-- Ela dorme o dia inteiro s vezes. Acho que
prefere viver assim.
No havia dvida de que a me de Pip estava
deprimida, mas ele no se surpreendeu mais.
Quem no estaria depois de perder o marido e o
filho? O nico problema agora, problema ainda
maior, era que a depresso dela deixava Pip
sozinha e solitria, sem ningum com quem
conversar a no ser seu cachorro.
Pip sentou na areia ao lado dele e ficou vendo-o
pintar. Depois foi para a beira da gua procurar
conchas. Mousse seguiu-a e Matt parou de pintar e
ficou observando. Gostava de ver aquela menina
muito doce, que parecia fora do mundo s vezes,
como um duende da mata danando na praia.
Havia alguma coisa misteriosa nela. E estava to
concentrado em observ-la que levou um susto
quando percebeu uma mulher a poucos metros
dele, com uma expresso sria. No tinha idia de
quem fosse.
-- Por que est olhando para minha filha? E por
que ela est no seu desenho? -- Ophlie fez uma
ligao imediata entre o artista e os desenhos que
Pip levara para casa. Foi at a praia procurar Pip e
ver o que ela fazia nos seus passeios demorados.
No podia explicar como nem por que, mas sabia
que aquele homem fazia parte disso, e no teve
dvida alguma depois que viu a menina e o
cachorro no quadro dele.
-- Sua filha  uma graa, Sra. Mackenzie. Deve
sentir-se muito orgulhosa dela -- falou com calma.
Com mais calma do que realmente sentia. O olhar
intenso dela lhe deu um certo mal-estar. Podia
quase imaginar o que ela estava pensando e
queria tranqiliz-la, mas receava que pudesse
levantar suspeitas ainda piores.
-- J percebeu que ela tem s 11 anos de idade? --
Teria sido difcil achar que ela fosse mais velha.
Podia parecer mais nova. Ophlie no conseguia
imaginar o que aquele homem queria com ela, e
suspeitou imediatamente de ms intenes. Sua
pintura aparentemente inocente podia ser
simplesmente, pelo menos na sua cabea, uma
dissimulao para alguma coisa muito mais
sinistra. Talvez ele fosse um seqestrador, ou pior
ainda, e Pip era inocente demais para suspeitar
disso.
-- J, ela me disse -- respondeu com tranqilidade.
-- Por que anda conversando com ela?... e
desenhando com ela? -- Matt teve vontade de
dizer que sua filha era desesperadamente solitria, mas
calou a boca.
Naquele instante, Pip viu a me conversando ali com ele e aproximou-se depressa, com a
mo repleta de conchas. Buscou os olhos da me para ver se estava em perigo e percebeu
logo que no estava, mas Matt sim. Sua me parecia assustada e zangada, e Pip quis
proteger Matt imediatamente.
-- Mame,      este  o Matt -- disse, como que tentando criar formalidade e
respeitabilidade  situao com uma apresentao.
-- Matthew Bowles -- disse ele, estendendo a mo
para Ophlie, mas ela olhou diretamente para a
filha, com os olhos cor de mbar faiscando. Pip
sabia o que aquilo significava. Era raro sua me
ficar zangada com ela, e mais raro ainda
ultimamente. Mas agora estava.
-- Eu j disse para voc nunca falar com estranhos. Nunca! Est me entendendo? -- E
virou-se para Matt com um olhar furioso. -- H nomes para esse tipo de coisa, e nenhum
deles  bonito. Voc no tem o direito de aproximar-se de uma menina na praia e fazer
amizade com ela, usando sua suposta arte como uma isca para atra-la. Se chegar perto da
minha filha de novo, vou chamar a polcia. Estou falando srio!
Matt ficou profundamente magoado, e Pip sentiu-se ofendida e defendeu-o rapidamente.
-- Ele  meu amigo! Ns s desenhamos juntos.
Ele no tentou me levar a nenhum lugar. Eu venho
para a praia me encontrar com ele.
Mas Ophlie sabia como eram essas coisas, ou
pelo menos achava que sabia. Sabia que um
homem como ele deixaria Pip  vontade na sua companhia e
depois s Deus sabe o que faria com ela, ou aonde a levaria.
-- Voc no pode vir aqui de novo, est me ouvindo? Tu entends? Je t'interdis! -- Eu
probo voc. Na fria, sua lngua materna traiu-a. Parecia muito francesa ao jogar a raiva
em cima dos dois. Mas essa raiva era causada por medo, e Matt compreendeu.
-- Sua me tem razo, Pip . Voc no deve falar com estranhos. --
Ento virou-se para a me. -- Quero me desculpar. No tive inteno de perturbar
ningum. Pode estar certa de que tivemos um contato absolutamente respeitvel.
Compreendo sua preocupao, tenho filhos tambm, s que um pouco mais velhos do que
ela.
-- E onde eles esto? -- Ophlie perguntou, ainda desconfiada. No
acreditava nele.
-- Na Nova Zelndia -- disse Pip por ele, o que no ajudou a situao.
Matt podia ver que ela no acreditava neles.
-- No sei quem voc  nem por que andou
conversando com minha filha, mas espero que
compreenda que estou falando srio. Vou dar queixa s autoridades
se voc encorajar Pip a v-lo novamente.
--    Voc j deixou isso bem claro -- ele falou, ficando irritado. Em outras
circunstncias, teria dito alguma coisa mais dura.
Ela o estava insultando, mas ele no queria magoar Pip sendo rude com sua me. E a me
merecia um pouco de pacincia por tudo que j tinha passado, embora suas ltimas
palavras fossem fortes demais. Ningum jamais o acusara de motivos to vis. Ela era uma
mulher muito nervosa.
Ophlie      apontou a praia para Pip quando a menina olhou entristecida por cima dos
ombros. As lgrimas escorriam-lhe pelo rosto, e Matt teve vontade de abra-la, mas no
podia.
-- Est tudo bem, Pip. Eu compreendo -- disse,
num tom meigo.
-- Desculpe -- ela falou, quase soluando, quando
sua me continuou a apontar a praia. At Mousse
parecia dominado, como se percebesse que
alguma coisa estranha tinha acontecido. Ento
Ophlie pegou a mo de Pip e foi levando-a
firmemente pela praia, observada por Matt. Seu
corao seguiu aquela criana a quem se ligara
to depressa, e por um instante teve vontade de
sacudir a me dela. Podia compreender seus
receios, mas eram receios infundados, e parecia
bvio que Pip precisava de algum para conversar.
Sua me podia no ter comido muito nos ltimos
meses, mas era Pip quem estava faminta.
Guardou as tintas e a pintura, dobrou o banquinho
e o cavalete e, de cabea baixa e expresso
soturna, voltou para casa para deixar suas coisas.
Cinco minutos depois estava a caminho da lagoa
para sair de barco. Sabia que precisava ter contato
com a gua para clarear as idias. Velejar sempre
ajudava nessas horas.
Ao voltar para o canto da praia onde ficava o
condomnio fechado, Ophlie interrogou sua filha.
--  isso que voc anda fazendo quando desaparece? Como conheceu esse homem?
-- Eu vi Matt desenhando -- disse, ainda chorando. -- Ele  uma boa pessoa. Eu sei que
.
-- Voc no sabe nada sobre ele. Ele  um estranho. No sabe se o que contou para voc
 verdade. Voc no sabe nada. Ele algum dia convidou voc para ir  casa dele? -- a
me perguntou, com ar de pnico. Nem ousava pensar nessa possibilidade.
--  claro que no. Ele no ia me matar. S me ensinou a desenhar as patas de trs de
Mousse. S isso. E a desenhar um barco.
Ophlie no pensava que ele poderia ter matado
sua filha. Ela era uma menina inocente e poderia
ser facilmente violentada, seqestrada ou
torturada. Depois de conquistar sua confiana,
poderia fazer qualquer coisa que quisesse. Esse
pensamento deixou-a aterrorizada. E no tomou
conhecimento dos protestos de Pip. Ela era uma
menina de 11 anos e no compreendia os perigos
potenciais de fazer amizade com um homem
desconhecido, sobre quem no sabia nada.
-- Quero voc longe dele -- disse Ophlie de novo.
-- Voc est proibida de sair de casa sozinha. E se
no compreender isso, a gente volta para a
cidade.
-- Voc foi grossa com meu amigo -- disse Pip,
zangada de repente, alm de triste. J tinha
perdido muita gente de quem gostava, e agora
tinha de perder esse amigo tambm. Era o nico
amigo que ela fizera naquele vero, e h muito
tempo no tinha amizade com ningum.
-- Ele no  seu amigo.  um estranho. No se
esquea disso. E no discuta comigo.
Elas seguiram em silncio o resto do caminho, e
quando entraram em casa Ophlie mandou-a para
o quarto e telefonou para Andrea. Falava agitada
enquanto a amiga ouvia. Andrea ouviu toda a
histria, depois comeou a fazer perguntas como
se fosse uma advogada.
-- Voc vai chamar a polcia?
-- No sei. Ser que devia? Ele parecia bem
respeitvel. Estava vestido de forma decente, mas
isso no quer dizer nada. Pode ser um criminoso.
Posso conseguir uma ordem de priso contra ele?
-- Voc no tem motivo para isso. Ele no
ameaou nem molestou sua filha, nem tentou
lev-la a algum lugar, no ?
-- Ela disse que no. Mas talvez ele tenha tentado
primeiro criar um clima para fazer alguma coisa
horrvel depois. -- Ophlie tinha dificuldade de
acreditar que as intenes dele eram boas. Apesar
de tudo que Pip disse, ou talvez at mesmo por
isso, pressentia um perigo. Por que ele faria
amizade com uma criana?
-- Espero que no -- disse Andrea num tom
pensativo. -- O que faz voc pensar que no foi
um encontro inocente? Ele parecia esquisito?
-- Como  um homem esquisito? No... ele parecia
relativamente normal. E disse que tem filhos. Mas
podia estar mentindo. -- Ophlie estava
convencida de que ele era um pedfilo.
-- Talvez o homem seja apenas gentil.
-- Ele no tem o direito de fazer amizade com uma
criana    dessa    idade,    especialmente   uma
menininha.           Ela est na idade exata que os homens preferem,  totalmente
inocente,  assim que eles gostam.
-- Isso  verdade,  claro. Mas talvez ele no seja pedfilo. Ele era bonito? -- Andrea
perguntou rindo do outro lado da linha, e Ophlie ficou ofendida.
-- No acho graa nenhuma.
-- Uma coisa muito importante: ele usava aliana?
Talvez seja solteiro.
-- No quero ouvir isso. O homem estava fazendo
amizade com a minha filha.  quatro vezes mais
velho que ela, no tem direito de fazer isso. Se
fosse decente, devia saber disso, especialmente se
tem seus prprios filhos. Como se sentiria se um
homem estivesse conversando com sua filha?
-- No sei. Por que no vai l e pergunta? Na
verdade, ele est comeando a ficar interessante. Talvez Pip tenha feito um
favor a voc.
-- Ela no fez nada disso. Correu um grande risco e
eu no vou mais deixar que saia de casa sozinha.
Estou falando srio.
-- Basta dizer para ela no voltar l. Ela vai
obedecer.
-- J disse. E falei que chamo a polcia se ele se
aproximar de Pip.
-- Se ele no for um estuprador, se for um sujeito decente, talvez tenha
gostado dessa situao. Talvez voc precise diminuir um pouco esse seu veneno. No
tenho certeza se est pronta para voltar a viver. -- Matt estava comeando a lhe parecer
legal. No sabia por que, mas seu instinto dizia que ele podia ser um sujeito decente. Se
fosse, o que Ophlie tinha feito no seria apreciado nem bem-vindo.
-- No estou interessada em "volta". No estou
planejando uma volta. Estou planejando ficar aqui.
Mas no quero que acontea nada ruim a Pip. Eu
no agentaria. -- Sua voz estava trmula, e nos
seus olhos havia lgrimas de terror.
-- Eu compreendo -- disse Andrea gentilmente. --
Fique de olho nela. Talvez ela esteja se sentindo
solitria. -- Depois de dizer isso fez-se silncio,
como se Ophlie tivesse se sentado e comeado a
chorar.
-- Eu sei que est. Mas no posso fazer nada. Chad
morreu, o pai dela morreu e eu estou uma pilha de
nervos. Mal consigo existir. Ns nem conversamos
mais. -- Ela sabia disso, s que no conseguia sair
do seu buraco negro e mudar a situao.
-- Ento talvez voc saiba por que ela anda
procurando               estranhos              --        disse           Andrea
delicadamente.
-- Aparentemente eles desenham juntos --- disse
Ophlie, com um tom desesperado. Aquele
episdio a deixara perturbada.
-- H coisas piores. Talvez fosse uma boa idia
convidar o sujeito para tomar um drinque na sua
casa para poder examin-lo. Quem sabe  um
sujeito decente. Voc pode at gostar dele. --
Quando Ophlie ouviu isso, sacudiu a cabea.
-- Acho que ele no falaria comigo depois das
coisas que eu disse. -- Mas no se arrependia. Elas
ainda no tinham idia de quem ele era.
-- Voc pode voltar l amanh e se desculpar.
Dizer que est passando por um perodo difcil e
anda muito nervosa.
-- No seja boba. No posso fazer isso. Alm do
mais, e se eu estiver certa? Talvez ele seja mesmo
pedfilo.
-- Ento, no v se desculpar. Mas tenho para mim que ele  s um sujeito que pinta na
praia e gosta de crianas. Parece que Pip  que foi atrs dele.
--  exatamente por isso que mandei que ela fosse para o quarto.
-- Pobrezinha. Ela no teve m inteno, com certeza estava apenas se divertindo.
-- A partir de agora vai ter de ficar perto de casa e se divertir por aqui mesmo.
Mas, depois que desligou percebeu que dava poucas alegrias  filha. Pip no       tinha
crianas com quem se enturmar, no fazia nenhuma atividade e elas nunca mais tinham se
divertido juntas. A ltima vez em que foram a algum lugar foi no dia em que Ted e Chad
morreram. Ophlie nunca mais a levara para passear.
Depois de falar com                  Andrea foi bater na porta do quarto de Pip. A porta
estava fechada, e quando tentou abri-la descobriu que estava trancada por dentro.
-- Pip? -- No houve nenhuma resposta, e ela bateu de novo. -- Pip? Posso entrar? --
Depois de um longo silncio, finalmente ouviu uma vozinha chorosa.
-- Voc foi m com meu amigo. Foi horrvel. Eu
detesto voc. Pode ir embora.
Ophiie ficou parada do outro lado da porta,
sentindo-se impotente, mas no culpada. Tinha
obrigao de proteger a filha, mesmo que eia no
concordasse ou compreendesse.
-- Desculpe, mas voc no sabe quem ele  ---
disse com firmeza.
-- Sei, sim.  uma pessoa boa. E tem filhos na
Nova Zelndia.
-- Talvez ele esteja mentindo -- Ophlie insistiu,
comeando, no entanto, a achar uma bobagem tentar convencer a filha do outro
lado da porta. Era bvio que Pip no tinha inteno de deix-la entrar. Nem de sair. --
Venha conversar comigo.
-- No quero conversar. Eu odeio voc.
-- Vamos jantar e conversar sobre isso. Podemos jantar fora, se voc preferir. -- Havia
dois restaurantes na cidade onde elas nunca tinham ido.
-- No quero ir com voc a lugar nenhum. Nunca
mais. Ophlie no disse nada, mas ficou tentada a
mostrar a Pip que era a nica pessoa que ela tinha
no mundo. Assim como Pip era a nica pessoa que
ela tinha agora. As duas no podiam se dar ao luxo
de serem inimigas nem de brigar. Elas precisavam
muito uma da outra.
-- Por que no destranca a porta? No entro se
voc no quiser. No precisa deixar a porta
trancada.
-- Preciso, sim -- disse Pip, teimosa. Estava
segurando o desenho de Mousse que tinha feito
com Matt, ainda chorando. J sentia falta dele. E
no ia deixar sua me afast-la dele. Teria de v-lo
nos dias em que ficasse com Amy. Tinha detestado
as coisas que a me lhe dissera. Estava muito
triste por ele.
Ophlie tentou convenc-la por mais algum tempo,
mas finalmente desistiu, e voltou para seu prprio
quarto. Nenhuma das duas jantou naquela noite,
mas a fome finalmente fez com que Pip sasse do
quarto na manh seguinte. Pegou uma fatia de
torrada e uma tigela de cereal e voltou para o
quarto. No deu uma s palavra  me enquanto
ajeitava o caf-da-manh, nem quando saiu.
Em casa, Matt pensou a noite toda em Pip,
preocupado com ela. Nem sabia onde elas
moravam, portanto no podia se des culpar formalmente na
esperana de abrandar a posio da sua me. Detestava ver Pip afastar-se dele. Mal a
conhecia, mas j sentiu muito sua falta.
A guerra entre Pip e a me continuou at o incio da tarde. Depois elas tiveram mais um
daqueles jantares silenciosos. Foi a carinha triste de Pip que finalmente derrubou Ophlie.
-- Pelo amor de Deus, Pip, o que ele tem de to
especial? Voc nem o conhece direito.
-- Conheo, sim. E gosto de desenhar com ele. Ele
me deixa ficar sentada ali. s vezes ns falamos e
s vezes no. Gosto de ficar perto dele.
--  isso que me preocupa, Pip. Ele tem idade para
ser seu pai. Por que ia querer fazer amizade com
voc? No  uma coisa saudvel.
-- Talvez ele sinta falta dos filhos. No sei. Talvez
goste de mim. Acho que ele  meio solitrio. --
Como ela era, s que no disse. Manteve sua
teimosia, pronta para defender a causa dos dois.
-- Eu poderia ir l com voc um dia, se realmente
quiser desenhar com ele. Mas acho que ele no
ficaria muito feliz de me ver.
Depois de tudo que falou, seria um milagre se ele
no jogasse o cavalete na sua cabea. E teria
razo para isso. Estava comeando a imaginar se
no tinha tomado uma posio um pouco extre-
mada, ou se expressado de forma exagerada.
Tinha-o acusado de ser pedfilo. Mas levou um
susto quando viu os dois juntos, e ficou com medo
de acontecer alguma coisa com sua filha. Era uma
reao normal, embora tivesse se expressado de
forma um pouco grosseira.
-- Eu posso ver Matt de novo, mame? -- Pip
pareceu animada e esperanosa. -- Prometo que
nunca irei  casa dele, alis ele nunca me
convidou. -- E sentia, com razo, que nunca con-
vidaria. Ele nunca a teria posto nessa posio.
-- Vamos ver. Preciso de um tempo para pensar.
Talvez ele no queira que voc v l agora -- disse
Ophlie realisticament e --, depois de tudo que eu disse. Tenho certeza
de que no achou graa nenhuma.
-- E eu de que voc est arrependida -- disse Pip, sorrindo para ela.
-- Talvez fosse bom levar Amy junto. No, acho
melhor eu ir at l com voc para me desculpar.
Acho que ele merece isso.
-- Obrigada, mame -- disse Pip, com os olhos
iluminados de novo. Conquistara uma grande
vitria, o direito de ver seu nico amigo.
As duas foram andando pela praia no final da tarde
e Pip mal podia se conter, correndo pela beira da
gua com Mousse. Ophlie ficou bem para trs,
tentando pensar no que iria dizer. Estava fazendo
isso por Pip.
Mas ao chegarem no lugar onde Pip sempre o
encontrava, no viram ningum. Nem sinal de
Matt, do cavalete ou do banquinho retrtil. Ele tinha ficado to
magoado com o acontecimento do dia anterior que no saiu de casa, e, apesar do cu azul,
ficou lendo calmamente um livro. No teve sequer vontade de velejar, o que raramente
ocorria. Ophlie e Pip ficaram sentadas juntas na areia por um longo tempo, falando sobre
ele, e finalmente voltaram caminhando pela praia de mos dadas. Pela primeira vez em
longo tempo Pip sentiu-se perto da sua me de novo. E ela ficou contente de ter pelo
menos tentado desculpar-se com Matt.
Da sala de estar, Matt ficou olhando pela janela durante longo tempo. Viu os pssaros, um
barco de pesca e uns pedaos de madeira na praia. Mas no viu Pip e a me sentadas ali,
nem caminhando de mos dadas. Elas j tinham desaparecido quando olhou para a praia
vazia e deserta, como sua vida.



                                Captulo             5

 NO DIA SEGUINTE, antes da uma da tarde, Pip disse a Amy que ia at a praia ver um
 amigo. Dessa vez levou uns sanduches e uma ma para tentar corrigir o
 comportamento da me. Amy perguntou se sua me no se importaria, e Pip lhe
 garantiu que no. Levou seu presente para ele em uma sacola de papel pardo,
 esperando que estivesse no lugar de sempre depois da sua ausncia do dia anterior.
 Ficou imaginando o que teria acontecido, pois ele tinha dito que ia l todo dia, e ela
 esperava que sua ausncia no fosse por culpa da sua me. Mas assim que o viu e
 olhou dentro dos seus olhos, antes que ele desse uma s palavra, percebeu que era.
 Mesmo dois dias depois ele parecia distante e magoado. Ela foi direto ao assunto.
 -- Sinto muito, Matt. Minha me veio se
 desculpar ontem, mas voc no estava aqui.
 -- Foi muita gentileza dela -- falou, num tom indiferente,
 imaginando o que a teria levado a fazer isso. Obviamente, Pip. Ela moveria montanhas
 por ele, e moveu. E isso o comoveu. -- Foi uma pena ela ter se perturbado tanto por
 nossa causa. Ficou muito zangada com voc depois que foram embora?
-- Durante   algum tempo -- disse Pip com
sinceridade, aliviada de ver Matt relaxado de
novo. -- Mas disse depois que eu podia vir ver
voc hoje e sempre que quisesse. S no posso ir
 sua casa.
-- Faz sentido. Como voc fez para ela concordar
com isso? -- perguntou interessado, sentando-se
confortavelmente no banquinho retrtil, contente
de v-la de novo. Tinha se sentido deprimido na
noite anterior com a perspectiva de no poder
mais desenhar com ela. Sabia que sentiria falta
das suas conversas e confidncias. Ela tinha
adquirido muita importncia para ele, em um
tempo incrivelmente curto. Tinha aterrissado
como um passarinho brilhante dentro do seu
corao. E as profundas lacunas emocionais dos
dois foram mutuamente preenchidas. Ela perdera
o pai e o irmo, ele perdera os filhos. Matt e Pip
precisavam um do outro.
-- Fiquei trancada no quarto e me recusei a sair
-- contou com um risinho. -- Acho que ela se sentiu mal depois
disso. Minha me foi muito grosseira com voc. Desculpe... ela no era assim antes.
Est sempre preocupada com tudo. Fica zangada s vezes por umas bobagens, outras
vezes no liga para nada. Acho que est meio confusa.
-- Ou passando por um estresse ps-traumtico -- disse, em tom compreensivo. No
tinha gostado muito dela naquele dia por razes bvias. Mas podia compreender seu
ponto de vista. Seu tom de voz tinha sido ligeiramente histrico.
--O    que quer dizer isso? -- Pip perguntou, abrindo a sacola de sanduches e
oferecendo um para ele. Era bom estar ali com Matt de novo. Gostava de conversar
com ele e v-lo pintar. -- Aquilo que voc acabou de dizer... o que ?
-- Obrigado  -- ele disse, desenrolando o
sanduche e dando uma dentada. -- Estresse
ps-traumtico.  o que acontece depois que
ocorre uma coisa muito terrvel com algum.
Como se a pessoa estivesse em estado de
choque. Sua me provavelmente est assim.
Sofreu um imenso golpe quando seu irmo e seu
pai morreram.
-- E essas pessoas um dia melhoram? Podem
ficar curadas? -- Preocupava-se com isso h
nove meses e no tinha ningum com quem
falar. No se sentia to bem conversando com
Andrea como se sentia conversando com Matt.
Ele era seu amigo, Andrea era amiga da sua
me.
-- Creio que sim. Mas leva tempo. Ela est um
pouco melhor agora do que na poca do
acidente?
-- Um pouco -- disse Pip, pensando, mas no
muito convencida. -- Dorme muito mais agora, e
no fala tanto quanto costumava. Quase nunca
sorri. Mas no chora mais o tempo todo. No incio
chorava. E eu tambm... -- disse, com um ar
envergonhado.
-- Eu tambm choraria se estivesse no seu lugar.
Seria estranho se voc no chorasse, Pip. Metade
de sua famlia desapareceu. -- E a metade que
sobrou no parecia uma famlia, ela pensou, mas
por lealdade  me no disse nada.
-- A mame ficou realmente arrependida das
coisas que disse no outro dia. -- Pip ainda se
sentia sem jeito com o comportamento dela.
-- No faz mal -- ele disse calmamente --, ela
estava certa sob certos aspectos. Eu realmente
sou um estranho, e voc no sabe muita coisa
sobre mim. Podia estar tentando enganar voc
ou fazer alguma coisa m, como ela disse. Ela
tem o direito de desconfiar de mim, e voc
deveria ter desconfiado tambm.
-- Por qu? Voc foi bom comigo e me ajudou a
desenhar as patas de trs do Mousse. Foi uma
coisa boa que fez para mim. Ainda guardo o
desenho no meu quarto.
-- Como ficou o desenho? -- ele brincou.
-- Muito bom. -- Ela deu um risinho, e quando ele
terminou o sanduche, ofereceu-lhe a ma. Matt
cortou-a ao meio e passou uma metade para ela.
-- Sempre soube que voc era uma boa pessoa,
desde a primeira vez que vi voc.
-- Como podia saber? -- ele perguntou, divertido.
-- Sabendo. Voc tem olhos bonitos. -- Pip no
disse que ficara comovida quando ele contou
com tristeza que os filhos moravam muito longe
dali. Gostou disso nele. Teria sido pior se no se
importasse.
-- Voc tambm tem olhos bonitos. Eu gostaria
de desenhar seus olhos um dia. Ou talvez pintar
voc. O que acha da idia? -- Matt pensava nisso
desde que se conheceram.
-- Acho que a mame gostaria muito. Talvez eu
pudesse dar o quadro de presente no aniversrio
dela.
-- E quando vai ser? -- Ele ainda no era grande
f da me dela, mas faria isso por Pip. Alm do
mais, queria pintar seu retrato. Pip era uma
menininha especial, e, agora, sua amiga.
-- No dia 10 de dezembro -- ela disse
solenemente.
-- E quando  o seu? -- perguntou, interessado.
Queria saber mais sobre ela. Pip lembrava muito
sua filha Vanessa. Alm disso, ele a admirava,
ela era uma garotinha corajosa. Mais ainda do
que imaginou no incio, pois conseguira
convencer a me a deix-la voltar a encontrar-se com ele na praia e a
arrastara at l para pedir desculpas. Era um feito e tanto. A mulher que ele vira no
domingo parecia que nunca pediria desculpas, a no ser ameaada com uma arma.
Nesse caso, Pip  quem havia segurado a arma.
-- Meu aniversrio  em outubro. -- Pouco depois do dia em que o pai e o irmo dela
morreram.
-- Como foi seu ltimo aniversrio? -- ele perguntou.
-- Minha me e eu samos para jantar fora. -- Mas no contou que tinha sido um
drama. Sua me quase se esqueceu, no houve festa, nem bolo. Foi seu primeiro
aniversrio depois que seu pai e Chad morreram, um horror. Ficou louca para acabar
logo.
-- Voc e sua me saem muito?
-- Agora no. Antes saamos. Meu pai gostava de
nos levar a restaurantes. Mas  muito demorado.
Um tdio -- ela admitiu facilmente.
--  difcil acreditar. Voc no parece sentir tdio.
-- No fico entediada quando estamos juntos --
disse graciosamente. --- Gosto de desenhar com
voc.
-- Tambm gosto de desenhar com voc. --- E,
com isso, passou-lhe o bloco e o lpis, e ela
decidiu desenhar um pssaro, uma das gaivotas
atrevidas que voejavam perto deles sempre que
possvel, mas fugiam assim que Mousse
comeava a ca-las. Ento percebeu que era
difcil fazer uma gaivota. Depois de um tempo,
voltou de novo para os barcos. Mas depois das
poucas vezes em que estivera com ele seu
desenho progredira. Ela estava ficando boa,
desde que gostasse do que estava desenhando,
e com ele acontecia isso tambm.
Os dois ficaram sentados horas sob o sol, num
daqueles dias dourados de Safe Harbour. Pip no
tinha pressa de voltar para casa. Estava contente
de no ter de mentir mais. Podia dizer a verdade,
dizer que estava desenhando com ele na praia.
Eram quatro e meia quando finalmente levantou-
se. Mousse estava deitado quieto ao seu lado e levantou-se tambm.
-- Vocs j vo voltar? -- Matt perguntou com um sorriso caloroso, e ela percebeu
que ele se parecia com seu pai quando sorria, s que seu pai no sorria com freqncia.
Era um homem srio, provavelmente por ser to inteligente. Todos diziam que ele era
um gnio, e Pip achava que tinham razo. Por isso aceitavam a forma como se
comportava, e isso lhe agradava. Era como se seu pai pudesse dizer e fazer qualquer
coisa que quisesse.
-- Minha me chega em casa por volta dessa hora. Em geral se cansa muito com a
reunio do grupo. s vezes cai na cama e dorme assim que chega.
-- Deve ser bem difcil.
-- No sei. Ela no fala sobre isso. Acho que as
pessoas choram muito. -- Era uma idia
deprimente. -- Volto amanh ou na quinta-feira,
se voc puder. -- Ela nunca tinha lhe pedido
antes, mas eles agora tinham mais intimidade
um com o outro.
-- Posso sim, Pip. Quando voc quiser. D
lembranas a sua me por mim.
Ela fez que sim com a cabea, agradeceu,
acenou e saiu como se fosse uma borboleta
voando. Matt ficou vendo os dois desaparecerem
na praia, como sempre fazia. Ela era um
presente raro que recebera em sua vida. Um
passarinho que ia e vinha, batendo as asas, com
os imensos olhos carregados de mistrio. Suas
conversas o comoviam e o faziam sorrir. Ele no
pde deixar de imaginar, ao pensar nela, como
sua me seria realmente. O pai tinha sido um
gnio. Parecia um homem difcil, pelo que ela
disse, e um tanto sombrio. E o menino parecia
diferente tambm. No eram uma famlia tpica.
E ela no era de forma alguma uma criana
comum. Nem os filhos dele. Eram crianas
incrveis. Pelo menos at a ltima vez em que os
tinha visto. Fazia muito tempo. Mas logo parou
de pensar nisso.
Ocorreu-lhe, enquanto subia a duna para chegar
em casa, que gostaria de lev-la para passear
em seu veleiro e ensin-la a velejar, como fizera
com seus filhos. Vanessa tinha adorado, mas
Robert, no. Mas em considerao  me de Pip
sabia que no poderia fazer isso. Ela no o
conhecia o suficiente para deixar a filha sair com
ele no mar, havia sempre a remota possibilidade
de alguma coisa dar errado. Ele no se arriscaria.
Quando Pip chegou em casa ouviu a me
entrando. Como sempre, parecia esgotada, e
perguntou onde Pip tinha estado.
-- Fui ver o Matt. Ele mandou lembranas.
Desenhei barcos hoje. No consegui fazer os
pssaros,  muito difcil. -- Jogou vrias pginas
sobre a mesa da cozinha, e quando Ophlie
examinou-as, viu que os desenhos eram bons.
Ficou surpresa de ver como Pip tinha melhorado.
Chad era um pouco artista tambm, mas tentou
no pensar nisso. -- Vou preparar o jantar, se
voc quiser -- se ofereceu Pip, e pela primeira
vez Ophlie sorriu.
-- Vamos jantar fora.
-- No precisa. -- Pip sabia que ela                                estava
cansada, mas parecia um pouco melhor naquela
noite.
-- Pode ser divertido. Que tal? Por que no
vamos agora? -- Era um grande passo para
Ophlie, e Pip reconheceu isso.
-- Tudo bem -- disse Pip, contente e surpresa.
Meia hora depois estavam sentadas em uma
mesa para dois no Mermaid Caf, um dos dois
nicos restaurantes da cidade. Ambas pediram
hambrguer e conversaram animadamente. Era
a primeira noite que saam. Quando voltaram
para casa, ambas estavam felizes, alimentadas e
cansadas.
Pip foi para a cama cedo naquela noite, e voltou
para ver Matt no dia seguinte. Sua me no fez
objeo quando ela saiu, e parecia relaxada
quando Pip voltou. Como sempre, ela jogou os
desenhos em cima da mesa. No fim da semana
seguinte, havia uma coleo deles, a maioria
muito boa. Ela estava aprendendo bastante com
Matt.
Na sexta-feira de manh, ela levou um almoo
de novo, passeou com Mousse por uns minutos
para procurar conchas, como muitas vezes fazia,
e saiu da gua com um pulo. Ele sorriu, achando
que ela tinha visto um caranguejo ou uma gua-
viva, e esperou ouvir o latido de Mousse. Mas
Mousse comeou a ganir, e ele notou que Pip estava sentada na areia segurando o
p.
-- Voc est bem? -- perguntou, sem saber se ela ouvira, pois estava meio distante.
Ela balanou a cabea, ele ps de lado o pincel e ficou observando-a um instante. Ela
no se mexeu nem se levantou. Ficou sentada ali, segurando o p. Matt no conseguia
ver seu rosto, s o lado enquanto ela examinava o p, e o cachorro ganindo. Foi at l
ver o que tinha acontecido, esperando que ela no tivesse pisado em um prego. Havia
muitos pregos enferrujados e soltos na areia ou presos em pedaos de madeira que iam
dar na praia.
Mas     assim que se aproximou viu que no era um prego, ela havia pisado num caco
de vidro, que tinha feito um corte feio na sola do p.
-- Como isso aconteceu? -- perguntou, sentando-
se ao seu lado e vendo uma poro considervel
de sangue na areia e o p sangrando em
profuso.
-- O caco de vidro estava debaixo de uma alga
em que pisei -- ela respondeu bravamente, mas
ele percebeu logo sua palidez.
-- Est doendo muito? -- perguntou solcito,
segurando o pezinho dela com cuidado.
-- No muito -- ela mentiu.
-- Aposto que est. Deixe eu dar uma olhada
nisso. -- Queria ter certeza de que no tinha
sobrado nenhuma ponta de vidro l dentro.
Parecia uma lasca limpa, mas o corte era fundo.
Pip olhou para ele com ar preocupado.
-- Est tudo bem?
-- Vai ficar bem, depois que eu tirar seu p fora.
Voc nem vai sentir falta dele. -- Apesar da dor,
ela riu, mas parecendo assustada. -- Voc pode
desenhar com um p s -- ele disse, levantando-
a. Pip era leve como uma pluma e ainda menor do que
parecia. Ele no queria que entrasse areia no machucado, mas achava que j tinha
entrado. No mesmo instante, lembrou-se das advertncias da me dela de no ir  sua
casa. Mas no podia deix-la ir andando at em casa com aquele corte no p, e estava
quase certo de que precisaria levar pontos, embora no lhe dissesse isso. -- Sua me
vai ficar com raiva da gente, mas vou ter de levar voc para minha casa para limpar seu
p um pouco.
-- Vai doer? -- Ela parecia ansiosa e ele sorriu com ar sereno, e foi carregando-a pela
praia, com Mousse atrs. Deixou seu equipamento de pintura para trs, sem pensar.
-- No vai doer mais que os gritos da sua me
conosco -- disse, para distra-la. Mas os dois
notaram que estavam deixando um rastro de
sangue enquanto subiam a duna. Em poucos
passos chegaram na porta, e entraram
diretamente na cozinha. Deixaram um rastro de
sangue no cho tambm. Ele sentou-a na mesa
da cozinha e levantou o p dela com cuidado
para coloc-lo na pia. Poucos segundos depois
havia sangue por todo lado, e nele tambm.
-- Vou ter de ir para o hospital? -- ela perguntou
nervosa. Seus olhos pareciam enormes no rosto
plido. -- Chad cortou a cabea uma vez e sangrou por todo lado e teve de
levar pontos.
-- Ela no queria dizer que ele teve um ataque e ficou batendo com a cabea na
parede. Tinha uns 10 anos na poca, e ela 6, mas lembrava-se perfeitamente. Seu pai
tinha gritado com sua me e com Chad tambm. E a me dela ficou chorando. Foi uma
cena muito feia.
--  Vamos dar uma olhada. -- O corte no lhe pareceu nada melhor do que na praia.
Levantou-a e sentou-a na borda da pia para a gua escorrer no p, mas a gua descia
vermelha no ralo.
-- Bom, minha amiguinha, vamos enrolar uma toalha nisso. -- Pegou uma toalha
limpa de uma prateleira e ela notou que sua cozinha era quente e aconchegante, embora
tudo parecesse velho e gasto. Mas era calorosa assim mesmo. -- Depois de enrolar o
p na toalha, acho que vou entregar voc para sua me. Ela est em casa hoje?
-- Est, sim.
-- timo. Vou levar voc de carro at em casa para voc no ter de andar. Que tal?
-- Muito bom. Depois a gente vai ter de ir para o hospital?
-- Vamos ver o que sua me diz. A no ser que
voc queira cortar a perna aqui. Leva s um
minuto, se Mousse no atrapalhar. -- Mousse
estava sentado obedientemente no canto,
observando-os com toda a tranqilidade. Pip riu
quando ele disse isso, mas continuava plida, e
ele achou que o p estava doendo muito. Tinha razo, mas
ela no admitiu. Tentava ser corajosa.
Matt enrolou o p na toalha, como disse, e carregou-a de novo, pegando as chaves do
carro no meio do caminho. Mousse seguiu-os por trs da casa e entrou no banco
traseiro da caminhonete assim que Matt abriu a porta. Quando Pip foi sentada no banco
do carona, havia uma grande mancha de sangue vivo na toalha empapada.
-- Est  feio mesmo, Matt? -- ela perguntou
quando iam para casa, e ele tentou no parecer
preocupado.
-- No, mas tambm no est lindo. As pessoas
no deviam jogar vidro na praia. -- O vidro tinha
cortado como se fosse uma faca.
Cinco minutos depois chegaram na casa de Pip e
Matt carregou-a para dentro, seguido de Mousse.
A me estava na sala e ficou assustada quando
levantou os olhos e viu os dois ali, Pip nos braos
de Matt.
-- O que aconteceu? Pip, voc est bem? --
Ophlie ficou aflita no mesmo instante e
aproximou-se.
-- Eu estou bem, mame. S cortei o p. -- Os
olhos de Matt encontraram os de Ophlie. Era a
primeira vez que ele a via desde o dia em que
sugeriu que ele podia ser pedfilo, quando o
encontrou na praia com Pip.
-- Ela est bem? -- perguntou para ele notando o
cuidado com que Matt a punha na cadeira e
desenrolava seu p.
-- Acho que sim. Mas  melhor voc dar uma
olhada. -- No queria falar na frente de Pip que
talvez ela tivesse de levar uns pontos, mas assim
que Ophlie a examinou chegou  mesma
concluso.
--  melhor irmos a um mdico. Acho que vai
precisar de uns pontos, Pip -- disse a me com
calma, e os olhos de Pip encheram-se de
lgrimas e Matt deu umas palmadinhas em seu
ombro.
-- S um ou dois -- disse, afagando a cabea da
menina com carinho e sentindo os cachos
sedosos.
De repente ela deixou de lado a valentia e
comeou a chorar, depois de controlar-se
durante todo o tempo para que ele no a
considerasse uma boboca.
-- Eles vo anestesiar o p primeiro, isso me
aconteceu no ano passado. No vai doer nada.
-- Vai, sim! -- ela gritou para os dois, parecendo
pela primeira vez ter 11 anos de idade. Tinha
direito. O corte era feio e estava sangrando
muito. -- No quero levar pontos! -- disse,
afundando o rosto no colo da me.
-- Depois a gente vai fazer alguma coisa
divertida, eu prometo -- disse Matt, olhando para
Ophlie, sem saber se devia ir embora. No
queria bancar o intruso. Mas ela parecia grata por ele estar ali, e Pip
tambm. Ele era uma influncia calmante para as duas. Era uma pessoa paciente e
bem-humorada, e s vezes demonstrava isso.
-- H algum mdico por aqui? -- perguntou Ophlie, preocupada.
-- H uma clnica atrs do mercadinho. E uma enfermeira. Ela me costurou no ano
passado. O que voc acha? Ou posso levar vocs  cidade. No me importo, se preferir.
-- Por que no vamos at a clnica para ver o que
a enfermeira diz?
Pip foi choramingando, e Matt contando histrias
engraadas para distrair as duas, o que causou
um certo alvio. Assim que a enfermeira viu o
corte, concordou com Matt e Ophlie. E fez
exatamente o que Matt disse que ela faria. Deu
uma injeo para anestesiar o p, depois
costurou-o. Foram necessrios sete pontos e um
curativo grande para cobrir o corte, e Pip teve de
ficar com o p fora do cho durante vrios dias, e
voltar uma semana depois para tirar os pontos.
Matt carregou-a para o carro, ela parecia exausta
depois daquela brincadeira.
-- Posso levar vocs para almoar? -- perguntou,
quando foram passando pela cidadezinha, mas
Pip disse com uma vozinha fraca que estava meio enjoada e
preferia voltar logo para casa. Ao chegarem, ele deitou-a com cuidado no sof. Sua
me ligou a televiso e cinco minutos depois ela pegou no sono.
-- Obrigada por ter sido to gentil conosco -- disse Ophlie, grata.
Matt achou difcil acreditar que ela fosse a mesma mulher que criara um caso com ele
na praia. Aquela mulher era gentil, com os olhos mais tristes que ele j vira, muito
mais tristes que os de Pip. Tinha o mesmo ar desprotegido da filha, o que lhe deu
vontade de passar os braos em volta dela tambm. Tudo que tinha sofrido estampava-
se nos seus olhos e no seu rosto. Mas notou que apesar disso, ela era uma mulher
bonita, parecendo surpreendentemente moa para sua idade.
-- Tenho de confessar -- disse ele com um ar
preocupado, mas achando que seria melhor dizer
logo, mesmo que ela ficasse com raiva -- que a
levei para casa para limpar o p. Ficamos l s
cinco minutos, depois viemos direto para c. No
teria feito isso, mas ela estava sangrando demais
e eu precisei buscar uma toalha para enrolar seu
p.
-- Foi uma sorte voc estar l. Eu compreendo.
Obrigada por me contar.
-- Pensei em trazer Pip direto para c, sabendo
que voc no queria que ela fosse na minha
casa, mas quis examinar bem o corte. Estava
mais feio do que eu pensava.
-- Estava mesmo. -- Ela tinha se sentido enjoada
quando viu a enfermeira dar os pontos. Sentira a
mesma coisa no dia em que Chad abriu a
cabea. Foi um dia horrvel. Dessa vez foi tudo
mais simples, graas a Matt, eles foram depressa
para a clnica e ficaram distraindo Pip ao longo
do caminho. Ela compreendia agora o que Pip
tinha visto nele. Matt era um homem especial-
mente gentil. -- Obrigada por ser to bom
conosco. Voc facilitou muito as coisas para ela.
E para mim.
-- Sinto muito o que aconteceu.  perigoso
deixar vidro na praia. Eu sempre pego os cacos
quando encontro algum. Podem acontecer coisas
como essa. -- Olhou para Pip e sorriu, vendo-a
dormir.
-- Posso lhe oferecer alguma coisa para comer?
-- disse ela com gentileza, mas ele hesitou. J
tinham acontecido coisas demais naquela
manh.
-- Voc deve estar cansada.  sempre difcil ver
os filhos se machucarem. -- Estava se sentindo
um pouco cansado tambm. A manh tinha sido
desgastante em termos emocionais.
-- Estou bem. Posso fazer uns sanduches. No d muito trabalho.
-- Tem certeza?
-- Absoluta. Quer um copo de vinho?
Ele recusou e preferiu uma Coca, e um instante
depois ela apareceu com um prato de
sanduches. Apesar da sua constante letargia
naqueles dias, parecia calma e eficiente. E os
dois ficaram se olhando na mesa da cozinha.
-- Pip disse que voc  francesa, mas no d
para notar. Fala ingls incrivelmente bem.
-- Aprendi ingls na escola quando era criana, e
j passei aqui mais de metade da minha vida.
Vim fazer faculdade e me casei com um dos
professores.
-- O que veio estudar?
-- Estava me preparando para estudar medicina.
Mas no cheguei a entrar na faculdade. Terminei
o curso preparatrio e me casei. -- No
mencionou que tinha ido para Radcliffe, pois
podia parecer muito pretensioso da sua parte.
-- Tem pena de no ter ido para a faculdade de
medicina? -- ele perguntou, interessado. Assim
como a filha, ela era uma mulher intrigante.
-- Nunca. Acho que no teria sido uma boa
mdica. Fiquei enjoada quando vi a enfermeira
costurar o p de Pip.
-- E diferente quando se trata de um filho. Eu
senti a mesma coisa quando fiquei olhando, e ela
nem  minha filha.
Isso lhe fez lembrar o que Pip contara sobre ele.
-- Pip me disse que seus filhos esto na Nova
Zelndia. -- Mas assim que falou viu pelos olhos
dele que era um assunto difcil. -- Que idade eles
tm?
-- Tm 16 e 18 anos.
-- Meu filho faria 16 em abril -- ela falou com
tristeza, e ento os dois acharam melhor mudar
de assunto.
-- Eu estudei no Instituto de Belas Artes em Paris
durante um ano quando estava na faculdade --
ele falou. -- Que cidade espetacular! No vou l
h muitos anos, mas costumava ir sempre que
tinha oportunidade. O Louvre  o melhor lugar do
mundo para mim.
-- Levei Pip l no ano passado e ela odiou.  um
pouco srio demais para ela. Mas gostou do caf
internacional do subsolo. Achou quase melhor
que o McDonald's. -- Os dois riram dos preconceitos culturais e
culinrios das crianas.
-- Voc vai l sempre? -- Ele estava curioso sobre ela. E ela sobre ele agora.
-- Em geral, todo vero. Mas no quis ir este ano. Safe Harbour me pareceu mais
fcil e mais repousante. Eu costumava ir  Inglaterra quando era criana, e aqui me
lembra um pouco aqueles tempos.
Matt     surpreendeu-se ao admitir para si mesmo que tinha gostado dela. Parecia uma
mulher simples, calorosa e honesta, no a esposa de um homem que tinha feito uma
imensa fortuna e comprado seu prprio avio. Parecia prtica e despretensiosa. Embora
no pudesse deixar de notar que por baixo das mechas do seu cabelo longo e louro ela
usava brincos de brilhante, e um lindo suter de cashmere preto. Mas aquele luxo
parecia inconseqente e era suplantado por seu modo gentil e por sua beleza. Era uma
mulher muito bonita. E ele notou que ainda usava a aliana lisa de ouro, o que o
comoveu. Sally jogou a dela fora no dia em que o deixou. Naquela poca, quando
soube disso, ele quase morreu. Gostou de ver que Ophlie ainda usava a dela. Ura
gesto de amor e respeito por seu falecido marido. E ele admirou-a por isso.
Os dois ficaram conversando at terminar o
almoo, e se surpreenderam ao ver quanto
tempo tinha passado quando finalmente Pip se
mexeu. Mas estava s resmungando, e virou-se
de lado no sof quando Mousse deitou no cho
perto dela.
-- Esse cachorro adora Pip, no ? -- Matt
comentou, e Ophlie assentiu.
-- Era do meu filho, na verdade, mas adotou Pip
agora. Ela adora o Mousse.
Pouco depois Matt levantou-se para ir embora,
agradeceu o almoo e sugeriu que ela fosse at a
praia com Pip um dia. Falou do seu barco  vela
tambm, e ofereceu-se para levar as duas para
um passeio quando Ophlie disse que adorava o
mar.
-- Acho que ela no vai poder andar durante uma
boa semana -- disse ele, com uma ponta de
tristeza. Ia sentir falta dela.
-- Voc pode vir aqui visit-la, se quiser. Sei que
ela adoraria ver voc.
Era difcil acreditar, quando olhou para ela, que
aquela mulher fosse a mesma que duas semanas antes o proibira de ver sua
filha. Mas as coisas tinham mudado nesse meio-tempo. Por causa da firme lealdade de
Pip, Ophlie passou a confiar nele. E depois daquela manh sentiu-se grata e at
mesmo gostou dele. Podia ver por que Pip tinha feito aquela amizade. Tudo nele
sugeria que ele era uma boa pessoa. E ela notou, como Pip, que ele se parecia
ligeiramente com seu marido. Mais em tamanho, forma, gestos e colorido do que em
feies, porm tinha alguma coisa que fazia Ophlie sentir-se bem ao seu lado.
-- Obrigado pelo almoo -- ele disse educadamente.
Ophlie deu seu nmero de telefone e ele
prometeu ligar antes de vir. Disse que daria uns
dias para Pip se recuperar antes de telefonar.
Pip ficou altamente desapontada quando acordou
e descobriu que Matt tinha ido embora. Tinha
dormido quase quatro horas, e depois disso o
efeito da anestesia passou. O p comeou a doer
muito, como a enfermeira avisou que poderia
acontecer por uns dois dias. Ophlie lhe deu uma
aspirina e cobriu-a com um cobertor, na frente da televiso, e Pip voltou
a dormir at a hora do jantar.
Ainda dormia quando Andrea telefonou, e Ophlie contou o que acontecera. E
comentou sobre a participao de Matt.
-- Ele no me parece um molestador de crianas. Voc  que podia molest-lo um
pouco -- disse Andrea com uma risadinha. -- Se no, pode deixar comigo. -- Ela no
namorava desde o beb, e estava ficando indcil. Gostava de companhia masculina, e
estava de olho em um pai do playground. Tinha sempre namorado homens do
escritrio, muitos deles casados. -- Por que no o convida para jantar?
-- Vamos ver -- disse Ophlie vagamente. Tinha gostado de almoar com
Matt, mas no pensava em ficar atrs dele, nem atrs de ningum. Sentia como se
ainda estivesse casada. Falava sobre isso no seu grupo com freqncia, e no podia
imaginar se sentindo de outra forma. A idia de ser solteira de novo dava-lhe arrepios.
Esteve apaixonada por Ted durante vinte anos, e nem mesmo a morte mudaria isso.
Apesar de tudo o que tinha acontecido, seu amor por ele nunca havia diminudo.
-- Vou  ver voc esta semana -- prometeu
Andrea. -- Por que no o convida para jantar
quando eu for? Quero conhecer esse homem.
-- Voc no tem jeito -- riu Ophlie para sua velha amiga.
Elas conversaram por mais algum tempo e depois desligaram. Ophlie carregou Pip
para o quarto e a ps para dormir, e s ento percebeu que no fazia isso h anos. Era
como se estivesse acordando lentamente de um sono profundo. Ted e Chad tinham
morrido h dez meses. Era difcil acreditar. Fazia quase um ano que sua vida fora
totalmente despedaada. Ela no juntara os pedaos ainda, mas aos poucos estava
encontrando-os aqui e ali, e um dia talvez tivesse sua vida de volta. Mas ainda no era
chegado o tempo. Sabia que ainda tinha um longo caminho a percorrer. Foi bom ter um
convidado naquela tarde, mas ainda se sentia como uma mulher casada recebendo um
hspede. A idia de namorar era inconcebvel, embora no fosse para Andrea.
Mas foi isso que impressionou Matt quando ele se
sentou  mesa com ela. Gostou da sua
dignidade, gentileza e graa. No havia nada
direto nem forado. Havia tido a mesma
sensao que Ophlie no incio, quando pensava
em namorar. Levou anos e anos para esquecer
Sally. E agora percebia que seus sentimentos tinham se acalmado. No a amava e
no a odiava mais. No sentia nada por ela. E onde seu corao tinha existido, havia
um espao vazio. O mximo que tinha conseguido, pelo menos em sua cabea, era
fazer amizade com uma menina de 11 anos de idade.



                               Captulo             6

A   SEMANA DE RECUPERAO de Pip foi frustrante. Ela ficava sentada no sof da
sala vendo televiso e lendo, e quando Ophlie tinha vontade jogavam cartas. Mas, na
maior parte do tempo, Ophlie continuava ausente demais para jogar com ela. Pip
ficava desenhando em uns pedaos de papel soltos pela casa, mas o que mais a
aborrecia era no poder descer para a praia e encontrar-se com Matt, pois no podia
deixar entrar areia no ferimento. Desde o dia em que cortou o p, o tempo estava lindo,
o que tornava seu encarceramento ainda pior.
J estava em casa h trs dias, em priso
domiciliar, quando Ophlie decidiu dar uma volta
e andou sem perceber em direo  praia.
Caminhou e, depois de algum tempo, para sua
surpresa, viu Matt junto do cavalete. Estava
trabalhando com afinco, muito concentrado no
que fazia. Ela hesitou, como Pip fez de incio, e
manteve-se a distncia. Depois de algum tempo, Matt sentiu sua presena, virou-se e
viu-a de p ali, relutante, muito parecida com a filha. Quando sorriu, ela finalmente se
aproximou.
-- Ol, como vai? No queria interromper --
disse, com um sorriso encabulado.
-- Sem problema -- ele falou, com sinceridade. -- Gosto de interrupes. -- Usava
camiseta e jeans, e ela pde ver que ele estava em boa forma. Tinha braos fortes e
ombros largos, e um aspecto agradvel. -- Como vai Pip?
-- Entediada. Ter de ficar com o p fora do cho
est deixando a pobrezinha maluca. Ela sente
falta da praia e de voc.
-- Vou visit-la, se voc deixar -- disse com
cuidado. No queria ser intruso para a menina nem para a me.
-- Ela adoraria.
-- Acho que vou dar uns deveres para ela fazer.
Ophlie notou que ele estava pintando um mar de ondas altas e volumosas em
um dia de tempestade, e um barquinho  vela sendo castigado por elas. A pintura era
forte e de certa forma tocante. Dava a sensao de solido e isolamento, e da
impiedade do mar.
-- Gostei   do seu trabalho -- disse com
sinceridade. A pintura era linda, e muito bem-
feita.
-- Obrigado.
-- Voc sempre trabalha com aquarela?
-- No, prefiro leo. Gosto de fazer quadros
grandes. -- Lembrou ento que tinha prometido
fazer o retrato de Pip para o aniversrio da sua
me. Queria comear antes que ela fosse em-
bora de Safe Harbour,                  mas por causa do acidente no teve tempo de
fazer o esboo preliminar. Tinha uma imagem clara na cabea de como iria pint-la.
-- Voc mora aqui o ano todo? -- ela perguntou, interessada
-- Moro. Estou aqui h quatro anos.
-- Deve ser solitrio no inverno -- disse com calma, sem saber se devia sentar na
areia ou continuar de p ao lado dele. Achou que seria melhor esperar um convite,
como se esta parte da praia fosse seu territrio privado. Como um escritrio.
--  calmo aqui. Gosto dessa paz. Isso me
convm. Quase todos os moradores do
condomnio vinham para a praia s no vero.
Algumas pessoas moravam o ano inteiro na faixa
entre a praia e o condomnio fechado, mas no
muitas. A praia e o vilarejo ficavam desertos no
inverno. Ele parecia um homem solitrio, ou pelo
menos isolado, mas no infeliz. Parecia tranqilo
e muito  vontade em sua prpria pele, como
diriam os franceses.
-- Voc vai muito  cidade? -- ela perguntou
curiosa. Era fcil ver por que Pip gostava dele.
Matt no falava demais, e tinha um jeito de fazer
as pessoas se sentirem confortveis ao seu lado.
-- Quase nunca. No tenho mais razo para ir l.
Vendi minha empresa h dez anos quando me
mudei para c. Estava s dando uma parada
para voltar  ativa de novo, mas com o desenro-
lar dos acontecimentos acabei ficando aqui.
A venda da agncia de publicidade na alta do
mercado lhe permitira fazer isso, mesmo depois
de dar a parte de Sally. E uma pequena herana
que recebera dos pais depois disso lhe permitira
ficar. Tudo o que queria no incio era um ano
afastado para depois recomear, mas Sally foi
para a Nova Zelndia e ele ia l a toda hora para
ver os filhos. Quando deixou de ir, quatro anos
depois, perdeu o interesse em abrir outro
negcio. Resolveu ficar apenas com a pintura.
Tinha feito vrias exposies individuais ao longo
dos anos, mas no queria fazer mais. No
precisava exibir sua arte, queria apenas
trabalhar.
-- Eu adoro isso aqui -- disse Ophlie, afundando
na areia a uns trs metros de distncia. Perto o
suficiente para v-lo trabalhar e conversar com
ele, mas no perto demais para que um dos dois
se sentisse invadido. Tinham cuidado com o
espao um do outro e, como Pip fazia s vezes,
Ophlie ficou observando-o em silncio, at que
ele finalmente falou.
-- Aqui  um lugar bom para as crianas -- disse,
olhando de perto para o trabalho e depois a
distncia. --  bem seguro, e elas podem correr
pela praia. Muito mais simples que a vida da
cidade.
-- Eu gosto da proximidade da cidade. Posso ir e
voltar facilmente, deixando Pip aqui. No temos
de ir a lugar algum, s ficar aqui.
-- Gosto disso tambm. -- Sorriu para ela, e
decidiu fazer-lhe mais perguntas. Estava curioso,
embora j soubesse de algumas coisas. Ela era
obviamente inteligente, mas ao mesmo tempo
nervosa e quieta. -- Voc trabalha? -- Achava
que no. Ela no mencionara isso no almoo, e
Pip nunca dissera nada tambm.
-- No. Eu trabalhei, muito tempo atrs, quando
morvamos em Cambridge, antes de mudarmos para c e as
crianas nascerem. Depois no trabalhei mais, pois qualquer coisa que fizesse no seria
o suficiente para pagar uma bab, ento no fazia muito sentido. Eu trabalhava no
laboratrio de bioqumica de Harvard. --Ted tinha lhe arranjado o emprego, que se
encaixava com seus planos de estudar medicina, at ela desistir dos seus sonhos
completamente. Ted era o nico sonho que ela queria ou precisava. Ele e os filhos
eram todo o seu mundo.
-- Uma atitude muito lgica. Voc pensa em voltar algum dia? A estudar medicina?
Ophlie riu quando respondeu:
-- Estou muito velha. Entre a escola de medicina,
a residncia e o estudo para defesa da tese eu teria 50 anos quando me formasse. --
Tinha 42 agora, e seus sonhos de ser mdica haviam se esvado h muito tempo.
-- H gente que faz isso. Pode ser divertido.
-- Teria sido, eu acho. Mas eu estava feliz do
lado do meu marido.                       -- De vrias formas, ela era ainda muito
francesa, se satisfazia com um papel secundrio junto dele. Mas no via as coisas dessa
maneira, via-se como um sistema de apoio, uma torcida que o encorajava nas horas
difceis. Essa foi a principal razo do casamento ter durado. Ted precisava dela como
um elo com o mundo real. Ela era a pessoa que no o deixava enlouquecer quando as
coisas estavam piores. E agora no havia ningum para fazer o mesmo por ela, a no
ser sua filha. -- Andei pensando ultimamente em arranjar um emprego. Para ser
sincera, outras pessoas tm pensado nisso por mim. Basicamente, meu grupo e minha
melhor amiga. Acham que eu preciso me ocupar com alguma coisa. Pip fica na escola
o dia inteiro e eu no tenho muita coisa para fazer. -- Depois da morte de Ted e Chad,
seu trabalho tinha quase terminado. Chad a mantinha mais que ocupada, com suas
vrias dificuldades e muitos problemas. E Ted tambm exigia ateno. Mas Pip no,
ela estudava durante o dia e saa com as amigas nos fins de semana. Vivia
surpreendentemente ocupada e era auto-suficiente. E Ophlie se sentia como se tivesse
perdido no s metade da sua famlia mas seu trabalho tambm. -- Mas no sei o que
eu poderia fazer. No tenho nenhuma experincia formal.
-- O que gostaria de fazer? -- ele perguntou,
interessado, olhando-a de vez em quando. A
maior parte do tempo, conversava sem parar de
pintar, e Ophlie gostou disso. Podiam conversar
sem que seus sentimentos fossem muito
focalizados ou examinados. Era quase como uma
terapia quando ela se abria com ele, como Pip
tinha feito.
--  constrangedor dizer isso, mas no tenho
certeza. H muito tempo no fao nada para
mim mesma, nem tenho vontade de fazer. Vivi
sempre ocupada com meus filhos e com meu
marido. Mas Pip parece precisar muito menos de
mim que Ted e Chad precisavam.
-- No tenha tanta certeza disso -- Matt falou
com calma. Queria lhe dizer que a menina era
obviamente solitria, mas no disse. -- Que tal
fazer algum trabalho voluntrio? -- Era claro,
pela casa que ela alugava e pelo fato de o seu
marido ter tido seu prprio avio, que no
precisava de dinheiro.
-- Andei pensando nisso -- Ophlie falou,
pensativa.
-- Eu dava aula de desenho em um hospital de
doenas mentais. Era maravilhoso. Uma das
melhores coisas que fiz na vida. Eles me
ensinaram mais do que eu a eles sobre vida,
pacincia e coragem. Eram pessoas fantsticas.
Parei com as aulas quando me mudei para c. --
Mas no era bem isso, ele parou quando se
afundou na depresso, quando deixou de ver os
filhos. E quando superou, ou pelo menos
melhorou, comeou a sentir-se feliz sozinho ali e
raramente ia  cidade.
-- Os doentes mentais podem ser pessoas
extraordinrias -- disse ela, e a forma como falou
fez com que ele se virasse para olh-la. Viu
imediatamente em seus olhos que ela conhecia
bastante bem o assunto. Seus olhos se
encontraram e ele virou-se para sua pintura.
Teve medo de repente de perguntar por que ela
dissera aquilo, mas ela pressentiu a pergunta.
-- Meu filho era manaco-depressivo... bipolar...
sua doena foi uma luta, mas ele era muito
corajoso. Tentou cometer suicdio duas vezes um
ano antes de morrer. -- Foi um enorme gesto de
confiana ter lhe contado isso, mas pelo seu
carinho com Pip ela sabia que ele era
compassivo e compreensivo.
-- Pip sabe disso? -- Ele pareceu abalado.
-- Sabe. Foi muito difcil para ela. Na primeira
vez, fui eu que o encontrei, na segunda foi ela.
Foi muito traumtico.
-- Pobre menina... e pobre menino... como foi
isso? -- Entregou-se de todo corao a ouvi-la e
observ-la.
-- Na primeira vez, ele cortou os pulsos e fez um
curativo depois, graas a Deus. Na segunda,
tentou se enforcar. Pip entrou no quarto para
perguntar alguma coisa e o encontrou l. Ele j
estava azul e quase morreu. Ela me chamou, ns
o tiramos de l, mas o corao tinha parado. Eu
fiz massagem cardaca nele at os paramdicos
chegarem, e eles o salvaram. Tiveram de fazer
desfibrilao, ele esteve  beira da morte. Foi um
horror. -- Ela mal respirava quando disse isso,
ainda perseguida pela lembrana de tudo.
Mesmo agora, s vezes sonhava com essa cena.
-- Ele estava bem melhor quando morreu, por
isso o mandei para Los Angeles com o pai
naquele dia. Ted tinha umas reunies e eu achei
que seria divertido para Chad ir com ele. Os dois
no passavam muito tempo juntos. Ted era
muito ocupado. -- E negava praticamente todos
os problemas de Chad, mas no disse isso. Mesmo depois das
tentativas de suicdio, Ted insistia firmemente que ele tinha feito aquilo para chamar a
ateno, no por um motivo mais grave.
Mas Matt conhecia os homens, e as crianas.
--   Como ele se relacionava com o filho? Tinha dificuldade de aceitar sua doena?
Ela hesitou, depois assentiu.
-- Muito. Ted sempre pensou que ele superaria
isso. Recusava-se a aceitar que Chad estivesse
muito doente, por mais que os mdicos
dissessem. Toda vez que as coisas melhoravam,
achava que a guerra tinha terminado. E eu
achava tambm, no comeo. Ted nunca pensou
que houvesse uma guerra, vivia dizendo que
eram problemas, que eu o mimava, que ele
precisava de uma namorada. Acho que  difcil os
pais admitirem que tm um filho doente, que
ser sempre doente e no poder melhorar.
Melhora durante algum tempo, com uma boa
medicao, muito trabalho e esforo, mas a
doena no vai embora. Fica ali para sempre.
Ela parecia ter uma boa idia da coisa, mas tinha
aprendido as lies a um alto preo, e nunca
negou nada. Achava, desde que Chad era
pequeno, que ele tinha problemas srios, por
mais brilhante e charmoso que fosse. Ele era
brilhante, como o pai, mas era tambm
profundamente doente. Foi Ophlie quem
detectou o problema, at ter um diagnstico.
Mesmo assim, Ted recusou-se a acreditar. Dizia
que os psiquiatras eram charlates e que os
exames no eram conclusivos. No havia nada
de pouco conclusivo nas tentativas de suicdio de
Chad, nas suas crises manacas, nas noites sem
dormir ou nas depresses desesperadas. A
medicao e a terapia tinham abrandado as cri-
ses, mas no solucionado o problema de forma
adequada. Na poca em que Chad morreu,
Ophlie tinha aceitado que ele seria eternamente
doente. Mas Ted nunca aceitou. No conseguiu
enfrentar isso at o final. Ter um filho com
transtorno mental era inaceitvel para ele.
E sua maior tristeza, seu maior pecado, a seu
ver, foi mandar Chad para Los Angeles com o
pai. Precisava de um descanso, de passar um
tempo em paz com Pip, sem se preocupar com o
filho nem ser perturbada por ele. Chad precisava de
muita ateno. S ela sabia que tinha mandado o garoto viajar por dois dias para ter um
pouco de sossego, no tanto para melhorar seu relacionamento com o pai. Sabia que,
por mais que vivesse e por mais grupos que freqentasse, nunca se perdoaria por isso.
Mas no disse nada a Matt. Tinha de viver com aquilo, por mais que lhe custasse.
-- Voc passou por muita coisa, no apenas a tragdia do acidente. Deve ter sido
particularmente difcil saber que salvou seu filho duas vezes e depois perdeu-o em um
acidente como esse.
-- Destino    -- ela disse calmamente. -- Ns estamos nas mos do destino, no
podemos fazer nada para controlar isso. Graas a Deus no mandei Pip tambm --
disse, embora isso nunca tivesse estado em questo.
Ted nem queria levar Chad, o menino sempre o irritava e o deixava nervoso, e Chad
tampouco estava entusiasmado com a viagem. Os dois concordaram finalmente, por
insistncia dela. Mas Ted nunca teria levado Pip. Ela era muito pequena para viajar
com ele, a seu ver, e ele no lhe dava muita ateno. Tinha cuidado dela nos seus dias
de pobreza, mas depois ficou muito ocupado. A nica soluo melhor, fora o acidente
no ter acontecido, teria sido todos morrerem juntos no avio. Muitas e muitas vezes
Ophlie tinha desejado isso. Teria sido muito mais simples.
--  Voc gostaria de fazer trabalho voluntrio com crianas com problemas mentais?
-- Matt perguntou com cuidado, tentando sair do assunto do filho que ela tinha perdido
e do seu falecido marido. Inevitavelmente, viu nos olhos dela seu sofrimento
desesperador.
-- No sei -- Ophlie respondeu, olhando para o
mar e pensando naquilo, enquanto esticava as
pernas na areia. -- Eu vivi muitos anos com o
problema de Chad, de forma to intensa s vezes que gostaria de usar o
que aprendi para ajudar os outros, mas talvez fosse melhor fazer outra coisa. No quero
lutar essa guerra para sempre. Pelo menos para mim, a guerra acabou. Talvez o ideal
fosse fazer uma coisa diferente. Posso estar sendo egosta, mas estou sendo sincera.
Parecia ser sincera, acima de tudo, e sensata, carinhosa e sofrida. Quem no seria
depois de tudo isso? Matt sentiu grande compaixo e respeito por aquela mulher, e
mais por Pip agora. Ela tambm tinha passado por muita coisa para uma menina da sua
idade.
-- Talvez    voc esteja certa. Talvez deva afastar-se disso tudo, fazer alguma coisa
mais alegre. Que tal algum tipo de trabalho com crianas? Com meninos que fogem de
casa, crianas ou famlias sem-teto? H muita coisa boa a ser feita.
-- Parece interessante.  incrvel o nmero de gente perdida que vemos nas ruas hoje
em dia, mesmo na Frana, no s aqui.  um problema no mundo todo.
Falaram sobre os sem-teto durante algum tempo, e sobre os problemas polticos e
econmicos que consideravam responsveis por isso. Peio menos naquele momento, o
problema parecia insolvel, mas foi uma conversa interessante entre os dois, e ob-
viamente muito mais adulta do que as coisas que ele discutia com Pip enquanto lhe
ensinava a desenhar. Ele gostava das duas, e sentia-se feliz por seus caminhos terem se
cruzado, por t-las conhecido.
Ophlie      levantou-se pouco depois e disse que tinha de voltar, e quando ele
mandou lembranas para Pip, teve uma idia.
-- Por que voc no faz isso pessoalmente? --
disse sorrindo. Tinha se divertido no tempo que
passou conversando com ele, e no se
arrependeu     de   ter   falado   sobre    Chad.
Compreendeu por que Pip gostava tanto dele e
pareceu-lhe importante contar como sua filha
tinha sido corajosa, contar todas as coisas pelas
quais tinha passado e o que tinha perdido. Uma
bagagem pesada para uma criana e para ela
tambm, e ele tinha a sua tambm, muito maior
do que ela imaginava. Em certa idade, no
importava qual fosse, todo mundo tinha
bagagens de sofrimentos e cicatrizes, mgoas e
muitas vezes at mesmo vidas destroadas.
Ningum passava inclume, s vezes nem
crianas da idade de Pip. Ophlie gostava de
pensar que isso deixaria Pip mais forte no futuro,
e talvez mais cuidadosa, mas no tinha certeza
do que aconteceria consigo mesma. Os tipos de
cicatrizes na alma de cada pessoa determinavam
quem ela se tornaria. Podiam enriquecer o
esprito ou abat-lo. O segredo da vida era
sobreviver aos danos e aceitar as cicatrizes. Mas
na verdade nenhum corao saa inclume. A
prpria vida era real demais. E para amar
algum, namorado ou amigo, a nica escolha era
ser realista.
-- Vou telefonar para Pip -- disse Matt, em
resposta ao que ela disse. Sentiu-se mal de no
ter telefonado ainda. Mas no queria ser um
intruso para Ophlie.
-- Por que no vai jantar conosco hoje? A comida
 horrvel, mas sei que ela vai gostar de ver
voc, e eu tambm. -- Foi o convite mais
simptico que ele recebeu em anos, o que lhe fez
sorrir.
--Seria timo. Tem certeza de que no vou
incomodar?
-- Ao contrrio. Ser timo. Na verdade, acho
que vou fazer uma surpresa para Pip se voc
resolver que vai. Sete horas, est bom? -- O
convite foi inteiramente inocente e ingnuo.
Ophlie gostava de conversar com ele, e Pip tambm.
-- Perfeito. Posso levar alguma coisa? Lpis? Vinho? Uma borracha?
Ela riu, e ele teve uma idia.
-- Basta sua presena. Pip vai ficar encantada. -- Ele no acrescentou "Eu tambm",
mas teve vontade, e sentiu-se como uma criana. Eram boas pessoas, duas timas
pessoas, que tinham sobrevivido a muita tristeza, tragdia e sofrimento. Quanto mais
sabia dos seus problemas, mais respeito sentia por elas, especialmente depois daquele
dia. O que ela contara sobre seu filho lhe pareceu uma verdadeira agonia.
-- At mais tarde -- falou com um sorriso, quando ela deu adeus e foi andando pela
praia. Ficou observando-a, pensando de novo em como ela se parecia com Pip.
                                   Captulo         7

PIP ESTAVA DEITADA no sof com um ar entediado, com o p em cima de um travesseiro,
quando a campainha tocou. Ophlie foi atender, sabendo quem era. Matt chegou na hora
certa. Usava uma camisa cinza de gola rul e jeans, e trazia uma garrafa de vinho. Ophlie
ps o dedo nos lbios e apontou para o sof. Com um largo sorriso, ele entrou. Quando
Pip o viu, gritou de alegria e pulou do sof em um p s.
-- Matt! -- gritou, olhando para ele e para a me, imensamente feliz, sem imaginar
como podiam ter preparado aquela surpresa. -- Como... o que... -- Estava encantada e
confusa.
-- Encontrei sua me na praia hoje e ela teve a
gentileza de me convidar para jantar. Como est o
p?
-- Muito bobo.  um p idiota, estou cansada dele.
Sinto falta de desenhar com voc. -- Tinha feito vrios
esboos por conta prpria, mas estava cansada disso tambm, e achava que sua habilidade
recm-descoberta regredira. Encontrara dificuldade de desenhar a parte de trs de Mousse
naquela tarde. -- Esqueci como a gente faz as patas traseiras.
--   Eu mostro de novo. -- E ao dizer isso, entregou-lhe um bloco de desenho novo em
folha e uma caixa de lpis de cor que descobrira em uma gaveta. Era exatamente o que o
mdico tinha mandado que ela fizesse, e ela pegou os lpis com alegria.
Enquanto conversavam, Ophlie arrumou a mesa
para trs e abriu a garrafa do timo vinho francs.
Embora bebesse raramente, era um vinho que
gostava e que a fazia lembrar a Frana.
Tinha colocado um frango no forno, e em um curto
perodo de tempo cozinhou alguns aspargos e
arroz selvagem e fez um molho hollandaise. Foi o jantar
mais elaborado que preparou naquele ano. E gostou de fazer isso.
Matt ficou impressionado quando se sentou para jantar, e Pip tambm. Ela riu para a me.
-- No vamos comer pizza congelada hoje?
-- Pip, por favor! No conte todos os meus
segredos -- disse Ophlie sorrindo para a filha.
--  a base da minha alimentao tambm. Pizza e sopa instantnea -- disse Matt com
um risinho. Estava bonito e bem arrumado, usava uma gua-de-colnia suave e, melhor
que tudo, tinha um ar saudvel e real. Ophlie penteara o cabelo para ele e estava usando
um suter de cashmere preto e jeans. No usava maquiagem nem roupa colorida h um
ano, e no usou naquela noite tampouco. Estava de luto formal por Ted e Chad. Mas, pela
primeira vez, pensou em pr pelo menos um pouquinho de batom. Mas no tinha trazido
pintura alguma para a praia, deixara tudo em alguma gaveta da sua casa. Nos ltimos dez
meses, achava que nunca mais usaria maquiagem. Parecia irrelevante agora. O u pelo
menos at aquela noite. No que estivesse paquerando Matt, mas pelo menos sentia-se
mulher de novo. O rob no qual ela se transformara no ltimo ano estava aos poucos
voltando  vida.
Os trs conversaram animadamente durante todo
o jantar. Falaram de Paris, de arte e de escola. Pip
disse que no estava animada para voltar. Fazia
12 anos no outono e ia entrar na stima srie.
Disse a Matt que tinha muitas amigas, mas que se
sentia estranha com elas agora. Muitos pais de
suas colegas eram divorciados, mas nenhum tinha
morrido. No queria que sentissem pena dela, e
sabia que algumas sentiam. Disse que no queria
que fossem "boazinhas demais", porque ficava triste. No queria ser diferente.
Mas ela sabia que inevitavelmente seria.
-- No posso nem ir ao jantar do Dia dos Pais -- disse, chorosa. -- Quem eu levaria?
Ophlie pensara nisso tambm, e no teve soluo para o problema. Pip levou Chad
uma vez quando seu pai no pde ir. Mas agora no poderia mais fazer isso.
-- Pode me levar se quiser -- disse Matt com
sinceridade, olhando para Ophlie. -- Se sua me
no fizer objeo. No h razo para no poder
levar um amigo, a no ser que possa levar sua
me.  possvel fazer isso tambm, no precisa
seguir as regras. A me pode substituir o pai.
-- Eles no vo me deixar fazer isso, algum
tentou fazer isso no ano passado.
Matt achou a atitude deles muito limitada, mas ela
ficou encantada com a perspectiva de lev-lo e sua me fez um ar aprovador.
-- Seria muito gentil da sua parte -- ela disse ao
trazer a sobremesa. Tudo o que tinham no freezer
era sorvete, e ela derreteu um pouco de chocolate
e despejou por cima do sorvete de baunilha que
Pip adorava. Era o favorito de Ted tambm. Ela e
Chad eram viciados em Rocky Road e sua mistura
de chocolate, nozes e marshmallow. Estranho que at os
sabores de sorvete fossem s vezes ditados pelos genes. Ela no notara isso antes.
-- Quando vai ser o jantar do Dia dos Pais? -- Matt perguntou.
-- Perto do Dia de Ao de Graas -- falou Pip entusiasmada.
-- Diga quando e eu estarei l. Vou at usar um terno. -- Ele no usava terno h anos.
Vivia de jeans e suteres velhos, e um palet de tweed gasto que sobrara dos velhos
tempos. No precisava mais de terno. No ia a lugar algum e no tinha nem queria ter
vida social. De vez em quando um amigo antigo vinha da cidade jantar com ele, mas cada
vez menos. Matt estava fora de circulao h muito tempo e gostava disso. Gostava de ser
um recluso. Ningum mais discutia com ele sobre isso. Todos achavam que ele era assim,
ou se tornara assim.
Pip ficou conversando at bem tarde, e finalmente comeou a bocejar. Disse que mal
podia esperar para tirar os pontos no final da semana, mas que estava aborrecida porque
teria de usar sapato na praia durante mais uma semana.
-- Talvez voc possa ir montada no Mousse -- Matt
brincou, quando ela voltou de pijama um instante
depois para dar boa-noite.
Os dois estavam sentados no sof, e Matt acendeu
a lareira. Era uma cena calorosa e aconchegante,
e Pip foi feliz para a cama, feliz como no era h
muito tempo. E Ophlie tambm se sentia asim.
Era muito confortvel ter um homem por perto.
Aquela presena masculina parecia preencher a
casa toda. At mesmo Mousse olhava para cima de quando em
vez e abanava o rabo, deitado ao lado da lareira.
-- Voc  abenoada -- disse ele calmamente para Ophlie, quando ela fechou a porta
de Pip para ela poder dormir. A casa tinha uma sala grande, integrada com a cozinha e a
sala de jantar, e dois quartos. Tudo parecia se comunicar, ningum precisava de privaci-
dade ou luxo na praia. Mas a decorao era muito bonita. Os proprietrios tinham coisas
lindas, e umas pinturas modernas boas, que Matt apreciou muito. -- Ela  uma menina
fantstica. -- Estava louco por Pip, pois ela sempre lhe fazia lembrar seus filhos. Mas no
tinha certeza se seus filhos seriam to abertos, espertos e maduros. No tinha idia de
como estavam. Pertenciam a Hamish agora, no mais a ele. Sally tinha arranjado logo
uma companhia.
--  mesmo. Tenho sorte de ter Pip comigo. -- Agradecia a Deus por Pip no ter
entrado naquele avio tambm. -- Ela  tudo que eu tenho. Meus pais morreram muitos
anos atrs, e os de Ted tambm. Ns dois fomos filhos nicos. Agora s tenho uns primos
de segundo grau na Frana e uma tia de quem nunca gostei muito e que no vejo h anos.
Gosto de levar Pip l para manter contato com suas razes francesas, mas no tenho nin-
gum muito chegado. Somos s ns duas.
-- Talvez isso baste -- falou. Ele no tinha nem
isso. Tambm era filho nico e se tornara solitrio
ao longo dos anos. No tinha mais amigos ntimos.
Nos difceis anos depois do divrcio, foi complicado
manter as amizades antigas e, como Pip, no que-
ria que sentissem pena dele. O que tinha sofrido
com Sally foi duro demais. --Voc tem muitos
amigos, Ophlie? Em So Francisco, quero dizer.
-- Alguns. Ted no era muito socivel. Era um
homem solitrio e completamente mergulhado em
seu trabalho. Esperava que eu estivesse sempre
ali ao seu lado. E eu queria estar. Mas isso tornava
difcil manter as amizades. Ele no gostava de ver
gente, s de trabalhar. Tenho uma amiga muito
chegada a mim, mas perdi contato com muita
gente ao longo dos anos por causa de Ted. E Chad
consumia todo o meu tempo ultimamente. Eu
nunca sabia o que ia acontecer, se ele entraria
numa grande agitao ou se estaria muito
deprimido, ento no podia deix-lo sozinho. No
final, tornou-se um trabalho em tempo integral
para mim. -- Ela no tinha mos suficientes para
cuidar de Chad, Ted e Pip. Agora suas mos esta-
vam mais vazias depois de anos, a no ser por Pip,
que no precisava muito dela. E o mnimo de que
precisava, Ophlie no foi capaz de lhe dar.
Sentia-se melhor agora, depois do vero na praia,
e esperava melhorar ainda mais nos meses
seguintes. Tinha se sentido muito desconectada
nos ltimos dez meses, mas as ligaes estavam
se formando aos poucos. O rob estava quase
humano de novo, mas no totalmente. Porm
havia claras indicaes de volta  vida, at mesmo
o fato de ter convidado Matt para jantar e propor-
se a fazer amizade com ele era um bom sinal.
-- E voc? -- ela perguntou com curiosidade. --
Tem muitos amigos na cidade?
-- Nenhum -- ele falou com um sorriso. -- Tenho
me sado mal nessa rea, h quase dez anos.
Minha mulher e eu tnhamos uma agncia de
publicidade e nos divorciamos com muita briga.
Vendemos a empresa e eu decidi vir para c. Na
poca, morava na cidade e alugava um bangal
aqui para pintar nos fins de semana. E quando
achei que as coisas no podiam piorar ainda mais,
pioraram. Ela foi morar na Nova Zelndia, e eu ia
l sempre para ver meus filhos, o que foi bem
difcil, porque eu no tinha um lugar certo para
ficar. Eu me hospedava num hotel e cheguei a
alugar um apartamento, mas senti que estava
sobrando.
Ela se casou h uns nove anos com um sujeito
timo, amigo meu, que gostava muito dos meus
filhos e eles eram loucos por ele. Tinha muito
dinheiro e enchia as crianas de brinquedos. J ti-
nha quatro filhos e teve mais dois com Sally. Os
meus adaptaram-se completamente a essa famlia
combinada e adoraram. No posso culp-los, 
algo bem fascinante.
"Depois de algum tempo, sempre que ia a
Auckland, eles no encontravam tempo para me
ver, queriam ficar com os amigos. Como dizem, eu
me senti um peixe fora d'gua.
Ela sorriu ao ouvir aquela expresso e entendeu o
sentimento. s vezes sentia-se como um fio de
cabelo na sopa na vida ocupada e cientfica de
Ted. Deslocada. Suprflua, a no ser como uma
posse sua, mas desnecessria. Intil,
-- Deve ter sido difcil para voc -- falou em tom
consolador, comovida com a tristeza em seus
olhos. Ele conhecera o sofrimento e sobrevivera.
Tinha se adaptado  situao, mas, como todo
mundo, havia pago um preo. Muito alto.
-- Foi difcil, sim -- disse com sinceridade. --
Muito. Fiquei indo e vindo da Nova Zelndia
durante quatro anos. As ltimas vezes em que
estive l mal os vi, e Sally disse que eu estava
atrapalhando a vida deles. Sugeriu que eu s
deveria ir quando eles quisessem me ver, o que
naturalmente era quase nunca. Eu telefonava
muito e eles estavam sempre ocupados. Passei a
escrever, mas no respondiam. Os dois tinham 7 e
9 anos quando ela se casou de novo, e Sally teve
mais dois filhos nos dois primeiros anos do
casamento. Meus filhos foram tragados pela nova
famlia. Senti, de certa forma, que estava tornando
as coisas mais difceis para eles. Analisei a fundo a
situao e fiz uma coisa provavelmente idiota --
escrevi perguntando o que eles pretendiam fazer.
Nunca recebi resposta. No tive notcias dos dois
durante um ano, mas continuei escrevendo.
Imaginei que se quisessem me ver pediriam para
que eu fosse. E devo confessar que bebi muito
naquele ano. Escrevi para eles durante trs anos,
sem resposta alguma. Sally me disse em termos
claros que eles no queriam mais me ver mas
tinham medo de dizer. Isso ocorreu h trs anos, e
desde ento nunca mais escrevi. Finalmente
desisti. No tenho notcias h seis anos. Meu nico
contato com eles  a penso que ainda mando
para Sally. E o carto de Natal que ela me manda
todo ano. Nunca quis confront-los a esse respeito.
Eles sabem onde eu estou se quiserem entrar em
contato. Mas s vezes penso que devia ter ido l e
discutido o problema com eles. No queria pr os
meninos numa situao difcil. Sally foi muito
enftica quanto aos sentimentos dos dois. Eles
tinham apenas 10 e 12 anos quando os vi pela
ltima vez, mais ou menos a idade de Pip agora, e
 uma poca difcil para juntar coragem e dizer ao
pai para ele desaparecer. O silncio deles disse
isso. Foi o suficiente. Eu compreendo. Ento ca fora.
"Escrevi umas cartas muito patticas para eles durante anos, antes de desistir. Nenhum
dos dois respondeu. Ainda escrevo de vez em quando, mas nunca envio as cartas. No
acho justo pression-los. Mas sinto uma falta louca deles. Creio que nem existo mais para
meus filhos. Conversei com Sally e ela disse que  melhor assim. Falou que esto felizes
e no me querem em sua vida. Eu nunca fiz nada errado, a meu ver, mas eles no
precisam mais de mim. O padrasto  um grande sujeito. Eu mesmo gosto dele, ou gostava.
Fomos timos amigos durante anos, antes de Sally e ele se juntarem. Essa  a histria dos
meus filhos e dos meus ltimos dez anos. Dos ltimos seis anos sem eles. Ela me manda
fotos com o carto de Natal para que eu veja como os dois esto. No tenho certeza se
isso  melhor ou pior. s vezes  melhor, s vezes, pior. Sinto-me como uma dessas
pobres mulheres que tm um beb e por alguma razo tem de abrir mo dele. Tudo que
me resta so fotos uma vez por ano. Sally manda os cartes de Natal com as oito crianas,
as dele, as minhas e as deles. Em geral, eu choro quando olho a foto. -- Disse isso sem
muito constrangimento. Eles j sabiam muita coisa um do outro agora. -- Mas no
procurei mais os dois. Acho que  disso que eles precisam, ou querem, ou o que ela me
diz que precisam.
"Robert        j tem 18 anos. Daqui a pouco vai entrar na faculdade, provavelmente l.
Eles tm uma vida muito boa em Auckland. Hamish  dono da maior agncia de
publicidade daquela parte do mundo. Sally trabalha com ele, como fazia comigo. Ela 
uma mulher muito competente. Corao duro, mas muito criativa. E uma boa me, creio.
Sabe do que as crianas precisam. Provavelmente melhor do que eu. Nem os conheo
mais. No tenho certeza se os reconheceria na rua, o que  difcil admitir. Isso  o pior de
tudo. Tento no pensar sobre o assunto. Deixo as coisas como esto, para o bem deles.
Sally me escreveu uns anos atrs perguntando como eu me sentiria se Hamish adotasse
meus filhos. Quase morri de desespero. No me importo se no me querem na sua vida,
mas ainda so meus filhos. E sempre sero. No concordei. Tive poucas notcias dela a
partir da, a no ser no Natal. Antes nos falvamos de vez em quando. Acho que eles
gostariam que eu fosse embora para algum lugar e desaparecesse, e eu de certa forma fiz
isso. Estou fora da vida deles e da vida de qualquer outra pessoa. Vivo tranqilamente
aqui, mas levei muito tempo para superar tudo que houve de errado entre mim e Sally e a
perda dos meus filhos para Hamish.
Era uma histria agoniante, mas muito elucidativa, e explicava muita
coisa sobre ele. Como ela, Matt tinha perdido quase tudo que lhe importava: a empresa, a
mulher e os filhos. E passara a viver como um ermito. Ela pelo menos tinha Pip, e dava
graas a Deus por isso. No podia imaginar a vida sem a filha.
-- Por que seu casamento acabou? -- Ophlie
sabia que estava sendo indiscreta, mas aquela pea estava faltando para comple-
tar o quadro todo, e sabia que se ele no quisesse no responderia. Depois de tudo que
tinham contado um para o outro, eram amigos agora.
Matt suspirou um instante antes de responder.
--    uma histria clssica. Hamish e eu fomos para a faculdade juntos, depois ele voltou
para Auckland e eu fiquei em Nova York. Ns dois abrimos agncias de publicidade e
formamos uma espcie de aliana indefinida um com o outro. Dividamos alguns clientes
com interesses internacionais, indicvamos clientes um para o outro, tnhamos algumas
contas grandes juntos. Ele ia a Nova York vrias vezes por ano, e ns amos l. Sally era a
diretora de criao da nossa agncia, era o crebro do negcio, e tambm cuidava da
administrao e conseguia a maior parte dos clientes. Eu era o diretor de arte. Fazamos
uma combinao quase imbatvel, e tnhamos alguns dos maiores clientes no ramo.
Hamish e eu ficamos amigos, e ele, a mulher, Sally e eu passamos vrias frias juntos.
Basicamente na Europa. Fizemos um safari em Botsuana uma vez. E alugamos um castelo
na Frana num vero fatdico. Eu tive de voltar mais cedo e a me da mulher de Hamish
morreu inesperadamente e ela voltou para Auckland.
Ele ficou na Frana com Sally e com nossos filhos.
Para resumir a histria, Hamish e Sally se
apaixonaram. Quatro semanas depois ela voltou
para casa e disse que ia me deixar. Estava
apaixonada por Hamish, e tinham decidido ver no
que dava. Precisava se afastar de mim para pesar
as coisas. Precisava de espao e de tempo. Essas
coisas acontecem, creio eu. Com algumas pessoas.
Ela disse que nunca tinha sido realmente
apaixonada por mim, que ramos apenas uma
grande equipe profissional e que teve filhos
porque era isso que se esperava dela. Algo horrvel
para falar sobre nossos filhos e sobre mim, mas
acho que ela foi realmente sincera. Sally no 
conhecida por sua sensibilidade quanto aos
sentimentos dos outros, provavelmente por isso
tem tanto sucesso.
"Hamish foi para casa e contou a mesma histria
para a mulher, Margaret, e o resto simplesmente
aconteceu. Sally saiu do apartamento de Nova
York com as crianas e foi para um hotel.
Ofereceu-se para vender sua parte da agncia
para mim, mas eu no tinha vontade de continuar
a trabalhar sem ela, nem de encontrar um novo
scio. No tive coragem. Ela me destruiu e levei
algum tempo para me levantar. Vendemos a
agncia toda para um grande conglomerado. Foi
um timo negcio para ns dois, e tudo que me
restou depois de um casamento de 15 anos foi um
monte de dinheiro, sem mulher, sem trabalho e
sem filhos, que se mudaram para aquele fim de
mundo. Ela me deixou no Dia do Trabalho, e eles
se mudaram para Auckland um dia depois do
Natal. Casaram-se assim que saiu o nosso divrcio.
Eu acreditava que se a deixasse livre, sem ser
pressionada, ela voltaria para mim. Uma loucura
pensar assim. Mas somos todos loucos e idiotas s
vezes.
"Quando Sally foi embora, minha cabea ainda
estava girando. Creio, minha amiga, que isso
responde     s    suas   perguntas     sobre   meu
casamento. O pior de tudo  que ainda acho
Hamish Green um grande sujeito. No um grande
amigo, veja bem, mas  um homem brilhante,
divertido, agradvel. Ao que imagino, os dois so
muito felizes. E a agncia deles est prosperando.
De fora, Ophlie podia ver que Matt tinha sido
passado para trs pela mulher, pelo melhor amigo
e talvez at mesmo pelos filhos. Tinha ouvido
histrias assim ao longo dos anos, mas nenhuma
to terrvel quanto essa. Ele perdeu tudo, a no
ser seu dinheiro, o que parecia no importar muito
para ele. Agora s queria uma vida tranqila em
um bangal na praia de Safe Harbour. Alm disso,
e do seu talento, no lhe restava absolutamente
nada. Era horrvel o que tinham feito com ele. S
de pensar, ficava sem fala, morta de pena.
--  uma histria horrvel -- disse ela, franzindo a
sobrancelha. -- Absolutamente espantosa. Odeio
os dois, s de ouvir voc contar. Mas no as
crianas. Eles so vtimas disso tudo, como voc
foi. Foram obviamente manipuladas para se
afastar e esquecer de voc. Era obrigao de sua
mulher ajud-los a manter um relacionamento
entre pai e filhos -- disse sensibilizada, e ele no
discordou.
Surpreendentemente, nunca tinha culpado os
filhos por sua desero. Eles eram muito pequenos
para saber o que estavam fazendo, e Sally sabia
ser muito convincente. Podia manipular qualquer
pessoa e deix-la confusa para sempre.
-- Sally no  assim. Ela queria se afastar de mim
e se afastou. Sempre conseguiu o que queria,
mesmo com Hamish. No tenho certeza de quem
foi a idia de ter mais filhos, mas conhecendo Sally
como conheo, creio que ela achou que seria uma
forma de prend-lo. Hamish  um pouco ingnuo
em certos sentidos, era uma das coisas que
gostava nele. Sally, no.  uma mulher fria e
calculista, e sempre faz o que  melhor para ela.
-- Ela parece ser uma mulher m -- disse Ophlie
de forma leal, o que o comoveu.
Contar sua vida para ela tinha sido difcil, e depois
de ele atiar o fogo de novo, os dois ficaram em
silncio por um tempo.
E depois disso? No houve mais ningum
importante para voc? -- Teria sido o nico
consolo possvel, mas no havia evidncia de uma
mulher em sua vida. Sua existncia parecia muito
solitria, ou pelo menos era a impresso que ele
dava. Podia ter havido algum,  claro, mas
achava que no.
No, realmente. Eu no estava em condio de me
envolver com ningum depois que Sally me largou.
Era uma pilha de nervos. Alm do mais, volta e
meia ia para Aucldand ver meus filhos, e no
estava disposto a me ligar a ningum. No
confiava em ningum, nem queria confiar. Jurei
que nunca mais confiaria. Gostei muito de uma
mulher h uns trs anos, mas ela era muito mais
moa que eu, queria se casar e ter filhos. Eu no
conseguia me ver passando por tudo isso de novo,
ou confiando em algum o suficiente para me pr
nessa situao. No queria me casar e ter filhos, e
correr o risco de me divorciar de novo e perd-los.
No via vantagem nisso. Ela estava com 32 anos e
eu com 44 naquela poca, e recebi um ultimato.
No posso culp-la. Mas tambm no quis me
comprometer. Sa discretamente, e ela casou-se
seis meses depois com um sujeito muito legal.
Tiveram seu terceiro filho neste vero. Mas eu no
consegui ir v-la. Espero entrar em contato com
meus filhos de novo um dia, quando estiverem
mais velhos. Mas no tenho desejo de constituir
outra famlia, nem me expor a esse tipo de
decepo. Passar por isso uma vez na vida foi o
suficiente.
Ophlie teve de admitir que poucas pessoas
teriam sobrevivido a tudo isso. Mas, de certa
forma, ele no sobreviveu. Por mais gentil e
carinhoso que fosse, era emocionalmente fechado,
sem pretender se abrir de novo, mas com razo.
Isso tambm explicava por que ele se abrira tanto
com Pip e fizera amizade com ela. Pip tinha quase
a mesma idade dos seus filhos quando os viu pela
ltima vez. E ele estava obviamente vido por
algum tipo de contato humano, mesmo que fosse
com uma menininha de 11 anos. Pip era uma
ligao segura para ele. No precisava investir
nela, a no ser em termos de amizade. No havia
nada de errado nisso, e Pip tambm preencheu
suas necessidades. Porm era uma sobrevivncia
emocional insuficiente para um homem de 47
anos. Ele merecia muito mais que isso, pelo menos
aos olhos de Ophlie. Mas no tinha coragem no
momento a no ser fazer amizade com uma
menina na praia, a quem podia ensinar a desenhar
algumas vezes por semana. Para um homem do
seu calibre e da sua capacidade, parecia uma
existncia medocre. Mas era claramente o que ele
queria.
-- E voc, Ophlie? Que tipo de casamento teve?
Tenho a impresso que seu marido no era uma
pessoa muito fcil. Os gnios em geral no so, ou
pelo menos  o que dizem.
Ophlie olhou-o com um ar meigo e resignado.
Pelo que ela contara sobre o relacionamento do
marido com o filho doente, seu falecido marido
certamente lhe dera muito trabalho. No estava
longe da verdade, embora ela quase nunca
admitisse isso para ningum, nem admitira
durante anos a si prpria.
-- Ele era um homem brilhante. Com uma viso
incrvel. Sempre sabia o que queria fazer, desde o
incio. S pensava em seu objetivo, e no deixava
que nada o detivesse. Absolutamente nada. Nem
mesmo eu ou as crianas, embora no
quisssemos atrapalhar seu trabalho. Fazamos
tudo que podamos para apoi-lo, ou pelo menos
eu fazia. E ele finalmente conseguiu o que queria,
teve tudo com que sempre tinha sonhado. Teve
um enorme sucesso nos seus ltimos cinco anos
de vida. Foi maravilhoso para ele. -- Mas no
necessariamente para ela e para os meninos, a
no ser em termos materiais.
E como ele era com voc no meio de tudo isso? --
Matt insistiu. Era bvio que ele tinha sido um
sucesso, mesmo para Matt que sabia to pouco
sobre isso. Tinha sido grande na sua rea. Mas a
verdadeira pergunta na sua cabea era como ele
era como ser humano e marido. Ophlie parecia
esquivar-se dessa pergunta.
Eu sempre o amei. Desde a primeira vez em que o
vi. Eu era to apaixonada por ele quanto uma
estudante. Sempre o admirei, sua mente brilhante,
sua viso nica. Ele era o homem que nunca
desistia de seus sonhos. Voc tem que admirar
algum assim. -- Se ele havia sido ou no um
homem difcil, nunca foi um obstculo para ela. Ela
aceitou tudo a respeito dele. Ela achava que ele
tinha o direito de ser assim.
E quais eram seus sonhos?
Casar com ele -- disse com um sorriso triste. --
Era tudo o que eu queria. Quando ele se casou
comigo, achei que tinha morrido e ido parar no
cu. Mas foi difcil em alguns momentos. Houve
muito tempo em que no tnhamos dinheiro
algum. Lutamos durante 15 anos, depois ele
ganhou tanto dinheiro que no sabamos como
us-lo. Mas isso nunca importou muito para ns,
ou pelo menos para mim. Eu amava Ted tambm
quando ramos pobres. Seu dinheiro nunca me
impressionou. A ele, sim. -- Ted tinha sido o sol e
a lua para ela, juntamente com seus filhos.
Seu marido passava muito tempo com voc e com
as crianas? -- Matt perguntou com toda a calma.
s vezes. Quando podia. Vivia muito ocupado,
fazendo coisas muito mais importantes. -- Era
bvio que ela o idolatrava. Provavelmente muito
mais do que ele merecia.
O que pode ser mais importante do que a mulher e
os filhos? -- disse ele com simplicidade, pois era
diferente de Ted em vrios sentidos.
E ela anos-luz diferente de Sally. Ophlie era tudo
que Sally no era. Meiga, boa, decente, honesta,
compassiva. Estava entregue  sua prpria
infelicidade no momento, mas mesmo assim dava
para ver que no era uma pessoa egosta. Estava
perdida e sofrida, o que era diferente. Ele sabia
bem disso. Tinha estado assim tambm. O
sofrimento podia tomar conta da pessoa
completamente, o que explicava por que ela dava
to pouca ateno a Pip. Mas tinha conscincia
disso e se repreendia por sua atitude.
-- Os cientistas so pessoas muito difceis --
Ophlie explicou, tolerante. -- Tm necessidades
diferentes, percepes diferentes, capacidade
emocional diferente dos outros. Ted no era um
homem comum.
Mas, apesar de suas desculpas, Matt no gostou
do que ouviu. Achava o falecido Dr. Mackenzie
narcisista e egocntrico, e possivelmente um
pssimo pai. E tinha suas dvidas se fora um
marido decente. Se no foi, Ophlie no estava
preparada para ver ou admitir isso. Morte era
diferente de divrcio, Matt tambm sabia, o
marido que falecia passava a ser um santo.
Tornava-se difcil lembrar os defeitos e as falhas
de algum que morrera. No divrcio, a nica
lembrana eram os erros cometidos. E ao longo do
tempo os defeitos pareciam maiores e piores.
Quando um cnjuge morria, o outro lembrava-se
da melhor parte, e exaltava suas qualidades
tornando a ausncia ainda mais cruel. Matt sentiu
pena dela.
Os dois conversaram muito naquela noite, sobre
infncia, casamento e filhos. O corao dela doa
cada vez que pensava na separao de Matt dos
filhos, e quando ele tocava no assunto dava para
ver, pelo seu olhar, o quanto isso lhe custara.
Quase sua sanidade mental, a certa altura, e com
o tempo sua f na humanidade e desejo de
conviver com as pessoas, especialmente uma
mulher. Era um alto preo a pagar por dois filhos e
um casamento que ele perdera dez anos atrs.
Ophlie suspeitava que sua ex-mulher roubara as
crianas dele, havia sido mais isso do que algum
tipo de manipulao. Era difcil acreditar que, sem
um estmulo ou empurro dela, crianas daquela
idade decidissem que no queriam mais ver o pai.
Tinha havido um jogo sujo em algum momento,
mas Matt no falou muito mais sobre isso e
parecia no querer entrar em guerra com ela. A
seu ver, ele tinha perdido a batalha e pelo menos
por enquanto tudo estava terminado. S esperava
ver os filhos de novo algum dia. Uma esperana
distante na qual pensava s vezes, mas no vivia
mais em funo disso. Vivia o dia-a-dia, e estava
contente com sua existncia simples na praia. Safe
Harbour era seu refgio.
Matt estava quase saindo quando lhe ocorreu fazer
uma pergunta a Ophlie, que estava na sua
cabea  noite toda.
Voc gosta de velejar, Ophlie? -- perguntou com
cuidado, esperanoso. Alm da arte, velejar fora
sempre uma de suas paixes. E se encaixava bem
em sua natureza solitria.
No velejo h anos, mas quando era criana amos
para a Inglaterra no vero e eu adorava sair de
barco. E velejei tambm em Cape Cod quando
estava na faculdade.
Eu tenho um barquinho  vela na lagoa que uso de
vez em quando. Teria muito prazer em levar voc
para um passeio, se voc quiser.  um barco
velho, de madeira, muito simples, que eu mesmo
restaurei quando me mudei para c.
Eu adoraria ver o barco, e seria divertido sair com
voc um dia desses -- Ophlie falou muito
entusiasmada.
Vou telefonar na prxima vez em que for velejar --
ele disse, contente de saber que ela gostava de
barcos. Mais uma coisa que tinham em comum, e
ele podia imaginar que seria divertido estar na sua
companhia. Ela era viva e brilhante, do tipo cheio
de energia, e seus olhos se iluminaram quando ele
mencionou o barco. Ophlie e Ted tinham sado na
baa umas duas vezes com amigos, mas ele no
gostou. Reclamou amargamente do frio e da
umidade, e enjoou a bordo. Ela, no, e embora no
tivesse dito isso a Matt, era uma excelente
marinheira.
J havia passado da meia-noite quando ele saiu,
depois de uma noite muito boa para ambos. Um
contato humano e caloroso to necessrio para
eles, embora no tivessem conscincia disso. No
mnimo, precisavam fazer amizade, e tinham feito.
Era a nica coisa em que ainda confiavam.
Amizade. Pip fizera um grande favor juntando-os.
Ophlie desligou a luz depois que Matt saiu, foi
devagarinho ao quarto de Pip e sorriu ao v-la
dormindo ali. Mousse dormia ao p da cama e nem se mexeu quando
Ophlie se aproximou. Ajeitou os cachos vermelhos e macios de Pip e abaixou-se para
beij-la. Outra pea do rob desmantelara-se naquela noite, emergindo aos poucos a
mulher que ela tinha sido um dia.
                                   Captulo             8
QUANDO OPHLIE voltou           para o grupo naquela semana, mencionou que tinha visto
Matt e que eles haviam tido uma tima noite, o que trouxe  tona o assunto de namoro
entre alguns deles. O grupo era constitudo de 12 pessoas, de 26 a 83 anos. O elo comum
entre todos era a perda de uma pessoa querida. O elemento mais jovem do grupo perdera
o irmo em um acidente de carro. O mais velho perdera a esposa de 61 anos. Eram
maridos, esposas, irmos e filhos. Em termos de idade, Ophlie encontrava-se mais ou
menos no meio, e algumas histrias eram realmente de cortar o corao. Uma jovem
perdera o marido, de enfarte, aos 32 anos, oito meses depois de terem se casado, e estava
grvida. Tinha acabado de ter o beb e passava a maior parte do tempo no grupo,
chorando. Uma me vira o filho morrer engasgado com um sanduche de manteiga de
amendoim, sem conseguir fazer nada. O po com manteiga de amendoim era macio
demais e no respondeu  manobra de Heimlich para forar o menino a cuspi-lo. Alm da
tristeza, ela lutava contra a culpa de no ter sido capaz de salvar o filho. Todas as histrias
eram profundamente tocantes. A de Ophlie tambm. Ela no era a nica a ter sofrido
uma perda dupla. Uma mulher de aproximadamente 60 anos perdera seus dois nicos
filhos para o cncer, com trs semanas de intervalo. Outra perdera o neto de 5 anos,
afogado na piscina dos pais. Estava cuidando dele e encontrou-o morto ali. Culpava-se
tambm pelo que acontecera, e sua filha e seu genro no falavam com ela desde o dia do
enterro. Tragdias em abundncia. A matria com a qual a vida real  feita e destruda.
Nada daquilo era fcil para nenhum deles. O grupo se ligava pelo sofrimento, pela perda e
pela compaixo mtua.
Ophlie falou sobre a perda de Ted e Chad durante
um ms, mas deu poucos detalhes sobre seu
casamento, a no ser que a seu ver tinha sido
perfeito. Falou sobre o transtorno de Chad e o
conseqente estresse de todos, particularmente
de Ted, que no aceitava a doena do filho. Ela
mal percebia a tenso que essa negao havia lhe
causado, tentando melhorar a distncia entre pai e
filho e mantendo Pip feliz.
O assunto de namoro no lhe interessou quando
foi discutido. Ela dizia h um ms que no tinha
inteno de se casar de novo, nem de namorar.
O homem de 83 anos comentou que ela era moa
demais para abrir mo de uma vida romntica, e
apesar do seu grande sofrimento pela perda da
esposa disse que esperava sair com outras
mulheres at encontrar uma que lhe agradasse.
No teve vergonha de admitir que estava
procurando.
-- E se eu viver at os 95 ou 98 anos? -- disse em
tom otimista. -- No quero ficar sozinho at l.
Quero me casar. -- Todos os sentimentos eram
expostos com clareza ali. Nada era chocante nem
tabu. Todos no grupo tentavam ser sinceros. Pelo
menos, sinceros como eram consigo mesmos.
Alguns admitiam que tinham sentido raiva dos
seus entes queridos por terem morrido, o que era
uma fase normal do processo de luto. Cada um
tinha de trabalhar o aspecto do sofrimento contra
o qual lutava no momento. At ento, Ophlie
vivia afundada na depresso. Mas naquela semana
todos notaram que ela parecia melhor, o que foi
confirmado, e ela disse tambm que tinha medo
de voltar ao estado anterior. Falou que queria
arranjar um emprego depois do vero, pois
acreditava que o trabalho pudesse ajud-la.
Quando mencionou isso, Blake, o lder do grupo,
perguntou que tipo de emprego ela queria, mas
Ophlie admitiu que no sabia. Tinha sido indicada
para esse grupo pelo seu mdico quando disse que
no conseguia dormir  noite depois da morte de
Ted e Chad. De incio, ficou relutante em participar
e levou oito meses para se decidir. Passou ento a
dormir muito e a comer pouco. Ela prpria sabia
que estava seriamente deprimida, e que seria
difcil sair dessa se no tomasse alguma
providncia. Foi difcil reconhecer que no
conseguia resolver seus prprios problemas,
sozinha. Mas ningum do grupo conseguia. Os
mais inteligentes pelo menos tentavam melhorar,
e, apesar do seu ceticismo inicial, Ophlie teve de
admitir que o grupo tinha feito diferena na sua
vida, logo depois de um ms. Pelo menos havia
outras pessoas com os mesmos problemas para
conversar. Tornava o processo um pouco menos
solitrio, e ela sentia-se menos anormal quando
considerava seus sentimentos e pensamentos.
Podia contar a eles, sem vergonha, que se sentia
desligada de Pip, e que entrava a toda hora no
quarto de Chad para se deitar na sua cama e
cheirar seu travesseiro. Os outros faziam coisas
semelhantes, e passavam por vrios graus dos
mesmos problemas, com cnjuges, filhos ou at
mesmo pais. Uma mulher teve de admitir que no
conseguia fazer sexo com o marido h um ano,
desde que o filho morrera. Ophlie ficava
impressionada com as coisas que eles se
dispunham a dizer uns aos outros, sem vergonha.
Sentia-se segura no meio deles.
A meta do grupo era curar as mgoas, emendar o
corao partido e lidar com assuntos prticos da
vida diria. As primeiras perguntas que Blake fazia
a cada um deles toda semana eram "Voc est
comendo? Est dormindo?" No caso de Ophlie,
muitas vezes perguntava se ela tinha tirado a
camisola ao acordar e vestido uma roupa depois
do ltimo encontro deles. s vezes o progresso era
medido por coisas to pequenas que ningum de
fora do grupo teria notado. Mas cada um sabia
como era difcil dar os primeiros passos e que fazia
diferena quando finalmente conseguiam. Eles
comemoravam as vitrias e solidarizavam-se com
as angstias mtuas. E dava para saber logo que
aqueles que teriam sucesso eram os que se
dispunham a passar pela agonia de seguir adiante.
O processo no era nada fcil, e o prprio
compromisso de freqentar o grupo significava
alguma coisa. Os sofrimentos examinados
estavam s vezes em carne viva, e depois de uma
reunio a dor piorava em vez de melhorar. Mas
lidar com esses sofrimentos fazia parte do
processo de cura. Muitas vezes dizer alguma coisa
em voz alta era engraado, outras vezes era
exaustivo. Ophlie percebera os dois lados da
moeda no ltimo ms, e na maior parte do tempo
ficava exausta, mas tambm grata. Quando pen-
sava nisso sabia que tinha sido muito ajudada,
bem mais do que esperava.
Seu mdico recomendara esse grupo especfico
porque Ophlie resistia  idia de tomar
antidepressivos e porque esse grupo era menos
formal que outros. Alm disso, ele tinha um
profundo respeito pelo seu coordenador, Blake
Thompson. Blake tinha uns 50 anos, trabalhava
com traumas emocionais havia quase vinte e tinha
doutorado em psicologia clnica. Era um homem
caloroso e prtico, pronto para tentar qualquer
coisa que funcionasse, e dizia ao grupo com
freqncia que no havia uma forma certa de
enfrentar o processo da dor. Desde que fizessem
tudo que funcionasse para eles, teria prazer em
apoi-los. E quando no funcionava, ele era
incansvel na ajuda, no encorajamento e nas
sugestes criativas. Sentia que algumas pessoas
que deixavam o grupo ampliavam mais seus
horizontes do que antes de sofrerem suas perdas.
Para tanto, sugerira lies de canto para uma
mulher que perdera o marido, lies de mergulho
para um homem que perdera a mulher em um
acidente de carro e um retiro religioso para uma
mulher que nunca acreditara em Deus e estava
tendo sentimentos religiosos profundos pela
primeira vez, desde a morte do filho nico. Tudo o
que ele queria para aquelas pessoas era que suas
vidas ficassem melhor do que antes de terem
aderido ao grupo. E durante vinte anos seus
resultados foram impressionantes. O grupo era um
desafio doloroso s vezes, mas para surpresa de
todos no era uma experincia deprimente. Blake
s pedia que os elementos do grupo tivessem
esprito aberto, fossem bons consigo mesmos e
respeitosos uns com os outros. O que era discutido
ali devia ser mantido em sigilo. Alm disso, exigia
um compromisso de quatro meses, era inflexvel a
esse respeito.
Embora alguns tivessem mais tarde se casado com
elementos do grupo, Blake desencorajava o
namoro enquanto participavam dele. No queria
que ningum se exibisse ou escondesse fatos para
impressionar o parceiro. Essa exigncia e a
privacidade do grupo tinham sido copiadas do
modelo de 12 passos, que ele achava proveitoso,
mas mesmo assim algumas pessoas acabavam
namorando antes de o grupo terminar. Mesmo
diante disso, ele lembrava que no havia um
"modelo correto" para novos relacionamentos ou
casamento.
Alguns esperavam anos para encontrar um novo
parceiro, outros nunca encontravam, nem queriam
encontrar. Alguns sentiam que precisavam de um
ano para namorar ou casar de novo, outros
casavam-se semanas depois da morte do cnjuge.
Para Blake, isso no significava que a pessoa no
tivesse amado o marido ou a mulher, significava
que se sentia pronta para continuar a viver e
assumir outro compromisso. E ningum tinha o
direito de julgar se aquilo era certo ou errado. "Ns
no somos a polcia da dor aqui", lembrava ao
grupo de tempos em tempos. "Estamos aqui para
nos ajudar e apoiar, no para fazer julgamentos."
E sempre contava para os grupos que tinha
escolhido esse campo especfico de trabalho
depois que perdeu a mulher e um casal de filhos
em um acidente de carro numa noite chuvosa de
inverno, e que pensara na poca que sua vida
estava terminada. Teve vontade de morrer. Cinco
anos depois,       casou-se com uma mulher
maravilhosa e eles tiveram trs filhos. "Eu teria me
casado mais cedo se a tivesse encontrado antes,
mas valeu a pena esperar", Blake dizia, com um
sorriso que sempre comovia aqueles que ouviam
sua histria. Um novo casamento no era o foco
do grupo, mas o assunto vinha  tona e se tornava
central para alguns, e sem interesse para outros,
muitos dos quais tinham perdido irmos, pais ou
filhos e eram casados. Mas todos concordavam
que a perda de um ser querido, especialmente um
filho, criava uma enorme tenso em um
casamento. Havia casais no grupo, mas em geral
um se dispunha a melhorar mais cedo que o outro,
era realmente raro sarem do buraco juntos. Mas
Blake desejava que isso ocorresse com freqncia.
Por alguma razo, o assunto de namoro tinha sido
muito abordado naquele dia, e Blake no teve
tempo de falar sobre a vontade de Ophlie de
arranjar um emprego. Era a segunda vez que ela
mencionava o assunto, e ele parou para conversar
com ela depois do grupo. Queria dar-lhe uma
sugesto. No sabia por que, mas tinha a
sensao de que sua idia seria perfeita para ela.
Ophlie ia bem no grupo at agora, por mais que
no acreditasse nisso. Vivia consumida de culpa
por no ter conseguido aproximar-se mais da filha,
e tinha medo de no conseguir to cedo. Blake
no queria que ela se culpasse por isso. O fato de
estar desligando-se de todos os seus entes
queridos era mais que normal, dizia ele. Se
estivesse sintonizada com eles, no seu caso com a
filha, seus sentimentos estariam abertos e toda a
dor que sentia com a sua perda viria  tona e a
afogaria. A nica forma de a sua psique manter a
agonia sob controle era desligar-se por algum
tempo, at no sentir mais nada por ningum. O
nico problema  que a filha sobrevivente era
deixada de lado nesse meio-tempo. Um problema
tpico, e ainda pior quando acontecia entre marido
e mulher. O ndice de divrcio era alto entre casais
que perdiam filhos. Em geral, quando se
recuperavam, viam que tinham perdido um ao
outro e que o casamento estava acabado.
Quando Blake falou com Ophlie depois do grupo,
perguntou se ela gostaria de trabalhar como
voluntria com os sem-teto. Matt lhe sugerira uma
coisa semelhante, e ela achou que talvez fosse
interessante e menos pesado trabalhar com os
sem-teto do que com doentes mentais. Ela sempre
teve grande interesse pelo bem-estar dos
desabrigados, mas nunca lhe sobrava tempo para
fazer alguma coisa quando Ted e Chad eram vivos.
Agora, s com uma filha em casa, tinha mais
tempo disponvel.
Reagiu com considervel entusiasmo, e Blake
prometeu lhe arranjar umas recomendaes de
servio    de   voluntariado   para        lidar         com
desabrigados. Ele era especialmente bom nisso.
Ophlie foi pensando no assunto enquanto voltava
para Safe Harbour. Tinha de levar Pip para tirar os
pontos naquela tarde. Assim que tudo terminou,
Pip pulou de alegria e quando chegou em casa
calou um tnis.
Como est se sentindo? -- perguntou Ophlie,
observando-a. Comeava a se divertir com a filha
de novo, e elas conversavam mais do que nos
ltimos tempos. No tanto quanto antes, mas as
coisas tinham definitivamente melhorado um pou-
co. Ficou pensando se suas conversas com Matt
tinham-na ajudado. Ele era um homem muito bom
e suave. E muito cuidadoso. Passara por tanta
coisa na vida que sentia empatia pelos outros, sem ser piegas. E
no havia dvida de que o grupo a ajudava tambm, e ela gostava das pessoas de l.
Muito bem. S di um pouco.
Bem, ento no exagere.
Ela sabia que Pip estava morrendo de vontade de se encontrar com Matt na praia. Tinha
um monte de desenhos para lhe mostrar.
-- Por que no espera at amanh? Provavelmente
j est muito tarde hoje -- disse Ophlie com bom
senso. s vezes podia ler os pensamentos de Pip,
mas durante meses no tinha tentado fazer isso. Estava
comeando a se ligar de novo a ela, e a filha gostou disso.
No dia seguinte, Pip saiu com o bloco e os lpis que ele lhe dera e dois sanduches em
uma sacola de papel pardo. Ophlie ficou tentada a ir junto, mas no quis se intrometer. A
amizade deles tinha vindo primeiro, a dela foi uma conseqncia e veio depois. Deu
adeus a Pip quando ela desceu para a praia, de tnis para proteger o p machucado. Mas
no foi correndo, como fazia geralmente. Estava um pouco mais cuidadosa, com medo de
sentir dor, e levou mais tempo para chegar ao ponto de encontro deles. Quando chegou,
Matt parou de pintar e deu um largo sorriso.
- Estava esperando que voc viesse hoje. Se no aparecesse, eu ia telefonar  noite.
Como vai o p?
-  Melhor. -- Estava um pouco dolorido depois da longa caminhada pela praia, mas ela
teria andado em cima de pregos e vidro modo para ver Matt. Sentia-se felicssima de
estar ali. E ele parecia igualmente contente em v-la.
-   Senti muito a sua falta -- disse, muito feliz.
-   Eu tambm. Detestei ficar em casa a semana toda. Mousse tambm no gostou.
- Pobrezinho, ele provavelmente precisava de exerccio. Eu me diverti muito com voc e
sua me naquela noite. O jantar estava delicioso.
- Bem melhor que pizza! -- disse, rindo.
Matt ajudara muito sua me naquela noite, e mesmo depois. Pip viu a me remexendo na
bolsa no dia anterior para pegar um batom velho, que usou quando foi  cidade. S ento
notou que fazia muito tempo que ela no se pintava, e gostou de ver sua melhora.
Estavam passando um bom vero em Safe Harbour.
--   Gostei da sua pintura -- comentou com Matt.
Ele tinha feito o esboo de uma mulher na praia, com uma expresso aflita. Ela olhava
para o mar, como se tivesse perdido alguma coisa. Havia um tom de ansiedade e
desconforto no quadro, quase trgico.
--    A mulher parece muito triste, mas  bonita.  a minha me?
--  Pode ser. Talvez ela tenha me inspirado, mas  s uma mulher.  mais um processo
de pensamento e sentimento que uma pessoa. Um pouco influenciado por um pintor
chamado Wyeth.
Pip meneou              a cabea solenemente, ouvindo bem o que ele dizia. Gostava
daquelas conversas, em especial sobre suas pinturas. Um instante depois sentou-se com
seu bloco e lpis perto dele. Gostava de estar ao seu lado.
As horas voaram como sempre, e eles tiveram pena de se separar no final da tarde. Por
Matt, ele ficaria sentado ali com ela para sempre.
-- O que voc e sua me vo fazer hoje  noite? --
perguntou casualmente. -- Pensei em ligar para
saber se vocs querem comer um hambrguer na
cidade. Eu mesmo faria os hambrguers,                                         mas sou um
pssimo cozinheiro e minhas pizzas congeladas acabaram.
Pip riu dos menus iguais dos dois.
--    Pergunto a mame quando chegar em casa e peo para ela ligar para voc.
--   Vou dar um tempo para voc chegar l, depois telefono. Mas quando Pip comeou a
andar pela praia, ele notou que ela estava mancando e chamou-a. Ela virou-se e ele lhe
disse para voltar. Era uma grande caminhada para quem tinha acabado de tirar pontos, e o
tnis incomodava no lugar da cicatriz. Ela aproximou-se devagar quando ele chamou.
-   Vou lhe dar uma carona para casa. Seu p no est parecendo muito bom -- ele disse.
- Eu estou bem -- ela falou com ar corajoso, mas Matt no estava mais preocupado se
sua me ia aprovar ou no.
- Se forar muito o p, no vai poder voltar amanh.
Era uma boa explicao, e ela seguiu-o de boa vontade pela duna e entrou no carro
estacionado atrs do bangal. Cinco minutos depois chegava em casa com ele. Matt no
saiu do carro, mas Ophlie o viu da janela da cozinha e saiu para cumpriment-lo.
-  Ela estava mancando -- explicou. --- Imaginei que voc no se importaria que eu a
trouxesse -- disse sorrindo.
-    claro que no. Foi muita gentileza sua. Obrigada, Matt. Como vai voc?
- Muito bem. Ia mesmo telefonar. Ser que posso aliciar vocs duas para jantar na cidade
hoje  noite? Hambrgueres e intoxicao. Ou talvez no, se tivermos sorte.
-  Uma boa idia. -- Ela no tinha pensado ainda no que ia fazer para o jantar. E embora
seu humor tivesse melhorado um pouco, o desinteresse culinrio continuava o mesmo.
Tinha se esforado ao mximo na noite em que ele foi jantar l. -- Tem certeza de que
no vai ser muito trabalho?
A vida era fcil e informal na praia, as refeies no eram um problema, no eram
importantes demais. A maioria das pessoas fazia churrasco, mas Ophlie no era boa
nisso.
-- Eu adoraria -- disse Matt. -- Que tal s sete? ---
Perfeito. Obrigada.
Ele se despediu e foi embora, e voltou
pontualmente duas horas depois. Pip tinha lavado
o cabelo para tirar a areia, a pedido da me, e o
cabelo de Ophlie tambm estava muito bonito.
Caa em longas ondas e cachos graciosos at os
ombros. E como smbolo do seu esprito
lentamente reavivado, usou batom. Pip adorou.
Jantaram em um dos restaurantes locais, o Lobster
Pot, e os trs pediram ensopado de marisco e
lagosta. Decidiram fazer uma bela refeio e
esquecer os hambrgueres, e ao sarem disseram
que tinham comido demais. Mas foi uma noite
divertida. Nenhum assunto srio veio  tona,
contaram histrias engraadas e piadas ruins, e
riram muito. Ophlie perguntou a Matt se ele
queria entrar quando chegaram, mas Matt ficou
apenas alguns minutos. Disse que queria trabalhar
um pouco. Depois que saiu, Ophlie comentou
com Pip de novo como ele era gentil, e ela virou-se
para a me com um risinho malicioso.
-- Voc gosta dele, mame? Voc sabe... como pessoa, quero dizer.
Ophlie pareceu assustada com a pergunta, sorriu e balanou a cabea.
- Seu pai foi o nico homem para mim. No posso imaginar viver com mais ningum. --
Tinha dito o mesmo para o grupo e brincaram com ela, mas Pip no teve coragem. Ficou
desapontada ao ouvir isso. Ela gostava de Matt. E no queria que sua me se zangasse,
mas seu pai nem sempre era legal com ela. Gritava e era mau s vezes, especialmente
quando discutiam por causa de Chad, ou de outras coisas. Ela amava seu pai, e sempre
amaria, mas achava Matt muito mais amvel e mais fcil de lidar,
-   Mas Matt  muito legal, no acha? -- perguntou esperanosa.
-  Acho, sim. -- Ophlie sorriu de novo, divertindo-se com a idia de Pip tentar arranjar
um namorado para ela, mas era bvio que Pip tinha uma quedinha por ele, ou um caso
srio de idolatria a um heri. -- Ele vai ser um bom amigo nosso, espero. Seria timo que
fosse nos ver quando estivermos de volta  cidade.
- Ele disse que vai nos visitar. E vai me levar para o jantar do Dia dos Pais na escola.
Lembra?
-  Lembro. -- Esperava que ele fosse mesmo. Ted nunca foi bom nessas coisas. Detestava
ir aos eventos esportivos dos filhos, ou a festividades da escola. No era do seu feitio, mas
ia quando no tinha outro jeito. -- Mas ele  provavelmente muito ocupado, Pip. -- Eram
as mesmas desculpas que sempre dera para Ted, e que a filha detestava ouvir. Havia
sempre uma desculpa por ele no poder estar presente em algum lugar.
- Matt disse que iria com certeza -- Pip falou com firmeza, olhando para a me com os
grandes olhos confiantes, e Ophlie desejou que ela no se desapontasse. Era impossvel
saber quela altura se a amizade deles iria durar, mas ela esperava que sim.


                                  Captulo             9
ANDREA APARECEU de novo duas semanas antes de Ophlie ir embora da praia. O beb
estava choramingando e resfriado, e ela disse que seus dentes estavam comeando a
nascer. No quis saber de Pip quando ela tentou segur-lo no colo. Queria a me e mais
ningum. Depois de algum tempo, Pip desceu para a praia. Ia posar para Matt naquele dia.
Ele queria fazer vrios esboos do retrato que prometera pintar para ela dar de presente 
me.
- Alguma novidade? -- Andrea perguntou quando o beb finalmente dormiu.
- Nada demais -- disse Ophlie relaxada, quando foram sentar-se ao sol.
Os ltimos dias dourados do vero tinham
chegado, e as duas aproveitavam a temporada
final na praia. Andrea achou o aspecto de Ophlie
bem melhor que nos ltimos meses. A temporada
em Safe Harbour lhe tinha feito muito bem. Uma
pena a amiga ter de voltar para a cidade e para as
lembranas tristes da sua casa.
- Como vai o pedfilo? -- Andrea perguntou com naturalidade. Sabia que tinham
finalmente feito amizade e estava curiosa para saber mais sobre ele. No o conhecia
ainda. Pela descrio de Pip, parecia ser bonito. Ophlie tinha dito muito pouco e Andrea
ficou intrigada. Mas no viu nenhum segredo nos olhos da amiga. Nenhuma mgica.
Nenhum plano cuidadosamente escondido. Nenhuma culpa. Ela parecia apenas relaxada.
- Matt  muito bom para Pip. Jantamos com ele na outra noite.
-  estranho para um homem sem filhos -- Andrea comentou.
- Mas ele tem dois filhos.
--- Ento faz sentido. Voc j os conheceu?
-   Eles moram na Nova Zelndia com a ex-mulher.
- Hum... Como foi isso? E ele odeia a ex-mulher? O estrago foi muito grande? -- Ela era
especialista na rea, e quela altura tinha visto de tudo. Homens enganados, extorquidos,
abandonados, tapeados, sacaneados, largados e que detestavam todas as mulheres a partir
de ento. Para no falar daqueles que eram sexualmente confusos mas continuavam
casados, daqueles que tinham perdido esposas absolutamente perfeitas, homens de meia-
idade que nunca tinham se casado e homens que se esqueciam de contar que ainda eram
casados. Mais velhos, mais moos, da mesma idade. Andrea tinha namorado todos. E
dispunha-se a ultrapassar muitos limites quando encontrava um homem de quem gostava.
Mesmo problemticos, os homens eram divertidos, por algum tempo. Mas queria sempre
saber qual era o defeito.
- Eu diria que o estrago foi bem grande -- disse Ophlie com sinceridade --, e tenho
pena dele. Mas isso no me diz respeito. Ele foi muito sacaneado pela ex-mulher. Ela saiu
de casa com seu melhor amigo e casou-se com ele. Forou Matt a vender sua empresa e
parece que afastou os filhos dele.
-  Oh, meu Deus, o que mais ela fez? Furou os pneus dele e ps fogo no carro? O que
ficou faltando?
- No muito, pelo visto. Ele vendeu a agncia de publicidade por muito dinheiro, acho
eu, mas creio que no d valor a isso.
-   Pelo menos explica por que ele  to amigo de Pip. Deve sentir falta dos filhos.
-  Sente, sim -- disse Ophiie, pensando nas coisas que ele contara na noite em que veio
jantar. Ela ficou morta de pena.
-- H quanto tempo se divorciou? -- Andrea tinha um olhar clnico, e Ophiie riu.
- H mais ou menos dez anos. Por volta disso. No v os filhos nem tem notcias deles h
seis. Eles o excluram,
-  Ento talvez ele seja pedfilo. Ou sua ex-mulher seja uma vbora.  mais provvel. Ele
teve algum relacionamento srio depois disso?
- Um. Mas ela queria se casar e ter filhos. E ele no. Acho que ficou muito magoado para
tentar de novo, e no tiro a razo dele. O que ele contou foi um verdadeiro horror.
- Melhor esquecer o sujeito -- falou Andrea num tom natural, sacudindo a cabea. --
Pode crer. Ele tem excesso de bagagem. Deve ser um poo de neurose.
- Ele  um bom amigo -- disse Ophlie com calma. Ela no queria outra coisa de Matt
seno amizade. No queria um relacionamento. Tinha Ted na cabea e no corao. No
queria mais ningum.
-  Voc no precisa de amigos -- Andrea falou, com seu senso prtico. -- Voc tem a
mim. Voc precisa de um homem na sua vida. E esse est muito danificado. J vi sujeitos
assim. Eles nunca mais se recuperam. Quantos anos ele tem?
-   Tem 47.
-   Que pena. Mas estou dizendo. Voc est desperdiando seu tempo.
- No estou desperdiando nada -- falou Ophlie com determinao. -- No quero um
homem na minha vida. Nem agora nem nunca. J tive Ted. No quero mais ningum.
-  Voc tinha problemas com ele, Ophlie, e sabe disso. No quero mexer em lembranas
ruins, mas houve um pequeno incidente h mais ou menos dez anos, se voc se lembra...
-- Os olhos das duas se encontraram e Ophlie desviou o olhar.
-   Foi s uma vez. Foi um acidente. Um erro. Ele nunca mais fez isso.
-  Voc no sabe. Talvez tenha feito. E se fez ou no  irrelevante. Ele no era um santo,
era um homem. Um homem muito, muito difcil, que criava problemas para voc s
vezes, como com Chad. Tudo se referia a ele. Voc  a nica mulher que conheo que o
teria agentado o tempo que agentou. Ele era um gnio, reconheo, mas por mais que
gostasse dele, e voc o amasse, sabia ser um filho-da-puta s vezes. A nica pessoa de
quem realmente gostava era dele mesmo. Ted no era exatamente perfeito.
-  Para mim era -- disse Ophlie obstinada, aborrecida com o que Andrea tinha dito,
fosse verdade ou no. Ele era difcil, mas homens geniais como ele tinham direito de ser,
ou pelo menos essa era sua opinio.
Andrea no concordava.
- Eu amei Ted durante vinte anos. E isso no vai mudar da noite para o dia, ou talvez no
mude nunca.
-  Talvez no. Eu sei que ele amava voc tambm, da maneira dele. -- Andrea disse isso
com gentileza, com medo de ter ido longe demais. Mas no diminuiu as crticas para a
amiga, nunca fazia isso. Achava que Ophlie precisara se libertar de Ted e de suas iluses
sobre ele para poder viver. Ophlie e Ted tiveram suas diferenas ao longo dos anos, e o
incidente ao qual ela se referiu, que Ophlie chamou de "erro", um caso que ele tivera
num vero, quando Ophlie e as crianas estavam na Frana. Foi uma total confuso. Ele
quase deixou Ophlie, e ela ficou arrasada. Andrea nunca soube bem se as coisas entre
eles tinham sido as mesmas depois. Era difcil dizer. Depois disso, Chad ficou doente e as
coisas pioraram entre eles. O caso que ele teve no ajudou em nada. Apesar de Ophlie
ter se disposto a perdo-lo. Foi uma liberdade que ele no s tomou como se permitiu.
Ted achava que podia fazer tudo.
- O verdadeiro problema no  se ele era bom ou ruim,  que ele se foi. E nunca mais vai
voltar. Voc est aqui, ele, no. Pode levar o tempo que precisar para se recuperar, mas
no pode ficar sozinha para sempre.
- E por que no? -- Ophlie perguntou com um ar triste. Ela no queria outro homem em
sua vida. Estava habituada com Ted. Familiaridade era parte disso. No conseguia
imaginar-se com outro homem. Vivera com ele desde os 22 anos e se casara aos 24. Aos
42 no conseguia se ver comeando tudo de novo. No queria. Era mais fcil ficar
sozinha. Matt chegara  mesma concluso. Ambos eram mgoas ambulantes, outra coisa
que tinham em comum.
-  Voc  muito moa para ficar sozinha -- disse Andrea com calma. Ela era a voz da
razo, e do futuro. Ophlie prendia-se inabalavelmente ao passado. E, de certa forma, um
passado que nunca existira, a no ser em seu corao e em sua imaginao. -- Precisa se
soltar com o tempo. Talvez ainda no. Porm, mais cedo ou mais tarde. Voc est no
meio da sua vida. No pode nem comear a pensar em ficar sozinha para sempre. 
ridculo, e um desperdcio.
-   No  desperdcio algum se for o que eu quero -- disse Ophlie, teimosa.
- Voc no quer isso. Ningum quer. S no quer sofrer explorando a vida. E dou razo a
voc.  podre l fora. Eu vivi l toda a minha vida adulta.  um horror. Mas algum vai
aparecer com o tempo. Uma pessoa boa. Talvez ainda melhor que Ted. -- No havia
ningum melhor na opinio de Ophlie, mas ela no discutiu com Andrea. -- Mas no
acho que seu pedfilo seja a resposta. Ele parece ter sido muito magoado. De qualquer
forma, acho que s vai servir como amigo. Nesse ponto voc est certa. Mas com o tempo
vai encontrar outra pessoa.
- Eu aviso quando estiver pronta, para voc deixar meu nome nas paredes dos banheiros
ou distribuir panfletos. Por falar nisso, h um homem no meu grupo que est desesperado
para voltar a casar. Talvez ele sirva.
-   Coisas muito estranhas acontecem. Vivas conhecem sujeitos em cruzeiros, em aulas
de arte, em grupos de sofrimento. Pelo menos vocs teriam muito em comum. Quem 
ele?
- O Sr. Feigenbaum.  um aougueiro aposentado, adora pera e teatro,  um timo
cozinheiro, tem quatro filhos adultos e 83 anos de idade.
- Perfeito. -- Andrea riu. -- Eu fico com ele. J vi que voc no est levando meus
conselhos a srio.
- No, mas agradeo sua preocupao.
- Voc ainda no viu nada. Vou ficar no seu p.
- Nisso eu acredito -- disse Ophlie levantando a
sobrancelha, com um ar muito francs.
Nesse momento, o beb acordou chorando.
Enquanto as duas conversavam no deque, l longe na praia Matt fazia esboos de Pip e
tirava dois rolos de filme em preto-e-branco. Estava animado com o retrato e prometera a
Pip que estaria pronto no aniversrio da sua me, provavelmente muito antes.
- Vou sentir sua falta quando for embora -- disse Pip, triste depois que ele a fotografou.
Adorava sentar-se ali para conversar e desenhar durante horas. Matt se tornara seu melhor
amigo.
- Tambm vou sentir sua falta -- disse com sinceridade. -- Vou visitar voc e sua me
na cidade. Mas voc vai estar muito ocupada com as amigas quando voltar para a escola.
-- Matt sabia que a vida dela seria mais movimentada que a sua. E ficou surpreso ao
constatar como se tornara dependente daquele contato quase dirio. Pip tinha feito
companhia a ele durante quase todo o vero.
- No  a mesma coisa -- disse Pip zangada. A amizade deles era especial, e ela confiava
nele. Matt se tornara seu confidente e seu melhor amigo, de certa forma o substituto de
seu pai. Um pai que Ted nunca tinha sido. Sob muitos aspectos, considerava-o melhor do
que ele. Ted no lhe fazia tanta companhia quanto Matt, nem era to bom para ela. Nem
para sua me. Estava sempre nervoso e se irritava facilmente, em especial com sua me
ou com Chad, no tanto com ela. Pip aprendeu a lidar com ele com cuidado. Seu pai a
assustava um pouco. Era mais gentil com Pip quando ela era menor, tinha boas
lembranas dessa fase, mas depois nem tanto. -- Vou sentir muito a sua falta -- disse,
quase em lgrimas s de pensar nisso. Ia detestar separar-se dele. E Matt ia detestar ver
Pip partir.
- Prometo que vou v-la sempre que voc quiser. Podemos ir ao cinema, ou almoar, o
que voc quiser, desde que sua me deixe.
- Ela gosta de voc tambm -- disse Pip  vontade,
sem contar qualquer segredo. Ophlie dissera isso
abertamente, e concordara que ele era um homem muito legal.
Por um instante, Matt se sentiu tentado a perguntar como seu pai era na realidade. Apesar
de tudo que Ophlie dissera, no fazia uma idia clara de Ted. A nica idia que
conseguia fazer era de um tirano difcil e provavelmente egosta, que por mais genial que
tivesse sido no era muito bom para a esposa. Ophlie o venerava claramente e fazia dele
um santo. Mas as peas do quebra-cabea no pareciam encaixar. Particularmente em
relao ao seu filho. Matt tambm achava que ele no passava muito tempo com Pip, ela
quase dissera isso nos incidentes e nas histrias que contava. E no passava muito tempo
com a esposa tampouco. Era difcil fazer uma idia clara. Agora que estava morto, a ten-
dncia normal era esquecer os aspectos desagradveis e exaltar o resto. Mas ele no
queria constranger Pip.
- Quando voc volta para a escola? -- perguntou finalmente.
- Daqui a duas semanas. No dia seguinte ao que chegarmos.
-- Vai estar ocupada -- ele disse para confort-la, mas ela continuou triste.
- Posso telefonar de vez em quando? -- perguntou, e Matt sorriu.
- Seria timo.
Pip foi um presente para ele, abrandava seu corao magoado h muito tempo. Fazia
alguma magia para preencher o buraco que ele sentia deixado pelos prprios filhos. E ele
fazia o mesmo por ela. Era de certa forma o pai que Pip nunca teve e gostaria de ter tido.
Ted era um homem inteiramente diferente.
Pip foi caminhando pela praia depois que arrumou suas coisas. Quando chegou em casa,
Andrea j estava saindo.
- Como vai o Matt? -- perguntou sua me quando Pip estava se despedindo de Andrea e
do beb.
-   Bem. Mandou lembranas para voc.
-   Lembre-se do que eu disse -- falou Andrea, e Ophlie riu.
-   Eu j falei. O Sr. Feigenbaum  que serve.
-  No conte com isso. Sujeitos assim casam-se com as irms ou as maiores amigas das
falecidas esposas em seis meses. Voc ainda estar tentando decidir o que fazer muito
depois de ele ter se casado.  uma pena ele ser to velho.
-   Voc no tem jeito -- disse Ophlie, abraando a amiga e beijando o beb.
-  Quem  o Sr. Feigenbaum? -- perguntou Pip curiosa. Ela nunca ouvira esse nome
antes.
- Um homem do meu grupo. Tem 83 anos e est procurando uma nova mulher.
-Pip arregalou os olhos.
- Ele quer se casar com voc?
- No. Nem eu quero me casar com ele. No se preocupe.
Pip teve vontade de perguntar se ela um dia se
casaria com Matt. Gostaria que isso acontecesse,
mas depois do que a me tinha dito recentemente,
sabia que no havia muita chance, Provavelmente
nenhuma. Mas pelo menos ele tinha dito que iria
visit-las na cidade, e esperava que fosse mesmo.
Pip e a me tiveram um jantar tranqilo naquela
noite, e Pip mencionou que Matt dissera que
telefonaria para ela s vezes.
- Ele queria saber se no tem problema para voc.
- Problema? -- disse Ophlie. Matt parecia confivel e provara ser um amigo. Ela no
tinha mais medo agora, e embora Andrea ainda se referisse a ele como "pedfilo", no se
preocupava mais com isso. -- Acho que seria bom. Talvez ele queira jantar l conosco
um dia.
-   Ele disse que nos levar para jantar ou para o cinema quando for  cidade.
-  Uma boa idia -- disse Ophlie, sem pensar muito no assunto enquanto colocava os
pratos sujos na mquina de lavar e Pip ligava a televiso. Uma amizade com Matt no era
o que Andrea queria para ela, mas servia. O vero em Safe Harbour fora um sucesso, e ela
e Pip tinham feito um novo amigo.




                                 Captulo            10
NO INCIO DA LTIMA semana, em um dia de sol deslumbrante, Matt telefonou para
Ophlie convidando-a para velejar com ele em um dia de sol maravilhoso. Os dois
ltimos dias tinham sido nublados, e todos estavam felizes de sentir a ltima exploso do
vero. Foi o dia mais quente do ano. To quente que Pip e Ophlie sentiram muito calor e
decidiram entrar para almoar. Estavam terminando os sanduches que Ophlie tinha
preparado quando Matt telefonou. Pip estava sonolenta por causa do calor. Tinha pensado
em ir ver Matt, mas estava quente demais para caminhar, e o sol queimava. Seria o
primeiro dia depois de muito tempo em que no se encontraria com ele. Mas achou que
ele tambm no estaria pintando na praia. O dia estava bom para nadar ou velejar, como
disse Matt quando telefonou para Ophlie.
--  Faz semanas que venho pensando em convidar voc -- disse, desculpando-se. No
podia explicar que andava ocupado demais com o quadro de Pip. -- Est to quente que
pensei em sair de barco  tarde. Voc gostaria de ir?
Ophlie achou uma boa                         idia. Estava quente demais para ficar no
deque ou na praia, e pelo menos no mar haveria uma brisa. O vento comeara a soprar,
por isso ele pensou em sair de barco. Tinha ficado em casa o dia inteiro pintando o quadro
de Pip, baseado em lembranas, fotos e esboos que fizera dela na praia.
- Acho timo -- disse Ophlie entusiasmada. Ainda
no tinha visto o barco, mas sabia que Matt o
adorava e tinha prometido que dariam uma volta
antes que ela fosse embora. -- Onde voc deixa o
barco?
- Est ancorado em um cais particular em uma casa junto da lagoa, perto de voc. Os
proprietrios nunca esto e no se importam que eu deixe o barco l. Dizem que d mais
charme ao lugar quando esto aqui. Mudaram-se para Washington no ano passado. Foi
uma boa oportunidade para mim. -- Informou o nmero da casa e disse para ela encontr-
lo l em dez minutos. Ophlie disse para Pip que ia velejar e ficou surpresa com sua
reao.
-  Voc vai ficar bem, mame? -- Pip perguntou preocupada. -- O barco  seguro? 
grande?
Ao ver seu olhar, Ophlie ficou comovida. Era
exatamente como se sentia com relao a ela. Tudo lhe parecia perigoso agora, por isso
ficou to aflita no incio do vero quando Pip desapareceu na praia. As duas s tinham
uma  outra. O perigo no era mais um conceito abstrato para ela, era real. E a tragdia
era uma possibilidade que sabiam que existia, pois mudara a vida das duas para sempre.
--   No quero que voc v -- disse Pip com uma voz assustada, enquanto Ophlie
tentava decidir o que fazer.
Elas no podiam viver eternamente com medo.
Talvez fosse uma boa idia mostrar que poderiam viver uma vida
normal, que nada de terrvel aconteceria. No via perigo algum em sair de barco com
Matt. Estava certa de que ele era um marinheiro extremamente competente. Tinham
conversado muito sobre a arte de velejar, e ele praticava esse esporte desde que era
garoto. H muito mais tempo que ela. Ophlie no velejava h pelo menos 12 anos. Mas
tinha alguma experincia tambm, em guas muito mais traioeiras que essas.
- Querida, acho que no h perigo algum. Voc pode nos ver daqui do deque. -- Pip no
pareceu sossegada, dava a impresso de que ia chorar. -- Voc no quer mesmo que eu
v? -- No tinha pensado nisso quando disse a Matt que iria. Podia pedir a Amy para
fazer companhia a Pip. Ela tinha acabado de entrar na casa. Ou ento Pip poderia ficar na
casa dela algumas horas, se Amy tivesse muita coisa para fazer.
- E se voc se afogar? -- Pip perguntou com a voz embargada. Ophlie sentou e puxou-a
carinhosamente para o seu colo.
- No vou me afogar. Sou uma boa nadadora. E Matt tambm . Vou pedir para ele levar
um colete salva-vida se voc fizer questo.
Pip considerou a idia por um instante e balanou a cabea, mais consolada.
--   Tudo bem. -- Pareceu um pouco aliviada, mas entrou em pnico em seguida. -- E se
um tubaro atacar o barco?
Ophlie no podia negar que havia tubares naquelas guas de vez em quando, mas no
tinha aparecido nenhum no vero inteiro.
--  Voc anda vendo muita televiso. Prometo que nada vai acontecer. Pode ficar nos
observando daqui. S quero dar uma volta com ele. Quer vir conosco? -- Na verdade,
Ophlie no queria que ela fosse pelas mesmas razes, que lhe pareciam bobas agora.
Mas Pip no gostava muito de ir para o mar. Barco  vela era uma distrao para ela, no
para a filha. Pip negou com a cabea assim que a me perguntou. -- Vou fazer uma coisa.
Vou pedir a Matt para voltarmos daqui a uma hora. O dia est bonito e voltaremos antes
que voc se d conta. Que tal?
-- Acho que est bem -- disse, com ar infeliz, e
Ophlie sentiu-se culpada. Mas queria muito
velejar com Matt e conhecer o barco, mesmo que fosse por uns minutos.
Estava dividida, mas parecia importante provar a Pip que podia sair e voltar sem que nada
de mal lhe acontecesse. Fazia parte do seu processo de cura.
Vestiu um short e uma roupa de banho e chamou Amy para cuidar de Pip. Amy prometeu
vir em poucos minutos, e assim que Ophlie acabou de se aprontar ela chegou. Na hora de
sair, Pip jogou-se nos seus braos e apertou-a com fora, e nesse momento Ophlie
percebeu como as mortes do pai e do irmo tinham sido duras para a fdha. Ela nunca
tinha se comportado assim antes. Por outro lado, Ophlie nunca tinha ido a lugar algum.
Passara a maior parte dos ltimos dez meses na cama, debulhada em lgrimas.
--   Volto logo, prometo. Se no estiver muito quente, fique nos olhando do deque. Tudo
bem? -- Beijou Pip e saiu o mais rpido possvel. Mousse ficou balanando o rabo e ela
foi andando pensativa pela rua at a casa onde Matt guardava o barco. O carro dele j
estava l, e ela o viu um instante depois colocando umas coisas no barco. Era um lindo
veleiro, em perfeitas condies. Dava para sentir como ele gostava do barco pela forma
como cuidava dele. Tudo a bordo tinha sido envernizado, os metais brilhavam e o casco
fora pintado de branco na primavera. O barco tinha s um mastro, de mais de 12 metros
de altura, uma vela grande e uma genoa, e bastante pano para seu tamanho. Tinha tambm
um pau de jiba curto, dando a impresso de que era maior que seus trinta ps, o motor era
pequeno e a cabine mnima, com teto to baixo que no dava para Matt ficar de p.
Chamava-se Nessie II, em homenagem  filha que ele no via h seis anos. O veleiro
pequeno e elegante era uma preciosidade, e Ophlie sorriu, admirando-o do cais.
-  Que barco lindo, Matt! -- disse com toda a sinceridade, louca para dar uma volta com
ele.
-  No ? -- Matt parecia contente. -- Eu queria muito que voc visse meu barquinho
antes de ir embora. -- E velejar com ela era melhor ainda. Estava ansioso para sair.
Ophlie tirou a sandlia e ele ajudou-a a subir a bordo. Ligou o motor e ela ajudou-o a
soltar os cabos. Um instante depois partiam em boa velocidade pela lagoa na direo do
mar. O dia estava perfeito para velejar.
-  Que veleiro lindo! -- disse Ophlie de novo, admirando todos os pequenos detalhes to
bem cuidados por ele nas suas horas de folga. Aquele barco era um dos encantos da sua
vida, e ele estava feliz de compartilh-lo com Ophlie. -- Quando foi construdo? -- ela
perguntou com interesse quando chegaram na barra da lagoa e ele dirigiu-se para o mar,
desligando o motor ao sentir a brisa forte. Por um instante, Ophlie saboreou o delicio so
silncio do veleiro, sentindo o oceano abaixo deles e o vento acima quando subiram as
velas. Matt podia manobrar o barco sozinho, mas Ophlie comeou a ajud-lo sem dizer
nada.
-   Foi construdo em 1936 -- respondeu com orgulho. -- Comprei-o h oito anos de um
homem que o comprou logo depois da guerra. Estava em bom estado, mas eu restaurei
muita coisa.
-   uma jia -- disse Ophlie, e ento lembrou-se do que prometera a Pip. Enfiou a
cabea na cabine e pegou um colete salva-vida que estava pendurado em um gancho. Matt
ficou surpreso quando viu Ophlie vesti-lo. Ela tinha dito que era uma tima nadadora e
que adorava velejar. -- Eu prometi a Pip -- disse, respondendo  pergunta em seus olhos.
Matt meneou a cabea, e nesse momento o vento bateu nas velas e eles ganharam
velocidade. Era uma sensao nica, o veleiro singrando as guas com uma graa
deliciosa. Os dois deram o largo sorriso tpico de marinheiros saboreando o prazer de
velejar em um dia perfeito.
-  Voc se importa se nos afastarmos um pouco? -- ele perguntou, enquanto Ophlie
sacudia a cabea denotando extrema felicidade. Ela no se importava, e eles se afastaram
da praia, deixando para trs a fileira de casas. Esperava que Pip estivesse vendo-os do
deque. Quando se sentou junto dele perto do leme, falou sobre a reao de Pip antes de
ela sair.
- Eu no tinha percebido como ela ficou nervosa depois... -- No terminou a frase e ele
compreendeu. Ophlie sentou-se com o rosto virado para o sol e fechou os olhos. Matt
no sabia bem qual era a viso mais linda, o veleiro que ele amava ou aquela mulher ao
seu lado.
Velejaram durante algum tempo em silncio at a praia desaparecer por completo.
Ophlie prometera a Pip que no ficaria fora muito tempo, mas era muito tentador
aproveitar o mar e deixar o mundo para trs. No se lembrava mais de como era
maravilhoso velejar em um lindo barco. Uma sensao completa de paz. No se importou
quando comeou a ventar mais forte. Matt alegrou-se ao ver que ela era realmente uma
marinheira, e que estava se divertindo tanto quanto imaginou que se divertiria.
Por um instante              Ophlie desejou ficar navegando eternamente. Estava com
uma sensao extraordinria de liberdade e de paz. No se sentia to feliz ou contente
assim h anos, e era timo compartilhar isso com Matt.
Passaram por inmeros barcos de pesca e
acenaram, e viram ao longe um navio de carga.
Seguiam na direo das Farallones quando Matt
debruou-se na borda e fixou o olhar em alguma
coisa a distncia. Ophlie olhou na mesma
direo, mas no viu nada. Talvez ele tivesse visto
uma foca ou um peixe grande, esperava que no
fosse um tubaro. Matt passou o leme para ela e
desceu para a cabine, pegou uns binculos e voltou. Olhou e de novo e
franziu a sobrancelha.
O que ? -- Ela no estava preocupada, s curiosa, com vontade de se livrar do colete,
mas tinha prometido a Pip e queria manter sua palavra, por princpio no por necessidade.
Pensei ter visto uma coisa um instante atrs -- ele disse. -- Mas acho que estava
enganado.
As ondas tinham subido um pouco, o que no a preocupou, mas ficou mais difcil ver. Ela
nunca tinha enjoado na vida, adorava o balano do barco, por mais forte que fosse.
--  O que pensou que fosse? -- perguntou com interesse, sentada ao seu lado.
Matt estava pensando em voltar, tinham ido parar muito longe, e j velejavam h mais de
uma hora, quase duas, com vento pelas costas.
-- No tenho certeza... parecia uma prancha de
surfe, mas est muito longe para isso, a no ser
que tenha cado de um barco.
Ophlie assentiu e ele acertou as velas, e quando
viraram ela viu a prancha e apontou para ele.
Pegou os binculos e viu um homem agarrado na
prancha. Acenou freneticamente para Matt, e ele
tirou depressa os binculos da mo dela. Os dois
desceram as velas, ele ligou o motor e partiu na
direo do que tinham visto o mais rpido
possvel. Baixar as velas no vento forte era mais
difcil que parecia.
Levaram vrios minutos para chegar at a
prancha, e ento viram que o homem agarrado
nela era quase um menino, estava semi-
inconsciente, com o rosto cinzento e os lbios
azulados. Era impossvel saber de onde tinha vindo
ou h quanto tempo estava ali, a quilmetros da
costa. Ophlie ajudou Matt a parar o barco no
vento quando ele desceu na cabine para buscar
uma corda grossa. O mar estava ficando mais
crespo, e Ophlie sentiu a garganta apertada ao
perceber que seria quase impossvel trazer o
menino para bordo. Pux-lo para fora da gua
seria uma tremenda faanha, mas colocar a corda
em volta dele seria ainda mais difcil. Quando se
aproximaram, viram, que o menino tremia
violentamente e olhava para os dois em
desespero.
-- Agente firme -- gritou Matt, percebendo que
se o garoto se mantivesse agarrado  prancha no
conseguiriam passar a corda em volta dele, e se
soltasse, poderia se afogar. Estava usando uma
roupa curta de mergulho, o que provavelmente
salvara sua vida at agora. Ao olhar para o garoto,
Ophlie calculou, com um n na garganta, que ele
devia ter uns 16 anos, a mesma idade de Chad. E
comeou a pensar que em algum lugar uma
mulher estaria prestes a perder um filho e a sofrer
uma dor inominvel. Mas no via como poderiam
salv-lo. Matt tinha um pequeno rdio a bordo,
mas, alm do cargueiro, a milhas de distncia, no
havia nenhuma embarcao  vista, e a Guarda
Costeira levaria muito tempo para chegar. Para
que o menino vivesse, eles mesmos teriam de
salv-lo. Mas, no havia como saber qual era seu
estado e h quanto tempo estava na gua. Era
bvio que no tinham muito tempo a perder. Matt
pegou na cabine um colete salvavida e fez uma
pergunta a Ophlie antes de mergulhar.
-- Voc consegue levar o barco de volta se for
preciso?
Ela fez que sim sem hesitao. Tinha velejado
sozinha na Inglaterra durante anos, quando era
garota, sempre em mar encapelado e condies
muito mais adversas que aquelas. Mas ele
precisava saber antes de deix-la sozinha a bordo.
Matt deu um lao na corda e mergulhou com ela, e
instintivamente o garoto agarrou-se nele e quase o
afogou     enquanto    Matt   tentava    enla-lo.
Conseguiu ficar por trs do menino, que se deba-
tia, j muito fraco, e Ophlie ficou assistindo 
cena terrvel. Pareceu uma eternidade pr a corda
debaixo dos braos dele e arrast-lo at o barco.
Ophlie viu como Matt era forte e que fazia um
esforo sobre-humano. Quando ele se aproximou
do barco com o menino gritou para ela, e ela
compreendeu. Matt jogou a ponta da corda e ela
milagrosamente conseguiu segur-la e prend-la
na catraca. Sabia o que tinha de fazer. A nica
pergunta era se seria capaz de fazer o que era
necessrio para salvar os dois. Tentou cinco vezes,
e j estava entrando em pnico quando finalmente
conseguiu iar o menino pela corda lentamente.
Ele mal tinha fora de se segurar na borda, mas
no importava, a corda estava firme por baixo dos
seus braos e ela puxou-o para dentro do barco,
quase sem vida. Estava semiconsciente e tremia
violentamente, e ela, enquanto olhava para Matt,
tirou a corda do menino e atirou-a para ele.
Apesar da movimentao da gua, ele segurou-a
sem esforo e foi iado pela catraca. Parecia um
milagre terem conseguido tirar o menino da gua
e traz-lo at o barco. Quando Matt avaliou a
situao, decidiu que seria mais rpido velejar. O
vento tinha virado e soprava com fora, e ele
achou que poderia chegar mais depressa na costa
com a vela. Iou as duas enquanto Ophlie pegava
um cobertor na cabine e cobria o menino, que a
encarava com olhos vazios. Ela conhecia aquele
olhar, tinha visto duas vezes em Chad quando ele
tentou suicdio. E com todas as foras do seu ser
prometeu a si mesma que salvaria aquele menino.
Ele obviamente sara na prancha de surfe e fora
levado para longe, provavelmente pela mar
vazante, e no teve possibilidade de voltar. Um
milagre os levara exatamente quele lugar,
naquela hora. Matt estava otimista quando se
dirigiu para a costa, e depois de um instante gritou
para Ophlie. pegar uma garrafa de conhaque na
cabine e fazer o garoto tomar um gole. Ophlie
sacudiu a cabea em tom negativo, e ele no
compreendeu. Falou de novo, achando que ela no
tinha entendido. Sem saber o que mais fazer, ela
enfiou-se debaixo do cobertor com o menino, que
tremia muito, e aconchegou-se a ele para que seu
prprio corpo o aquecesse e o mantivesse vivo at
chegarem  costa. Matt apontou para o leme e
entrou na cabine para falar no rdio. Contatou a Guarda Costeira em menos
tempo que esperava, e disse que tinha uma emergncia mdica a bordo e estava se diri-
gindo para terra. Achou que chegaria na costa antes que eles o alcanassem, e pediu que
paramdicos o esperassem l ou tentassem vir de lancha encontr-los, se fosse possvel.
Estavam no meio do caminho quando o vento comeou a amainar, e Matt abaixou as
velas de novo e ligou o motor. Era uma reta at a praia agora, a terra j estava  vista, e
Matt ficou olhando para Ophlie abraada ao menino. Ele estava inconsciente havia vinte
minutos e parecia quase morto. O rosto de Ophlie estava plido.
- Voc est bem? -- ele gritou, e ela fez que sim, lembrando-se de Chad. S pensava
agora em salvar aquele menino, para que sua me no tivesse de passar por tudo que ela
passara. -- - Como ele est?
-  Continua vivo -- disse, apertando-o contra o peito, encharcada debaixo do cobertor,
mas sem se incomodar com isso. O sol batia neles, e o prazer que tinham sentido
transformara-se em uma corrida contra a morte.
-  Por que no lhe deu o conhaque? -- Matt perguntou, tentando aumentar a velocidade
para chegarem mais rpido. Nunca tinha forado o barco tanto assim, mas o motor estava
resistindo.
-  Ele teria morrido -- ela disse, muito aflita, sentindo aquele corpo largado e frio nos
seus braos, mas percebendo que o pulso ainda batia. Ele no estava morto ainda. --
Teria levado toda a sua circulao para as extremidades, e ele precisa que o sangue v
para o corao. -- Apesar de as pernas dele parecerem feitas de gelo, o corao  que
precisava ser irrigado agora.
-  Graas a Deus voc sabia disso -- falou Matt, rezando em silncio para chegar na costa
a tempo.
Estavam quase na barra da lagoa, dentro de uns minutos teriam ajuda. Quando entraram
na lagoa ouviram sirenes e viram luzes na ponta da praia mais prxima deles. Sem hesitar,
Matt levou o barco para o cais de um desconhecido. Um bando de gente ficou olhando
quando seis paramdicos subiram a bordo e Ophlie rolou no cho e ficou de p no barco.
Estava soluando quando os viu examinar o menino e carreg-lo numa maca. Um deles
olhou para trs e levantou o polegar com ar vitorioso e um sorriso. O menino estava vivo.
Ophlie tremia violentamente, e Matt deu uns passos no barco e abraou-a com fora.
Ainda soluava quando dois homens saram de um carro do corpo de bombeiros e
subiram a bordo.
--  Vocs salvaram a vida daquele menino -- disse o bombeiro mais velho com
admirao. -- Algum sabe o nome dele?
Ophlie        balanou a cabea, Matt explicou o que tinha acontecido e eles fizeram
umas anotaes e lhes deram os parabns de novo. Meia hora depois o carro de
bombeiros foi embora, ento Matt ligou o motor de novo e dirigiu-se lentamente para o
cais. Ophlie estava comovida demais para falar, ficou sentada ao seu lado tremendo, e
ele passou o brao com firmeza em volta dos seus ombros.
--  Desculpe, Ophlie. -- Ele soube sem qualquer esforo em que ela estava pensando, e
o que tudo aquilo lhe causara. -- Eu s queria fazer um lindo passeio de barco com voc.
-- E fizemos. Salvamos a vida dele e o corao da
sua me. Se ele vivesse. Ningum podia ter
certeza ainda, mas pelo menos o garoto teve uma
chance. No teria nenhuma se eles no o tivessem
encontrado agarrado na prancha, que tinha sido
deixada l. Matt no quis perder tempo tentando
lev-la para bordo.
Os dois estavam exaustos quando amarraram a
Nessiell, guardaram tudo, trancaram a cabine e
saram. Matt ainda tinha de lavar o deque para
tirar toda a gua salgada, mas voltaria mais tarde.
Quando tudo terminou, viram que estavam fora h
cinco horas. Ophlie mal tinha fora para andar
quando saram do cais, e Matt levou-a de carro
para casa. Mas nenhum dos dois estava preparado
para o que encontrou. Pip soluava na cama e
Amy tentava confort-la, com ar desesperado. Vira
o barco desaparecer no horizonte, e como eles no
voltaram depois de duas horas convenceu-se de
que o pior tinha acontecido, o barco afundara e
sua me morrera afogada. Estava inconsolvel
quando Ophlie entrou no quarto e Matt ficou olhando apavorado junto da
porta.
Est tudo bem, Pip... tudo bem... eu j voltei... -- Ophlie dizia num tom carinhoso,
horrorizada de encontrar a filha naquele estado, sentindo-se de repente culpada por t-la
deixado ali. Tudo saiu diferente do que ela esperava, mas uma vida tinha sido salva.
Parecia a mo do destino eles terem sado naquele dia no barco de Matt.
-  Voc disse que ia voltar em uma hora! -- Pip gritou para a me, virando-se com os
olhos cheios de acusao e horror. Assim como Ophlie se desesperara ao ver aquele
menino morrendo e se lembrara de Chad, Pip tinha se convencido de que perdera sua
me.
-   Sinto muito... eu no sabia... aconteceu uma coisa.
- O barco virou? -- Pip pareceu ainda mais assustada quando Matt entrou no quarto e
Amy saiu discretamente. No sabia mais o que dizer para consolar Pip, e sentiu um alvio
enorme quando sua me apareceu.
- No, o barco no virou -- disse Ophlie com cuidado, puxando Pip para perto dela. Era
tudo que Pip precisava. No eram mais necessrias palavras. -- E eu usei o colete salva-
vidas conforme prometi.
-  Eu tambm -- disse Matt, sem saber se era bem-vindo ou um intruso naquela cena
entre a me e a filha angustiada.
- Ns encontramos um menino na gua muito longe da costa, agarrado em uma prancha
de surfe, e Matt salvou-o.
Pip arregalou os olhos ao ouvir aquilo.
-- Ns dois o salvamos -- Matt corrigiu. -- Sua
me foi fantstica. -- Estava agora ainda mais
impressionado com a calma e eficincia de Ophlie
do que na hora em que tudo aconteceu. Ele no
teria salvo o menino sem sua ajuda.
Os dois contaram toda a histria para Pip, e
Ophlie conseguiu juntar foras para tranqiliz-la.
Pouco depois, enquanto os trs tomavam um ch
quente, Matt telefonou para o hospital e disseram
que o estado do menino era srio, mas estvel. Ele
no sara ainda da fase crtica mas talvez
conseguisse escapar, e a famlia estava com ele no
Marin General Hospital. Matt ficou com lgrimas
nos olhos ao ouvir isso, e Ophlie fechou os olhos
por um instante. S conseguia pensar na tragdia
que fora evitada e sentia-se profundamente grata
por isso. Uma mulher que no conhecia tinha sido
poupada da tragdia e do desespero. Sentiu-se
agradecida por terem conseguido salvar o menino.
Quando Matt saiu, uma hora depois, Pip j estava
mais calma, mas disse que no queria que sua
me sasse para velejar nunca mais, nunca mais.
Era bvio que a tarde tinha sido traumatizante para
ela, que no sabia o que tinha acontecido. Disse que ouviu os carros com sirenes passarem
pela casa, e convenceu-se de que sua me e Matt estavam mortos. Tinha sido um dia
terrvel, e Matt desculpou-se de novo com as duas por isto ter acontecido. No tinha sido
fcil para ele, Ophlie sabia muito bem que Matt poderia ter se afogado enquanto tentava
tirar o menino da gua. Os dois poderiam ter morrido, e ela no poderia fazer nada para
ajudar. A tragdia no ocorreu por um triz, para alvio de todos. Assim que Matt chegou
em casa, telefonou para ela.
-- Como Pip est? -- perguntou, parecendo preocupado e exausto. Tinha voltado para
tirar a gua do barco, com muita dificuldade para erguer os braos, depois foi para casa e
se enfiou em uma banheira de gua quente durante uma hora. No tinha percebido at
ento como estava nervoso e com frio.
-- Est tima agora -- disse Ophlie                                  calmamente. Tinha
tomado um banho quente tambm e se sentia melhor, embora estivesse to cansada
quanto ele. -- Creio que no sou a nica por aqui que se preocupa mais do que  preciso.
Para Pip, o medo de perder a me se tornara seu pior pesadelo, e ela sabia melhor do que
ningum como era fcil acontecer isso. Nunca mais se sentiria inteiramente segura. De
certa forma, a inocncia da sua infncia terminara meses atrs.
-   Voc foi incrvel -- disse Matt gentilmente.
-  E voc tambm -- falou, ainda maravilhada com o que ele fizera, e com sua
determinao. No hesitara nem um instante em arriscar a prpria vida por um menino
desconhecido.
- Se eu algum dia planejar cair do barco, vou levar voc junto -- Matt falou com
admirao. -- E graas a Deus voc sabia sobre o conhaque, seno o menino estaria
morto. Eu teria despejado a bebida direto na garganta dele.
-  Foram muitas aulas de primeiros socorros e um curso preparatrio de medicina, seno
eu tambm no saberia. E acabou tudo bem, isso  que importa. -- Foi o trabalho de
equipe que o salvou, afinal.
Matt telefonou de novo naquela noite para saber do menino. Depois ligou para Ophlie e
disse que ele estava indo bem e que na manh seguinte estaria fora de perigo. Os pais
telefonaram para Matt e Ophlie para agradecer-lhes efusivamente por sua ao herica.
Estavam horrorizados com o que tinha acontecido, e a me soluava enquanto agradecia a
Ophlie. No tinha idia de que Ophlie conhecia muito bem a tragdia que fora evitada.
Seria melhor nem saber.
Os jornais contaram tudo a respeito do incidente, e Pip leu as notcias para a me no caf-
da-manh. Depois olhou-a com os olhos arregalados, que penetraram nela como se
fossem facas.
-  Prometa nunca mais fazer uma coisa assim... eu no posso... no poderia., se voc... --
No terminou a frase, e os olhos de Ophlie encheram-se de lgrima quando olhou para a
filha.
-  Prometo. Eu tambm no poderia viver sem voc -- disse com suavidade. Dobrou o
jornal e deu um abrao em Pip, e um instante depois a menina saiu para o deque e ficou
sentada ali com Mousse, perdida em seus pensamentos, olhando para o mar em silncio.
O dia anterior tinha sido terrvel demais para pensar nele. Ophlie ficou na sala chorando
baixinho enquanto a observava, e fez uma orao silenciosa de agradecimento por tudo
ter terminado bem.


                                Captulo            11
MATT LEVOU PIP e Ophlie para jantar na ltima noite que passaram em Safe Harbour.
Tinham se recuperado do susto quela altura e os trs pareciam relaxados. O menino tinha
sado do hospital no dia anterior e telefonado para Ophlie e Matt para agradecer. Ophlie
estava certa quando calculou o que tinha acontecido. Ele foi carregado milhas de distncia
pela mar.
Foram jantar de novo no Lobster Pot e                                divertiram-se muito.
Mas durante toda a noite Pip pareceu triste. No queria se despedir do amigo. Ela e a me
tinham feito as malas  tarde, e na manh seguinte iriam para casa. Pip tinha ainda
algumas coisas a fazer antes de comear as aulas.
--  Vai ficar muito montono aqui sem vocs duas -- disse Matt quando terminaram a
sobremesa.
A maioria dos moradores estava indo embora
naquele fim de semana. Na segunda-feira era Dia do Trabalho. E
Pip comeava as aulas na tera-feira.
-  Vamos alugar uma casa aqui de novo no ano que vem -- disse Pip com firmeza. J
tinha quase conseguido que a me prometesse isso, mas Ophlie achava que no prximo
vero elas iriam  Frana, pelo menos por umas semanas. Mas tambm tinha vontade de
alugar de novo uma casa em Safe Harbour, se possvel a mesma. Aquela servia para elas,
mas era pequena demais para outras famlias.
- Posso checar os preos se voc quiser, quando chegar o vero. Estarei aqui mesmo.
Talvez queiram uma casa maior no ano que vem.
- Acho que essa serve -- Ophlie disse, sorrindo. --
Se quiserem alugar para a gente de novo. No
tenho certeza se eles aprovam a presena de
Mousse aqui.
Mas Mousse no tinha estragado nada, felizmente. Era muito bem comportado. S fazia
pipi pela casa. E um servio de limpeza viria no dia seguinte para limpar o cho. Ophlie
e Pip eram bastante cuidadosas.
--   Espero ver muitos desenhos quando for visitar voc na cidade. E no se esquea do
jantar do Dia dos Pais -- Matt disse para Pip, com um sorriso.
Ela adorou ver que ele no se esquecera, e achou mesmo que ele iria. Seu prprio pai
nunca fora. Tinha de trabalhar. Ela levou o irmo uma vez, e na outra um amigo de
Andrea. Ted detestava as festas da escola, e ele e Ophlie discutiam muito por causa
disso. Discutiam por muitas outras coisas, embora sua me no gostasse de se lembrar
disso. Mas era verdade, por mais que no quisesse admitir. Pip estava convencida de que
Matt manteria sua palavra e que seria uma noite divertida.
--  Voc vai ter de usar gravata -- disse Pip com cuidado, esperando que ele no
mudasse de idia. Mas ele sorriu.
-- Acho que ainda devo ter uma por a. Est
provavelmente prendendo minha cortina. -- Na
verdade tinha muitas, s no tinha ocasies para
us-las, mas se quisesse teria. Ia  cidade apenas
quando tinha consulta no dentista ou no
advogado, ou quando precisava ir ao banco. Mas
agora tinha inteno de visitar Ophlie e Pip. Elas eram
importantes para ele. E depois do que compartilhara com Ophlie no incio da semana
sentia-se mais prximo dela do que nunca.
Levou-as para casa. Ophlie convidou-o para entrar e ele aceitou com prazer. Ela lhe
ofereceu uma taa de vinho tinto quando Pip foi vestir o pijama. Matt gostou daquela
cena domstica e perguntou se poderia acender a lareira. As noites eram frias, como
sempre, e, apesar do calor dos dias de setembro, as noites j pareciam com o outono.
--  uma boa idia. -- Pip veio dar um beijo de
boa-noite e prometeu que lhe telefonaria em
breve.
Matt j dera seu nmero para ela e tambm para
Ophlie, caso Pip o perdesse. Abraou-a com
carinho e foi acender a lareira. Ao perceber que
estava sendo observado por Mousse viu que sentiria falta
dele tambm. Tinha esquecido como era ter uma famlia e detestava admitir para si
mesmo como gostava disso.
O fogo j estava aceso quando Ophlie voltou do quarto de Pip. Levar a filha para a cama
era uma tradio que havia voltado nas ltimas semanas. Enquanto olhava o fogo,
percebeu como tinha mudado nos trs meses que passara ali. Sentia-se quase humana,
embora ainda tivesse saudade do marido e do filho. Mas a dor da ausncia deles era um
pouco mais suportvel que antes. O tempo fazia diferena, por menor que fosse.
-  Voc est muito sria -- disse Matt, sentando-se ao seu lado e bebendo um pouco do
vinho. Era a ltima garrafa que Ophlie tinha em casa. Ela no bebia muito, embora fosse
francesa.
- Estava pensando em como me sinto melhor do que quando cheguei aqui. Este lugar nos
fez muito bem. Pip parece mais feliz tambm. Em grande parte graas a voc. Voc foi o
vero dela -- disse, sorrindo com gratido.
- E ela foi o meu vero. Voc tambm. Todo mundo precisa de amigos. s vezes eu me
esqueo disso.
- Voc tem uma vida muito solitria aqui, Matt.
Ele assentiu. Nos ltimos dez anos aquele lugar era tudo o que queria. Mas agora, pela
primeira vez, parecia solitrio.
-   bom para o meu trabalho, pelo menos  o que digo a mim mesmo. E fica perto da
cidade. Posso ir sempre l, se voc quiser. -- E agora iria mesmo, para ver as duas, mas
levou um susto quando percebeu que apesar da proximidade fazia mais de um ano que
no ia a So Francisco. O tempo voava s vezes, sem que fosse possvel perceber, e os
anos tambm.
-  Espero que v nos visitar com freqncia. Apesar de a minha comida ser pssima --
disse Ophlie rindo.
-  Posso levar vocs para jantar fora -- respondeu ele, brincando, mas com essa inteno.
Estava feliz com a nova perspectiva. Tinha uma coisa boa para esperar e suavizar a
tristeza da partida delas, que sabia que o atingiria em cheio na manh seguinte. -- Com
que voc vai se ocupar depois que Pip voltar para a escola? -- perguntou, preocupado
com Ophlie. Sabia que ela ficaria muito sozinha. No estava habituada a ter tanto tempo
de sobra como agora, s com uma filha para cuidar. Estava acostumada a cuidar de dois
filhos e um marido.
-  Talvez eu siga seu conselho de trabalhar como voluntria em um abrigo para os sem-
teto. -- Tinha gostado do material que Blake Thompson, o lder do grupo, tinha dado para
ela. Pareceu-lhe bem interessante.
- Seria uma boa coisa. E voc pode sempre vir aqui almoar comigo, se no tiver mais
nada para fazer. A praia fica bonita no inverno.
Ophlie       gostou disso tambm. Adorava a praia em todas as estaes do ano, e ela
achou o convite encantador. Gostava da idia de manter aquela amizade. No importava o
que Andrea pensasse, serem amigos era o que os dois queriam.
-   Eu gostaria muito de vir -- disse sorrindo.
-Est feliz de voltar?
Ophlie ficou olhando para o fogo com um ar pensativo.
- No. Detesto pensar em voltar para aquela casa, embora gostasse muito dela antes. Mas
agora est muito vazia.  grande demais para ns duas. No quis tomar nenhuma deciso
precipitada no ano passado para no me arrepender depois. -- No disse a ele que os
armrios de Ted continuavam com suas roupas, e que as coisas de Chad continuavam no
seu quarto. No tinha tocado em nada, e saber que estava tudo l a deprimia. Por outro
lado, no conseguia separar-se dessas coisas. Andrea j tinha falado que isso no era sau-
dvel, mas pelo menos por enquanto era o que ela queria. No estava pronta para fazer
mudanas, no ainda. Pensou se teria uma sensao diferente depois daquele vero. Ainda
no sabia.
- Acho que voc agiu bem no fazendo nada precipitado. Pode um dia vender a casa, se
quiser. Talvez seja bom para Pip no trocar de ambiente por enquanto. Seria uma grande
mudana na vida dela, se vocs moram l h muito tempo.
--   Desde que tinha 6 anos, e ela adora a casa. Mais do que eu. Os dois ficaram sentados
ali por algum tempo, aproveitando
a companhia um do outro em silncio. Quando o vinho terminou, os dois se levantaram.
A essa altura o fogo estava apagando lentamente.
-  Vou ligar na semana que vem. -- Matt era uma presena masculina slida e confivel
na vida dela, como um irmo. -- Telefone se precisar de alguma coisa, ou se eu puder
ajudar voc ou Pip de alguma forma. -- Sabia que ficaria preocupado com elas.
- Obrigada, Matt -- disse, gentilmente. -- Por tudo. Voc foi um amigo maravilhoso
para ns duas.
-  Pretendo continuar a ser -- disse, pondo o brao em volta dela enquanto iam at o
carro.
-  Ns tambm. No fique muito sozinho aqui, no  bom para voc. V nos visitar na
cidade, voc vai se distrair. -- Agora que ela sabia mais sobre a vida de Matt, podia
imaginar que ele devia se sentir s vezes como ela prpria se sentia. Muita gente que os
dois amavam tinha desaparecido das suas vidas, por morte ou divrcio, em circunstncias
tristes. As mudanas da vida afastavam as pessoas, os lugares e os momentos queridos
depressa demais, como o mar afastara o menino que eles tinham salvado uns dias antes.
-  Boa noite -- disse ele, sem saber mais o que falar. Acenou quando saiu com o carro e
viu-a entrar em casa, depois voltou para seu bangal na praia, desejando ser mais corajoso
e que a vida fosse diferente do que era.


                               Captulo            12
 -  AT LOGO, CASA -- disse Pip muito sria quando saram. Ophlie trancou a porta e
 quando passou pela casa do corretor deixou as chaves na caixa do correio. O vero
 tinha acabado. No momento em que viraram na rua estreita e sinuosa onde Matt
 morava, Pip ficou em silncio e s falou ao chegarem na ponte.
 -   Por que voc no gosta dele? -- perguntou, quase zangada, em tom acusador.
Ophlie no tinha idia de quem ela estava falando.
-   No gosto de quem?
-  De Matt. Acho que ele gosta de voc. -- Pip olhava para a me, deixando-a
totalmente confusa.
- Eu tambm gosto dele. De que voc est falando?
-- Gostar como homem... voc sabe... como namorado.          Elas estavam quase no
pedgio, e Ophlie comeou a procurar o dinheiro na bolsa.
--  No quero um namorado. Sou uma mulher casada -- disse com firmeza, quando
encontrou o dinheiro.
-   No , no. Voc  viva.
-  a mesma coisa. Quase. Por que pensou nisso? Acho que ele no gosta de mim
como namorada. E se gostasse no faria diferena. Man  nosso amigo, Pip. No
vamos estragar isso.
- Por que estragaria? -- falou Pip com teimosia. Tinha pensado nisso a manh toda. J
sentia falta de Matt.
-  Estragaria, sim. Confie em mim. Eu sou adulta, sei das coisas. Se a gente se
envolvesse, um poderia sair magoado e tudo estaria acabado.
- Algum sempre sai magoado? -- Pip parecia desapontada. No era uma informao
animadora.
-  Quase sempre. Quando os dois no se gostam mais, deixam de ser amigos. E ele no
veria mais voc. Pense em como seria triste. -- Ophlie estava muito determinada com
relao a esse assunto.
- E se voc se casasse? Nada disso aconteceria ento.
-- No quero me casar de novo. Nem ele. Matt sofreu muito quando sua mulher o
deixou.
- Ele disse isso? Disse que no queria se casar de novo? -- Pip estava desconfiada.
No parecia fazer sentido.
-   Mais ou menos. Ns conversamos sobre casamento e divrcio. Foi muito traumtico.
-   Ele pediu voc em casamento? -- Ela pareceu esperanosa de repente.
-  claro que no. No seja boba. -- Era uma conversa ridcula, da perspectiva de
Ophlie.
-   Ento, como sabe que ele se sente assim?
- Eu sei. Alm disso, no quero me casar mais. Ainda me sinto casada com seu pai.
Parecia nobre da parte dela, mas Pip ficou com raiva, o que surpreendeu a me.
- Ele morreu e no vai voltar. Acho que voc devia casar-se com Matt para cuidarmos
dele.
- Talvez ele no queira ser "cuidado", no importa quais sejam meus sentimentos. Por
que no se casa com ele? Acho que Matt serviria para voc -- disse em tom de
implicncia, para terminar aquela conversa ridcula. No gostava que dissessem que
Ted estava morto e nunca voltaria. Era tudo em que pensava nos ltimos 11 meses. Era
difcil acreditar que tinha se passado quase um ano. Sob certos aspectos parecia uma
eternidade, sob outros parecia apenas alguns minutos.
- Tambm acho que ele serviria para mim -- disse Pip, sensibilizada --, por isso 
que voc tem de se casar com ele.
-  Quem sabe ele gostaria de Andrea -- disse Ophlie para distra-la, porm coisas
mais loucas acontecem s vezes. De repente, pensou se devia apresent-los, mas Pip
foi imediatamente contra. No queria perd-lo. Queria Matt para elas duas.
- No gostaria, no --                  disse com firmeza. -- Odiaria. Ela  forte
demais para ele. Gosta de dar ordens aos outros, inclusive aos homens. Por isso  que
eles sempre caem fora.
Era uma avaliao interessante, e Ophlie sabia que a filha no estava inteiramente
errada. Pip tinha ouvido muitas conversas entre os pais sobre Andrea ao longo dos
anos, e tirara suas concluses. Andrea tinha uma forma de diminuir os homens, era
independente demais, por isso acabou apelando para o banco de esperma quando quis
ter um filho. Nenhum homem at agora tinha querido ligar-se intimamente a ela. Mas
aquela percepo era espantosa para uma menina da idade de Pip, e Ophlie no
discordou dela, embora no dissesse nada. Estava impressionada com a sabedoria da
filha.
- Ele ficaria muito mais feliz com voc e comigo -- disse Pip com modstia, dando
um risinho. -- A gente pode perguntar na prxima vez em que estiver com ele.
- Tenho certeza que ele adoraria isso. Por que no pedimos para ele se casar conosco?
Seria uma boa -- disse Ophlie sorrindo tambm.
- . Gostei dessa -- disse Pip rindo e apertando os olhos para evitar o sol, pensativa.
Parecia encantada.
- Voc  um monstrinho -- disse a me dela
brincando. Uns minutos depois estavam em casa,
e Ophlie destrancou a porta. No entrava l h
trs meses. Evitava sempre que vinha  cidade,
por isso pediu que sua correspondncia fosse
enviada para Safe Harbour durante o vero. Era
a primeira vez que voltava ali. E quando entrou a
realidade da sua situao atingiu-a como um
trem expresso. De certa forma acreditava, no
fundo da alma, que quando voltasse Ted e Chad
estariam ali esperando por elas. Como se
tivessem apenas viajado e a agonia do ano
anterior fosse uma brincadeira de mau gosto.
Chad desceria as escadas rindo e Ted estaria na porta do quarto esperando por ela,
com aquele olhar que lhe dava um frio no estmago e deixava suas pernas trmulas. A
qumica entre eles foi poderosa durante todo o casamento. Mas a casa estava vazia.
No havia como escapar  verdade. Ela e Pip estavam sozinhas para sempre.
As duas ficaram paradas na porta, pensando a mesma coisa no mesmo momento, e seus
olhos encheram-se de lgrimas quando se entreolharam.
--   Odeio este lugar -- disse Pip com suavidade, quando as duas se abraaram,
--   Eu tambm -- falou a me baixinho.
Nenhuma delas teve vontade de subir ou de entrar nos respectivos quartos. A realidade
era terrvel demais. Por um instante Matt foi esquecido. Ele tinha sua vida prpria, seu
mundo prprio. E elas tinham o delas. No havia como esconder isso.
Ophlie         foi at o carro tirar as malas, e Pip ajudou-a a lev-las para cima. At
isso foi difcil. Ambas eram pequenas, as malas eram pesadas e no havia ningum
para ajudar. Ophlie estava ofegante quando colocou as malas de Pip no quarto.
-  Vou arrumar suas coisas daqui a um instante -- disse Ophlie, tentando manter suas
intenes do vero, mas sentindo um vazio no momento em que entrou na casa onde
tinha morado com o filho e o marido. Era como se os meses de cura em Safe Harbour
nunca tivessem ocorrido.
- Eu posso fazer isso, mame -- disse Pip num
tom triste. Sentia o mesmo que a me. De certa
forma, era pior agora. Ophlie estava mais viva e
tinha sentimentos. O ano do rob tinha sido
melhor.
Ophlie arrastou as prprias malas para cima, e
ficou muito triste quando abriu o armrio. Estava
tudo ali ainda. Todos os casacos, os ternos, as
camisas, as gravatas e os sapatos que Ted tinha
usado, at mesmo o mocassim surrado que
calava nos fins de semana e que tinha desde a
poca de Harvard. Era como se estivesse
revivendo um pesadelo. No teve coragem de
entrar no quarto de Chad, sabia que seria a
morte para ela. Ali j era ruim o suficiente.
Quando comeou a tirar as roupas da mala,
sentiu-se andando para trs. Era assustador.
Na hora do jantar as duas continuavam em
silncio, plidas e exaustas, e deram um pulo
quando o telefone tocou. Tinham decidido no
comer ainda, embora Ophlie soubesse que a filha teria de
comer mais cedo ou mais tarde, com ou sem fome. Quanto a ela, deixar de lado uma
refeio no era problema.
Ophlie no se mexeu, no tinha vontade de falar com ningum. Foi Pip quem atendeu,
e seu rosto tornou-se mais brilhante quando ouviu aquela voz.
-- Oi, Matt. Tudo bem -- disse, em resposta 
sua pergunta, mas ele percebeu em sua voz que
no era verdade, e depois, quando sua me
olhou, ela comeou a chorar. -- No, no est,
est um horror.  horrvel aqui. Odiamos a casa. --
Incluiu a me nessa declarao, e Ophlie pensou em mand-la calar a boca, mas no
disse nada. Se ele era um amigo, seria bom saber que as coisas estavam pssimas.
Pip ficou ouvindo Matt falar durante muito tempo, balanando a cabea, mas pelo
menos parou de chorar. Sentou-se na cadeira da cozinha enquanto ele falava.
-  Sim. Vou tentar. Vou dizer a mame... No posso... Tenho de ir para a escola
amanh. Quando voc vem aqui? -- Ophlie no sabia o que ele tinha dito do outro
lado da linha, mas viu que ela ficou contente com a resposta. --J.... Vou perguntar
para ela... -- Virou-se para Ophlie, tapando discretamente o fone com a mo. -- Quer
falar com ele? -- Mas Ophlie negou com a cabea.
-  Diga que estou ocupada. -- No queria falar com ningum. Sentia-se infeliz demais.
E sabia que no podia fingir que estava alegre. Pip podia chorar no ombro dele, mas
ela, no. No parecia apropriado, e ela no quis fazer isso.
- OK -- disse Pip para Matt de novo --, eu digo a ela. Telefono para voc amanh.
-- Ophlie comeou a pr em dvida a vantagem do contato dirio com Matt, mas
talvez no houvesse mal nisso. Confortara a filha. Assim que Pip desligou, contou toda
sua conversa com ele. -- Matt disse que  normal nos sentirmos assim porque vivemos
aqui com meu irmo e meu pai, e que daqui a pouco estaremos melhor. Disse para
fazermos alguma coisa divertida hoje  noite, como pedir por telefone uma comida
chinesa ou uma pizza, ou sair para comer fora. E ouvir um pouco de msica. Msica
alegre. Bem alto. Se estivermos muito tristes, devemos dormir juntas. Disse que
devamos sair para fazer umas compras amanh, comprar uma coisa bem boba, mas eu
disse que no podia porque tinha de voltar para a escola. Mas suas idias pareceram
muito boas. Quer pedir uma comida chinesa, mame? -- Durante todo o vero no
comeram comida chinesa nenhuma vez, e gostavam muito. Era uma coisa diferente
pelo menos, e esse era o plano de Matt.
- No, mas foi gentil ele sugerir isso. -- Pip gostou especialmente da idia de ouvir
msica. Ento Ophlie comeou a considerar aquelas sugestes. Por que no, afinal de
contas? Talvez ajudasse um pouco. -- Voc quer comida chinesa, Pip? -- Parecia
bobagem, pois nenhuma das duas estava com fome.
-    claro, por que a gente no pede rolinho primavera e carne de porco agridoce frita?
-  Eu prefiro bolinhos com carne e frutos do mar -- disse Ophlie pensativa,
procurando no balco o nmero de telefone que usava para pedir comida chinesa.
- Quero arroz com camaro frito tambm -- disse Pip, quando sua me fez o pedido.
Meia hora depois a campainha tocou e o
mensageiro trouxe a comida, e elas se sentaram
na cozinha. quela altura Pip tinha posto uma
msica horrvel, o mais alto que dava para
tolerar. Mas tiveram de admitir que estavam se
sentindo melhor que uma hora atrs.
- Foi uma idia meio boba --- disse a me sorrindo para ela com acanhamento --,
mas foi gentil ele sugerir isso. -- E tinha funcionado, mais do que queria admitir. Era
estranho que aquela comida chinesa e um CD de Pip pudessem ter aliviado o terrvel
sofrimento com que tinham de conviver. Mesmo a distncia, Matt alegrara as duas.
- Posso dormir com voc hoje? --                               Pip perguntou hesitante
quando subiram as escadas, depois de terem limpado a cozinha e guardado os restos na
geladeira. Alice, a faxineira, tinha deixado o suficiente para o caf do dia seguinte, e
Ophlie sairia para comprar mais alguma coisa de manh. Ficou espantada com o
pedido de Pip. Durante todo o ano anterior ela no pedira nenhuma vez para dormir
com a me. Tinha medo de ser invasiva, e Ophlie em meio  sua intensa dor nunca
pensou nisso.
-  Acho que sim. Tem certeza que quer? -- Tinha sido idia de Matt, e Pip achou que
era outra idia boa.
-- Eu gostaria.
Cada uma foi para sua banheira tomar banho, depois Pip foi de roupa de dormir para o
quarto. De repente teve a impresso de que estava em uma festa do pijama, e riu
quando entrou na cama da me. De certa forma, mesmo de longe, Matt mudara toda a
noite delas. Pip sentiu-se feliz enroscada na cama grande ao lado da me, e caiu no
sono em poucos minutos. Ophlie surpreendeu-se de ver quanto conforto lhe dava
abraar aquele corpinho ao seu lado. No sabia por que no pensara nisso antes.
Podiam dormir juntas toda noite, mas era certamente uma opo especial para noites
como aquela. Dentro de poucos minutos ela dormia tranqilamente, como a filha.
Ambas levaram um susto quando ouviram o
despertador de manh. Haviam se esquecido
onde estavam, e por que estavam dormindo na
mesma cama, depois se lembraram. No tinham
tempo de sentir-se deprimidas de novo, precisavam aprontar-se depressa. Pip
foi escovar os dentes e Ophlie desceu s pressas para fazer o caf-da-manh. Viu a
comida chinesa na geladeira, e com um sorriso abriu um biscoito da sorte e comeu-o.
"Felicidade e muita sorte para voc o ano todo",
dizia o biscoito da sorte, e Ophlie riu consigo prpria. "Obrigada, eu preciso
disso." Colocou leite com cereal para Pip, suco de laranja para as duas e enfiou uma
fatia de po na torradeira. Pip desceu cinco minutos depois, de uniforme de colgio, e
Ophlie foi buscar o jornal na porta. Quase no tinha lido jornais nos meses de vero, e
sentia pouca falta deles. No havia nada animador acontecendo mas assim mesmo deu
uma olhada, depois subiu as escadas correndo para mudar de roupa e levar Pip para a
escola. As manhs eram sempre um pouco agitadas, mas ela gostava disso, no tinha
tempo para pensar.
Vinte minutos depois estava no carro com Mousse, levando Pip para o colgio. Pip
sorriu, olhou pela janela e depois para a me.
- O que Matt sugeriu realmente funcionou na noite passada. Gostei de dormir com
voc.
- Eu tambm -- admitiu Ophlie. Tinha gostado mais do que imaginava. Muito menos
solitrio que dormir sozinha naquela cama grande, chorando a morte do marido.
- Ser que podemos repetir a dose outro dia? -- perguntou Pip esperanosa.
- Seria timo. -- Ophlie sorriu para a filha quando se aproximaram da escola.
- Vou ligar para Matt e agradecer -- disse Pip
quando o carro ia parando. Ophlie beijou-a
rapidamente, desejou-lhe um bom dia na escola.
Pip acenou e foi encontrar os amigos e os
professores, comear o seu dia. Ophlie
continuou sorrindo para si prpria quando
voltava para a casa enorme de Clay Street. Tinha
sido muito feliz l, mas agora sentia-se
profundamente infeliz. Porm tinha de admitir
que a noite passada fora melhor do que
esperava. Graas  sugesto de Matt e s suas
idias criativas.
Subiu devagar as escadas da entrada com
Mousse, e suspirou quando destrancou a porta
da frente. Ainda tinha de tirar umas coisas da
mala e fazer as compras do mercado, e de tarde
pretendia ir ao abrigo dos sem-teto. Isso bastaria
para mant-la ocupada at a hora de buscar Pip,
s trs e meia. Mas quando passou pelo quarto
de Chad, no agentou. Abriu a porta e olhou
dentro. As cortinas estavam abaixadas, o quarto
estava escuro, e to vazio e frio que a deixou
arrasada. Seus psteres continuavam ali, e todos
os seus tesouros. Fotografias dele com os
amigos, trofus dos esportes que praticava
quando era menor. Mas o quarto tinha alguma
diferena da ltima vez em que entrou l.
Parecia seco, como uma folha cada morrendo
aos poucos, e cheirava a mofo. Como sempre
fazia, foi para sua cama e ps a cabea no
travesseiro. Ainda conseguia sentir seu cheiro,
porm mais fraco. Ento, como ocorria quando
entrava naquele quarto, foi tomada de soluos.
Nenhuma comida chinesa ou msica alta
poderiam mudar aquilo. S adiavam a agonia
inevitvel, pois percebia de novo que Chad nunca
mais voltaria.
Finalmente conseguiu sair dali e ir para seu quarto, vazia e exausta. Ver as roupas de
Ted penduradas no armrio foi demais para ela. Levantou uma manga at o rosto e
sentiu o tecido spero incrivelmente familiar. Ainda sentia o cheiro da sua gua-de-
colnia e quase conseguia ouvi-lo. Era insuportvel. Mas forou-se a reagir. Sabia
agora que no podia tornar-se um rob de novo, parar de sentir e deixar a tristeza
destru-la. Tinha de aprender a conviver com a dor, a continuar, apesar de tudo. No
mnimo por causa de Pip. Estava grata por ter de ir ao grupo naquela tarde para
conversar. O grupo terminaria em breve, e ela no imaginava como iria se virar sem
eles, sem aquele apoio.
Quando chegou no grupo, contou sobre a noite anterior, sobre a comida chinesa e a
msica alta, e Pip dormindo com ela na cama. Eles no viam nada de errado nisso. No
viam nada de errado em coisa alguma, nem mesmo no fato de Ophlie namorar,
embora ela insistisse em dizer que no estava pronta para isso, que no queria um
namorado. Estavam todos em diferentes estgios de luto. Mas pelo menos era
confortante partilhar a vida com eles.
-   Ento, arranjou          uma         namorada,                               Sr.
Feigenbaum? -- ela brincou, quando saram do prdio juntos.           Ophlie
gostava dele. Era um homem honesto, aberto e bom, disposto a fazer um enorme
esforo para recuperar-se, mais do que os outros.
Ainda no, mas estou procurando. E voc? -- Era um velho gordinho, de bochechas
rosadas e cabelo branco. Parecia um dos auxiliares do Papai Noel.
- No quero um namorado. O senhor est
parecendo minha filha -- disse rindo.
-- Ela sabe das coisas. Se eu tivesse quarenta
anos menos, mocinha, voc no me escapava. --
Ophlie riu de novo e eles se despediram.
Quando saiu do grupo, Ophlie parou no abrigo.
Ficava em uma rua estreita em South Market, um
bairro meio perigoso, mas disse a si mesma que
no esperaria que o abrigo ficasse em um bairro
chique. As pessoas que viu na recepo e nos
corredores eram amistosas. Disse que queria
marcar uma hora para se inscrever como
voluntria, e pediram que ela voltasse na manh
seguinte. Podia ter telefonado para marcar a
hora, mas queria ver como era o lugar. Quando
saiu, viu dois velhos do lado de fora com todos os
seus pertences dentro de carrinhos de compras,
e uma voluntria lhes servindo caf quente em
copos de plstico. Imaginou-se fazendo isso. No
parecia muito complicado, e talvez fosse bom
sentir-se til. Melhor que ficar em casa chorando
e cheirando os casacos de Ted e o travesseiro de
Chad. No podia mais fazer isso, sabia agora.
No podia passar mais um ano assim. O ano
anterior, em que no parara de chorar pelos dois,
foi um pesadelo que quase a matou. De alguma
forma precisava ter um ano melhor. O
aniversrio da morte dos dois seria em quatro
semanas, e embora ela estivesse com medo
sabia que no segundo ano de luto teria de sentir-
se melhor. No s por si prpria, mas tambm por Pip. Devia
isso a ela. Talvez trabalhar no abrigo a ajudasse. Esperava que sim.
Quando estava indo buscar Pip no colgio parou num sinal e ficou olhando a vitrine de
uma loja de sapatos. No incio no prestou ateno, depois sorriu quando viu as
pantufas fofas gigantescas para adultos, com os personagens da Vila Ssamo. Pantufas
gigantescas azuis e outras vermelhas. Eram perfeitas. Sem sequer pensar, parou o
carro, estacionou em fila dupla e entrou rpido na sapataria. As azuis eram do
Arquibaldo e as vermelhas, do Elmo. Comprou as azuis para ela e as vermelhas para
Pip, e voltou para o carro com a sacola de compras. Quando chegou  escola, viu Pip
saindo do prdio e indo para a esquina onde sempre ficava esperando. Pip viu a me
imediatamente. Parecia cansada e um pouco despenteada, mas contente.
Entrou no carro com um grande sorriso nos
lbios, feliz de ver Ophlie.
- Meus professores so timos. Gostei de todos menos de um, a Srta. Giulani, que 
uma chata. Mas as outras so legais, mame. -- No parecia ter um minuto a mais que
11 anos quando disse isso, e Ophlie riu para ela, contente.
-  Que bom que elas so legais, mademoiselle Pip -- disse, falando um pouco em
francs e apontando para a sacola no banco de trs. -- Comprei um presente para ns.
- O que ? -- Pip puxou a sacola para o banco da frente, muito satisfeita, e ao olhar
dentro deu um gritinho espantado para a me. -- Voc fez! Voc fez!
-   Fiz o qu? -- disse Ophlie confusa por um instante.
-  Comprou uma coisa boba! Lembra? Foi o que Matt falou na noite passada. Disse
para a gente sair hoje e comprar alguma coisa boba. E eu falei que no podia porque
tinha de ir  escola. Mas voc comprou! Eu amo voc, mame! -- Calou a pantufa
por cima do sapato do colgio, em verdadeiro xtase. Ophlie ficou espantada, no
sabia se fora uma mensagem subliminar ou idia sua, no pensou no que ele disse, nem
nele, quando comprou as pantufas. Simplesmente comprou. Mas elas eram bobas. E
Pip adorou o presente. -- Voc vai ter de calar a sua quando chegar em casa.
Promete?
- Prometo -- disse Ophlie solenemente,
sorrindo. Pensando bem, o dia tinha sido bom. E
ela estava animada para ir ao abrigo na manh
seguinte. Falou sobre isso com Pip, que ficou
impressionada e contente de ver a me melhor.
Foi horrvel chegar em casa no dia anterior, mas
as coisas pareciam estar melhorando. Os vazios
no pareciam mais to escuros, nem to
profundos, e Ophlie estava conseguindo sair
deles mais depressa. Era o que o grupo lhe dizia
que aconteceria, mas que ela no acreditara. As coisas estavam
melhorando aos poucos, enfim.
Pip fez Ophlie calar a pantufa de Arquibaldo quando chegou em casa, e depois de
tomar um copo de leite e comer uma ma e um biscoito telefonou para Matt, antes de
fazer o dever de casa, Ele devia estar voltando da praia e a me devia estar l em cima,
provavelmente no quarto, pensou Pip, sentando-se num banquinho da cozinha
esperando que ele atendesse. Matt estava chegando, meio esbaforido, como se tivesse
corrido para atender o telefone.
- Telefonei para dizer como voc  inteligente -- ela anunciou, e ele sorriu no instante
em que ouviu aquela vozinha.
-  voc, Srta. Pip?
- Sou eu. Voc  um gnio. Ontem pedimos
comida chinesa e ouvimos meu melhor CD, muito
alto mesmo. E dormi com ela na mesma cama,
ns adoramos... e hoje ela comprou para ns
duas pantufas da Vila Ssamo. Ficou com o
Arquibaldo e eu com o Elmo. Gostei muito das minhas
professoras, menos de uma, que  horrvel.
Ele podia perceber por seu tom de voz que as coisas estavam muito melhores que na
noite anterior e teve a sensao de que tinha ganhado um prmio. Ela o deixava feliz.
- Quero ver as pantufas.                    Estou com inveja. Quero uma para mim
tambm.
Seu p  muito grande. Seno eu pediria para mame comprar.
-- Que pena! Eu sempre gostei do Elmo. E do Caco.
- Eu tambm. Mas prefiro o Elmo. -- Continuou a falar do colgio, das amigas e das
professoras e, enfim, disse que tinha de fazer o dever de casa.
- V fazer seus deveres. E d lembranas a sua
me. Eu telefono amanh -- prometeu, sentindo-
se como quando telefonava para seus filhos. Feliz
e triste, animado e esperanoso, como se tivesse
uma razo de viver. Mas tinha de lembrar que
Pip no era sua filha.
Ambos estavam sorrindo quando desligaram o telefone. Pip enfiou a cabea no quarto
da me antes de seguir para o seu.
- Falei com Matt e contei das pantufas. Ele mandou lembranas para voc -- disse
num tom malicioso, e Ophlie sorriu.
-   Foi muita gentileza dele. -- Ophlie no parecia animada, s feliz e tranqila.
- Posso dormir de novo com voc hoje? -- perguntou, meio encabulada. Usava a
pantufa do Elmo, j sem o sapato. E Ophlie usava a do Arquibaldo, como prometera.
-- Foi idia do Matt? -- perguntou com curiosidade.
- No, foi minha. -- Pip estava sendo honesta. Ele no tinha sugerido nada dessa vez.
No precisava. J as ajudara na noite anterior e elas estavam se saindo bem agora, por
enquanto.
- Por mim tudo bem -- disse Ophlie, enquanto
Pip saa pulando para o quarto para fazer o dever
de casa.
Foi outra noite agradvel para as duas. Ophlie
no sabia bem quanto tempo esse novo
esquema iria durar, mas ambas estavam
gostando. No conseguia imaginar por que no
pensara nisso antes. Tinha solucionado um
milho de problemas e confortado as duas. No
pde deixar de pensar nas mudanas positivas
que Matt introduzira na vida delas.
                               Captulo           13
O    COMPROMISSO DE Ophlie no Centro Wexler era s 9h15. Deixou Pip na escola
primeiro e dirigiu-se para South of Market imediatamente depois. Estava de cala jeans e
com uma jaqueta de couro velha e surrada, e Pip comentou no caminho para o colgio que
ela estava bonita.
-  Voc vai a algum lugar, mame? -- perguntou. Vestia uma blusa branca de marinheira
e saia plissada azul-marinho, o uniforme do colgio, que lhe dava um ar doce e infantil.
Detestava ter de usar uniforme, mas Ophlie achava que resolvia o problema da escolha
de roupa quela hora da manh. Nos dias de festa usava tambm uma gravata azul-
marinho, e seus cachos vermelhos davam um toque perfeito ao conjunto.
-  Vou -- disse Ophlie, com um sorriso tranqilo. Estava gostando de dormir com a
filha. Suavizava a dor da solido e abrandava a agonia das manhs. No sabia por que no
pensara nisso antes, talvez porque no quisesse ser um peso para Pip, mas estava sendo
uma bno para as duas. Estava grata a Matt pela sugesto. Tinha dormido realmente
bem ao lado de Pip pela primeira vez em meses, e acordado com a filha abraada a ela e
olhando em seus olhos, a coisa mais feliz que lhe acontecera desde a morte do marido.
Ted no era to aconchegante e carinhoso de manh, no ficava na cama fazendo-lhe
carinho ou dizendo que a amava quando acordava, no era do seu feitio.
Ophlie        ento falou do Centro Wexler, o que eles faziam, e disse que pretendia se
voluntariar para trabalhar l.
-  Se me quiserem. -- No tinha idia do que poderia fazer, ou se poderia realmente ser
til. Talvez pudesse pelo menos atender o telefone.
- Eu conto tudo quando for buscar voc  tarde --
prometeu quando deixou Pip na esquina e ficou
vendo-a entrar no colgio com as amigas. Pip
estava muito entretida com elas e nem se virou
para dar tchau.
Ophlie estacionou em uma vaga na Folsom Street
e entrou na viela onde ficava o Centro Wexler, percebendo que havia um
bando de bbados encostados na parede. No precisavam andar muito para chegar ao
Centro, mas pareciam ter uma dificuldade enorme at para se mexer. Ophlie olhou para
eles, mas os homens no a notaram, pareciam perdidos no seu prprio mundo, um
verdadeiro inferno particular. Passou de cabea baixa, sentindo pena daqueles homens.
Entrou no mesmo hall em que tinha estado no dia anterior. Era um salo aberto coberto de
psteres, com a pintura descascando. Na recepo havia uma mesa comprida e a
recepcionista no era a mesma, era uma mulher negra de meia-idade que recebia as
pessoas e atendia os telefones. Parecia competente e agradvel, com cabelo grisalho todo
tranado, e olhou esperancosa para Ophlie. Apesar das roupas simples, via-se que
Ophlie era uma mulher bem cuidada e arrumada, deslocada naquele ambiente acanhado.
Os mveis eram velhos e nenhum combinava com o outro, dava para ver que tinham sido
doados por alguma instituio de caridade. No canto havia uma cafeteira com copos de
papel.
- Deseja alguma coisa? -- perguntou a recepcionista num tom amvel.
Tenho hora marcada com Louise Anderson                                          -- disse
Ophlie. -- Acho que ela dirige o servio de voluntariado.
Ao ouvir isso a mulher deu um sorriso.
-- E tambm de publicidade, doaes, compras de supermercado, suprimentos, relaes
pblicas e est sempre cm busca de novos talentos. Ns todas desempenhamos muito
papis aqui.
Ophlie achou o lugar interessante e ficou olhando
os psteres e panfletos enquanto esperava. Dois minutos depois uma moa apareceu no
hall. Tinha um cabelo vermelho e brilhante como o de Pip, com duas tranas longas
cadas nas costas, uma em cima da outra. Uma cabeleira considervel. Usava botas de
soldado, cala jeans e casaco xadrez, mas mesmo assim era bonita e extremamente
feminina. Tinha a suavidade e a graa de uma danarina, e era pequena como Ophlie e
Pip. Mas transmitia energia, bondade, entusiasmo e fora. Parecia dona da situao, com
um ar que sugeria confiana e desenvoltura.
--   Sra. Mackenzie? -- perguntou com um sorriso caloroso quando Ophlie se levantou
para cumpriment-la. -- Quer me acompanhar? -- Foi andando depressa para um
escritrio nos fundos, que tinha um quadro de avisos que ocupava a parede inteira. Presos
no quadro, papis de rascunho, boletins, participaes, mensagens de agncias
governamentais, fotografias e inmeras listas de projetos e nomes. Era incrvel ver que
tudo aquilo provavelmente era dirigido por ela. Do outro lado da parede havia fotos do
pessoal do centro, e a mesinha com duas cadeiras para visitas tomavam quase toda a sala
ensolarada. Era uma sala pequena, alegre, cheia de informaes, dando impresso de alta
eficincia.
-- Por que voc veio aqui? -- perguntou Louise Anderson, com um sorriso simptico.
Ophlie no tinha o perfil normal de suas voluntrias, em geral estudantes
universitrias que faziam servio voluntrio para obter seus diplomas, ou pessoas de
alguma forma ligadas  rea.
-   Eu gostaria de trabalhar como voluntria -- disse Ophlie, muito tmida.
-  Temos sempre lugar para quem deseja ajudar. O que voc sabe fazer?
A pergunta deixou Ophlie confusa por um instante. No tinha idia do que precisavam
ali. Sentiu-se totalmente deslocada.
-   Talvez fosse melhor perguntar o que voc gostaria de fazer.
-  No sei ao certo. Eu tenho dois filhos. -- Estremeceu ao dizer isso, mas achou que
explicar seria pattico. -- Sou casada h 18 anos... ou era casada... -- Teve coragem de
dizer pelo menos isso. -- Sei dirigir, fazer compras, fazer faxina, lavar roupa e me dou
bastante bem com crianas e cachorros. -- Aquela exposio era ridcula at mesmo para
seus ouvidos, mas no pensava h anos em quais eram suas aptides. Tudo aquilo lhe
pareceu muito bobo e limitado. -- Fiz mestrado em biologia na faculdade. E conheo
bem a rea de energia, que era a rea do meu marido. -- Outro conhecimento intil para
eles. -- E tenho alguma experincia com doentes mentais e com seus familiares. --
Pensou em Chad. Foi tudo que pde se lembrar quando olhou para os olhos de Louise
Anderson.
--   Est passando por um processo de divrcio? -- Louise perguntou, ao ouvir Ophlie
dizer que era casada.
Ophlie       balanou a cabea, tentando parecer normal, mas ficou assustada. Era
intimidador estar ali, sentia-se intil e inexperiente. Mas a mulher por trs da mesa
olhava-a com franqueza e respeito. S precisava saber mais.
- Meu marido morreu h um ano -- ela falou de forma quase inaudvel --, e meu filho
tambm. Tenho uma filha de 11 anos, e muito tempo sobrando.
-  Sinto muito sobre seu filho e seu marido -- Louise falou com sinceridade. -- Sua
experincia com doena mental pode ser bem til aqui. Muitas pessoas que vm ao centro
so mentalmente perturbadas, quase sempre por no terem um lar. Quando so muito
doentes, tentamos encaminh-las para programas e clnicas apropriadas. Mas quando no
tm muitas dificuldades so recebidas aqui. A maioria dos abrigos tem critrios para eli-
minar pessoas com comportamentos estranhos, o que torna grande parte dos sem-teto
inaceitvel nos abrigos. Ns somos um pouco mais maleveis, por isso recebemos muita
gente doente.
-  O que acontece com eles? -- Ophlie perguntou, com um ar preocupado. Tinha
gostado daquela mulher, esperava poder conhec-la melhor. Passava uma energia
tranqila, porm, poderosa, que parecia encher a sala. E a paixo pelo que fazia era
contagiosa. Ophlie ficou animada com a possibilidade de trabalhar com eles, mesmo
como voluntria.
-  Quase todos voltam para as ruas depois de uma ou duas noites. As famlias ficam, mas
a maioria vai para abrigos permanentes. Ns no somos permanentes. Temos um esquema
temporrio. Somos apenas uma pequena ajuda para os sem-teto. Deixamos que eles
fiquem o tempo que quiserem, e tentamos encaminh-los para instituies, abrigos de
longo prazo ou orfanatos para crianas.Tentamos preencher suas necessidades de toda
forma que podemos, com roupas moradias, assistncia mdica quando necessria,
benefcios do governo quando  o caso. Somos uma espcie de departamento de
emergncia. Damos a eles muito carinho, amor e cuidado, alm de informaes, cama,
comida e uma mo para segurar. Gostamos desse esquema porque ajuda um nmero
maior de pessoas, mas h muitos problemas que no podemos resolver. s vezes  muito
difcil, mas no podemos fazer tudo. Fazemos o mximo possvel, depois eles seguem em
frente.
-   Parece que voc faz muita coisa -- disse Ophlie com ar de admirao.
- No o bastante. Esse trabalho  bem triste.  como esvaziar o oceano com uma colher
de ch, e toda vez que a gente pensa que fez uma diferena o oceano enche novamente,
mais depressa do que se imagina. O mais triste so as crianas. Esto no mesmo barco
que os outros, com mais possibilidade de se afogar, e a culpa no  delas. So as vtimas
disso tudo, assim como muitos adultos.
-  As crianas no podem ficar com os pais? -- Ophlie perguntou, morta de pena. No
podia imaginar Pip nas ruas com aquela idade, e muitas eram menores ainda ou tinham
at nascido l. Uma verdadeira tragdia, mas Ophlie sentiu-se contente de estar ali
ouvindo aquilo tudo. Era a escolha certa para ela, e sentia-se grata por Blake ter lhe
sugerido isso. Estava animada para trabalhar no Centro Wexler.
- As crianas s podem ficar com os pais, ou o pai
ou a me, como for o caso, se forem aceitas em
um abrigo de longo prazo para famlias ou algum
outro tipo de programa, como os que existem para
mes e crianas que sofreram abuso sexual. No
podem ficar nas ruas. Ento, assim que so vistas
pelos guardas, so levadas para servios de
proteo  criana para serem encaminhadas a
uma famlia que cuide delas. A vida nas ruas no 
para crianas. Um quarto da nossa populao
morre nas ruas todo ano de frio, doena, acidente,
trauma, violncia. As crianas no sobreviveriam
nem metade do tempo que os adultos sobrevivem.
 melhor para elas serem cuidadas por uma
famlia estranha. -- Ophlie era da mesma opinio. -- Voc tem
idia de quantas horas poder trabalhar aqui? De dia? De noite? Provavelmente de dia, se
 me solteira com uma filha na escola. A expresso "me solteira" atingiu-a como um
soco no estmago. Nunca tinha pensado em si mesma dessa forma, mas era verdade, por
pior que fosse.
Estou disponvel de nove s trs todos os dias. No sei... talvez duas ou trs vezes por
semana. -- Parecia bastante, at mesmo para ela, mas na verdade no tinha muito que
fazer, seu tempo era vago. No podia passar mais tempo do que passava com Mousse no
parque. Trabalhar ali e fazer o bem aos outros talvez desse algum sentido  sua vida.
Gostou da idia.
-  O que costumo fazer com as voluntrias -- disse Louise sinceramente, jogando uma
das tranas para trs do ombro --  mostrar primeiro como somos com toda a
honestidade. Sem frescura. A coisa real. Voc pode passar uns dias conosco e ver como
se sente. Saber se  o que est procurando e se  o que gosta de fazer. Depois disso, se
acharmos que vai se adaptar, treinaremos voc durante uma semana, duas no mximo,
dependendo da rea que escolher, e o trabalho comea.  um trabalho muito duro --
avisou. -- Ningum est de brincadeira. A equipe de horrio integral trabalha 12 horas
por dia quase sempre, e mais ainda quando temos alguns tipos de crise, e com muita
freqncia temos. At as voluntrias trabalham um bocado. O que acha? -- perguntou,
com um sorriso.
-  timo, realmente. -- Ophlie sorriu para ela, esperanosa. -- Creio que  exatamente
disso que preciso. Espero ser o que vocs precisam.
-  Vamos ver. -- Louise levantou-se e deu um largo sorriso. -- No estou tentando
assustar voc, Ophlie. S quero ser honesta. No quero dar a impresso de que o
trabalho  mais fcil do que . Ns nos divertimos muito, mas algumas coisas que temos
de fazer so horrveis, sujas, deprimentes, cansativas e perigosas. Voc volta para casa se
sentindo timas s vezes, outras vezes chora na hora de dormir. Vemos de tudo que tem
para ser visto nas ruas. E no sei se voc estaria interessada, mas temos um programa de
trabalho externo tambm.
-   Como  isso? -- perguntou Ophlie intrigada.
-  Samos em duas vans que foram doadas para ns, procurando gente nas ruas, pessoas
to doentes de corpo e esprito que no podem vir at aqui. Ento ns vamos a elas.
Levamos comida, roupas, suprimentos mdicos, e quando esto muito doentes tentamos
encaminh-las para um hospital, um programa ou um abrigo. H muita gente nas ruas
desorientada demais para chegar at aqui. Por mais acessveis que tentemos ser, h gente
l fora muito amedrontada, enfraquecida ou debilitada para nos procurar. Temos pelo
menos uma van nas ruas toda noite  procura deles. Duas vans se tivermos quem possa
ajudar. So recolhidos aqueles que mais precisam de ns. Aqueles que podem vir at aqui
pelo menos pensam com um pouco mais de clareza e conseguem andar. Alguns
moradores de rua se saem bem, mas precisam ser ajudados, e talvez estejam assustados
demais para tentar buscar ajuda. No confiam na gente, embora talvez tenham ouvido
falar dos abrigos. s vezes a nica coisa que fazemos na rua  noite  sentar e conversar
com eles. Eu pessoalmente sempre tento tir-los das ruas. Mas muita coisa da qual esto
fugindo  pior do que vivem l fora. Muita coisa feia acontece neste mundo. Ns vemos a
maioria delas, ou seus resultados, todo dia, especialmente  noite. Os dias so um pouco
mais serenos. Por isso  que samos  noite, pois  a hora em que precisam mais de ns.
-  Parece um trabalho bastante perigoso -- disse Ophlie. Achava que no podia se
arriscar por causa de Pip. Alm do mais, queria ficar em casa  noite com ela.
-  perigoso. Ns samos por volta de sete ou oito horas da noite e ficamos fora at tarde,
fazendo o que tiver de ser feito. J houve momentos arriscados. Mas at agora nenhum de
ns se feriu. Todos sabem bem o que acontece nas ruas.
-  Eles vo armados? -- Ophlie perguntou, impressionada. Essa gente era corajosa e
fazia um trabalho milagroso.
Louise riu e balanou a cabea.
-- Armados s com as cabeas e os coraes.  preciso querer ir para as ruas. No me
pergunte por que nem como, mas no fundo do corao tem de valer o risco. Mas no
precisa se preocupar com isso. H muita coisa que voc pode fazer para ns aqui. --
Ophlie concordou, o trabalho de rua lhe parecia perigoso. Coisa demais para uma me
solteira, como Louise dissera, e nica responsvel por uma filha. -- Quando pretende
comear?
Ophlie pensou um instante. No tinha nada para
fazer, s pegar Pip s trs da tarde.
-- Quando voc quiser. Meu tempo est livre.
- Pode ser agora? Voc pode dar uma ajuda para Miriam na recepo. Ela pode
apresentar voc s pessoas que forem entrando e saindo, e explicar muitas coisas que
acontecem aqui. Que tal?
- timo. -- Ophlie seguiu Louise muito animada at a mesa da recepo, e Louise
explicou a Miriam o que tinha em mente. A mulher de cabelo grisalho ficou encantada.
-  Vou precisar muito de voc hoje -- disse com um sorriso. -- Temos um monte de
coisas para arquivar, tudo que nossas assistentes sociais jogaram na minha mesa na noite
passada. Elas fazem isso assim que vou para casa!
Eram arquivos, folhetos e brochuras sobre
programas e outros abrigos, para serem
guardados em fichrios de consulta. Uma
montanha de coisas. Mais do que o suficiente para
manter Ophlie ocupada at as trs horas, e
durante dias depois disso.
Ela mal parou o dia todo, parecia que a cada cinco
minutos algum entrava ou saa, passando pela
recepo. Precisavam de material de consulta,
informaes sobre casos, nmeros de referncia,
documentos, formulrios de inscrio, e s vezes
paravam s para dizer ol. Miriam apresentava
Ophlie aos membros da equipe sempre que tinha
uma chance. Era uma gente de aspecto
interessante, quase todos jovens, embora alguns
fossem da idade de Ophlie ou at mais velhos.
Logo antes de ela sair entraram dois rapazes,
diferentes de todos os outros, e com eles uma
moa hispnica. Miriam sorriu assim que os viu. Um dos homens era negro e o outro
asitico. Ambos bonitos, jovens e altos.
-  L vm os nossos Indomveis, como eu os chamo -- disse, e virou-se para eles com um
largo sorriso. Era bvio que gostava deles. Ophlie ficou impressionada com a beleza da
mocinha, parecia uma modelo. Mas quando ela virou a cabea, viu uma enorme cicatriz
de ponta a ponta do seu rosto. -- O que esto fazendo aqui to cedo?
-  Viemos checar uma das vans que deu problema na noite passada. E precisamos
carregar umas coisas para hoje  noite.
Miriam apresentou-os a Ophlie, dizendo que ela ia ajudar ali.
-- Passe a voluntria para ns -- disse o asitico com um sorriso. -- Estamos com falta
de um homem depois que Aggie saiu.
Aggie no pareceu a Ophlie nome de homem,
mas os trs foram muito simpticos com ela. O
nome do asitico era Bob, do homem negro era
Jefferson e da moa hispnica, Milagra, mas os
dois a chamavam de Millie. Saram um instante
depois e foram para a garagem do prdio onde
ficavam as vans.
- O que eles fazem? -- Ophlie perguntou interessada quando voltou a trabalhar nos
fichrios atrs da mesa de Miriam.
-   nossa equipe de rua. So uns heris por aqui. Um pouco malucos, e muito corajosos.
Saem toda noite, cinco vezes por semana. Temos uma equipe de fim de semana que
assume quando eles no esto aqui. Mas esses sujeitos so incrveis. Sa uma vez com
eles e fiquei muito triste... e morta de medo. -- Seus olhos encheram-se de lgrimas de
afeio e respeito.
No  perigoso para uma mulher sair com eles?                                            --
Ophlie estava impressionada. Pareciam uns heris para ela tambm.
Millie conhece seu trabalho. Ela                               ex-policial. Est de licena
por invalidez porque levou um tiro no peito e perdeu um pulmo, mas  dura como os
caras.  especialista em artes marciais. Sabe se cuidar e cuidar dos homens.
- Foi assim que arranjou aquela cicatriz, trabalhando na polcia? -- perguntou Ophlie,
com um respeito cada vez maior por eles. Eram as pessoas mais corajosas que tinha
conhecido, e as mais dedicadas. E a mocinha hispnica era incrivelmente bonita, apesar
da cicatriz. Queria saber mais sobre ela.
-  No, Millie tem essa cicatriz desde criana. Abuso sexual. Seu pai a cortou enquanto
ela lutava para no ser estuprada. Acho que tinha 11 anos. -- Muitos deles tinham
histrias como aquela, mas Ophlie ficou chocada ao ouvir que Milagra tinha a mesma
idade de Pip quando esse horror aconteceu. -- Talvez por isso tenha ido trabalhar na
polcia.
Foi um dia diferente para Ophlie. Gente de vrios
tamanhos, idades e sexos entravam para usar o
chuveiro, fazer uma refeio, dormir ou s para
sair das ruas e passear pelo hall durante algum
tempo. Alguns pareciam muito coerentes e respon-
sveis, e at mesmo limpos, e outros pareciam
confusos, com olhos esgazeados. Alguns estavam
obviamente bbados, e um ou dois drogados. O
Centro Wexler era extremamente generoso nos
seus critrios de admisso. Ningum podia usar
lcool ou drogas dentro do prdio, mas se
estivessem em condies no muito boas quando
chegavam l tinham permisso de ficar.
A cabea de Ophlie estava girando quando ela foi
embora, prometendo voltar no dia seguinte. Mal
conseguia esperar para voltar, e contou tudo para
Pip quando foi busc-la no colgio.
Pip ficou impressionada, no s pelo que ouviu
sobre o Centro, mas pelo fato de a me ter resolvido se voluntariar.
Contou tudo para Matt quando lhe telefonou naquela tarde. Ophlie tinha subido para
tomar um banho, sentia-se imunda depois de trabalhar no Centro o dia todo, e estava
morrendo de fome quando desceu com o cabelo enrolado na toalha. No tinha parado nem
para almoar. Pip continuava conversando com Matt no telefone.
-  Matt mandou lembranas -- disse, e continuou a falar com ele enquanto Ophlie
preparava um sanduche. Nas ltimas semanas seu apetite tinha melhorado.
-   Lembranas para ele tambm -- falou Ophlie, dando uma dentada no sanduche.
-  Ele achou muito legal o seu trabalho -- disse Pip, interrompendo a conversa. Depois
falou com ele sobre o projeto de escultura que estava fazendo na aula de arte. E disse que
tinha se voluntariado para ajudar na apresentao do livro do ano. Pip adorava essas
conversas, embora no tanto quanto sentar-se com ele na praia. Mas o principal era no
perder o contato, e ele pensava da mesma forma. Finalmente passou o fone para sua me.
- Parece que voc est fazendo uma coisa bem interessante -- disse Matt com
admirao. -- Como  l?
-   assustador, entusiasmante, sujo, comovente, triste. Eu adorei. As pessoas que
trabalham l so incrveis, e as que vm pedir ajuda no abrigo so realmente legais.
- Voc  uma mulher admirvel. Estou impressionado. -- Estava sendo sincero. Ela o
impressionara desde o incio.
-  No se impressione. Eu s arquivei papis e me senti perdida. No tenho idia do que
estou fazendo, nem se vo me querer at o final da semana. -- Tinha prometido trabalhar
trs dias com eles, os dois restantes seriam para ela. Mas at agora estava adorando.
-   Vo querer, sim. Mas no v fazer nada perigoso, nem se arriscar. Voc tem de pensar
em Pip.
-  Eu sei, pode deixar. -- O fato de Louise Anderson ter se referido a ela como me
solteira lhe mostrou a importncia disso, de uma forma desconfortvel. -- Como vai a
praia?
-  Absolutamente vazia sem vocs duas -- disse com tristeza, embora o tempo estivesse
lindo depois da partida dela. Estava quente e ensolarado, com cu azul todos os dias.
Setembro era um dos meses mais quentes na praia, e Ophlie, como Pip, teve vontade de
estar l. -- Andei pensando em ver vocs nesse fim de semana, se for conveniente, a no
ser que vocs prefiram vir aqui.
- Creio que Pip tem treino de futebol no sbado de manh... talvez a gente possa ir no
domingo...
-   Por que no vou a? Se voc achar uma boa idia, no quero incomodar,
- Voc no vai incomodar. Pip vai ficar encantada. Eu tambm gostaria muito de ver
voc -- ela disse, num tom entusiasmado. Estava de bom humor, apesar do dia longo.
Trabalhar no Centro a revigorou.
- Vou levar vocs duas para jantar, pergunte a Pip aonde ela gostaria de ir. Quero saber
tudo sobre seu trabalho.
-  Acho que no vou fazer nada importante. Vou ser treinada durante uma semana, depois
creio que vo me pr para fazer o que for necessrio. Quase sempre informaes e
telefonemas. Mas j  alguma coisa. -- Era melhor que ficar sentada no quarto de Chad,
chorando em casa. E Matt sabia disso tambm.
- Vou chegar por volta das cinco horas no sbado. At l.
- Obrigada de novo, Matt -- ela disse, passando o
telefone para Pip despedir-se dele. Depois subiu
para ler o material que tinham lhe dado no Centro.
Artigos, estudos, dados sobre os sem-teto e sobre
o Centro. Era fascinante e muito triste.
Deitada ali na cama, com um robe de cashmere cor-de-rosa e lenis limpos, no pde
deixar de pensar em como elas tinham sorte. A casa era grande, confortvel e bonita,
repleta de antigidades que Ted insistira em comprar. Os quartos eram ensolarados, com
cores brilhantes. Seu quarto era decorado com chintz estampado em amarelo brilhante e o
de Pip com seda cor-de-rosa clara, um verdadeiro sonho. O de Chad era um tpico quarto
de adolescente, em xadrez azul-escuro. Fora do seu quarto ficava o escritrio de Ted em
couro marrom, no qual ela nunca mais entrara, e uma saleta em seda azul-clara e amarelo
desmaiado. O andar de baixo era composto de uma sala grande e acolhedora cheia de
antigidades inglesas, uma lareira grande, uma sala de jantar formal e uma saleta. A
cozinha era muito sofisticada desde que remodelaram a casa, cinco anos antes. No poro
havia uma sala grande com uma mesa de bilhar e uma de pingue-pongue, videogames e
um quarto de empregada que nunca fora usado. Havia um lindo jardinzinho nos fundos da
casa, e a fachada da frente era de pedra, com rvores plantadas em enormes vasos de cada
lado da porta, e uma sebe aparada. Era a casa dos sonhos de Ted, no a dela. Mas era sem
sombra de dvida bonita, e muito distante da agonia das pessoas que iam ao Centro
Wexler, ou trabalhavam l. Ophlie sentou-se, olhando para o lugar, e Pip apareceu na
porta e olhou para ela.
- Voc est bem, mame? -- Seu olhar estava parado como no ano anterior, e Pip ficou
preocupada.
-  Estou. S estava pensando na sorte que temos de morar aqui. H pessoas l fora nas
ruas que nunca dormem em uma cama, no tm banheiro, no podem tomar banho,
sentem fome e no so amadas por ningum nem tm para onde ir.  difcil imaginar, Pip.
Esto a poucos quilmetros daqui, e tambm em vrios lugares do Terceiro Mundo.
-  muito triste, mame. -- Pip olhou com seus grandes olhos azuis, mas ficou aliviada
ao ver que sua me estava bem. Tinha sempre medo de que voltasse para as profundezas
escuras do desespero, no queria que isso acontecesse de novo.
-  triste mesmo, querida.
Ophlie fez jantar para elas naquela noite. Cada uma comeu uma das costeletas de
carneiro, que ficaram um pouco queimadas. As duas no eram de comer muito, mas ela
achou que devia fazer um esforo para pelo menos melhorar o cardpio. Preparou uma
salada e esquentou cenouras de lata, que Pip disse que estavam pssimas e que preferia
milho.
-- Vou me lembrar disso -- disse Ophlie sorrindo.
Naquela noite, sem perguntar, Pip foi dormir na
cama da me. Quando o despertador tocou de manh as duas tomaram um banho,
vestiram-se e tomaram o caf-da-manh s pressas. Ophlie estava animada quando
deixou Pip no colgio e foi para o Centro Wexler. Era exatamente o que queria, e o que
precisava. Pela primeira vez em anos tinha um objetivo na vida.


                               Captulo            14
O   RESTO DA SEMANA voou para as duas, Pip integrando-se no colgio e Ophlie
fazendo treinamento no Centro Wexler. Na sexta-feira  tarde no tinha mais dvida
alguma. Estava pronta para trabalhar como voluntria trs dias por semana, e eles a
queriam l.
Ia trabalhar nas segundas, q uartas e sextas, e na semana seguinte
comearia o treinamento durante vrias horas com diversos membros da equipe. Teve de
apresentar um atestado mdico mostrando que estava bem de sade, e outro, de bons
antecedentes, providenciado por eles. Tiraram suas impresses digitais na sexta-feira
antes de ela sair e pediram duas referncias pessoais. Andrea daria uma e seu advogado
outra. Tudo estava pronto. Ela ainda no sabia exatamente o que iria fazer, provavelmente
um pouco de tudo, ajudando quem precisasse nos seus dias de trabalho. Ia tambm ser
treinada para fazer admisses. Ainda se sentia relativamente inadequada, mas estava
disposta a aprender. Recebeu uma brilhante recomendao de Miriam no final da semana,
que ela agradeceu bastante quando foi para casa.
- Passei no test e-- disse Ophlie orgulhosa, quando foi buscar Pip no colgio  tarde. --
Fui aceita como voluntria no Wexler. -- Estava realmente contente, sentia-se realizada e
necessria, achando que poderia dar uma pequena colaborao ao mundo.
-  Que legal, mame! Vou contar para Matt amanh! -- Ele tinha dito que iria v-la jogar
futebol, mas ela preferiu que ele fosse num outro dia. Sbado seria apenas um treino, e o
primeiro. Pip era pequena e delicada, mas era rpida e jogava bem. Tinha jogado durante
dois anos no colgio, como parte do currculo. E gostava muito mais do que de bal.
Terminou o dever na sexta-feira e trouxe uma amiga para passar a noite. Andrea foi jantar
com elas, e quando Pip disse que Matt ia lev-las para jantar no dia seguinte, ela levantou
as sobrancelhas para Ophlie.
-  Voc est escondendo coisas de mim, amiga. O pedfilo vem aqui? -- disse com ar
divertido.
- Ele queria ver Pip -- disse Ophlie com calma, convencida de que isso era verdade,
mas contente de ver o amigo. -- Acho melhor pararmos de chamar Matt assim.
- Talvez o termo mais adequado seja "namorado" -- disse Andrea, e Ophlie balanou a
cabea no mesmo instante, negando.
- Nada disso. No tenho interesse em ter um namorado. Ele  s um amigo. -- E sabia,
pelo que tinham conversado, que Matt sentia o mesmo. Decidira que romance no era
mais para ela, nem queria que fosse. Nunca mais.
-  nisso que est interessada? E ele? Um homem no vem  cidade jantar com uma
mulher s para ver sua filhinha. V por mim. Eu conheo os homens. -- Conhecia
mesmo, e ambas sabiam disso.
-   Talvez alguns venham -- disse Ophlie com firmeza.
- Ele est apenas esperando o momento -- Andrea falou confiante. -- Assim que achar
que voc se sente  vontade, vai atacar.
- Espero que no -- Ophlie falou com convico,
mudando de assunto e falando sobre seu trabalho
no Centro Wexler. Andrea ficou impressionada e
contente de a amiga ter encontrado uma coisa
para fazer.
Na tarde seguinte, quando a campainha tocou e
Ophlie foi atender, a avaliao de Andrea sobre
sua amizade com Matt passou-lhe pela cabea. E
esperou ardentemente que a amiga estivesse
errada.
Ele vestia um casaco de couro e cala cinza,
camisa cinza de gola rul                      e sapato esporte bem engraxado. O tipo de
roupa que Ted teria usado, s que melhor. Ted nunca se lembrava de engraxar os sapatos,
nem ligava para isso. Preocupava-se com coisas mais importantes. Ophlie  que os
engraxava.
Matt sorriu assim que a viu, e quando Pip apareceu na escada, Ophlie constatou que sua
amiga estava errada, por mais que achasse que conhecia os homens. Estava errada sobre
ele, no tinha dvida, e ficou imensamente aliviada. Matt demonstrava um carinho
paternal por Pip e fraternal por ela. Quando Pip finalmente se acalmou, depois de lev-lo
ao seu quarto para mostrar seus tesouros e ltimos desenhos, Ophlie falou um pouco
sobre o Centro e ele ficou impressionado e intrigado. Comentou at sobre a equipe de rua.
--  Espero que no esteja planejando fazer parte disso -- falou com calma, parecendo
preocupado. --  um aspecto importante do trabalho, sem dvida, e uma tima ajuda,
mas me parece perigoso.
-  perigoso mesmo. Eles so muito bem preparados. A mulher da equipe  ex-policial,
um dos homens  ex-policial tambm e perito em artes marciais, como ela, e o terceiro foi
da fora especial da Marinha. No precisam da minha ajuda! -- Deu um sorriso e Pip
apareceu de novo. Estava encantada com a visita de Matt, e quando sua me saiu da sala
para pegar uma taa de vinho perguntou baixinho sobre o retrato dela que ele estava
pintando.
- Como est indo? Trabalhou nele essa semana? --
Sabia que seria o melhor presente que a me
receberia e mal podia esperar para ver sua reao
quando ganhasse.
Estou comeando -- respondeu, sorrindo para a
amiguinha. Esperava que ela no se desapontasse
com o resultado final, mas estava gostando do que
tinha feito at agora. Seus sentimentos por Pip
ajudaram-no a captar seu esprito e sua alma
assim como o cabelo vermelho brilhante e os
meigos olhos castanhos com ligeiro tom de mbar.
Gostaria de pintar Ophlie tambm, embora no pintasse um adulto
h muito tempo. Mas gostaria de tentar.
Perto das sete horas, quando estavam saindo para jantar, Matt parou de repente.
-   Voc esqueceu uma coisa -- disse para Pip, e ela pareceu surpresa.
-  No podemos levar Mousse para o restaurante -- ela disse num tom srio. Usava uma
sainha preta e suter vermelho, que a fazia parecer bem mais velha. Tinha se arrumado
cuidadosamente para ele, e sua me prendera seu cabelo com uma presilha nova. -- S
podemos levar o Mousse para restaurantes na praia -- explicou.
-   Eu no estava pensando nele. Podemos trazer as sobras do nosso jantar para ele. Voc
no mostrou as pantufas do Elmo e do Arquibaldo -- disse, em tom de repreenso, e Pip
riu.
- Quer ver agora? -- Ficou contente, ele se lembrava de tudo que tinha lhe contado.
Sempre se lembrava.
- S vamos sair depois que voc me mostrar -- disse com firmeza. Deu um passo atrs e
cruzou os braos em sinal de espera, e Ophlie sorriu para os dois. Matt olhou para ela
tambm.
- Estou falando srio. Quero ver o Elmo e o
Arquibaldo. Acho que vocs vo ter de cal-las. --
Fingiu estar falando srio, e Pip subiu as escadas
correndo para busc-las, em verdadeiro xtase.
Voltou um instante depois com os dois pares e
passou o Arquibaldo para a me.
Meio sem graa, Ophlie calou aquelas pantufas enormes e Pip calou as dela, esperando
a aprovao de Matt.
- So fantsticas. Adorei. Estou com inveja mesmo. Tambm quero um par. Ser que no
encontram do meu tamanho?
- Creio que no -- disse Pip em tom de desculpa. -- Mame disse que mal conseguiu um
par para ela, e o p dela  bem pequeno.
- Estou arrasado -- disse ele, quando as duas
calaram os sapatos de novo e desceram os
degraus para chegar ao carro dele.
O jantar foi timo, e os trs conversaram sobre
vrios assuntos. Ocorreu a Ophlie de novo,
observando Matt com Pip, como devia ter sido
difcil para ele perder o contato com os filhos. Ni-
tidamente, adorava crianas e tinha muito jeito
para lidar com elas. Empenhava-se muito, era
aberto e carinhoso, e interessava-se por tudo que
Pip dizia. Era de uma cordialidade irresistvel, e ao
mesmo tempo mantinha uma reserva respeitosa.
Ophlie nunca se sentiu invadida por ele. Matt
aproximava-se o suficiente, mas no era invasivo.
Era realmente um homem bom, e um amigo maravilhoso para as duas.
Quando voltaram para casa, s nove e meia, todos estavam felizes. Matt lembrou-se de
pedir as sobras do jantar para Mousse, que Pip despejou na sua tigela na cozinha.
-  Voc  muito bom para ns, Matt -- disse Ophlie quando se sentaram na sala e ele
acendeu a lareira, como tinha feito na praia. Pip voltou um instante depois e foi vestir o
pijama sob protesto, por ordem da me. Mas bocejando enquanto reclamava, e Matt e
Ophlie riram.
-  Voc merece que as pessoas a tratem bem -- disse Matt, voltando a sentar-se no sof
ao seu lado, sem aceitar o vinho que ela ofereceu. Andava bebendo muito pouco nesses
dias. Estava se divertindo com o retrato de Pip e gostou de vir  cidade visitar as duas. S
bebia mais quando se sentia sozinho ou deprimido, e no sentia nada disso ultimamente,
graas a elas. -- Ns todos merecemos que nos tratem bem -- disse a ela, com a
exclusiva inteno de afirmar sua amizade. -- Sua casa  linda -- comentou, com
sinceridade, admirando a sala e as belas antigidades de decorao. Um pouco formal
para seu gosto, mais ou menos como o apartamento de Sally em Nova York. Na poca,
tinham comprado um duplex na Park Avenue e contratado um dos melhores decoradores
da cidade. Matt ficou imaginando se a casa de Ophlie tinha sido decorada tambm ou se
era obra dela mesma, e lhe perguntou depois de mais uma olhada em volta.
- Estou lisonjeada com sua pergunta -- Ophlie disse, com um sorriso de gratido. --
Comprei tudo isso sozinha nos ltimos cinco anos. Gosto de fazer isso. Adoro
antigidades e decorao.  divertido, embora esta casa tenha ficado um pouco grande
demais para mim e Pip. Mas no tenho coragem de vend-la. Ns adoramos morar aqui,
embora seja um pouco triste s com ns duas. Mais tarde vou ter de pensar em alguma
coisa.
-  No tem pressa. Sempre achei que Sally e eu vendemos o apartamento de Nova York
rpido demais. Mas no fazia sentido mant-lo depois que ela e as crianas foram embora.
Tnhamos um monte de coisas bonitas -- disse num tom nostlgico.
-   Voc vendeu tudo?
-  No. Dei para Sally e ela levou para Auckland. S Deus sabe o que fez com aquelas
coisas depois que se mudou para a casa de Hamish. No percebi na poca que era esse seu
plano, ou que ela se mudaria to depressa. Achei que ia ter sua prpria casa primeiro. Mas
ela no perdeu tempo. Sally  assim. Quando resolve uma coisa, faz logo. -- Por isso foi
uma grande scia, mas uma pssima esposa no final. Ele teria preferido o oposto. -- Mas
isso no importa -- disse, encolhendo os ombros, parecendo bem relaxado. -- Pode-se
sempre substituir as coisas, as pessoas, no. E eu no preciso de uma casa com
antigidades na praia. Levo uma vida muito simples, e  tudo o que quero.
Ophlie         sabia que era verdade, depois de ter visto sua casa rapidamente, mas
mesmo assim lhe pareceu uma pena. Ele tinha perdido muita coisa. Mas apesar de tudo
parecia estar em paz, e contente. Sua vida lhe agradava, sua casa era confortvel. Gostava
do seu trabalho. A nica coisa que parecia estar faltando era gente, e ele tambm no
sentia falta disso. Era um ser muito solitrio. E agora tinha Pip e Ophlie, sempre que
quisesse visit-las.
Ficou l at as 11h, depois achou que devia ir embora. A estrada para a praia
ficava enevoada  noite, e ele levaria um certo tempo para chegar l. Disse que tinha se
divertido muito com elas, como sempre. Enfiou a cabea no quarto de Pip para se
despedir de novo, mas ela estava dormindo a sono solto, com Mousse no p da cama e a
pantufa do Elmo no cho.
- Voc  uma mulher de sorte -- falou, com um sorriso caloroso, quando foi descendo as
escadas. -- Pip  uma menina incrvel. Tive muita sorte de ela ter me encontrado na praia,
foi timo. -- No podia imaginar o que faria na vida sem as duas agora. Pip era uma
ddiva de Deus, e Ophlie, um presente extra que vinha junto.
- Ns temos sorte tambm, Matt. Obrigada por uma linda noite. -- Deu-lhe dois beijos
no rosto e ele sorriu, lembrando-se dos anos que passou na Frana quando era estudante,
25 anos atrs.
- Avise quando for o jogo de futebol de Pip. Eu volto. Alis, posso voltar a qualquer
hora.  s telefonar.
--   Eu aviso -- disse ela, rindo.
Pip iria lhe telefonar no dia seguinte, mas Ophlie no via mal algum nisso. Precisava de
uma figura masculina na sua vida, e Ophlie no tinha outra para oferecer. O
relacionamento deles era proveitoso para os trs.
Ophlie viu-o sair na caminhonete velha, fechou a porta e desligou as luzes. Pip tinha ido
dormir no seu prprio quarto, algo raro naqueles dias, e Ophlie ficou acordada no escuro
em sua cama grande demais, pensando na noite que tiveram e no homem que se tornara
amigo de Pip e dela. Sabia que tinham sorte de ter Matt, mas quando pensava nele seus
pensamentos acabavam em Ted. As lembranas que tinha do marido com freqncia
pareciam perfeitas sob certos aspectos, e difceis sob outros. Havia uma diferena
profunda e silenciosa e agonias antigas voltavam  sua cabea, mas apesar de tudo sentia
uma falta insuportvel dele. Sua vida como mulher parecia terminada, e at mesmo seu
papel de me duraria pouco. Chad no existia mais e Pip teria sua prpria vida dentro de
poucos anos. No podia nem imaginar como seria sua vida, e detestava pensar nisso.
Ficaria sozinha, inevitavelmente. Apesar de amigos como Andrea e agora Matt, quando
Pip fosse para a faculdade e seguisse seu prprio rumo sua vida no teria qualquer
objetivo ou utilidade. Esse pensamento encheu-a de pnico, e sentiu saudade de Ted de
novo. A nica direo em que podia olhar em noites como essa era para trs, para uma
vida terminada, olhar para a frente deixava-a aterrorizada. Era em momentos assim, de
profunda busca, que compreendia muito bem como Chad tinha se sentido. S sua
responsabilidade com Pip  que a fazia seguir adiante, no cometer uma loucura. Mas s
vezes, no escuro da noite, sentia-se tentada a isso, inegavelmente. Por mais errado que
fosse, considerando a responsabilidade com Pip, a morte teria sido um grande alvio.


                                Captulo            15
TRS DIAS DEPOIS do agradvel jantar com Matt, Ophlie teve de enfrentar um desafio
que vinha receando h algum tempo. Depois de quatro meses de apoio e freqncia
regular, seu grupo ia terminar. Era a chamada "formatura" e "retorno" ao mundo com os
prprios passos, quando tentavam dar ao ltimo encontro um ar de celebrao. Mas a
realidade de no se verem mais e perderem o apoio e a intimidade que tinham comparti-
lhado deixou Ophlie e vrios outros em lgrimas no ltimo dia.
Todos se abraaram e prometeram manter
contato, trocaram nmeros de telefone e falaram
sobre seus planos futuros. O Sr. Feigenbaum
estava saindo com uma mulher de 78 anos que ti-
nha conhecido quando tomava aulas de bridge, e
mostrava-se bem entusiasmado. Alguns tinham
comeado a namorar, outros tinham planos de
viajar, uma das mulheres decidira vender a casa
depois de grande agonia, outra concordara em
morar com a irm e um homem de quem Ophlie
no gostava muito finalmente fizera as pazes com
a filha depois da morte da esposa e de uma briga
de quase trinta anos. Mas a maioria ainda tinha
um longo caminho pela frente, e muitos acertos a
fazer.
A principal realizao de Ophlie, pelo menos visivelmente, foi
voluntariar-se para trabalhar no Centro Wexler. Sua atitude estava melhor, o vazio que
ainda sentia s vezes, do qual todos falavam e receavam, j no era to profundo, e os
perodos sombrios no duravam muito. Mas ela sabia, como todos sabiam com relao s
suas prprias vidas, que a luta para ajustar-se s suas perdas no terminara, de forma
alguma. Sentia-se apenas melhor que antes, e adquirira ferramentas mais eficazes para
enfrentar essas perdas. Era o mximo que podia esperar, e sob certos aspectos parecia o
suficiente.
Mas foi tomada de tristeza, com a sensao de mais uma perda, quando se despediu de
Blake, e parecia profundamente infeliz quando foi buscar Pip na escola.
- O que aconteceu, mame? -- Pip perguntou preocupada. Tinha visto a me assim
muitas vezes antes, e ficava sempre com medo de o rob voltar e tomar o lugar dela,
como fizera durante quase um ano. No queria o rob de volta. Sentiu-se abandonada
durante dez meses, depois que seu pai e seu irmo morreram.
-  Nada -- disse Ophlie, sem querer admitir seus sentimentos para a filha. --  uma
bobagem, eu acho. Meu grupo terminou hoje. Vou sentir falta deles. Algumas pessoas de
l eram timas, e apesar de eu estar sempre reclamando por ter de ir s reunies, o grupo
me ajudou muito.
- No d para voltar? -- Pip continuava preocupada. No estava gostando do ar da me.
J conhecia bem isso. E lembrou-se quando Chad ficava assim tambm. Aquele ar
sombrio e vago de infelicidade mxima que parecia no ter fundo, que deixava sua vtima
parada, com indiferena e dor. Queria fazer alguma coisa para aquilo parar antes que
fosse tarde demais, mas no sabia o qu. Nunca sabia.
-  Posso ir para outro grupo, se precisar. Mas aquele acabou. -- Ela parecia
desesperanada, e Pip entrou em pnico.
-   Talvez fosse bom voc ir.
-  Eu vou ficar bem, Pip. Prometo. -- Abraou a filha e continuaram o percurso em
silncio. Assim que chegaram em casa Pip foi para a saleta do andar de cima que ningum
mais usava, e telefonou para Matt. Estava chovendo naquele dia, e ele estava trabalhando
no retrato dela em casa e no na praia.  medida que o inverno chegava, ele ia cada vez
menos  praia, mas o tempo continuava bom, a no ser naquele dia.
-  Ela est pssima -- disse Pip baixinho, rezando para a me no pegar o telefone em
outro lugar da casa. O telefone tinha um boto para a conversa no ser ouvida, mas ela
no sabia se funcionava. -- Estou com medo, Matt -- disse com sinceridade, e Matt ficou
contente de Pip ter telefonado. -- No ano passado eu pensei... ela... ela no saa da cama
s vezes, nem penteava o cabelo... nunca comia... ficava acordada a noite toda... no
conversava comigo... --As lgrimas encheram-lhe os olhos enquanto falava, e as palavras
cortaram o corao dele de tanta pena das duas.
-  Sua me est agindo dessa forma agora? -- perguntou, preocupado. Ophlie lhe
parecera bem no sbado anterior, mas nunca se sabia. Podia estar escondendo alguma
coisa. H pessoas em desespero que guardam tudo para si mesmas e tm finais terrveis, e
ele no sabia se Ophlie era uma delas. Pip devia saber melhor que ele, apesar da sua
pouca idade.
--  Ainda no -- disse Pip, prevendo uma catstrofe. -- Mas est com um ar muito triste
-- acrescentou, ainda com lgrimas nos olhos.
-  Est provavelmente um pouco assustada de perder o apoio que recebia do grupo. Dizer
adeus  difcil para ela agora. Vocs duas perderam muita coisa -- falou, sentindo-se mal
de lembrar isso a Pip, mas era verdade, e ela parecia to adulta que ele podia tomar certas
liberdades. No telefone, parecia mais me que filha. Aquela conversa seria mais prpria
de Ophlie sobre Pip, e no o oposto. Ela tinha crescido depressa no ltimo ano. O
aniversrio de morte do seu pai e irmo seria em um ms. --  bom vigiar sua me, mas
ela vai melhorar. Parecia bem na outra noite e nas poucas vezes em que a vi na praia.
Deve ter altos e baixos, mas provavelmente vai sair dessa logo. Se no sair, vou at a ver
o que acho da situao. -- No havia nada que algum pudesse fazer. No contexto do
relacionamento que ele tinha com as duas, aquele no era seu papel. Mas como amigo
poderia ajudar, ou pelo menos apoiar Pip. Ela no tinha recebido apoio algum durante um
ano e estava grata a ele agora. Mais do que ele poderia imaginar, ou que ela conseguiria
dizer.
-  Obrigada, Matt -- disse do fundo do corao. S de falar com ele j se sentia mais
aliviada.
- Telefone amanh para dizer como vo as coisas. A propsito, seu retrato est ficando
bem bonito -- disse com modstia.
-  Estou louca para ver! -- Sorriu e desligou o telefone um instante depois. Eles no
tinham planos de se ver no momento, mas Pip sabia que Matt estaria ali se fosse preciso,
o que lhe deu um sentimento muito grande de amor e apoio da parte dele. Era disso que
precisava.
Ophlie estava infeliz com a separao do grupo,
sem vontade de cozinhar naquela noite, quando a
campainha tocou. Levou um susto, no podia
imaginar quem fosse. No estavam esperando
ningum, Matt no estava na cidade e Andrea
nunca aparecia sem avisar. S podia imaginar que
fosse algum tipo de entrega, ou talvez Andrea
tivesse resolvido dar um pulo l inesperadamente.
Ao abrir a porta viu um homem careca, de culos,
e a princpio no o reconheceu. Levou um minuto
inteiro para identificar a pessoa. Seu nome era
Jeremy Atcheson, e ele fazia parte do grupo que
terminara naquela tarde. Seu rosto no lhe
pareceu familiar no comeo, mas logo depois ela o
reconheceu.
- Sim? -- disse ela, quando ele olhou por cima do seu ombro para ver a casa. S ento
ela percebeu quem era. O homem parecia nervoso, e Ophlie no podia imaginar o que
estava fazendo ali. Era uma dessas pessoas comuns que falavam pouco, e na sua opinio
tinha contribudo menos que os outros. Os dois nunca tiveram uma afinidade especial, e
Ophlie no se lembrava de ter conversado com ele dentro ou fora do grupo.
- Oi, Ophlie -- disse ele, com umas gotinhas de suor no lbio superior. Ela teve a ntida
impresso de que seu hlito cheirava a lcool. -- Posso entrar? -- Sorriu, nervoso, com
um ar um tanto malicioso. Quando o olhou mais de perto, Ophlie percebeu que ele
estava despenteado e com pouco equilbrio.
- Estou cozinhando -- disse ela sem jeito, sem saber o que ele queria. S sabia que
conseguira seu endereo na lista que o grupo distribura naquele dia para aqueles que
quisessem se manter em contato.
- Que timo! -- disse ele, com ar atrevido e um sorriso desagradvel. -- Eu ainda no
comi. O que vai ter para o jantar?
Ophlie ficou de queixo cado com tanta desfaatez, e ao perceber
que ele pretendia entrar foi fechando a porta lentamente. No tinha inteno de ser gentil
com ele. Pressentiu que alguma coisa desagradvel poderia acontecer, e quis evitar isso a
todo custo.
--  Desculpe, Jeremy. Tenho de voltar para a cozinha. Minha filha est faminta e um
amigo meu vai chegar daqui a um instante.
Tentou fechar a porta toda mas ele a deteve com
a mo, e ela percebeu logo que ele era mais
rpido e mais forte do que imaginara. No sabia
bem se devia lhe dar um chute ou gritar. Mas no
havia ningum ali para ajud-la, a no ser Pip.
Tinha dito "um amigo ia chegar" para ver se o
homem ia embora. Era uma cena desagradvel, e
uma violao ao respeito que fora criado no grupo.
- Por que essa pressa? -- disse ele, olhando para seu corpo, querendo empurr-la para
trs, mas sem coragem de fazer isso. Felizmente o lcool, sem dvida, deixara-o lento.
Mas enquanto ficou ali, a poucos centmetros de distncia, deu para notar o cheiro. -- 
um namorado?
- , sim. -- Teve vontade de acrescentar que era um homem de mais de 1,90m de altura
e faixa preta em carat, mas no conseguiu descrever algum to amedrontador para det-
lo. Quando percebeu a situao em que se encontrava, ficou assustada,
- No , no -- disse ele. -- Voc sempre falava no grupo que no queria ter namorado,
que nunca teria. Achei que se pudssemos sair para jantar voc talvez mudasse de idia.
-- Era ridculo dizer isso, e uma grosseria tambm. Entretanto, ele estava assustando
Ophlie, e ela no sabia o que fazer. Nunca tinha se visto numa situao semelhante
depois que se casara com Ted. Uma vez apareceram dois bbados no dormitrio da
faculdade que a deixaram morta de medo, mas o supervisor do andar os viu e mandou
chamar a segurana. Mas ali no havia um supervisor para salv-la, s Pip.
-  Foi muita gentileza sua vir aqui -- disse Ophlie educadamente, imaginando se
conseguiria ter fora suficiente para bater a porta na cara dele, mesmo que tivesse de
quebrar seu brao. -- Mas vai precisar ir embora agora.
- No vou, no. E voc no quer que eu v. No ,
querida? Do que est com medo? O grupo acabou,
j podemos namorar quem quisermos. Ou ser
que voc tem medo de homem? Voc  lsbica? --
Ele estava mais bbado do que ela imaginara a
princpio, e de repente percebeu que estava
realmente correndo perigo. Se ele entrasse, podia
machuc-la ou machucar Pip. Ao constatar isso
juntou foras, e sem hesitao empurrou-o com
uma das mos e bateu a porta com a outra com
violncia. Nesse momento, Mousse apareceu no alto da escada,
comeou a latir e veio para seu lado sem idia do que estava acontecendo, mas achan do
que havia alguma coisa errada. Ophlie tremia quando passou a corrente na porta, e pde
ouvir o homem xingando-a do outro lado e gritando obscenidades. -- Sua filha-da-puta!
Acha que  boa demais para mim, no ?
Ficou junto da porta, ainda tremendo, assustada e vulnervel como no se sentia h anos.
Lembrou-se de repente que ele se juntara ao grupo depois da morte do irmo gmeo, e ao
que parecia ainda no se recuperara do choque. Seu irmo foi morto por um motorista
desgovernado. Uma das poucas vezes em que o notou no grupo teve a sensao de que ele
ficara desequilibrado com a morte do irmo, e entregar-se  bebida no resolvera nada. Se
ele entrasse em sua casa agora poderia fazer alguma coisa horrvel com ela ou com Pip.
Sem saber como agir, fez exatamente o mesmo que Pip, telefonou para Matt. Contou o
que tinha acontecido e perguntou se devia chamar a polcia.
-   Ele ainda est l fora? -- Matt pareceu perturbado com a notcia.
-   No, ouvi o carro saindo quando disquei seu nmero.
- Ento provavelmente est tudo bem, mas se eu fosse voc telefonaria para o lder do
grupo. Ele pode tomar alguma providncia. Provavelmente, o homem estava s bbado,
mas foi um horror o que ele fez. Deve ser um maluco. -- Ou um estuprador, pensou. Mas
no quis assust-la.
- Ele  um bbado, mas me assustou um bocado. Tive medo que entrasse e fizesse alguma
coisa com Pip.
- Ou com voc. Pelo amor de Deus, no abra a porta para estranhos assim.
De repente, Ophlie sentiu-se muito vulnervel e desprotegida. Era corajosa, como
provou quando salvou o menino no mar, mas era tambm uma mulher bonita que morava
sozinha com uma menina.
- Pea para o lder do grupo repreender esse homem com firmeza e dizer que da prxima
vez voc vai chamar a polcia e mandar prend-lo. Caso volte esta noite, chame a polcia
imediatamente, depois me telefone. Posso dormir no sof da sala se voc estiver
preocupada, no me importo de ir at a.
- No precisa -- disse ela, agora mais calma. -- Eu
estou bem. Foi uma situao estranha e fiquei
assustada por um instante. Ele devia ter idias
estranhas sobre mim o tempo todo em que
estivemos no grupo.  um sentimento no mnimo
desagradvel.
Viver sozinha era bastante difcil, mas ter gente
como Jeremy tentando forar caminho para entrar
na sua casa era perturbador. Sua vulnerabilidade
era um dos males da sua situao, e depois do
acontecido teria de ser muito cuidadosa e alerta.
Sabia que no podia esperar que Matt fosse seu
guarda-costas, nem ele nem ningum. Tinha de
aprender a lidar com coisas assim por conta
prpria. Teve mais pena que nunca do grupo ter
terminado. Teria gostado de discutir com eles esse
tipo de coisa. Agradeceu a Matt por sua
solidariedade, preocupao e conselho, e assim
que desligou telefonou para Blake Thompson, que
tambm ficou muito aborrecido com a histria.
Prometeu telefonar para Jeremy no dia seguinte,
quando ele deveria estar sbrio, e falar com
firmeza que ele no s violara a confiana sagrada
do grupo como fora abusivo. Ophlie parecia calma de novo
quando Matt telefonou depois do jantar para ter notcias. Ophlie no tinha dado muitos
detalhes a Pip para no assust-la. Garantiu que o homem era inofensivo e que aquilo no
significava nada, o que provavelmente era verdade. Estava convencida de que fora um
incidente isolado, mas mesmo assim tinha ficado assustada. Pip ficou aliviada ao ver a
me mais ligada de novo durante o jantar, e no dia seguinte parecia bem quando foi lev-
la no colgio e trabalhar no Centro Wexler.
Blake telefonou no fim da manh para o Centro e disse a Ophlie que tinha avisado a
Jeremy que pediria uma ordem de priso contra ele caso a incomodasse de novo. Falou
que Jeremy chorou e admitiu que fora direto a um bar quando o grupo terminou e bebera
a tarde toda at a hora em que bateu na porta dela. Resolveu fazer umas sesses de anlise
individual com Blake, e lhe pedira para desculpar-se com ela. Blake falou que tinha quase
certeza de que isso no aconteceria de novo. Foi uma boa lio para ela ser mais
cuidadosa com estranhos, mesmo aqueles que conhecia ligeiramente. Havia um mundo
novo l fora  sua espera, cheio de males que ela nunca vira quando era uma mulher
casada. Um pensamento nada animador.
Ophlie        agradeceu a Blake por cuidar da situao, voltou para o trabalho e
esqueceu-se do ocorrido. Quando chegou em casa naquela tarde encontrou na porta de
entrada uma carta de Jeremy pedindo desculpas e garantindo que no a importunaria
mais. Aparentemente, cada um tinha sua prpria forma de lidar com o efeito
desestabilizador da perda de apoio do grupo. A dele fora mais assustadora que a dos
demais, mas mostrou que ela no foi a nica a sentir-se deprimida e abalada. Era uma
grande adaptao e uma perda no ter mais o apoio do grupo. Agora teria de soltar-se no
mundo, como todos os outros, e tentar usar o que aprendera.
Assim que ps os ps no Centro esqueceu-se dos
seus prprios problemas. Ficou to ocupada at as
trs horas que mal teve tempo para respirar.
Adorava o que estava fazendo e tudo que estava
aprendendo. Fez duas admisses naquele dia.
Uma de um casal com dois filhos, que tinham
vindo de Omaha e perdido tudo. No tinham o
suficiente para comer, viver, pagar aluguel, criar
os    filhos,  e   marido     e   mulher    estavam
desempregados. No podiam contar com ningum,
mas estavam tentando se recompor. O Centro fez
tudo que podia fazer para ajud-los, arranjando
inclusive vales de alimentao reservados para
desempregados e matrcula para os filhos no
colgio. O casal deveria passar para um abrigo
permanente dentro de uma semana, e com a
ajuda do Centro conseguiria ficar com as crianas,
o que era uma grande conquista. Ophlie quase
chorou quando ouviu a histria deles e conversou
com a menininha, que tinha exatamente a idade
de Pip. Era difcil imaginar como as pessoas
chegavam a esse ponto, e lembrou-se mais uma
vez que ela e Pip tinham muita sorte. Imagine se
Ted tivesse morrido e deixado as duas sem uma
casa. Nem era bom pensar.
Sua segunda admisso foi de uma me com a
filha. A me, alcolatra, tinha perto dos 40 anos, e
a filha tinha 17 e era viciada em drogas. A filha
andava tendo uns ataques, em resultado da
drogas que usava ou por alguma outra razo, e as
duas viviam nas ruas h dois anos. As coisas se
complicaram ainda mais quando a filha admitiu
para Ophlie que estava grvida de quatro meses.
Uma verdadeira desgraa. Miriam e uma das
assistentes sociais entraram no caso para
encaminh-las para o programa de reabilitao,
com benefcios mdicos e tratamento pr-natal
para a filha. Elas saram do Centro e foram para
outro prdio naquela noite, e na manh seguinte
comearam a reabilitao.
No final da semana, a cabea de Ophlie girava,
mas o trabalho lhe agradava muito. Nunca se
sentiu to til na vida, nem to humilde. Estava
vendo e aprendendo coisas difceis de imaginar
que existiam. Inmeras vezes ao longo do dia
tinha vontade de baixar a cabea e chorar, mas
sabia que no podia. No podia deixar os clientes
verem como era trgica a situao deles, ou sem
esperana. Muitas vezes era difcil imaginar se
sairiam de suas situaes desesperadas, mas
alguns saam. Sassem ou no, ela e outros do
Centro estavam ali para fazer o que pudessem
para ajud-los. Ophlie ficava comovida com as
coisas que via, e tinha uma enorme pena de no
poder contar tudo para Ted quando chegava em
casa  noite. Gostava de acreditar que ele ficaria
fascinado com suas histrias. Compartilhava o
mximo que podia com Pip, sem assust-la
indevidamente.      Algumas     histrias           eram
deprimentes demais, ou muito pesadas. Um sem-
teto tinha morrido na porta da casa delas naquela
semana quando estava indo para o Centro, por
causa do alcoolismo, com falncia dos rins e
desnutrio. Mas ela tambm no contou isso para
Pip.
Na sexta-feira  tarde, Ophlie percebeu que
tomara a deciso certa. E essa opinio foi
altamente reforada por seus conselheiros, que a orientavam,
e pelos colegas de trabalho. Ela seria obviamente uma grande ajuda para o Centro, e
sentia pela primeira vez que encontrara um propsito e uma direo na vida.
Estava saindo quando Jeff Mannix, da equipe de rua, passou por ela e parou para pegar
uma xcara de caf.
-   Como vai indo? Semana muito ocupada? -- perguntou com um risinho.
-  Para mim foi. No tenho como comparar, mas acho que se houver mais movimento que
isso teremos de trancar as portas para no sermos pisoteados.
-   isso mesmo. -- Sorriu para ela e deu um gole no caf. Tinha vindo fiscalizar as
provises, alguns suprimentos mdicos e de higiene que estavam sendo acrescentados ao
material usual. Em geral, s chegava para trabalhar s seis horas, mas ficava nas ruas at
trs ou quatro da manh. Era fcil ver que ele adorava o que fazia.
Os dois falaram um instante do homem que tinha morrido na porta da casa dela na quarta-
feira. Ophlie ainda estava abalada com a histria.
--   Detesto dizer isso, mas vejo casos assim a toda hora nas ruas, no me surpreende
mais. Nem sei mais quantos sujeitos tento acordar, e quando consigo vir-los... j se
foram. Homens, e mulheres tambm. -- Mas havia muito menos mulheres nas ruas. Elas
apelavam mais para os abrigos, embora Ophie tivesse ouvido histrias horrveis a esse
respeito. Duas mulheres que admitira naquela semana contaram que tinham sido
estupradas nos abrigos, o que aparentemente no era raro. -- A gente pensa que se
acostuma com isso -- disse ele em tom sombrio --, mas nunca se acostuma. -- Depois
olhou-a como se a avaliasse. Tinha ouvido elogios a ela durante toda a semana. -- Ento,
quando voc vai dar uma sada conosco? J trabalhou com todos aqui. Ouvi dizer que
voc  muito gil nas admisses e nos fornecimentos. Mas s vai ter uma idia completa
desse trabalho depois que sair comigo, com Bob e com Millie. Ser que vai ser real
demais para voc? -- Era um desafio, e sua inteno era exatamente essa. Por mais que
respeitasse os colegas, ele e os outros das equipes de rua achavam que o trabalho deles era
o mais importante do Centro. Corriam mais riscos e davam mais ajuda l fora numa noite
que o pessoal do Centro em uma semana. E achava que Ophlie devia ver isso tambm.
- No sei se eu poderia ajudar muito -- disse Ophlie com sinceridade. -- Sou meio
covarde. Ouvi dizer que vocs so verdadeiros heris. Eu provavelmente teria muito
medo de sair na van.
-  Talvez nos primeiros cinco minutos. Depois vai esquecer e fazer o que for necessrio.
Voc me parece bastante corajosa. -- Havia um boato de que ela era rica, embora
ningum soubesse ao certo; seus sapatos pareciam caros, as roupas muito cuidadas, lim-
pas e bem cortadas, e sua casa ficava em Pacific Heights. Porm Ophlie trabalhava duro
como qualquer outro dali, mais duro ainda, na opinio de Louise. -- - O que vai fazer
hoje  noite? -- perguntou, deixando-a intrigada. -- Vai sair com o namorado? -- falou
sem rodeios. Apesar da sua agressividade, Ophlie gostava dele. Era jovem, limpo e forte,
e gostava demais do que fazia. Tinham lhe contado que ele escapara um dia de ser
esfaqueado nas ruas, mas voltara l no dia seguinte. Provavelmente uma imprudncia,
mas ela achou admirvel. Jeff dispunha-se a arriscar a vida pelo que fazia.
--  No tenho namorado --- respondeu com simplicidade. -- Mas tenho uma filhinha,
vou ficar em casa com ela. Prometi que a levaria ao cinema. -- Elas no tinham outros
planos naquele fim de semana, a no ser o jogo de futebol de Pip no dia seguinte.
--    V ao cinema com ela amanh. Quero que voc venha conosco. Millie e eu falamos
sobre isso ontem  noite. Voc devia ir pelo menos uma vez. Nunca vai ser a mesma
depois disso.
--   Eu pessoalmente no me importo se for ferida ou morta -- disse Ophlie
abruptamente. -- Mas sou a nica pessoa que minha filha tem no mundo.
-  Isso no  bom -- disse ele, franzindo a sobrancelha. -- Voc precisa de um pouco
mais na sua vida, Opie. -- Achava o nome dela bonito, mas impossvel de pronunciar, e
brincava com ela desde que a conhecera. -- Vamos, a gente cuida de voc. Que tal?
- No tenho ningum com quem deixar minha filha -- disse Ophlie pensativa, tentada,
mas tambm com medo. Era difcil resistir quele desafio.
- s 11h? -- Virou os olhos e deu um largo sorriso,
que iluminou seu rosto escuro. Era um homem
bonito, de quase 1,90m de altura, que pertencera
 fora especial da Marinha durante nove anos. --
Merda, na idade dela eu cuidava dos meus cinco
irmos e ia buscar minha me na cadeia toda
semana. Ela era prostituta. -- Parecia um
esteretipo, mas era verdade, e ela tinha ouvido
dizer que Jeff era um homem incrvel e que criara
todos os irmos. Um deles ganhou uma bolsa para
Princeton, outro, para Yale. Ambos eram
advogados, o mais novo estudava medicina, outro
era lobista e lutava contra a violncia urbana e o
quinto    tinha quatro     filhos e estava se
candidatando para o Congresso. Jeff era um
homem extraordinrio, e muito persuasivo.
Ophlie estava considerando seriamente em sair
com ele, embora tivesse jurado que nunca faria
isso. Parecia muito perigoso. -- Vamos, mame...
d uma chance para ns. Nunca mais vai querer
ficar sentada por trs daquela mesa depois que
sair nas ruas conosco! O nosso trabalho  o mais
importante daqui... Vamos sair s seis e meia.
Venha para c a essa hora. -- Era mais um
comando que um convite, e Ophlie disse que ia
ver o que poderia fazer. Ainda pensava nisso
quando pegou Pip no colgio, e no deu uma pala-
vra at chegar em casa.
-- Voc est bem, mame? -- Pip perguntou, com
a preocupao habitual, e Ophlie garantiu que
sim. E enquanto Pip olhava para ela, decidiu
concordar. Pip j conhecia a maioria dos sinais da
me que se tornavam perigosos. Dessa vez ela
parecia distrada, mas no deprimida nem
desligada. -- O que fez hoje no Centro?
Como sempre, Ophlie contou uma verso branda
dos acontecimentos, depois foi para o quarto dar
um telefonema. A mulher que fazia a limpeza da
casa vrios dias por semana disse que podia fazer
companhia a Pip naquela noite, e Ophlie pediu
que ela chegasse s cinco e meia. No tinha
certeza como Pip iria reagir e no queria
desapont-la, mas Pip disse que seria at melhor
irem ao cinema no sbado. Ia jogar futebol na
manh seguinte e no queria estar muito cansada.
Ophlie explicou que havia umas atividades no
Centro das quais queria participar, e Pip disse que
no se importava que ela fosse. Ficou feliz de ver a
me fazendo uma coisa de que gostava. Muito
melhor que passar os dias dormindo no quarto ou
andando pela casa  noite com ar aflito, como
tinha feito no ano passado.
Como prometido, Alice, a faxineira, apareceu
prontamente s cinco e meia, e Ophlie saiu,
deixando Pip vendo televiso. Estava de jeans, um
suter pesado, uma parca de esqui que encontrara
no fundo do armrio e botas de caminhar que no
usava h anos. Levou um gorro de tric e luvas,
pois Jeff avisou que podia estar muito frio. Com
qualquer tempo em So Francisco, as noites eram
frias, muitas vezes at mesmo no vero. E havia
uma friagem no ar  noite nas ltimas semanas.
Ophlie sabia que eles levavam rosquinhas,
sanduches e uma garrafa trmica com caf, e Jeff
disse que paravam no McDonalds s vezes no
meio da noite. Tinha se preparado o melhor
possvel, quaisquer que fossem os planos. Mas
quando estacionou o carro no Centro sentiu-se
muito agitada. No mnimo, seria uma noite
interessante. Talvez a mais interessante da sua
vida. Mas tinha certeza de que se Matt, Andrea ou
Pip soubessem teriam tentado dissuadi-la de ir, ou
teriam morrido de medo por ela. Ela prpria estava
com medo.
Quando entrou na garagem que ficava atrs do
Centro Wexler, viu Jeff, Bob e Millie carregando a
van. Estavam pondo caixas e sacolas com
provises no banco traseiro e uma pilha de sacos
de dormir e roupas doadas na outra. Jeff virou-se com um
sorriso quando a viu, parecendo contente.
-- Meu Deus... Ol, Opie... Bem-vinda ao mundo real. -- Ela no sabia bem se seu tom
era de elogio ou de deboche, s sabia que ele parecia contente de v-la, e Millie tambm.
--   Que bom que voc veio -- disse, e continuou a trabalhar. Meia hora depois as vans
estavam carregadas, com a ajuda de
Ophlie.      Era um trabalho braal exaustivo, e o mundo real ainda nem tinha
comeado. Assim que aprontaram tudo, Jef disse para ela ir com Bob na segunda van.
O    asitico alto e calmo mostrou o banco do carona, pois os outros bancos tinham sido
retirados para dar lugar aos suprimentos.
--- Tem certeza de que quer ir? -- perguntou calmamente quando ligou o motor.
Conhecia Jeff e seu modo agressivo de convencer os outros a fazerem as coisas, e
admirou-a por ter vindo. Era uma mulher de coragem. No precisava fazer isso, no
precisava provar nada para ningum. Parecia pertencer a uma vida diferente. Mas teve de
lhe dar crdito por aparecer ali, dispor-se a uma aventura e at mesmo a arriscar a vida. --
No  obrigatrio, voc sabe. O pessoal do Centro nos chama de caubis do asfalto, ns
somos meio malucos. Ningum vai chamar voc de covarde se recuar. -- Estava lhe
dando uma chance de ir embora, antes que fosse tarde demais. Achava justo. Ela no
tinha idia do que a esperava.
- Jeff vai me achar covarde -- disse Ophlie com um sorriso, e ele riu.
- . Talvez. E da? Que se dane. Voc quer ir, Opie?
Ou quer cair fora? Faa o que preferir. No 
vergonha nenhuma. Pode decidir.
Ela pensou um instante, olhando para Bob com
insistncia. Respirou fundo e numa frao de
segundo quase mudou de idia, mas quando olhou
de novo para ele percebeu que estaria segura ao
seu lado. No sabia nada sobre aquele homem,
mas sentia que podia confiar nele, e estava certa.
A outra van buzinou. Jeff estava ficando
impaciente e no entendia a razo da demora,
enquanto Bob esperava que Ophlie se decidisse. -- Vai ou
fica?
Ela expirou lentamente, e a palavra saiu da sua boca por conta prpria.
-   Vou.
-  Tudo bem! -- ele disse com um sorriso, pisando no acelerador, e as duas vans
carregadas saram da garagem. Eram sete horas da noite.


                                Captulo            16
NAS    OITO HORAS SEGUINTES Ophlie viu coisas que nem sonhava que existiam,
certamente no a poucos quilmetros da sua casa. Passou por reas que no conhecia, por
vielas que a deixaram arrepiada, e viu pessoas em condies to desesperadoras que ficou
muito abalada. Com feridas no rosto, cobertas de chagas, trapos nos ps em vez de
sapatos, ou at mesmo descalos e seminus no frio. Viu tambm gente limpa, arruma da,
com ar decente, escondida debaixo de pontes e dormindo no cho em caixas de papelo e
jornais. Por onde eles passavam ouviam "obrigado" e "Deus os proteja" quando saam.
Foi uma noite longa e desesperadora. Mas ao mesmo tempo ela nunca sentiu tanta paz, ou
alegria, ou a sensao de ter um objetivo na vida, como quando Chad e Pip nasceram. Um
sentimento quase igual.
Durante o resto da noite ela e Bob trabalharam
juntos. Ele no precisava lhe dizer o que fazer.
Bastava seguir o corao. O resto era bvio.
Quando eram necessrios sacos de dormir ou                                       roupas
quentes, ela as buscava. Jeff e Millie distribuam medicamentos e artigos higinicos.
Quando encontraram um grupo de gente escondida nos armazns de carga em South
Market, Bob escreveu o nome da localidade. Explicou que havia outro programa de ajuda
externa para adolescentes fugidos de casa e que daria aquele endereo na manh seguinte
para eles irem l tentar convenc-los a voltar. S alguns adolescentes se dispunham a
deixar as ruas. Desconfiavam dos abrigos e dos programas ainda mais que os adultos. E
no queriam ser mandados para casa. Com freqncia, esses jovens fugiam de coisas
muito piores do que encontravam nas ruas.
-  Muitos esto nas ruas h anos. Sentem-se mais seguros a que nos lugares de onde
vieram. Os programas tentam procurar suas famlias, mas muitas vezes ningum se
interessa por eles. Os pais nem querem saber onde esto. Eles vm de todos os cantos do
pas e ficam vagando pelas ruas at crescerem.
- E depois? -- perguntou, com ar de desespero.
Ophlie nunca tinha visto tanta gente to          extremamente necessitada e com to
pouca esperana. Parecia uma causa quase perdida. Os esquecidos, como Bob os
chamava. E nunca tinha visto gente to grata pela pequena ajuda que recebia. Alguns fica-
vam chorando quando eles iam embora.
--    No fique envergonhada -- disse Bob, ao v-la voltar para a van em lgrimas. -- Eu
tambm choro s vezes. Esses jovens realmente me do muita pena.... e os velhos... 
triste, mas a gente sabe que no vo sobreviver durante muito tempo por aqui. Isso  tudo
que podemos fazer por eles. E  tudo que querem. No tm vontade de sair das ruas.
Talvez no faa muito sentido para ns, mas faz para eles. Esto muito perdidos, muito
doentes ou muito miserveis. No podem existir em nenhum outro lugar. Desde que a
verba federal foi cortada, anos atrs, os hospitais de doentes mentais no tm mais como
abrig-los, e at aqueles que parecem estar relativamente bem provavelmente no esto.
H muita doena mental por aqui. O abuso de drogas acaba nisso, uma automedicao
para sobreviver. E quem pode culp-los? Que merda, se eu estivesse nas ruas
provavelmente tambm estaria me drogando. O que mais eles tm?
Ophlie       aprendeu mais naquela noite sobre a raa humana do que aprendera em
toda a vida. Uma lio que sabia que nunca esqueceria. Quando pararam no McDonald's
para comer um hambrguer,  meia-noite, ela sentiu-se culpada de estar comendo. Mal
conseguiu engolir a comida e o caf quente, lembrando daquela gente nas ruas morrendo
de fome e de frio, que dariam tudo que tinham por uma xcara de caf quente e um
hambrguer.
- Como vai indo? -- perguntou Jeff, enquanto Millie tirava as luvas. Tinha esfriado
bastante, Ophlie estava com luvas tambm.
-  incrvel. Vocs realmente fazem o trabalho de
Deus por aqui -- disse, maravilhada com os trs.
Nunca se comovera tanto na vida. E Bob estava
tambm impressionado com o jeito suave e
compassivo de Ophlie, sem ser condescendente
nem paternalista. Tratava todos que encontrava
com humanidade e respeito e trabalhava duro.
Bob disse isso para Jeff quando voltavam, e Jeff
concordou. Sabia o que estava fazendo quando convidou Ophlie para sair com eles.
Todos diziam que ela era tima, e ele a queria na equipe de rua antes que se atolasse com
trabalho burocrtico no Centro. Tinha percebido logo que seria um elemento valioso, se
aceitasse trabalhar com eles. Os riscos que corriam toda noite e as longas horas de
trabalho afastavam a maioria das voluntrias. At mesmo o pessoal da equipe e os
homens tinham medo.
Depois daquela pausa dirigiram-se para Potrero Hill e, em seguida, para Hunters Point.
Mission seria a ltima parada deles. Quando se aproximavam, Bob avisou a Ophlie para
ficar atrs dele e tomar cuidado. Disse que entre as pessoas agressivas e hostis, a arma
preferida eram as agulhas infectadas. Ao ouvir isso ela s pensou em Pip. Mas trabalhar
com eles era como tomar uma droga, j se viciara antes de a noite terminar. Era o maior
ato de doao e carinho que ela podia imaginar. Seus companheiros arriscavam-se toda
noite, sem ajuda, sem armas, sem apoio, em uma misso de misericrdia. Tudo aquilo
fazia sentido. Ophlie surpreendeu-se de ver que no estava cansada quando finalmente as
vans entraram na garagem. Estava energizada e sentia-se totalmente viva, talvez mais do
que nunca.
- Obrigado, Opie -- disse Bob com gentileza e sinceridade quando desligou o motor da
van. -- Voc fez um belo trabalho.
-  Obrigada -- Ophlie respondeu, com um sorriso. Vindo de Bob, era um grande elogio.
Gostava mais dele que de Jeff. Bob era quieto, trabalhava duro, era bom com as pessoas
com quem lidava e respeitoso com ela. Ophlie soube, durante as horas que passaram
juntos, que sua esposa morrera de cncer quatro anos antes, deixando trs filhos, que ele
criava sozinho com a ajuda da irm. Trabalhando  noite podia estar com os filhos
durante o dia. Os riscos no o perturbavam, na polcia era pior. Tinha uma aposentadoria
da polcia, portanto podia sobreviver com o pouco que ganhava no Wexler. O principal 
que adorava seu trabalho. E era menos caubi que Jeff. Foi incrivelmente gentil com
Ophlie a noite toda, e ela ficou surpresa ao perceber que eles tinham devorado uma caixa
quase toda de rosquinhas juntos. Ficou pensando se era o estresse que a deixara com fome
ou apenas o trabalho. Foi uma das noites mais marcantes e significativas da sua vida. E
sabia que naquelas horas mgicas, entre sete da noite e trs da manh, ela e Bob haviam
se tornado amigos. E agradeceu a ele de todo o corao.
-  Vejo voc na segunda-feira? -- Jeff perguntou, olhando dentro dos olhos dela, quando
se encontraram na garagem. Parecia corajoso como sempre, e Ophlie ficou surpresa.
-   Quer que eu v de novo?
- Queremos que voc faa parte da equipe. -- Decidira isso ao longo da noite, baseado
no que observou e no que Bob falou sobre ela.
-  Tenho de pensar um pouco -- Ophlie disse com cuidado, apesar de sentir-se
envaidecida. -- No posso sair toda noite.
No podia mesmo. No era justo com Pip. Mas
todas aquelas pessoas, todos aqueles rostos, todas
aquelas almas penadas dormindo perto dos trilhos
da estrada de ferro, nas passagens subterrneas e
nos armazns de carga passaram pela sua cabea.
Era como se tivesse ouvido um chamado e sabia
que era isso que devia fazer, por mais arriscado
que fosse.
- No posso sair mais que duas vezes por semana. Tenho uma filhinha em casa.
- Se voc tivesse um namorado sairia mais que isso, mas disse que no tem. --Jeff estava
certo. No tinha meias palavras, nem poupava crticas.
- Posso pensar um pouco? -- Ela sentiu-se pressionada, mas era isso que ele queria.
Queria-a na equipe, sem incertezas.
-  Precisa pensar? Realmente? Acho que sabe o que quer. -- Ela sabia. Mas no queria
fazer nada de repente, levada pelas emoes da noite. E as emoes eram fortes,
especialmente para ela, pois eram uma grande novidade. -- Vamos, Opie. Aceite logo.
Ns precisamos de voc... e eles tambm... -- Os olhos dele pareciam suplicantes.
- Tudo bem... -- disse ela, arfando.                         -- Tudo bem. Duas vezes
por semana. -- Queria dizer que trabalharia nas noites de tera e quinta, em vez de
segunda, quarta e sexta de dia.
Estamos combinados -- disse ele, sorrindo e batendo as palmas das mos nas dela.
-    difcil resistir a voc.
-  Tem razo, e no se esquea.  preciso fazer um bom trabalho, Opie... vejo voc na
tera-feira  noite! -- Deu adeus e foi embora. Millie entrou no carro estacionado ao lado
da garagem, Bob foi acompanhando-a at seu carro, e ela agradeceu de novo.
- Voc pode desistir quando quiser -- disse ele gentilmente. -- No  um juramento de
sangue -- lembrou, deixando-a menos amedrontada. Tinha assumido um srio
compromisso e no podia imaginar o que as pessoas diriam se lhes contasse. No sabia se
contaria. Pelo menos por enquanto.
-   Obrigada pela sada.
-  Qualquer coisa que voc fizer, durante o tempo que fizer, ser vlido e apreciado.
Todos ns trabalhamos nisso enquanto podemos. Se no pudermos mais, no h
problema. V com calma, Opie -- disse, quando ela entrou no carro. -- At a prxima
semana.
-- Boa noite, Bob -- Ophlie                          falou gentilmente, sentindo-se
finalmente cansada. Tinha ficado acordada grande parte da noite e no sabia como se
sentiria de manh. -- Obrigada de novo...
Bob deu adeus, abaixou a cabea e foi andando at seu caminho. Nesse momento
Ophlie percebeu, com entusiasmo, que fazia parte daquela equipe. Era um caubi
tambm. Exatamente como eles. Nossa!


                                 Captulo            17
QUANDO OPHLIE chegou em casa naquela noite, olhou em volta como se estivesse
vendo a casa pela primeira vez. O luxo, o conforto, o aconchego, a comida na geladeira, a
banheira com gua quente. Tudo lhe pareceu infinitamente precioso quando ficou quase
uma hora mergulhada na banheira, pensando no que tinha visto, no que tinha feito, no
compromisso que assumira. Nunca se sentira to feliz na vida, nem to corajosa. Ao
enfrentar o que receava, morrer na rua, outras coisas no lhe pareceram mais to
ameaadoras. Como os fantasmas na sua cabea, sua culpa por ter insistido que Chad
viajasse com Ted e at mesmo sua tristeza infinita. Se pde enfrentar os perigos das ruas e
sobreviver, o resto parecia muito mais fcil. Quando foi para a cama ao lado de Pip, que
resolvera dormir no seu quarto de novo naquela noite, nunca foi to grata por ter aquela
filha e dividir a vida com eia. Dormiu abraada com ela, com agradecimentos silenciosos,
e acordou assustada quando ouviu o despertador. Por um instante no conseguiu se
lembrar de onde estava. Tinha sonhado com as ruas e as pessoas que vira l. Sabia que
no se esqueceria nunca daqueles rostos.
-  Que horas so? -- perguntou, desligando o despertador e afundando a cabea no
travesseiro ao lado da cabea de Pip.
-   Oito horas. Tenho jogo s nove, mame.
-  Sim... -- Lembrou ento que ainda tinha uma vida. Com Pip. E que talvez o que fizera
na noite anterior tivesse sido uma pequena loucura. O que aconteceria com Pip se ela se
ferisse? Mas isso no lhe parecia mais provvel. A equipe era muito eficiente, no corria
riscos desnecessrios. Os riscos faziam parte das ruas, mas eles eram sensatos e sabiam o
que estavam fazendo. De qualquer forma, continuava a ser assustador. Ela era responsvel
por Pip, e tinha plena conscincia disso.
Ainda pensava sobre o assunto quando se levantou e mudou de roupa, e desceu para
preparar o caf-da-manh para Pip.
-   Como foi a noite passada, mame? O que voc fez?
- Umas coisas bem interessantes. Sa com a equipe que faz trabalho de rua. -- E contou
para Pip uma verso modificada do que tinha feito.
-  perigoso? -- Pip pareceu preocupada. Tomou o suco de laranja e comeou a comer
os ovos mexidos.
-  At certo ponto. -- Ophlie no queria mentir para ela. -- Mas as pessoas que
trabalham nisso so muito cuidadosas, sabem o que esto fazendo. No vi nenhum perigo
na noite passada, mas podem sempre acontecer coisas na rua. -- No podia negar o risco
para a filha.
-   Voc vai fazer isso de novo? -- perguntou Pip aflita.
-   Eu gostaria. O que voc acha?
-   Voc gostou do trabalho? -- ela perguntou.
-   Gostei muito. Adorei. Aquelas pessoas precisam muito de ajuda.
-   Ento deve ir, mame. Mas tome cuidado. No quero que se machuque.
-Nem eu. Talvez eu tente mais umas duas vezes para ver como as coisas so. Se parecer
muito arriscado, eu paro.
-   uma boa idia. Alis -- disse por cima do ombro quando ia subindo para pegar sua
joelheira --, perguntei a Matt se ele gostaria de assistir ao jogo, e ele disse que sim.
-   muito cedo. Talvez ele no chegue a tempo. -- Ophlie no queria que ela se
desapontasse, e no sabia se Matt tinha falado a srio que iria. -- Convidei Andrea
tambm. Voc vai ter uma torcida e tanto.
- Espero jogar bem -- ela disse, vestindo um moletom. Estava pronta para sair.
Ophlie colocou Mousse no banco de trs e em alguns minutos saram para o
campo de plo no Golden Gate Park, onde seria o jogo. Ainda estava nublado, mas
parecia que o dia seria bonito. Durante o percurso, Pip ligou o rdio, um pouco alto
demais, e Ophlie viu-se pensando de novo no que tinha visto na noite anterior, aquela
gente pobre vivendo em agrupamentos, dormindo em cima do concreto cobertos de
trapos.  luz do dia, parecia ainda mais incrvel que na noite passada. Mas ficou contente
de ter aceitado fazer parte da equipe. Sentiu um forte impulso. Mal podia esperar para sair
com eles de novo. Sorriu para si mesma ao pensar nisso, e quando saram do carro para o
campo de plo ficou surpresa em ver Matt. Pip deu um pulo de alegria e atirou-se nos
braos dele. Matt usava um casaco pesado de pele de carneiro, que parecia ser bastante
usado, tnis de corrida e jeans, e tinha um ar paternal e forte quando Pip foi para o campo.
- Voc  realmente um amigo fiel. Deve ter sado
da praia de madrugada -- disse Ophlie com um
sorriso de gratido.
No, sa por volta das oito. Achei que seria
divertido. -- No lhe contou que assistia a todos os
jogos de Robert antes de se divorciar e alguns em
Auckland. Robert aprendera a jogar futebol americano tambm.
Pip estava contando com voc. Obrigada por no desapont-la -- Ophlie falou com
sinceridade. Ele nunca desapontara Pip nem Ophlie, desde que as conhecera. Era a nica
pessoa com quem as duas podiam contar.
- Eu no perderia esse jogo por nada no mundo. J fui tcnico de futebol.
No conte para Pip, seno ela vai convidar voc para o time. -- Os dois riram e ficaram
assistindo ao jogo por muito tempo. Pip jogava bem e tinha feito um gol quando Andrea
chegou com o beb em um carrinho, todo enrolado para no sentir frio. Ophlie
apresentou-a a Matt e eles conversaram durante algum tempo. Tentou no sentir as
vibraes das perguntas, opinies e suposies que Andrea lhe dirigiu quando viu Matt.
Continuou calma, e Andrea foi embora meia hora depois porque o beb estava chorando
de fome. Mas sabia o que ouviria mais tarde da amiga. Podia ter certeza. Ignorou os
olhares maliciosos de Andrea e depois que ela saiu continuou conversando com Matt.
-   Ela  madrinha de Pip e minha amiga mais antiga aqui -- explicou Ophlie.
- Pip me falou sobre ela e o beb. Se o que Pip disse est certo, ela foi muito corajosa. --
Referia-se discretamente  histria do banco de esperma que Pip contara, e Ophlie
compreendeu. Gostou da delicadeza e discrio dele.
--  Ela foi corajosa, achava que nunca teria um filho de outra forma. Ficou encantada
com o nascimento do beb.
-- Ele  uma graa -- disse, virando-se para
observar Pip. Matt e Ophlie ficaram contentes e orgulhosos quando
o time
dela ganhou o jogo, e Pip saiu do campo com um sorriso vitorioso.
Matt convidou-as para almoar depois, e levou-as a um restaurante de panquecas a pedido
de Pip. Tiveram um belo almoo juntos, depois ele voltou para a praia. Queria trabalhar
no retrato, disse baixinho para Pip quando saram do restaurante, e ela deu uma piscada.
Depois disso, me e filha foram para casa. Quando Ophlie abriu a porta, o telefone
estava tocando. Podia adivinhar quem era.
- Meu Deus... agora ele vem at para os jogos de futebol de Pip? -- A voz de Andrea
denotava todo tipo de insinuaes, e Ophlie balanou a cabea do outro lado da linha. --
Acho que voc est me escondendo alguma coisa.
-  Talvez ele esteja apaixonado por Pip e um dia venha a ser meu genro -- disse Ophlie
rindo. J esperava isso. -- No estou escondendo nada de voc.
- Ento voc  maluca. Ele  o homem mais bonito que j vi. Se for heterossexual, agarre
esse cara, pelo amor de Deus. - Acha que ? -- Andrea perguntou, parecendo preocupada
de repente.
-  o qu? -- Ophlie no entendeu o que ela queria dizer. De qualquer forma, isso no
lhe ocorrera, e ela no se importava. Os dois eram apenas amigos.
-   Heterossexual. Ser que ele  gay?
-Acho que no. Nunca perguntei. Matt foi casado, pelo amor de Deus, e teve dois filhos.
Mas que diferena isso faz?
- Pode ter se tornado gay depois -- falou Andrea com senso prtico, porm sem muita
convico. -- Mas acho que no. Acho que voc  doida de pedra se no agarrar esse
homem enquanto tem oportunidade. Sujeitos assim saem do mercado num abrir e fechar
de olhos.
- Bom, eu no estou abrindo e fechando os olhos e acho que ele no est no mercado,
como eu. Acho que quer ficar sozinho.
- Talvez esteja deprimido. Ele toma alguma
medicao? Se voc sugerisse isso talvez as coisas
rolassem.  claro que teria que lidar com os efeitos
colaterais. Alguns antidepressivos inibem o instinto
sexual do homem. Mas ele pode apelar para o
Viagra -- disse Andrea otimista, e Ophlie revirou
os olhos.
Vou sugerir. Ele vai ficar encantado. Mas no precisa de Viagra para jantar conosco. E
no creio que esteja deprimido. - Creio que est magoado. -- Era diferente.
-  a mesma coisa. H quanto tempo a mulher dele foi embora? Dez anos? No  normal
continuar sozinho. Nem ser to interessado em Pip se no for pedfilo, e acho que no .
Ele precisa  de um relacionamento, e voc tambm.
- Obrigada, Dra. Wilson. J estou me sentindo melhor. Voc est reorganizando a vida
do pobre homem e a minha tambm. E prescrevendo Viagra.
- Algum tem de fazer isso. Ele  obviamente incapaz de se organizar, da mesma forma
que voc. Quer ficar sentada a para o resto da vida. No se esquea que daqui a alguns
anos Pip vai sair de casa.
-  J pensei nisso e fiquei histrica, obrigada. Preciso me acostumar com a idia.
Felizmente ainda falta um bom tempo para isso. -- Mas essa era a coisa que mais a
amedrontava agora, no conseguia conceber viver sozinha depois que Pip crescesse.
Pensar nisso deixava-a to deprimida que ficava sem ar. Mas Matthew Bowles no era a
resposta para seus problemas. Tinha de habituar-se a viver sozinha. E aproveitar Pip o
mximo possvel enquanto ela continuava por ali. Ophlie no estava procurando
ningum para preencher o vazio deixado por Chad e Ted, nem o vazio que Pip deixaria
quando fosse embora. Preencheria com trabalho, amigos e tudo mais que pudesse
encontrar, como o trabalho que comeara a fazer com os sem-teto. -- Matt no  a
resposta -- disse para Andrea.
-   Por que no? Ele me parece uma boa pessoa. Melhor que isso, de fato.
- Ento corra atrs dele e lhe d um Viagra. Tenho certeza de que vai ficar agradecido --
disse Ophlie, rindo de novo. Andrea era impossvel, e tinha sempre sido assim. Era uma
das coisas que gostava nela. E as duas eram muito diferentes.
-   Talvez eu corra atrs dele mesmo. Quando Pip vai ter outro jogo de futebol?
- Voc  impossvel. Por que no vai at Safe Harbour e bate na porta dele com um
machado? Talvez se impressione com a sua determinao de salv-lo de si mesmo.
- Parece uma tima idia -- disse Andrea,                                   sem se dar por
vencida.
Ficaram conversando mais um pouco, mas Ophlie no falou nada sobre a noite incrvel
que passou trabalhando nas ruas. No final da tarde, Pip e ela foram ao cinema e voltaram
para casa para jantar. s dez da noite, as duas j dormiam a sono solto na cama de
Ophlie.
Em Safe Harbour, naquela hora, Matt continuava trabalhando no retrato de Pip. Estava
com dificuldade de pintar a boca, tentava lembrar da sua carinha quando ela saiu do
campo de futebol no final do jogo. Seu sorriso era irresistvel. Ele adorava olhar para ela,
estar com ela e pint-la. Gostava da companhia de Ophlie tambm, mas provavelmente
no tanto quando a de Pip. Ela era um anjo, um duende da floresta, um elfo, uma alma
antiga sbia no corpo de uma criana, e enquanto a pintava todas essas qualidades
comearam a aflorar. Ficou contente com o resultado do seu trabalho quando foi para a
cama. E ainda estava dormindo na manh seguinte quando Pip telefonou. Pediu desculpas
ao perceber que o acordara.
- Desculpe ter acordado voc, Matt. Achei que j estaria de p a essa hora. -- Eram nove
e meia, j lhe parecia bastante tarde. Mas ele s fora dormir s duas da manh.
- Tudo bem. Eu fiquei trabalhando num certo projeto nosso na noite passada. Eu acho
que estou conseguindo chegar perto. -- Ele parecia feliz, e ela tambm.
- Mame vai adorar o quadro -- garantiu Pip. -- A gente podia sair uma noite dessas
para jantar depois voc me mostra sua pintura. Ela est trabalhando duas noites por
semana.
-  Fazendo o qu? -- Ele pareceu surpreso. Nem sabia que Ophlie tinha um emprego, a
no ser o trabalho de voluntria que planejava fazer com os sem-teto no Centro Wexler.
Isso parecia mais srio, e de certa forma oficial.
-  Ela sai numa van s teras e quintas para dar assistncia aos moradores de rua. Fica
fora quase toda a noite, e Alice passa a noite aqui porque  tarde demais para voltar para
casa quando mame chega.
-  Parece interessante -- disse para Pip. E era tambm perigoso, pensou consigo mesmo,
mas no quis preocup-la. -- Terei muito prazer em levar voc para jantar. Mas talvez
seja melhor esperar uma noite que sua me esteja a tambm. Ela pode se sentir rejeitada.
-- Ele gostava da companhia de Ophlie, e podia parecer estranho sair com uma menina
da idade de Pip sem a me, a no ser em uma praia aberta, como tinham feito no vero.
Ali era diferente, pelo menos do seu ponto de vista. E achava que Ophlie concordaria
com ele. A maioria das idias deles a respeito de crianas parecia bastante semelhante, e
ele tinha grande respeito pela forma como Ophlie criara Pip e continuava a criar. Os
resultados tinham sido extremamente bons, por tudo que ele podia ver.
-   Talvez voc possa vir nos visitar na semana que vem.
-  Vou tentar -- prometeu ele, mas os planos dos dois no se entrosaram nas semanas
seguintes. Matt estava trabalhando no retrato e tinha outras coisas para fazer e negcios a
cuidar. Ophlie andava mais ocupada do que planejara. Decidira trabalhar trs dias por
semana no Centro e duas noites com a equipe de rua. Era uma carga horria pesada para
ela. E Pip tinha muito mais dever de casa do que queria admitir.
No dia       1. de outubro, Matt telefonou para Ophlie convidando-a para passar um dia
na praia no fim de semana seguinte. Ophlie pareceu hesitar e ento explicou.
--  O aniversrio de morte de Ted e Chad  na sexta-feira -- disse com tristeza. -- Acho
que vai ser um dia difcil para ns duas. No tenho certeza de como vamos nos sentir logo
depois disso, e no quero ir a desanimada e deprimida. Seria melhor deixar para a
prxima semana. Alis, vai ser o aniversrio de Pip na prxima semana. -- Ele se
lembrava vagamente, mas Pip no tinha falado muito sobre isso, o que ele considerou
uma atitude adulta e discreta para uma menina.
- Podamos fazer as duas coisas. Vamos marcar a vinda de vocs a Safe Harbour no dia
seguinte ao dia da morte de Chad e Ted. Seria bom para as duas mudar de ambiente. Voc
me liga de manh para dizer como est se sentindo. E se no for atrapalhar, gostaria de
levar voc e Pip para jantar no aniversrio dela, se acha que ela vai gostar.
- Tenho certeza de que vai adorar -- disse Ophlie
sinceramente, e no final concordou em telefonar
na manh do sbado seguinte. Achava que iriam
se falar antes disso, de qualquer modo. Mesmo
ocupada como andava naqueles dias, gostou de
ouvir a voz dele ao telefone.
Transmitiu a Pip os dois convites e ela ficou
visivelmente satisfeita, embora tambm estivesse
nervosa com a proximidade da data triste. Tinha
medo de que fosse difcil demais e que sua me
entrasse de novo em depresso. Andava muito
bem ultimamente, mas essa data parecia um
grande problema para as duas.
Ophlie mandou rezar uma missa na igreja Saint
Dominic, mas, alm disso, no tinha outros planos
para o dia. No restara nada do filho e do marido
depois da exploso do avio, e Ophlie decidiu no
encomendar lpides no cemitrio para tmulos
vazios. No queria ter um lugar onde fosse chorar.
Tinha explicado a Pip no ano anterior que os dois
morariam em seus coraes. Tudo que sobrou do
acidente foram a fivela do cinto de Chad e a aliana de
Ted, quase irreconhecveis, mas guardadas como duas relquias.
Ento s teriam de ir  missa. Estavam planejando passar o resto do dia em casa,
pensando nos dois entes queridos que tinham perdido. E era exatamente isso que
preocupava Pip. E  medida que a data se aproximava, preocupava Ophlie tambm.
Estava apavorada com a perspectiva desse dia.




                                 Captulo             18
O   DIA DO ANIVERSRIO de morte de Chad e Ted foi ensolarado e bonito. O sol entrava
pelo quarto de Ophlie quando ela e a filha acordaram. Pip dormia com a me quase todos
as noites desde o incio de setembro, o que dava muito conforto a Ophlie, e ela agradecia
a Matt por ter sugerido isso. Mas naquela manh as duas ficaram em silncio na cama.
Ophlie pensou no mesmo instante, assim como
Pip, no dia do enterro, igualmente ensolarado e
desesperante para todos os presentes. Os colegas
e scios de Ted e seus amigos tinham vindo, e
tambm os amigos de Chad e toda a sua classe.
Felizmente Ophlie no se lembrava dos detalhes,
pois tinha ficado completamente atordoada. S se
lembrava do mar de flores e de Pip segurando sua
mo com tanta fora que chegou a doer. Depois,
vindo de algum lugar, um coro celestial, a "Ave
Maria", que nunca lhe pareceu to linda e
hipnotizante como naquele dia. Era uma
lembrana que ela sabia que nunca sairia da sua
cabea.
As duas foram juntas  missa e sentaram-se lado a
lado. A seu pedido, os nomes de Chad e Ted foram lidos durante
as intenes especiais, e os olhos de Ophlie encheram-se de lgrimas e mais uma vez as
duas se deram as mos. Depois foram para casa, mas antes agradeceram ao padre. Cada
uma delas acendeu uma vela, Ophlie pelo marido e Pip por Chad, e voltaram para casa
em silncio. Dava para ouvir um alfinete caindo no cho na casa silenciosa durante todo o
dia. Nenhuma das duas comeu nem falou nada, e quando a campainha tocou, levaram um
susto. Eram flores de Matt, um buqu para cada uma. Ophlie e Pip ficaram comovidas.
Os cartes diziam simplesmente: "Pensando em vocs hoje. Com carinho, Matt."
-Eu amo o Matt -- disse Pip ao ler o carto. As coisas eram mais simples na sua idade.
Muito mais simples do que seriam mais tarde.
- Matt  um homem gentil e um bom amigo --
disse Ophlie. Pip concordou e levou as flores para
o quarto. At Mousse estava quieto, parecia
perceber que suas donas no estavam tendo um
bom dia. Andrea enviara flores na tarde anterior.
Ela no era religiosa, seno teria ido  missa, mas
as duas sabiam que estaria pensando nelas, como
Matt estava.
Ao cair da noite estavam ansiosas para ir para a
cama. Pip ligou a televiso no quarto da me, e
Ophlie pediu que ela desligasse ou fosse assistir
em algum outro lugar. Mas como Pip no queria
ficar sozinha permaneceu no quarto silencioso, e
foi uma bno quando as duas finalmente foram
dormir abraadas. Ophlie no disse, mas Pip
sabia que ela passara vrias horas naquele dia
chorando no quarto de Chad. Foi um dia terrvel para ambas em
todos os sentidos. No houve nada de bom, nenhuma compensao pelo que tinham
passado. Foi um dia, como a maioria dos dias do ano anterior, inteiramente voltado para o
que tinham perdido.
De manh, quando o telefone tocou, elas estavam na mesa da cozinha. Ophlie lia o jornal
em silncio e Pip brincava com Mouse. Era Matt.
- No tenho coragem de perguntar como foi o dia ontem -- disse cauteloso, depois de
cumprimentar Ophlie.
-  No pergunte. Foi ruim como achei que seria. Mas pelo menos j terminou. Obrigada
pelas flores. -- Era difcil explicar, mesmo para si prpria, por que aniversrios de morte
eram to significativos. No havia razo para ser um dia to pior que o anterior ou o
seguinte, mas era. Como se fosse a celebrao do pior dia da sua vida. No havia uma
nica vantagem nessa ocasio. Durante o tempo inteiro pensara no pior dia da sua vida,
repleto de lembranas de uma poca desesperante. Matt mostrou-se altamente solidrio,
mas no sabia o que dizer pois nunca passara por aquilo. Suas perdas tinham se estendido
ao longo do tempo, e finalmente se tornado evidentes. No aconteceram de repente, em
um instante medonho.
-   No quis ser intruso, por isso no telefonei -- desculpou-se.
- Foi melhor assim -- disse Ophlie com sinceridade. Nenhuma das duas queria falar
com ningum, mas Pip provavelmente teria gostado. -- Suas flores so lindas. Ficamos
muito comovidas.
-  Que tal virem para c hoje? Talvez faa bem para as duas. O que voc acha? -- Ela
realmente no queria, mas pensou que talvez Pip quisesse, dada a situao. Sentiu-se
culpada de rejeitar o convite sem lhe perguntar.
-  No vou ser boa companhia. -- Ainda se sentia muito arrasada com as emoes do dia
anterior, especialmente as horas que passara na cama de Chad soluando, abafando o
choro no travesseiro dele que ainda conservava um pouquinho do seu cheiro. No tinha
lavado os lenis nem a fronha, e sabia que nunca lavaria. -- Mas no posso responder
por Pip. Talvez ela queira ver voc. Vou conversar com ela e ligo de volta. -- Mas Pip j
estava acenando freneticamente quando a me desligou.
-  Quero ir! Quero ir! -- disse, sentindo-se imediatamente revigorada. Ophlie no teve
coragem de desapont-la, apesar de no ter vontade de ir a lugar algum. A viagem no era
longa. Levava apenas meia hora, e se ela no se sentisse bem fora de casa poderia voltar
logo. Sabia que Matt compreenderia. Mas no estava muito animada. -- A gente pode ir,
mame? Por favor....
- Est bem. -- Ophlie cedeu. -- Mas no quero
demorar muito. Estou cansada. -- Pip sabia que
no era s isso, mas esperava que uma vez l ela
se animasse um pouco. Sabia que a me gostava
de conversar com Matt, e com certeza se sentiria
muito melhor depois de uma caminhada pela areia
da praia.
Ophlie disse a Matt que chegariam ao meio-dia, e
ele ficou satisfeito. Ofereceu-se para levar o
almoo, mas Matt disse que no precisava. Tinha
feito uma omelete, e se Pip no gostasse podia
comer manteiga de amendoim e gelia que comprara para
ela no dia anterior.
Matt estava esperando do lado de fora, sentado no deque em uma cadeira velha na
varanda, aproveitando o sol. Ficou contente quando as viu chegando e Pip passou os
braos em volta dele. Ophlie deu-lhe dois beijos no rosto, como j era hbito, mas ele
notou logo sua imensa tristeza. Parecia ter um bloco de gelo de mil quilos no corao.
Sentou-se no deque, cobriu-se com um cobertor xadrez, insistindo em ficar ali relaxando,
e mandou Pip ajudar Matt a fazer a omelete de cogumelo e a picar as ervas. Ela gostou de
dar essa ajuda e de pr a mesa, e quando chamou sua me para almoar achou-a mais
relaxada, como se o bloco de gelo do seu peito estivesse descongelando ao sol. Ophlie
ficou quieta durante o almoo, mas quando ele serviu morangos com creme deu um
risinho, e Pip ficou imensamente aliviada. Quando se levantou para pegar uma coisa no
carro, Pip falou baixinho com ar preocupado:
--  Acho que ela est um pouco melhor, no ?
Matt concordou, e ficou comovido com a preocupao bvia de Pip.
--   Sua me vai melhorar. Ontem foi muito difcil para ela e para voc. Vamos dar uma
volta na praia daqui a pouco, vai fazer bem a ela.
Pip deu um tapinha na mo dele em sinal de agradecimento, e nesse momento sua me
voltou. Tinha ido buscar um artigo sobre o Centro Wexler que queria mostrar a Matt.
Explicava essencialmente tudo o que eles faziam, era um material muito informativo.
Matt leu com cuidado, meneando a cabea, depois olhou para Ophlie com renovado
respeito.
-  Parece uma organizao fantstica. O que voc faz exatamente, Ophlie? -- Ela j
tinha falado sobre isso antes, mas sempre de um modo vago.
-  A mame trabalha nas ruas com a equipe externa -- disse Pip logo, e Matt olhou para
as duas, chocado. No era o que Ophlie teria dito, mas agora era tarde demais.
-  Isso  verdade? -- Olhou diretamente para ela, que meneou a cabea em sinal de
assentimento, tentando parecer despreocupada. Ophlie virou-se para Pip, que percebeu
que tinha falado demais e fingiu estar brincando com o cachorro. Era raro Pip dar um
passo em falso, e ficou sem jeito e com medo de a me se zangar. -- O artigo diz que eles
passam as noites nas ruas dando assistncia queles que no tm condies fsicas ou
mentais de ir at o Centro e que atendem todos os bairros mais perigosos da cidade.
Ophlie, isso  uma loucura. Voc no pode fazer isso. -- Estava horrorizado e
preocupado quando olhou para ela. A seu ver, no era uma boa novidade.
-  No  to perigoso quanto parece -- disse Ophlie com calma, querendo estrangular
Pip, mas reconhecendo que no era culpa dela. Era natural Matt reagir dessa forma. Ela
prpria era consciente dos riscos, e eles haviam de fato passado um aperto na semana
anterior com um homem drogado de arma na mo, que Bob conseguira acalmar e
convencer a largar a arma. No tinham o direito de tirar o revlver dele, e no tiraram. Ela
tinha conscincia desses perigos toda vez que saam para as ruas. Era difcil dizer a Matt
que no havia perigo, pois ambos sabiam que havia. -- A equipe  muito boa e altamente
treinada. Duas pessoas com quem trabalho so ex-policiais, peritas em artes marciais, e a
terceira fez parte da fora especial da Marinha.
- No importa quem so -- disse Matt num tom seco --, eles no podem proteger voc,
Ophlie. As coisas ficam difceis de um instante para outro nas ruas. E se voc j esteve l
sabe bem disso. No pode correr esse tipo de risco. -- Olhou com ar significativo para
Pip, e Ophlie sugeriu que eles fossem dar uma caminhada na praia.
Matt continuava aflito quando saram. Pip foi correndo na frente com Mousse e ele e
Ophlie seguiram mais devagar. Matt voltou logo ao assunto.
-  Voc no pode fazer isso -- disse, de forma categrica. -- No tenho o direito de dizer
isso, mas gostaria de ter.  um desejo de morte da sua parte, ou um desejo suicida
subliminar, mas voc no pode correr um risco assim porque  a me de Pip. Ainda que
no fosse, por que correr o risco de se ferir? Mesmo que eles no matem voc, todo tipo
de coisa pode acontecer. Ophlie, por favor, pense nisso novamente -- disse, num tom
extremamente sombrio.
-  Eu sei que pode ser perigoso, Matt -- ela falou com calma, tentando acalm-lo
tambm. -- Mas muitas coisas so perigosas. Velejar  perigoso, pensando bem. Voc
pode ter um acidente quando estiver sozinho no barco. Eu sinceramente me sinto bem
fazendo isso. As pessoas com quem trabalho so extremamente qualificadas e boas no
que fazem. No me sinto mais em perigo nas ruas. -- Era quase verdade. Ela ficava to
ocupada entrando e saindo da van com Bob e os outros que mal pensava nos perigos
potenciais durante as longas noites. Mas podia sentir que no convencera Matt. Ele estava
muito nervoso.
-  Voc  louca -- disse, num tom desesperado. -- Se eu fosse seu parente daria um jeito
de proibir voc ou a deixaria trancada no seu quarto. Mas infelizmente no sou. Qual  a
deles? Como podem deixar uma mulher destreinada trabalhar nas ruas? No se sentem
responsveis pela vida das pessoas que pem em risco? -- Estava quase gritando
enquanto caminhava. Pip ia danando na frente, feliz de estar de volta na praia. Mousse
saltava, caando as aves e correndo para cima e para baixo com pedaos de madeira na
boca. Pela primeira vez, Matt no prestou ateno nela nem no cachorro. -- So uns
loucos, e voc tambm, pelo amor de Deus -- disse, furioso com o pessoal do Centro.
-  Matt, eu sou uma mulher adulta. Tenho o direito de fazer minhas escolhas e at de
correr riscos. Se um dia sentir que  muito perigoso, eu paro.
A essa altura voc vai estar morta. Como pode ser to irresponsvel? Quando descobrir
que  muito perigoso ser tarde demais. No posso acreditar que voc seja to boba assim.
-- Na sua opinio, ela tinha perdido o juzo, estava totalmente fora de si. Ele admitia que
era um trabalho admirvel, mas achava uma imprudncia da parte dela trabalhar nas ruas,
particularmente considerando que era responsvel por Pip.
-  Se alguma coisa me acontecer -- ela disse, tentando brincar com ele para suavizar o
clima --, voc vai ter de se casar com Andrea para os dois cuidarem de Pip. Seria uma
boa coisa para o beb tambm.
-  No acho graa nenhuma -- disse ele, quase to rspido quanto Ted era de tempos em
tempos, muito contra seu modo de ser, um homem sempre camo e gentil. Mas estava
extremamente preocupado com ela, e sentia uma total falta de esperana em faz-la
mudar de opinio. -- No vou desistir facilmente -- avisou, quando voltavam para casa.
-- Vou ficar no seu p at voc acabar com essa loucura. Voc pode trabalhar no Centro
e fazer o que for preciso para eles durante o dia. Mas o programa de atendimento externo
 para heris, loucos e gente sozinha.
- Meu parceiro na van  vivo e tem trs filhos pequenos -- disse ela com calma, pondo
a mo no brao de Matt enquanto caminhavam.
-  Ele deve ter vontade de morrer tambm. Se minha mulher morresse e eu tivesse de criar
trs filhos pequenos, talvez quisesse morrer tambm. S sei que no vou deixar voc fazer
isso. Se estiver contando com a minha aprovao, esquea. No aprovo. E se estiver
tentando me matar de preocupao, conseguiu. Vou ficar em pnico toda vez que souber
que voc est nas ruas, por sua causa e por causa de Pip. -- E teve vontade de dizer "E
por minha causa tambm".
- Pip no devia ter contado -- disse Ophlie com suavidade, e ele balanou a cabea em
desespero.
-  Ainda bem que contou. Caso contrrio eu no ficaria sabendo de nada. Voc precisa de
algum para pr um pouco de juzo na sua cabea, Ophlie. Considere essa possibilidade.
Prometa que vai fazer isso.
-  Vou. Mas garanto que a coisa no  to ruim como parece. Se eu me sentir aflita, paro
com esse trabalho. Mas me sinto muito mais  vontade agora. As pessoas da equipe de
atendimento externo so extremamente responsveis. -- O que no disse  que o grupo
era pequeno, que eles em geral se espalhavam, e se por acaso atirassem em um deles ou
investissem com uma arma ou uma faca seria pouco provvel que os outros tivessem
tempo de fazer alguma coisa, especialmente porque no andavam armados. Era preciso
ser alerta e rpido e manter os olhos bem abertos, o que sempre faziam. Mas, alm disso,
tinham de contar com seus prprios instintos, com a bondade dos moradores de rua que
atendiam e com a graa de Deus. No passava pela cabea de ningum, em momento
algum, que alguma coisa ruim poderia acontecer. E Matt sabia que era assim mesmo.
-   Essa conversa no terminou, Ophlie, posso garantir -- disse, quando voltavam para
casa.
-  Eu no planejei fazer esse tipo de coisa, Matt -- disse ela, se explicando. --
Simplesmente aconteceu. Eles me levaram na van uma noite, e eu adorei. Voc poderia se
juntar a ns uma noite dessas para ver com seus prprios olhos. -- Matt ficou
horrorizado.
-  No sou to corajoso como voc, nem to louco. Ficaria morto de medo -- disse com
sinceridade e um olhar de horror, e ela riu. No sabia por que, mas se sentia bem
trabalhando nas ruas e no tinha mais medo. Nem teve o medo que esperava ter quando o
viciado os ameaou com uma arma, mas no contou isso para Matt. Ele a trancaria num
quarto, como tinha prometido. E nada do que ela pudesse dizer o acalmaria.
- No  to apavorante como voc pensa. Quase sempre  to comovente que a gente
chega a chorar. Matt,  de cortar o corao.
- Tenho muito mais medo de que algum ponha
uma bala na sua cabea um dia desses. -- Era
uma forma dura de falar, mas expressava tudo
que ele sentia. No ficava to abalado assim h
muito tempo. Talvez desde que Sally lhe dissera
que estava se mudando para Auckland com as crianas.
Estava convencido de que sua nova amiga ia morrer. E no queria que isso acontecesse
com ela, nem com Pip, nem com ele. Havia muita coisa em jogo agora, coisa que no lhe
acontecia h muito tempo. Ele gostava das duas. Seu corao estava em risco tambm.
Colocou mais lenha na lareira quando entraram em casa. Ophlie o ajudara a lavar a loua
do almoo antes de ir para a praia, e ele ficou olhando longamente para o fogo, depois
virou-se para ela.
-  No sei o que posso fazer para evitar que voc continue com essa loucura, Ophlie.
Mas vou fazer todo o possvel para convencer voc de que  m idia. -- Como no
queria assustar Pip, parou de falar no assunto, mas ficou com um ar preocupado at a hora
em que elas saram. J tinham combinado um jantar para comemorar o aniversrio de Pip
na semana seguinte.
-  Desculpe ter falado para Matt sobre seu trabalho com os sem-teto, mame -- disse Pip
arrependida, assim que se afastaram da casa dele. Ophlie olhou-a com um sorriso triste.
-   Tudo bem, querida. Segredo no  uma boa coisa.
-    perigoso como ele diz? -- perguntou, preocupada.
-  Nem tanto -- Ophlie respondeu, tentando acalm-la, com sinceridade. No estava
mentindo para Pip. Sentia-se segura com a equipe. -- Se tomarmos bastante cuidado, no
h problema. Ningum da equipe se feriu at hoje, e eles querem que as coisas continuem
assim, e eu tambm. -- Ao ouvir isso, Pip se acalmou, e olhou de novo para a me.
-   Voc devia dizer isso a Matt. Acho que ele tem medo por voc.
-  gentil da parte dele. Matt se preocupa conosco. -- Mas a verdade era que havia
muitas coisas perigosas na vida. Nada na vida era inteiramente sem risco.
- Eu amo Matt -- disse Pip. Era a segunda vez em
dois dias que dizia isso, e Ophlie ficou em
silncio. H muito tempo ningum se preocupava
com ela dessa forma to protetora. Nem mesmo
seu pai. Ele no lhe prestava muita ateno nos
ltimos anos. Vivia preocupado com a prpria vida
e no tinha tempo para preocupar-se com ela,
nem havia razo para isso. Chad era a permanente preocupao
de Ophlie, particularmente depois de suas tentativas de suicdio, mas nem com ele Ted
se preocupava, A maior parte do tempo vivia extremamente envolvido consigo mesmo.
Mas mesmo assim ela o amava.
Telefonou para Matt naquela noite para agradecer o timo dia na praia, e depois de um
instante ele pediu para falar com a me dela. Ophlie teve medo de pegar o telefone, mas
o segurou assim mesmo.
- Andei pensando sobre tudo isso e fiquei com muita raiva de voc -- disse ele, num tom
quase feroz. --  a coisa mais irresponsvel que j ouvi falar para uma mulher da sua
posio, acho que voc devia consultar um analista. Ou voltar para seu grupo.
-  O lder do meu grupo foi quem me deu a recomendao para o Centro -- ela disse
sensibilizada, e ele bufou de raiva.
-   Tenho certeza que ele nunca pensou que voc iria fazer trabalho nas ruas.
Provavelmente achou que ficaria servindo caf, enrolando gases para curativo ou coisa no
gnero. -- Ele sabia o que eles faziam, Matt tinha lido o artigo que ela lhe dera, mas
estava obviamente desesperado.
-   Prometo que vou ficar bem.
-  Voc no pode garantir isso a ningum, nem a si prpria nem a Pip. No tem como
prever ou controlar o que pode acontecer nas ruas.
-  No, mas eu poderia ser atropelada por um nibus na rua amanh tambm ou morrer de
ataque cardaco na cama. A gente no pode controlar tudo na vida, Matt. Voc sabe disso
to bem quanto eu. -- Pensava mais filosoficamente sobre a vida e at sobre a morte do
que antes da morte de Chad e Ted. Morrer no era mais to terrvel quanto antes. Sabia
que a morte era a nica coisa que no se podia controlar.
-- Isso  menos provvel, e voc sabe muito bem.
-- Estava desesperado e irritado, e depois de uns
minutos desligou o telefone. Ophlie no desistiria de
trabalhar na equipe externa, ele sabia. S no sabia o que fazer a respeito disso. Mas
refletiu sobre a idia a semana toda e voltou ao assunto no aniversrio de Pip, depois que
ela foi para a cama.
Tinha levado as duas a um restaurante italiano que Pip adorou. Os garons cantaram
"Parabns" em italiano, parecendo verdadeiros bartonos, e ele lhe deu de presente um
material de pintura que ela queria muito e uma camiseta com os dizeres "Voc  minha
melhor amiga". Ele prprio pintara as letras e Pip ficou fascinada. Foi uma tima noite e,
como sempre, Ophlie sentiu-se grata a ele. Mas sabia o que viria depois. Podia ver no
seu rosto, e ele percebeu isso. Os dois estavam se conhecendo cada vez melhor.
- Voc j sabe o que eu vou dizer, no ? -- perguntou muito srio, e Ophlie assentiu,
com pena de Pip j ter ido dormir.
- Imagino -- respondeu com um sorriso. Ficava
comovida com o carinho que ele demonstrava por
ela e pela filha. Ela tambm tinha muito carinho por ele e percebia que
cada vez que o via ficava ainda mais ligada quele homem. Matt j fazia parte da sua vida
e da vida de Pip, sob todos os aspectos.
J pensou mais no assunto? Acho que devia desistir da equipe de atendimento externo --
disse, num tom decidido.
- Eu sei. Pip disse que eu devia contar a voc que ningum da equipe jamais se
machucou. Eles so cuidadosos e espertos, e sabem o que esto fazendo. No so bobos,
Matt, nem eu. Isso deixa voc mais tranqilo?
- No. S significa que tm tido sorte de nada ter acontecido ainda, mas pode acontecer a
qualquer hora. E voc sabe disso to bem quanto eu.
- A gente deve ter um pouco mais de f. Pode parecer ridculo, mas acho que Deus no
deixar que me acontea nada quando estiver fazendo uma coisa to bem intencionada.
-  E se Ele estiver ocupado em outro lugar enquanto voc corre perigo? Ele tem de se
preocupar com a fome, as enchentes e a guerra, no s com voc.
Ophlie no pde deixar de rir, e Matt finalmente sorriu.
- Voc vai me deixar maluco. Nunca conheci uma pessoa to teimosa. Ou to corajosa
-- disse baixo --, ou to decente. Ou to sem juzo, infelizmente. S no quero que voc
se machuque -- disse, com voz triste. -- Voc e Pip significam muito para mim.
- Voc significa muito para ns tambm. Voc fez
com que ela tivesse um lindo aniversrio -- disse
Ophlie com gratido.
O aniversrio do ano anterior tinha sido horrvel,
uma semana depois da morte do pai e do irmo.
Esse foi divertido e o melhor que Matt pde lhe
dar. Pip ia fazer uma comemorao em casa com
quatro colegas no fim de semana seguinte e
estava ansiosa para chegar o dia. Mas o jantar
com Matt e os presentes tinham sido o melhor
momento para ela e para a me. Ophlie s tinha
pena do trabalho com a equipe de rua ter se
tornado um problema entre eles. No pretendia
parar, e Matt sabia disso. Mas ia continuar a falar
com ela e pression-la a desistir.
Finalmente passaram para outros assuntos pela
primeira vez em uma semana, e relaxaram
tomando uma taa de vinho em frente  lareira.
Era fcil e confortvel estar com ele. Nunca se
sentira assim com homem algum da sua vida, nem
mesmo com Ted. E Matt tambm se sentia 
vontade com ela. Parecia um pouco mais feliz
quando finalmente foi embora. No tinha desistido
de lutar contra o trabalho de Ophlie, nem
pretendia desistir, mas percebia que sua influencia
sobre ela ia s at certo ponto, e no momento no
era grande. Mas, fazia o melhor que podia, dadas
as limitaes do seu papel na vida dela.
Quando Ophlie subiu as escadas lentamente no
escuro e encontrou Pip na sua cama, como
sempre, deu-se conta de que estava pensando
nele. Matt era um bom homem e um bom amigo, e
ela tinha sorte de algum se preocupar com elas. A noite tinha sido boa. Melhor do que
queria, em certo sentido. Tinha medo s vezes de estar se ligando demais a ele, mas
resolveu no pensar nisso. A situao entre os dois parecia muito boa. Matt era seu amigo
e nada mais.
A caminho de Safe Harbour, Matt sorria para si mesmo. Estava um pouco chocado com o
que tinha feito antes de sair da casa de Ophlie, mas foi por uma boa causa. A idia s lhe
ocorreu quando estava sentado ao lado dela e viu uma foto em cima da mesa. Esperou que
ela fosse ao quarto de Pip lhe dar boa-noite c tomou coragem. No caminho para casa,
pensando na noite que tinham passado juntos e no rostinho de Pip quando os garons
cantaram, olhou para o banco do carro onde estava a foto de Chad em um porta-retratos
de prata, sorrindo para ele.


                               Captulo            19
PIP E OPHLIE S viram Matt de novo no jantar do Dia dos Pais no colgio, quase trs
semanas depois. Ele andava ocupado e elas tambm. Telefonava para Pip quase todo dia.
Ophlie tentava evitar o assunto do Centro Wexler, pois sabia muito bem sua opinio
sobre a equipe de rua. Matt no estava mais zangado, s frustrado por ela recusar-se a
concordar com ele. E se preocupava, e Pip tambm.
Veio para o jantar de blazer, cala cinza, camisa
azul e gravata vermelha, e Pip ficou orgulhosa
quando os dois saram para a escola. Ophlie
jantou com Andrea naquela noite em um pequeno
restaurante japons ali perto. Ela tinha contratado
uma bab e estava aproveitando umas horas de
liberdade.
- Ento, o que est acontecendo? -- perguntou direto.
- Ando muito ocupada no Centro, e Pip parece feliz na escola. S isso. Vai tudo bem
com voc? -- Ophlie parecia tima. Seu trabalho lhe fizera muito bem. Andrea percebeu
isso.
-  Sua vida parece montona como a minha -- ela disse, meio desgostosa. -- No foi a
isso que me referi, voc sabe. O que est acontecendo com Matt?
-  Ele levou Pip para o jantar do Dia dos Pais esta noite -- disse Ophlie inocentemente,
irritando a amiga.
-   Eu sei disso, sua boba. Mas o que est acontecendo com voc e ele? Alguma coisa?
- No seja ridcula. Ele vai se casar com Pip um dia e ser meu genro -- disse, parecendo
contente.
-   Voc  doente. E ele deve ser gay.
-  Acho que no. Mas, se for, no  da minha conta. -- Ophlie parecia despreocupada, e
Andrea recostou-se na cadeira com ar frustrado. Estava saindo com um dos colegas do
escritrio, que Ophlie sabia que era casado. Mas ela no se importava com isso. Tinha
sado com vrios homens casados ao longo dos anos e dizia que esse arranjo lhe
convinha. No queria se casar e no queria um homem no seu p o tempo todo. Mas
Ophlie suspeitava h muito tempo que isso no era verdade. Agora, com o beb, seria
bom ela se casar. Mas como no tinha muita f de encontrar algum a essa altura
dispunha-se a aceitar qualquer situao, at mesmo um emprstimo de algum que per-
tencia a outra.
- Voc no tem vontade de sair com ele? -- Na sua opinio, era uma coisa anormal.
Ophlie era uma mulher bonita, tinha s 42 anos, quase 43, e era jovem demais para
desistir de homens e passar o resto da vida chorando por Ted.
-  No -- disse Ophlie com calma. -- No quero sair com ningum. Ainda me sinto
casada com Ted. -- O que sentia ou no sentia por Matt era irrelevante. Os dois gostavam
do seu relacionamento como era. Esperar mais ou deixar que as coisas passassem daquele
limite, se passassem, era arriscado demais. E no queria estragar o que tinham agora. Mas
no falou nada disso para Andrea, pois sabia que ela nunca entenderia. Ela preferia sair
com homens comprometidos do que no sair com ningum, e esta ltima era a opo de
Ophlie.
-  E se Ted no se sentisse to casado com voc? O que acha que ele teria feito se voc
tivesse morrido? Acha que ele teria ficado sem ningum para o resto da vida? -- Ophlie
sentiu-se infeliz com aquela pergunta. Vieram  sua cabea lembranas dolorosas que
eram do conhecimento de Andrea. Mas ela se irritava de ver a amiga jogar fora sua vida.
Achava que Ted no merecia isso, por mais que Ophlie o tivesse amado. No era
saudvel ficar sozinha para sempre por causa dele. E Ophlie parecia determinada a
manter-se sozinha e chorando para o resto da vida.
- No importa o que ele teria feito -- Ophlie disse com serenidade. --  a minha forma
de viver e de sentir.  o que quero fazer. -- Tinha feito uma escolha e sentia-se
confortvel com a idia, por melhor e mais atraente que Matt fosse.
- Talvez Matt no entusiasme voc. E naquele Centro dos sem-teto onde voc trabalha?
Que tal  o diretor? -- Estava jogando verde para o bem da amiga, e Ophlie riu.
-   Gosto muito da diretora.
-   Desisto. Voc no tem jeito -- disse Andrea, levantando as mos para o alto.
-   Que bom. E voc? Que tal  o novo sujeito?
-   s um passatempo. A mulher dele vai ter gmeos em dezembro. Ele disse que ela 
uma pessoa limitada e que o casamento anda mal h anos, por isso ela resolveu
engravidar. Uma atitude imbecil, mas as pessoas fazem isso. Ele no  o amor da minha
vida, mas nos divertimos bastante juntos. -- At os bebs chegarem e ele se apaixonar
pela mulher de novo, ou no. No era uma soluo de vida para Andrea, e ambas sabiam
disso. Ela alegava que no queria uma "soluo", s um caso de passagem para provar a si
mesma que ainda no estava morta.
- Ele no parece ser a resposta para voc -- disse Ophlie com pena dela. Andrea fazia
escolhas muito ruins na vida h muito tempo.
- E no . Mas serve, por enquanto. Vai ficar muito
ocupado depois que os bebs nascerem. Agora a
mulher est fazendo repouso, e eles no fazem
sexo desde junho.
Ouvir aquelas palavras era deprimente. Tudo que
sua amiga descrevia era o que Ophlie nunca quis.
Ela falava de oportunismo, convenincia e
aceitao, muito menos do que merecia, s para
ter um corpo quente em sua cama.
Por mais difcil que Ted tivesse sido, Ophlie foi
feliz no casamento. Gostava de ser casada com ele
e de am-lo, de lhe dar apoio nos anos de pobreza,
de celebrar com ele e por ele quando comeou a
fazer sucesso. Amava a lealdade entre eles e o
fato de terem se mantido sempre juntos. Ela nunca
tinha enganado Ted, nem querido enganar. Mesmo
quando ele pulou a cerca, sabia que ele a amava e
o perdoou. Ficava horrorizada agora ao pensar que
estava solteira de novo, e a idia de namorar
algum a deixava apavorada. Era muito mais feliz
em casa com Pip do que saindo com homens que
enganavam as esposas ou solteiros que tinham
inteno de se manter assim e s queriam se
divertir um pouco. No podia haver coisa pior. E
no desejava estragar sua amizade com Matt,
mago-lo, ou ser magoada de novo. Gostava do
que tinham. Estavam muito melhor como amigos,
por mais que Andrea no entendesse.
Matt e Pip chegaram em casa s 22h30. Ela chegou feliz, despenteada, com a blusa para
fora da saia, e ele sem gravata. Tinham comido frango frito e danado rap que as meninas
escolheram. E disseram que tinham se divertido muito.
-  No sei se gostei muito da msica -- disse ele, rindo com Ophlie quando ela lhe
serviu um copo de vinho depois que Pip foi dormir. -- Mas acho que Pip adorou. E ela
dana bem.
- Eu gostava muito de danar tambm -- disse Ophlie com um sorriso feliz. Estava
contente de os dois terem se divertido tanto. Como sempre, tinha lhes dado uma tima
noite e Pip fora para a cama com um sorriso nos lbios de ponta a ponta. Ophlie achava
que ela tinha uma paixonite por Matt, mas parecia uma coisa inofensiva e razovel. Ele
no tinha noo disso, o que era bom. Se tivesse, talvez Pip se sentisse encabulada.
-  E agora? No gosta mais de danar? -- perguntou com um largo sorriso quando se
sentaram.
-  Ted detestava danar, embora fosse muito bom nisso. Eu no dano h anos. -- E
percebeu que provavelmente no danaria mais. No da forma como escolhera viver. Pip
teria de danar pelas duas de agora em diante. Dizia a si mesma que estava velha demais
para isso. A viva Mackenzie estava em isolamento e pretendia manter-se assim. Era uma
das vrias coisas que aceitava em termos da sua situao. E nunca mais faria amor com
ningum tampouco. Nem se permitia pensar nisso.
- Ns poderamos sair para danar um dia desses,
para exercitar um pouco os ps. -- Ela sabia que
Matt estava s brincando. Tinha voltado do jantar
com Pip de bom humor.
Acho que meus ps no do mais para nada. E
concordo com voc sobre a msica de Pip.  muito
barulhenta. Ela liga o rdio todo dia quando vai
para a escola, e eu fico quase surda.
Pensei nisso tambm hoje  noite. Perfurao do
tmpano em jantar danante do stimo ano. Como
artista plstico, o problema no  grande. Mas se
eu fosse compositor ou regente seria difcil.
Continuaram a conversar por algum tempo, e pela
primeira vez ele no mencionou a equipe de rua, e
ela sentiu-se aliviada. Seu trabalho com eles
estava indo bem, e no tinha havido nenhuma
ocorrncia desagradvel nas ltimas semanas.
Mais do que nunca, sentia-se segura e confortvel
com eles. Ela e Bob tinham se tornado amigos. Ela
lhe dava conselhos gratuitos sobre crianas,
embora ele parecesse se sair bem por conta
prpria, e falava muito sobre Pip. Ele estava
namorando a melhor amiga da sua falecida
esposa, o que foi uma boa para as crianas, que
eram loucas por ela. Ophlie ficou feliz por Bob.
J era quase meia-noite quando Matt saiu. A noite estava estrelada e ela sabia que sua
viagem de volta para casa seria tranqila e linda. Sentiu inveja dele. Tinha saudade da
praia. Quando ele ia saindo pediu-lhe para parar e foi correndo at o carro.
- Quase me esqueci. O que voc vai fazer no Dia de Ao de Graas? -- Faltavam trs
semanas, e ela estava pensando em convid-lo.
- A mesma coisa que fao todo ano. Ignoro essa data. Sou um incrdulo. No acredito no
peru do almoo de Ao de Graas nem do Natal.  contra minha religio. -- Era fcil
saber por qu. Desde que seus filhos saram da sua vida, esses dias eram penosos para ele.
Talvez com ela e com Pip a coisa melhorasse, se ele tivesse algum interesse.
- Tem vontade de mudar isso? Pip, Andrea e eu vamos fazer o almoo aqui. O que voc
acha?
-  Acho uma gentileza sua me convidar. Mas no dou mais para essas coisas. Muita gua
j rolou debaixo da ponte, ou debaixo do peru, por assim dizer. Por que voc e Pip no
vm passar o dia seguinte comigo? Eu gostaria muito que viessem.
- Tenho certeza que Pip adoraria, e eu tambm. -- Resolveu no fazer presso sobre o
Dia de Ao de Graas. Podia imaginar como era difcil para ele. E para ela tambm
agora. As festas tinham sido horrveis no ano anterior. -- Achei que voc aceitaria meu
convite. -- Estava um pouco desapontada, mas no demonstrou. Ele j fazia demais, no
devia nada a elas.
- Obrigado -- disse comovido, apesar de sua recusa.
- Obrigada por levar Pip para o jantar danante -- falou, sorrindo para ele.
- Eu adorei. Vou ouvir rap todo dia para ver se
aprendo a danar. No quero envergonhar Pip no
jantar do prximo ano. -- Que coisa boa ele pensar
assim, disse Ophlie a si mesma, quando Matt foi
embora. Ele era mesmo um homem bom. En-
graado como as pessoas aprendiam a sobreviver.
Aprendiam a fazer o melhor possvel, a fazer
mudanas e a substituir e confiar em amigos em
vez de companheiros ou esposos. Eles tinham se
tornado uma verdadeira famlia, juntos como num
barco salva-vidas em uma tempestade. No era
como ela planejara viver a vida, mas funcionava.
Cada um ganhava o que precisava. No era o tipo
de famlia que tinha antes, mas era a que tinha
agora, e dava certo. Gostassem ou no, aquela era
a nica escolha delas, e ela era grata pelas mos
de Matt que apareciam no escuro e seguravam as
suas. Era infinitamente grata a ele. Pensando
nisso, trancou a porta da frente, subiu as escadas
e foi para a cama na casa silenciosa.

                              Captulo            20
O DIA DE AO de Graas foi mais difcil do que
Ophlie esperava. Era brutal passar as festas sem
Ted e Chad. No dava para tapar o sol com a
peneira, tentar suavizar o clima ou fingir que no
era to penoso assim. Quando fez a orao de
graas diante do pequeno grupo na mesa da
cozinha, expressando sua gratido por tudo que
tinham recebido e pedindo que Deus abenoasse
seu marido e seu filho, perdeu o controle e co-
meou a soluar. Pip chorou com ela. Ao olhar
para as duas, Andrea chorou tambm, e vendo
toda aquela tristeza  sua volta o beb William
abriu o berreiro. At Mousse parecia chateado. Foi uma cena to
dramtica que depois de um instante Ophlie comeou a rir. Passaram o resto do dia
alternando entre risadas histricas e lgrimas.
O peru estava bonito, mas ningum tinha vontade de comer, e o recheio estava meio seco.
Ningum apreciou a refeio. Tinham decidido comer na cozinha porque sabiam que
Willie, j quase com sete meses, balanando os braos gordinhos na sua cadeira, poderia
fazer uma sujeira. Ophlie achou melhor no usarem a sala de jantar, pois ficaria
imaginando Ted trinchando o peru, como fazia todo ano, e Chad de terno, reclamando
amargamente por ter de usar gravata. As lembranas e a perda ainda eram muito recentes.
Andrea        foi para casa no final da tarde com o beb, e Pip foi para seu quarto
desenhar. O dia no tinha sido fcil. Pip saiu do quarto a tempo de ver a me pronta para
entrar no quarto de Chad, e olhou-a de um jeito suplicante.
-  Por favor, no v l, mame, voc vai ficar muito triste. -- Ela sabia que a me se
deitaria na cama de Chad para cheirar o que restara do seu cheiro e sentir a aura dele  sua
volta. Ficava ali chorando durante horas. Pip podia ouvi-la pela porta fechada, e ficava de
corao partido. Ela no era uma substituta do irmo aos olhos da me. E Ophlie no
conseguia explicar a Pip que ela no significava menos que seu irmo, era simplesmente
uma perda que nada poderia substituir, um vazio que no poderia ser preenchido. Sua
filha no preencheria esse vazio, o que no queria dizer que fosse menos amada que o
irmo.
- Vou entrar s um minuto -- disse Ophlie, mas
ao ver os olhos de Pip encherem-se de lgrimas
voltou em silncio para seu quarto e fechou a
porta.
O olhar de Pip fez Ophlie sentir-se culpada de
entrar no quarto de Chad, ento resolveu ir ao
closet, olhar as roupas de Ted. Precisava de
alguma coisa, de algum, de um dos dois, de
qualquer coisa, um objeto, um toque, um de seus
casacos, uma camisa, uma coisa familiar que
ainda tivesse seu cheiro ou o cheiro da sua
colnia. Era uma necessidade insacivel que
ningum poderia entender, a no ser que tivesse
passado por uma perda semelhante. S o que
restara deles foram seus pertences e roupas, as
coisas em que tinham tocado, que tinham usado,
carregado ou manuseado. Ophlie usou a aliana
dele durante todo o ano presa em uma corrente
pendurada no pescoo. Ningum sabia que estava
l, s ela, e sua mo tocava na aliana a toda
hora, s para assegurar-se de que ele realmente
existira, de que eles tinham sido casados e de que
ela fora amada. Era difcil lembrar-se disso agora.
Tinha uma sensao avassaladora de pnico s
vezes, quando percebia que ele se fora e que
nunca mais voltaria. Foi tomada por uma onda de
pnico quando se agarrou a um dos casacos de
Ted pendurado no closet, e como se pudesse
sentir os braos dele  sua volta tirou-o do cabide
e vestiu.
Ficou ali como uma criana perdida, com as
mangas penduradas para baixo, passando os
braos em volta de si mesma. Em certo momento
sentiu um pequeno volume dentro de um dos
bolsos e instintivamente ps a mo dentro. Era
uma carta e, durante um instante de loucura, quis
que a carta fosse dele para ela, mas no era. Era
uma folha de papel impressa digitada em com-
putador, com uma inicial na ltima linha. Ficou
sem jeito de ler o que no fora escrito para ela,
mas era uma coisa dele, uma coisa que ele tinha
tocado e lido. Por um instante pensou se no teria
sido ela quem escrevera, mas sabia que no era, e
sentiu o corao bater forte quando comeou a ler.
"Querido Ted", comeava. A carta no melhorava,
s piorava. "Sei que isso foi um choque para ns
dois, mas s vezes os piores golpes acabam sendo
os maiores presentes da vida. No  o que eu
pretendia. Mas acho que  o que teria de ser. No
sou mais to jovem e, para ser franca, tenho medo
de no ter outra chance com voc ou com
qualquer outro. Esse beb significa tudo para mim,
mais que qualquer outra coisa no mundo, porque
ele  seu.
"Sei que voc no planejou isso, nem eu. Tudo
comeou como uma diverso, uma brincadeira
entre ns dois. Ns sempre tivemos muito em
comum, e sei como esses ltimos anos tm sido
difceis em casa para voc. Ningum sabe melhor
do que eu. Acho que ela atrapalhou as coisas para
voc e para Chad e, mais importante ainda, entre
vocs dois. Nem tenho certeza se ele teria tentado
suicdio, se  que tentou, se ela no o tivesse
afastado de voc. Sei muito bem que isso tem sido
difcil. Como voc, no estou to convencida assim
de que ele realmente tenha problemas. Nunca
acreditei muito no diagnstico, e creio que 
possvel que as ditas tentativas de suicdio tenham
sido para chamar sua ateno, talvez at mesmo
para pedir que voc o salvasse dela. Acho que ela
interpretou mal tudo isso desde o incio. E se aca-
barmos juntos como espero e voc diz que 
possvel, a soluo talvez seja deixar Pip com ela e
voc e eu ficarmos com Chad. Ele poder ser
muito mais feliz do que  hoje, com ela buzinando
no seu ouvido como uma corneta, em pnico
constante. Isso no pode ser bom para ele. Chad 
mais como voc e eu do que como ela.  bvio
para ns dois que ela no o compreende. Talvez
por ele ser mais inteligente do que ela, talvez at
mais inteligente do que ns. De qualquer forma, se
for isso o que voc quer, eu estaria disposta a
traz-lo para morar conosco, se voc decidir.
"Quanto a ns, creio firmemente que isso  apenas
o comeo. Sua vida com ela acabou. Est acabada
h anos. Ela no v isso, ou no quer ver. No
consegue.  completamente dependente de voc
e dos filhos. No tem vida prpria. No quer ter.
Alimenta-se de voc e deles para que sua vida
tenha sentido. Mas no tem. Ela ter de construir
sua prpria vida mais cedo ou mais tarde. Talvez a
longo prazo seja disso que ela precise, uma
sacudida para perceber que sua vida no tem
sentido,  vazia, e que ela significa muito pouco
para voc. Ela o suga. Absorve toda a vida que
voc tem, e vem fazendo isso h anos.
"Este beb, menino ou menina,  o elo entre ns,
nossa ligao para o futuro. Sei que voc no
tomou nenhuma deciso firme ainda, mas creio
que sei o que quer, como voc tambm sabe. Tudo
o que tem a fazer  dizer isso, como disse para
mim h quase um ano. O beb nunca teria
acontecido se no fosse para ser, se voc no
quisesse tanto quanto eu.
"Temos seis meses para encontrar uma soluo,
para fazer as manobras certas at o beb chegar.
Seis meses para terminar a vida antiga e comear
uma nova. No consigo pensar em nada mais
importante, ou melhor, que eu deseje mais. Voc
tem minha lealdade, meu amor, minha admirao
e meu respeito por tudo que  e tem sido para
mim.
"O futuro  nosso. Nosso beb est chegando.
Nossa vida comear em breve, assim como a vida
dele, ou dela, embora eu sinta que ser um
homem, como voc. Deus est nos oferecendo
uma vida nova, um comeo novo, a vida que
sempre quisemos, entre duas pessoas que se
compreendem e se respeitam, duas pessoas que
so de fato uma s depois do beb.
"Eu amo voc de todo o corao, e prometo que se
voc vier morar comigo, quando vier, e acho que
vir, ser feliz como nunca foi. O futuro, meu
querido,  nosso. Como eu sou sua, com todo meu
amor. A."
A data era de um dia antes da morte dele. Ophlie
achou que ia ter um ataque cardaco, e caiu de
joelhos enquanto lia e relia o texto. No podia acreditar no que
estava lendo, no podia imaginar quem poderia ser. Era impossvel. Isso no podia ter
acontecido. Era mentira. Uma brincadeira cruel que algum fizera com eles. Ou quem
sabe algum tipo de chantagem. O casaco escorregou dos seus ombros e caiu no cho, e ela
segurou a carta com a mo trmula.
Apoiou-se na parede para se levantar e ficou olhando para o espao, ainda segurando a
carta. Ento,  medida que foi entendendo, e as coisas foram clareando, ela teve vontade
de morrer. O beb mencionado na carta tinha nascido seis meses depois da morte dele.
William Theodore. Ela no ousou cham-lo de Ted, mas quase. No era a homenagem
que dizia ter feito ao amigo morto. O beb recebeu o nome do pai. O nome do meio de
Ted era William. Tudo que ela fez foi inverter os nomes. O beb era dele, no de um
banco de esperma. A carta s podia ser de Andrea, a assinatura era sua inicial "A". Ela
tinha influenciado Ted com respeito a Chad, brincado com a necessidade desesperada
dele de negar sua doena e criticado-a. A carta fora escrita por uma mulher que durante
18 anos disse ser sua melhor amiga. No dava para acreditar, no dava para pensar, no
dava para ouvir. Andrea a trara. E ele tambm. Tudo isso significava que quando ele
morreu no a amava. Estava apaixonado por Andrea e ia ter um filho com ela. Ophlie
ainda segurava a carta quando foi para o banheiro e vomitou violentamente. Estava em
frente  pia, muito plida, quando Pip a encontrou e a viu tremendo violentamente.
-- Mame, voc est bem? -- Pip perguntou em pnico. -- O que aconteceu?
Ophlie parecia muito doente, plida e esverdeada.
--   Nada -- disse baixinho, limpando a boca. Tinha vomitado apenas bile e um
pouquinho de peru, pois no comera quase nada. Mas a impresso era de que vomitara
tudo o que comera durante anos, junto com o corao, a alma e o casamento.
-  Quer se deitar um pouco? -- Pip perguntou. Tinha sido um dia horrvel, e agora ela
estava desesperadamente preocupada com a me. Parecia que ia morrer, e que queria
morrer.
-  Daqui a um minuto vou para a cama. Vou ficar bem. -- Sabia que era mentira. Ela
nunca mais ficaria bem. E se ele a tivesse deixado? Se tivesse ido embora e no tivesse
morrido? Se tivesse levado Chad seria uma morte para ela e talvez para Chad, se ambos
negassem sua doena. Mas agora ele estava morto. Os dois estavam mortos. No
importava mais. Ele a tinha matado, como se tivesse atirado nela. A carta era um deboche
do seu casamento e da sua amizade com Andrea. Ela no conseguia entender como
algum podia fazer isso, como podia ser to insidiosa e to traidora, to desonesta e to
cruel.
- Mezinha, v se deitar, por favor... -- disse Pip quase chorando. Ela no dizia
mezinha desde que era bem pequena. Estava muito assustada.
- Preciso dar uma sada por um instante -- disse
Ophlie, virando-se para a filha.
Dessa vez o rob no tinha voltado, ela parecia um vampiro, com o rosto branco feito
gelo e os olhos avermelhados. Pip quase no a reconheceu, nem quis reconhecer. Queria
sua me de volta, aonde quer que ela tivesse ido naquela ltima hora. Aquela pes soa no
se parecia ela.
- Voc pode ficar sozinha aqui?
- Onde voc vai? Quer que eu v com voc? -- Pip tremia tambm.
- No. Vou ficar fora s uns minutos. Deixe as
portas trancadas e ponha Mousse perto de voc.
-- A voz era da sua me, mas o rosto, no. Ophlie
de repente teve um nico propsito, um poder que
nunca tivera. Compreendeu de repente como as
pessoas podiam cometer crimes passionais. Mas
ela no queria matar Andrea. S queria v-la, dar
uma ltima olhada nela, a mulher que destrura
seu casamento, que transformara em cinzas suas
lembranas de Ted e o que eles tinham vivido
juntos. No conseguia nem ao menos odiar Ted.
Tudo o que sentia, toda a agonia e o horror do
ltimo ano concentrou-se em Andrea em um nico momento,
como uma bala de revlver. E nada do que ela fizesse poderia se igualar ao que lhe
tinham feito.
Pip ficou no alto da escada, muito assustada, quando a me saiu. Ophlie desrespeitou as
faixas de pedestres e os sinais, e deixou o carro estacionado na calada. No telefonou
para avisar que ia, subiu a escada da entrada e tocou a campainha. No vestiu um casaco
por cima da blusa fina, nem mesmo um suter, mas no sentia frio. Andrea atendeu a
campainha em um instante. Estava segurando o beb de pijama e os dois sorriram quando
a viram entrar.
- Oi... -- Andrea falou calorosamente, mas viu logo que Ophlie estava tremendo. Tinha
colocado a carta no bolso. --Voc est bem? Aconteceu alguma coisa? Onde est Pip?
-  Aconteceu, sim. -- Ophlie ficou parada na porta e tirou a carta do bolso com mos to
trmulas que mal conseguia controlar. -- Encontrei sua carta. -- Seu rosto estava mais
plido ainda, e Andrea empalideceu tambm. No tentou negar nada. As duas pareciam
mulheres de giz de p na porta, com o vento soprando em volta delas.
- Quer entrar?--Tinha coisas para dizer, mas Ophlie no queria ouvi-las, nem saiu de
onde estava.
-  Como voc pde? Como pde fazer isso durante um ano, fingindo ser minha amiga?
Como pde ter o beb dele e fingir que era do banco de esperma? Como ousou dizer o
que disse sobre Chad para manipular o pai dele? Voc sabia como Ted se sentia a respeito
dele. Foi tudo uma manipulao, voc provavelmente nem o amava. Voc no ama
ningum, Andrea. No me ama, no amou Ted e provavelmente no ama nem esse pobre
beb. E teria tirado Chad de mim s para impressionar Ted, e Chad teria se matado
enquanto voc fazia seus jogos, usando-o como chamariz. Voc  mais que pattica. Voc
 m.  o pior tipo de ser humano. Eu odeio voc... voc destruiu a nica coisa que me
restava... pensar que ele me amava..., mas no era verdade... e voc tambm no o amava.
Eu sempre o amei, por pior que ele tenha sido comigo, ou por mais que tenha
negligenciado a mim e s crianas... voc no ama nada... meu Deus, como pde fazer
isso? -- Ophlie teve a impresso de que ia morrer ali, mas no se importava. Eles a ti-
nham destrudo. Levaram um ano, mas mesmo depois da sua morte eles a tinham
destrudo. Ela no conseguia nem comear a compreender por qu. -- - Quero que voc
se afaste de mim... e de Pip... no nos telefone nunca mais. No tente entrar em contato
conosco. Voc est morta para mim. Para sempre. To morta quanto ele... est me
ouvindo? -- A essa altura Ophlie comeou a soluar.
Andrea        no discutiu com ela, tremia tambm, segurando o beb. As duas estavam
com frio e em estado de choque, e Andrea sabia que merecia isso. Vivia preocupada
pensando no que Ted teria feito com aquela carta, mas como ela nunca apareceu imaginou
que tivesse sido destruda, esperava que sim. Mas havia uma ltima coisa que queria dizer
 mulher que fora sua amiga e nunca a trara.
-- Quero que voc oua uma coisa... Tenho s uma
coisa a dizer, alm de falar que sinto muito...
Nunca vou me perdoar por isso, mas pelo menos o
beb valeu a pena... ele no teve culpa.
- No me importo a mnima com voc e o seu beb. -- Mas o problema  que ela se
importava com os dois, por isso era to doloroso, muito mais sabendo que o beb era
dele... e via agora que se parecia com ele... mais do que Chad.
-  Preste ateno no que vou falar, Ophlie. Ted no tinha se decidido ainda. Disse que
no sabia se poderia deixar voc, que voc tinha sido muito boa para ele no comeo e
sempre, sabia que... era um homem egosta, s fazia o que queria, e disse que me queria,
mas acho que estava s brincando. Ns tnhamos muito em comum. Eu o queria. Sempre
quis. E quando vi minha chance, quando voc e as crianas foram para a Frana, usei isso.
Ele, no. Entrou nessa, mas nem tenho certeza se me amava. Talvez no. Talvez nunca
deixasse voc. No tinha se decidido ainda. Voc precisa saber disso. Ted no morreu
decidido a deixar voc. No estava seguro sobre isso. Por isso escrevi a carta. Estava
tentando convenc-lo. Voc pode ver isso. Talvez ele tivesse decidido ficar com voc.
No tenho certeza se ele amava uma de ns, para dizer a verdade. No tenho certeza se
ele era capaz de amar. Ted era um homem brilhante e narcisista. No sei se me amou.
Mas se amou uma de ns, se amou algum, esse algum foi voc. Ele disse isso. E acho
que acreditava no que disse. Sempre achei que ele era uma bosta para voc, que voc
merecia uma coisa melhor. Mas penso que a seu modo ele amava voc. Quero que voc
saiba disso agora.
-  Nunca mais fale comigo -- Ophlie lanou as palavras sobre ela, virou-se e desceu a
escada com as pernas trmulas para pegar o carro que ficara ligado em cima da calada.
No olhou para trs. Nunca mais queria ver aquela mulher, e Andrea sabia que no a
veria. Ficou soluando quando viu Ophlie partir como uma louca. Mas pelo menos tinha
dito a verdade. Ted no estava certo do que ia fazer. Talvez no tivesse amado nenhuma
das duas, mas pelo menos Ophlie merecia saber que ele sentia que lhe devia alguma
coisa, talvez tivesse ficado com ela. Ophlie talvez tivesse vencido, e no perdido. Mas
no final todos eles tinham perdido. Ted, Chad, Ophlie, Andrea e at mesmo o beb... to-
dos eles. Ele morrera sem tomar uma deciso, e em vez de destruir a carta deixou-a ali
para ser encontrada. Talvez quisesse que ela encontrasse. Talvez esperasse que ela
encontrasse. Talvez fosse sua forma de solucionar o problema. Ningum saberia jamais.
Mas tudo que Andrea tinha para dar a ela era a verdade, dizer que ele no tinha certeza,
que no sabia quando morreu... e que talvez... s talvez... ele a tivesse amado, da melhor
forma que podia.


                               Captulo            21
OPHLIE    NO SABIA como conseguira voltar para casa, nem como chegara l.
Estacionou o carro na porta de casa e entrou. Pip ainda estava sentada nos degraus, onde
ela a deixara, agarrada em Mousse.
- O que aconteceu? Aonde voc foi? -- Sua me parecia estar com uma cara ainda pior
que a de meia hora antes, e teve de novo nsia de vmito quando subiu as escadas e
entrou no quarto com ar atordoado.
-   No aconteceu nada -- disse, olhando fixamente para a frente, com o corao
despedaado por causa daquela carta. Os dois tinham agido juntos. Ted e Andrea.
Levaram um ano, mas finalmente a mataram. Virou-se e olhou para Pip como se no a
visse. Como se tivesse ficado cega de repente. O rob voltara, totalmente quebrado, com
fascas saindo para todos os lados, um sistema defeituoso e autodestrutivo. -- Vou para a
cama agora -- disse para Pip, apagando as luzes e olhando para o espao. Pip queria
gritar mas no teve coragem, com medo que as coisas piorassem. Correu para a saleta do
seu pai e discou o telefone. Estava em prantos quando Matt atendeu. Sua voz estava
especialmente feliz, e ele no entendeu o que ela dizia.
-  Aconteceu alguma coisa... alguma coisa errada com a mame. -- Matt voltou 
realidade ao ouvir isso. Nunca tinha visto Pip em tal pnico, dava para notar que sua voz
tremia.
- Ela est machucada? Diga depressa, Pip. Vai ser preciso ligar para o nmero de
emergncia?
- No sei. Acho que ela enlouqueceu. No me disse
nada. -- Pip descreveu tudo que acontecera, e
Matt pediu para falar com Ophlie. Mas quando ela foi ao
quarto da me a porta estava trancada e ela no respondeu. Pip chorou ainda mais quando
voltou ao telefone. Ele no gostou daquilo, mas teve medo de tornar as coisas piores se
telefonasse para a polcia e pedisse para derrubarem a porta. Mandou Pip bater na porta
de novo e dizer que ele estava no telefone.
Pip bateu durante um longo tempo, e finalmente ouviu um barulho no quarto como se
tivesse cado uma coisa, um abajur ou uma mesa. Ento Ophlie abriu a porta lentamente
com cara de quem tinha chorado, mas no parecia to louca quanto meia hora atrs.
Pip olhou-a, desesperada, tocou na sua mo como que para ver se ela era real, e falou com
voz trmula:
-   Matt est no telefone. Quer falar com voc.
- Diga que estou cansada -- disse Ophlie, olhando para sua filha nica como se a visse
pela primeira vez. -- Desculpe... desculpe... -- Finalmente compreendeu que estava
fazendo com aquela criana o que tinham feito com ela. -- Diga a ele que no posso falar
agora. Telefono amanh.
-- Matt falou que se voc no atender o telefone
ele vem aqui. -- Ophlie quis dizer que Pip no devia ter telefonado,
mas sabia que Pip no tinha mais ningum para apelar.
No disse mais nada, voltou para o quarto e pegou o telefone. Estava escuro, mas deu
para Pip ver o abajur cado no cho. Era o barulho que tinha ouvido. Sua me tropeara
no quarto.
-   Al. -- Parecia uma voz vinda do alm, e Matt ficou to preocupado quanto Pip.
-  Ophlie, o que est acontecendo? Pip est morta de medo. Quer que eu v at a? --
Ela sabia que ele iria, bastava pedir, mas no queria ver Matt nem ningum. Nem mesmo
Pip. Ainda no. No naquele momento. Ou talvez nunca. Nunca se sentira to sozinha na
vida, nem mesmo no dia em que Ted morreu.
-   Estou bem -- disse num tom pouco convincente. -- No precisa vir aqui.
-   Ento diga o que aconteceu. -- Sua voz era firme e forte.
-   No posso. Agora no -- falou, com voz de uma pessoa abandonada.
-  Quero que voc diga o que aconteceu. -- Ophlie sacudiu a cabea e comeou a
soluar, deixando Matt morto de preocupao. -- Vou at a.
- Por favor, no venha. Quero ficar sozinha. -- Ela parecia mais normal agora. Entrava e
saa de algum tipo de histeria, ou pnico, que ele no tinha idia do que fosse.
-   Voc no pode fazer isso com Pip.
-   Eu sei... eu sei... desculpe...--No conseguia parar de chorar.
-   Posso ir a, mas no quero me intrometer. Gostaria de saber o que est acontecendo.
-   No posso falar sobre isso agora.
- Acha que vai conseguir se controlar? -- Matt imaginou que fosse um surto, mas quela
distncia no dava para saber a extenso do problema. Parecia bem grave. Ele no tinha
idia do que causara aquilo. Talvez tivesse sido a festa de Ao de Graas. Talvez ela no
conseguisse aceitar a realidade da sua dupla perda. O que ele no sabia  que a perda
agora era tripla, ela no perdera apenas Ted e Chad, mas tambm as iluses do seu
casamento. Era mais do que podia agentar.
-   No sei -- ela respondeu.
- Quer que eu pea ajuda? -- Ainda estava pensando em ligar para a emergncia. Pensou
em telefonar para Andrea, ela morava mais perto, mas um sexto sentido lhe disse para no
chamar ningum.
-   No. Vou ficar bem. S preciso de tempo.
- Voc tem algum calmante em casa? -- Mas a idia no lhe pareceu boa. No queria
que ela ficasse sedada sozinha com Pip. Seria difcil para ela tambm.
- No preciso de nenhum calmante. Eu estou morta. Eles me mataram -- disse, chorando
ainda mais.
-   Quem matou voc?
-   No quero falar sobre isso. Ted se foi.
-  Eu sei que ele se foi. Sei... -- Era pior do que ele pensava, e por um instante achou que
ela estivesse bbada.
- Ele se foi realmente. Para sempre. E nosso
casamento tambm. Nem sei se nosso casamento existiu.
A tentativa de Andrea de tranqiliz-la a esse respeito no significava nada.
-   Entendi -- disse, para acalm-la.
-   No entendeu, no. Nem eu. Encontrei uma carta.
-  De Ted? -- Ele parecia chocado. -- Com um bilhete suicida? -- De repente imaginou
se ele teria se matado junto com Chad. Seria uma explicao para a atitude de Ophlie.
S podia ser isso.
- Um bilhete homicida. -- As palavras de Ophlie no faziam sentido. Mas era claro que
alguma coisa terrvel acontecera.
-   Ophlie, voc acha que pode se agentar at amanh?
-   Eu tenho alguma escolha? -- Ela parecia morta.
-  No, porque Pip est a. A nica escolha que tem  se eu vou  sua casa ou no. -- Mas
pela primeira vez no queria sair da praia. Queria explicar isto para ela, mas no agora.
Isso teria de esperar.
- Eu consigo agentar at amanh. -- Que diferena fazia agora? Nenhuma diferena a
seu ver.
- Quero que voc e Pip venham aqui amanh. -- Era o que tinham planejado, e agora,
mais do que nunca, queria que ela fosse l, seno iria  sua casa.
-  Acho que no vou poder. -- Estava sendo honesta com ele. No podia imaginar-se
dirigindo at Safe Harbour. No gostava da idia. No estava em condies de dirigir.
- Se no tiver vontade de vir, eu vou at a. Telefono amanh de manh. E vou ligar
daqui a uma hora para saber como voc est. Talvez seja melhor dormir sozinha esta
noite, se estiver muito desesperada. Deve estar precisando de um tempo para voc
mesma, e isso pode ser difcil para Pip. -- J estava sendo.
-   Vou perguntar o que ela prefere. No precisa ligar de novo. Vou ficar bem.
- Ainda no estou convencido -- ele disse, com voz tensa, preocupado com as duas. --
Passe o telefone para Pip.
Ophlie chamou Pip e ela atendeu da saleta. Matt lhe disse para telefonar para ele se
acontecesse alguma coisa, ou telefonar para a emergncia se o quadro piorasse muito.
- Ela parece um pouco melhor -- disse Pip. Quando voltou ao quarto da me, viu que a
luz estava acesa. Ophlie continuava mortalmente plida, mas tentou acalmar Pip.
- Desculpe.  que... acho que fiquei com medo. -- Foi tudo que conseguiu dizer para
explicar o que acontecera. No podia contar aquela histria para a filha. Nunca. Nem
contar que o beb de Andrea era seu meio-irmo.
- Eu tambm -- disse Pip devagar, subindo na cama da me e abraando-a. Ela estava
gelada, e Pip cobriu-a com um cobertor para aquec-la. -- Quer alguma coisa, mame?
-- Levou-lhe um copo d'gua, e Ophlie tomou um gole para agrad-la. Sentia-se muito
mal por ter assustado tanto a filha. Tinha quase enlouquecido por algum tempo.
- Estou bem agora. Por que no dorme aqui
comigo? -- Ophlie tirou a roupa e vestiu a
camisola, e Pip foi para o quarto e voltou de
pijama, seguida de Mousse. As duas estavam abraadas quando
Matt telefonou. Pip garantiu que estava tudo bem, e como sua voz estava melhor ele teve
de aceitar o que ela dizia. Antes de desligar, prometeu a Pip que de uma forma ou de
outra ele a veria no dia seguinte. E pela primeira vez disse a Pip que a amava. Sabia que
ela precisava ouvir isso e que ele precisava lhe dizer.
Pip aninhou-se  me de novo, e as duas ficaram abraadas e acordadas durante longo
tempo. Pip examinava a me a toda hora, e elas finalmente dormiram com a luz acesa
para afastar os demnios.

A festa de Ao de Graas de Matt foi o oposto da
festa delas. Tinha planejado passar o dia em
branco, como passava nos ltimos seis anos.
Estava trabalhando no retrato de Pip, animado
com os resultados. Preparou um sanduche de
atum para provar a si mesmo que no era Dia de
Ao de Graas. Um sanduche de peru, pela
coincidncia, teria sido uma afronta. Quando
terminava de lavar seu prato algum bateu na
porta. No podia imaginar quem fosse. No estava
esperando ningum, e seus vizinhos nunca o
incomodavam. Devia ser um engano. Pensou em
no atender, mas a batida era persistente. Quando
finalmente abriu a porta deparou com um rosto
desconhecido. Era um rapaz alto, de barba, com
olhos castanhos e cabelo escuro. Mas aquele rosto
no lhe era inteiramente desconhecido. Percebeu
com tristeza que tinha visto esse rosto no espelho,
anos atrs. Era uma experincia surreal. Como se
estivesse olhando para si mesmo. Ele tinha at
barba nessa mesma idade. Como se olhasse para
o fantasma do Natal passado. Quando o rapaz
falou, Matt sentiu um n na garganta.
- Papai? -- Era Robert. O menino que tinha 12 anos na ltima vez em que o viu. Seu
nico filho. Surgido das cinzas da sua vida. Matt no deu uma s palavra, puxou-o e
abraou-o com tanta fora que ele mal pde respirar. No sabia como Robert o
encontrara, nem por que estava ali. Mas estava feliz que estivesse.
- Ah, meu Deus -- disse, soltando o filho, sem poder acreditar que aquilo finalmente
acontecera. Ele sempre acreditou que um dia os dois se veriam de novo. No sabia como
nem quando, mas sentia que um dia se encontrariam. -- O que est fazendo aqui?
- Estou estudando em Stanford. Venho procurando voc h meses. Perdi seu endereo e
mame disse que tambm no tinha.
-  Ela disse isso? -- Os dois continuavam na porta, e Matt o fez entrar com uma
expresso intrigada. -- Sente a. -- Mostrou o sof de couro surrado, e Robert sentou-se
com um sorriso nos lbios. Estava to contente quanto seu pai. Tinha prometido a si
mesmo que o encontraria, e acabou encontrando.
-  Disse que tinha perdido contato quando voc parou de escrever -- disse Robert com
calma.
- Ela me manda um carto de Natal todo ano. Sabe bem onde eu estou.
Robert olhou para ele com ar estranho, e Matt de repente se sentiu mal.
-- Mas a mame falou que no tem notcias suas h tempos.
- Eu escrevi para vocs dois durante quatro anos mesmo sem receber resposta alguma --
disse Matt magoado.
- Ns nunca deixamos de escrever, voc  que no escreveu mais -- disse Robert
chocado.
- Eu nunca parei de escrever. Sua me dizia que
vocs no me queriam mais na sua vida, queriam
s Hamish. Continuei a escrever durante trs anos
sem nenhuma resposta. Mais tarde ela me
perguntou se eu deixaria que Hamish adotasse
vocs, e eu disse que no. Vocs so meus filhos e
sempre sero. Finalmente, depois de trs anos de silncio, desisti. J se passaram trs anos
depois disso. Mas sua me e eu sempre mantivemos contato. Ela dizia que vocs dois
estavam mais felizes longe de mim, e que queriam permanecer assim. Ento eu me
afastei.
Os dois passaram a tarde toda juntando as peas do quebra-cabea, mas ficou claro o que
ocorrera depois que cada um contou sua verso da histria. Era bvio que Sally tinha
pegado as cartas e dito a eles que seu pai parara de escrever. E dito a Matt que seus filhos
no queriam mais ter contato com ele. Providenciou para Hamish substitu-lo e
possivelmente mentiu para ele tambm. Com esperteza e maldade, achou que tinha
cortado Matt da vida deles para sempre, mentindo para ambos os lados durante seis anos.
Foi uma manobra inteligente e quase brilhante, e deu certo durante todo esse tempo.
Robert disse que o procurava desde setembro, e que enfim descobrira seu paradeiro trs
dias antes. Ir  sua casa de surpresa foi o presente de Ao de Graas que tinha dado a si
mesmo. Mas nem ao menos sabia se o pai o receberia. Nunca compreendeu por que ele os
abandonara e teve medo que no o quisesse ver agora. No esperava aquela recepo
calorosa nem esperava ouvir a histria que o pai acabara de contar. Os dois choraram ao
perceberem o que tinha acontecido, e se abraaram vrias vezes no sof. Estava escuro l
fora quando todo o mistrio foi solucionado. Robert mostrou uma foto de Vanessa, uma
menina loura e bonita de 16 anos. Telefonaram para ela uns minutos depois, pois Robert
sabia onde ela estava. Em Auckland eram trs horas da tarde ainda.
- Tenho uma surpresa para voc -- disse Robert misteriosamente, muito emocionado. Os
olhos de Matt estavam cheios de lgrimas, e eles se deram as mos. -- Tenho muita coisa
para contar, mas explico tudo mais tarde. No momento estou com uma pessoa ao meu
lado querendo falar com voc.
- Oi, Nessie -- disse Matt carinhosamente. Por um instante fez-se silncio do outro lado
da linha, e as lgrimas rolaram no seu rosto.
- Papai? -- Para ele a voz ainda era de uma menininha, s que mais crescida um pouco.
Em um minuto, Vanessa chorava tambm. -- Onde voc est? No estou entendendo.
Como Robert encontrou voc?... Sempre tive medo que voc tivesse morrido e a gente
no soubesse. A mame nunca fala nada sobre voc. Disse que tinha simplesmente
desaparecido da face da Terra.
-  S que no tanto como ela gostaria. Que maldade fazer uma coisa assim! E durante
todo esse tempo descontando os cheques da penso que ele mandava e enviando-lhe
cartes de Natal.
-  A gente fala sobre isso um dia. Eu no fui a lugar algum. Achei que vocs  que tinham
ido. Robert explica mais tarde, e eu tambm. S quero dizer que amo voc muito... venho
querendo dizer isso h seis anos. Parece que a me de vocs andou nos pregando uma
pea. Eu escrevi para vocs durante trs anos e nunca recebi resposta. -- Matt queria que
a filha pelo menos soubesse disso.
- Ns nunca recebemos as cartas -- disse Vanessa confusa. Era coisa demais para ela
absorver num instante. Um crime horrvel fora cometido pela me em quem eles
confiavam, a mulher que ele tinha amado.
- Eu sei. No diga nada para sua me. Eu mesmo quero falar com ela. Estou contente de
ouvir sua voz. Mas quero ver voc tambm -- disse com avidez. -- Vou visitar vocs em
breve. Quem sabe passamos o Natal juntos.
-  Uau! Seria muito legal! -- Parecia uma americana falando, uma verso ligeiramente
diferente de Pip. Matt queria que Pip e Ophlie os conhecessem tambm.
- Eu telefono daqui a uns dias. Temos muita coisa
para pr em dia. Voc est linda na foto que
Robert me mostrou. Tem o cabelo da sua me. --
Mas felizmente no o corao. Nem a mente
conturbada. Matt no podia acreditar que a mulher
que amara e com quem se casara tinha enganado
os filhos e ele durante seis anos. No podia haver
nada pior que isso. Nem imaginava o que passara
pela cabea de Sally. Tinha muita coisa para dizer
para ela, mas precisava acalmar-se primeiro, do
contrrio perderia a coerncia. Ia telefonar para
Hamish tambm. Supunha que ele fizesse parte do
plano, mas Robert discordou e garantiu que ele
era um sujeito decente. Pelo menos tinha sido
decente com eles. Porm o que Sally tinha feito
era indesculpvel. E ele sabia que nunca a
perdoaria.
Matt e Vanessa conversaram mais uns minutos, depois Robert pegou no
telefone e explicou a ela o que tinha acontecido. Era uma histria incrvel, mas ele
acreditou no pai. Podia ver em seus olhos que era verdade, e podia ver tambm quanto
isso lhe custara. Matt sentia uma dor profunda que no conseguiu esconder ao longo dos
anos, nem mesmo agora. Robert ficou abalado e revoltado com o comportamento da me.
Matt e Robert conversaram durante horas, e ainda estavam no bate-papo quando Pip
telefonou para falar da sua me. Robert ouviu com ateno a conversa dos dois.
-  O que houve? -- perguntou, querendo saber tudo sobre o pai agora, inclusive quem
eram seus amigos e como era sua vida.
-    uma viva e a filha dela. Aparentemente, aconteceu alguma coisa.
-  Ela  sua namorada? -- perguntou Robert com um sorriso, mas Matt balanou a
cabea.
- No. Somos apenas amigos. Ela passou por uma fase difcil. Seu marido e seu filho
morreram no ano passado.
- Que horror. Voc tem uma namorada? -- Robert perguntou, rindo de novo. Sentia-se
muito feliz de estar ali, queria saber de tudo. Matt lhe ofereceu um sanduche e uma taa
de vinho, mas Robert estava excitado demais para comer ou beber.
- No, no tenho namorada -- disse Matt rindo. -- Nem esposa. Sou um solitrio.
-- E ainda pinta? -- Viu os retratos dele e da irm, depois deparou com o de Pip. --
Quem  ela?
-- A menininha que telefonou.
- Parece com Nessie -- Robert          falou, examinando o quadro. Os olhos dela eram
hipnotizantes e o sorriso comovente.
- Parece mesmo. O quadro vai ser uma surpresa para a me dela, que faz aniversrio na
semana que vem.
- Est timo. Tem certeza de que a me no  sua namorada? -- Matt falava dela de uma
forma que deixou Robert desconfiado.
-- Certeza absoluta. E voc? Tem uma esposa ou
namorada? Robert riu e falou do seu amor no
momento, das aulas em Stanford, dos amigos, das
paixes e da vida. Pai e filho tinham seis anos para
pr em dia, j passava da meia-noite e os dois
continuavam      conversando.      s   quatro    da
madrugada Robert foi se deitar na cama de Matt, e
Matt dormiu no sof. Robert no pretendia passar
a noite l, mas no conseguiu sair.
Na manh seguinte voltaram a conversar enquanto Matt preparava uns ovos com bacon.
s dez horas Robert disse que tinha de ir, mas prometeu voltar na semana seguinte. Tinha
planos para os dois. Matt falou que iria v-lo em Stanford durante a semana.
- Voc nunca mais vai se livrar de mim -- avisou, sentindo-se feliz como no se sentia
h anos. E Robert tambm.
-  Eu nunca tive essa inteno, papai -- falou de forma carinhosa. -- Pensei que voc
tivesse nos esquecido. Ou que talvez tivesse morrido. Nunca acreditei que voc fosse
capaz de parar de escrever para ns. Sabia que voc no se afastaria assim, de forma
alguma. Mas precisava ter certeza. -- Robert usara meios engenhosos para encontr-lo, e
seus esforos foram finalmente recompensados.
--   Graas a Deus voc me encontrou. Eu ia entrar em contato com voc e Nessie daqui
a alguns anos para saber se tinham mudado de idia e queriam me ver de novo. No
desisti nunca, s estava esperando o momento. -- Depois teria de pensar no que ia dizer
para Sally. O mais importante era o que ela diria para explicar o que tinha feito. E o que
diria aos filhos. Tinha-os privado do pai e mentido para eles. Um pecado imperdovel,
no s aos olhos de Matt, mas tambm do seu filho. Sally teria muitas contas a ajustar.
Porm eles nunca mais confiariam nela, obviamente.
Robert       saiu com relutncia s dez e meia da manh da sexta-feira. Tinha sido o
melhor Dia de Ao de Graas da vida de Matt, e ele mal podia esperar para contar tudo a
Ophlie e Pip. Mas primeiro tinha de saber o que acontecera a Ophlie, e perguntar como
ela estava. Telefonou para ela uns segundos depois que Robert saiu. Sentia-se como um
novo homem, o homem que era antigamente. Um pai com seus filhos de novo. No podia
haver melhor sensao que essa no mundo, E sabia que Ophlie e Pip ficariam felizes por
ele.
Pip atendeu na segunda chamada. Sua voz estava
muito sria, mas no aflita. Disse baixinho que sua me parecia bem, ou pelo
menos melhor que na noite anterior. Depois avisou  me que Matt queria falar com ela.
-- Como voc est? -- perguntou Matt calmamente quando ela atendeu.
- No sei. Entorpecida, acho, -- No disse nada mais.
- Sua noite deve ter sido terrvel. Vocs vm para c?
--   No tenho certeza, -- Parecia indecisa e ainda trmula. Matt estaria pronto para ir 
cidade se ela quisesse. Na noite anterior seria mais difcil, com Robert l. Mas teria ido se
fosse necessrio, e at levado o filho junto. Mal podia esperar para contar para Ophlie e
Pip o que acontecera.
--   Eu posso ir a, mas acho que vai fazer bem a voc passar o dia na praia. O que voc
preferir.
Ophlie hesitou, pensou no assunto e teve de admitir que a idia no era m. Queria sair
de casa, afastar-se de tudo que lhe fazia lembrar o marido. No sabia ainda se ia contar
para Matt. Era uma coisa degradante, vergonhosa e humilhante. Ted a trara com sua
melhor amiga. Uma manobra cruel, e Andrea ainda tentara usar Chad para destru-la. Ela
sabia que nunca se recuperaria desse golpe, nunca seria capaz de perdoar. E sabia que
Matt compreenderia. Seu senso de lealdade era igual ao dela.
- Ento eu vou -- disse baixinho. -- No sei se vou ter vontade de conversar. Talvez v
para a s para respirar. -- No estava conseguindo respirar em casa, como se seus
pulmes e costelas tivessem sido esmagados.
- No ser preciso conversar se no quiser. Estarei aqui esperando. Dirija com cuidado.
Vou preparar o almoo.
- Nem sei se vou conseguir comer.
- No faz mal -- disse com gentileza. -- Pip come,
tenho manteiga de amendoim para ela. -- E fotos
dos filhos para mostrar. Robert deixara todas as
fotos que tinha na carteira. Foram os melhores
presentes que ele recebeu em anos. Sentia como
se sua alma lhe tivesse sido devolvida. A alma que
sua ex-mulher tentara destruir, mas no
conseguira. Para ele a cura j tinha comeado. Mal
podia esperar para ir a Stanford ver o filho de novo na prxima
semana.
Ophlie levou mais tempo que o normal para se vestir e dirigir at Safe Harbour, como se
estivesse se movendo debaixo da gua. J era meio-dia quando Matt ouviu o carro chegar.
As coisas estavam piores do que ele pensava, ou talvez s parecessem piores. Pip tinha
um ar solene, e Ophlie estava visivelmente plida e trmula, com o cabelo por pentear.
Tinha exatamente o mesmo aspecto que na poca em que Ted morreu, uma viso familiar
para Pip. Ao avistar Matt, Pip colocou os braos em volta dele e grudou no seu pescoo
como se estivesse se afogando.
--   Tudo bem, Pip... Tudo bem... vai dar tudo certo.
Ela ficou grudada nele por um longo tempo, depois entrou em casa com o cachorro. Matt
olhou dentro dos olhos de Ophlie, e ela manteve-se imvel, sem dar uma palavra. Ele
ps o brao em volta do seu ombro e os dois entraram juntos em casa. O quadro de Pip
estava escondido, e ela procurou-o com um sorriso tmido. Matt lhe fez um sinal com a
cabea como que para dizer que estava tudo em ordem.
Os trs comeram os sanduches preparados por ele, e Ophlie no deu uma s palavra.
Quando Matt sentiu que ela estava pronta para falar, sugeriu que Pip fosse dar uma volta
na praia com Mousse. Ela compreendeu, e um minuto depois vestiu o casaco e saiu. Ele
no disse nada, s passou uma xcara de ch para Ophlie.
-  Obrigada -- disse ela. -- Desculpe, eu estava horrvel na noite passada. No podia ter
feito isso com Pip. Tive a impresso de que Ted tinha morrido de novo. -- Ele tinha
imaginado isso, s no sabia ainda o que acontecera.
- Foi por causa da festa de Ao de Graas?
Ela sacudiu a cabea. No sabia como comear, mas sabia agora que queria que ele
participasse do problema. Levantou-se, pegou sua bolsa e entregou-lhe a carta de Andrea.
Matt hesitou um instante, sem saber se ela queria mesmo que ele lesse a carta.
Ophlie          sentou-se do outro lado da mesa com a cabea entre as mos, e ele
comeou a 1er.
Quando terminou olhou                     para ela, sem dar uma s palavra. Os olhos de
Ophlie demonstraram um sofrimento infindvel, e Matt sabia por qu. Pegou sua mo e
ficaram assim por um longo tempo. Ele j tinha percebido que a carta era de Andrea e que
o beb era de Ted. No foi difcil constatar isso. Muito mais difcil seria conviver com
essa idia e compreender. A crueldade do tempo era martirizante, descobrir aquela carta
depois da morte do marido e saber que Andrea usara Chad para forar Ted, se  que ele
precisava ser forado.
-  Voc no sabe o que Ted pretendia fazer. A carta deixa bem claro que ele no tinha se
decidido ainda -- disse Matt depois de algum tempo. Mas o consolo era pouco. Ele tinha
tido um caso com sua melhor amiga e era pai do filho dela.
-  Foi isso que Andrea disse -- Ophlie falou, sentindo-se entorpecida de novo. Seu corpo
inteiro parecia feito de chumbo.
-   Voc falou com ela? -- Matt perguntou, incrdulo.
- Fui  casa dela dizer que nunca mais queria ver sua cara, e no quero mesmo. Nunca
mais. Andrea est morta para mim, como Ted e Chad. Acho que nosso casamento estava
morto tambm. Eu  que no quis ver, como ele no quis ver que Chad era doente. Eu
neguei tudo tambm. Fomos todos idiotas e cegos, cada um a seu modo.
- Voc o amava,  compreensvel. Mas apesar disso ele provavelmente tambm amava
voc.
-  Nunca vou saber agora. -- Essa era a pior coisa. A carta roubara sua crena de que Ted
a amara. Uma manobra cruel.
- Voc tem de acreditar que ele amava voc. Um homem no passa 22 anos com uma
mulher que no ama. Ele podia ter suas falhas, mas  claro que a amava, Ophlie. Apesar
do que aconteceu.
-  Talvez ele me deixasse para ficar com ela. -- Mas conhecendo Ted, no tinha certeza
se ele a amara nem se amara outra mulher tanto assim. Ele amava a si prprio. Talvez
tivesse largado Andrea e o beb sem lhes dar qualquer assistncia. Era bem possvel. Mas
isso no significava que a amasse. Talvez no amasse nenhuma das duas, era inteiramente
possvel tambm. -- Ted teve outro caso anos antes -- disse, numa voz abafada. Ela o
perdoara. Teria perdoado qualquer coisa dele. At agora. S que dessa vez Ted no podia
explicar a situao. Ela tinha de viver com essa verdade o tempo todo sozinha. No havia
nada que pudesse melhorar isso. O tecido da vida em comum deles fora rasgado em tiras
em uma nica noite, com uma nica carta c a traio de uma amiga. Um dano que no
poderia ser reparado. -- Ted teve um caso logo depois que Chad ficou doente. Acho que
me detestou por isso. Foi sua vingana. Ou uma fuga. Ou o nico modo que encontrou
para reagir. Teve esse caso quando eu estava na Frana com Pip. No sei se gostava dela.
Mas eu quase morri de desespero. Foi muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. Mas ele
parou de ver a mulher e eu o perdoei. Sempre perdoava. Perdoava Ted por tudo. Tudo que
eu queria era am-lo e ser sua esposa. -- Matt podia ver claramente que ele s amava a si
prprio, mas no disse nada. Ophlie teria de chegar  sua prpria concluso e aprender a
conviver com isso. Matt no queria feri-la ainda mais. No poderia nunca magoar Ophlie
ou Pip.
-  Voc ter de superar isso -- disse Matt de forma sensata. -- Esse desespero s vai
fazer mal a voc. Seu marido est fora agora. O problema no  mais dele,  seu.
- Os dois destruram tudo. At mesmo do tmulo
Ted conseguiu destruir minha vida.
Foi uma burrice guardar aquela carta onde pudesse ser encontrada. Matt ficou imaginando
se ele no queria ser apanhado. Talvez estivesse contando com isso para fazer com que
ela o deixasse. Era doloroso imaginar o drama que teria ocorrido e que finalmente
ocorreu.
-   O que voc vai dizer para Pip?
-  Nada. Ela no precisa saber. Isso  entre mim e Ted, mesmo agora. Em algum
momento vou dizer que no veremos mais Andrea. Vou ter de pensar em alguma razo
para dar, ou talvez diga que explicarei mais tarde. Ela sabe que alguma coisa terrvel
aconteceu naquela noite, mas no sabe que Andrea fazia parte disso. No disse onde fui
quando sa.
-  uma boa idia. -- Ele ainda segurava a mo de Ophlie e quase ps os braos  sua
volta, mas teve medo que ela no conseguisse tolerar isso. Ophlie parecia muito frgil,
como um passarinho de asas quebradas.
- Acho que perdi a cabea na noite passada, ou quase perdi. Desculpe, Matt. No queria
ser um peso para voc.
--   Por que no? Voc sabe como eu gosto de voc e de Pip. Talvez ela no soubesse.
Ele estava comeando a perceber isso
agora, e teve certeza quando olhou para ela. Nunca tinha gostado tanto de algum assim
na vida, a no ser de seus filhos. De repente lembrou que ainda no tinha lhe contado
sobre a chegada de Robert.
- Aconteceu uma coisa comigo ontem -- disse devagar, ainda segurando sua mo. --
Desenterrei uma terrvel traio tambm. Tive uma visita ontem, no Dia de Ao de
Graas. - - Foi o primeiro Dia de Ao de Graas de verdade que tive depois de muitos
anos.
-   Quem era? -- Ela tentou sair da sua infelicidade e ouvi-lo.
-   Meu filho. -- Contou o que tinha acontecido, e os olhos dela ficaram arregalados.
-  No posso acreditar que ela tenha feito isso com voc e com os prprios filhos. Ser
que achou que eles nunca descobririam? -- Estava horrorizada. Os dois tinham sido
trados de forma terrvel por pessoas que amavam e em quem confiavam. Era o pior tipo
de traio. E ela no tinha certeza qual dos dois casos era pior. Uma deciso difcil.
-  Aparentemente, no. Deve ter achado que eles se esqueceriam de mim ou que
pensariam que eu tivesse morrido. E eles quase me esqueceram, e disseram que pensavam
mesmo que eu estivesse morto. Robert tentou descobrir meu paradeiro e ficou surpreso de
me encontrar vivo. Ele  um timo rapaz. Quero que voc e Pip o conheam em breve.
Talvez ns possamos passar o Natal juntos -- disse com esperana. J estava fazendo
planos.
-   Voc no acha tudo isso uma bobagem? -- perguntou com um sorriso, e ele riu.
-   No este ano. E vou ver Vanessa em Auckland muito em breve.
-  Que timo para voc, Matt -- disse ela, apertando sua mo.
Nesse momento Pip entrou e sorriu ao ver os dois de mos dadas. No sabia bem o que
isso significava, mas ficou satisfeita.
- J posso voltar? -- perguntou, quando Mousse entrou sujando a sala de Matt de areia,
mas ele disse que no fazia mal
- Ia sugerir  sua me que dssemos uma volta na praia No quer ir conosco?
- Preciso ir? -- ela perguntou, instalando-se no sof com ar cansado. -- Estou com frio.
- Tudo bem. Ns no vamos demorar. -- Olhou
para Ophlie e ela fez que sim. Seria uma boa idia dar uma volta na praia.
Depois que vestiram os casacos, saram, e ele ps o brao  sua volta e puxou-a para
perto. Ophlie parecia de repente menor e muito frgil. Ficaram passeando pela praia, ela
encostada nele, como que pedindo apoio. Matt era o nico amigo que lhe restara, a nica
pessoa em quem ainda confiava, e sabia que podia confiar. No sabia mais o que pensar
do seu casamento e do seu marido. No sabia mais o que pensar das pessoas nem em
quem confiar, a no ser nele. Estava to desesperada com o que tinha acontecido, e o que
isso significava, que caminharam pela praia toda sem dar uma palavra. Bastava estar junto
dele.


                                 Captulo             22
MATT FOI ENCONTRAR O FILHO na segunda-feira depois do Dia de Ao de Graas, e
parou para falar com Pip e Ophlie quando voltava para casa. Pip acabara de voltar do
colgio e Ophlie tirara o dia de folga. Estava transtornada demais para pensar. Sentia que
toda sua vida mudara. Tinha decidido livrar-se das roupas de Ted naquela manh. Era sua
forma de mand-lo para fora de casa e puni-lo postumamente por seus atos. Era a nica
vingana que lhe restava, e ela sabia que isso lhe faria bem. Tinha de continuar a viver.
No podia manter-se agarrada a um homem que a trara e tivera um filho com outra
mulher. Sabia agora que estava se prendendo s suas iluses e a uma vida de sonhos. J
era hora de acordar, por mais sozinha que se sentisse.
Disse isso a Matt quando Pip foi para o quarto
fazer o dever de casa, e ele teve medo de falar
demais. No queria dizer que achava seu marido
um fiho-da-puta. No seria justo. Ela teria de
chegar a essa concluso. Era difcil desligar-se de
Ted morto, depois de se dispor a perdo-lo tanto
em vida. Depois de se dispor a tolerar quase tudo dele. Mas Matt
ficou satisfeito ao v-la tomar decises diferentes, e a aprovou em silncio.
Combinou de se encontrar com ela no seu aniversrio, na semana seguinte. Como sempre,
o convite inclua Pip. Sempre inclua. Sempre, desde a primeira vez. Afinal, ele e Pip
tinham feito amizade primeiro, como ela prpria freqentemente dizia, o que o fazia
sorrir. Era verdade.
Dessa vez Matt escolheu um restaurante ligeiramente mais sofisticado que o normal.
Queria levar Ophlie a um lugar especial. Ela merecia uma recompensa por tudo que Ted
e Andrea lhe tinham feito passar. Ela contou que recebera naquela tarde uma carta de
Andrea, entregue por um mensageiro. Era uma carta de desculpas, onde Andrea dizia que
no esperava ser perdoada, mas queria que Ophlie soubesse que gostava muito dela e
que estava profundamente arrependida. Para Ophlie era tarde demais, e ela disse isso a
Matt.
- Acho que sou uma pssima pessoa. Mas simplesmente no consigo. Nunca mais quero
ver Andrea nem ouvir falar dela.
-  mais que compreensvel. -- Disse que estava planejando telefonar para Sally naquela
noite, mas no sabia se ela falaria com ele.
- Vocs parecem estar ajustando contas -- disse Ophlie com tristeza.
- Est mais que na hora. -- Matt tinha pensado o
dia todo no que ia dizer para sua ex-mulher. O que
poderia dizer a uma pessoa que roubara seus
filhos e seis anos de sua vida, sem mencionar o
casamento e a vida que ela destrura? No havia
restituio possvel. Ophlie sabia bem disso.
Os dois conversaram por tanto tempo que Ophlie
convidou-o para jantar com ela e Pip. Matt aceitou e ajudou-a a fazer o jantar. Assim que
terminaram a refeio, ele saiu, depois de combinarem o encontro pelo seu aniversrio na
semana seguinte. Pip mal podia esperar.
Ele ligou tarde da noite para Ophlie, depois que telefonou para Sally. Parecia esgotado.
-   O que ela disse?
-  Ela tentou mentir -- disse ele, pasmo. -- Mas no conseguiu. Eu sei demais agora.
Ento desandou a chorar durante quase uma hora. Disse que tinha agido assim pelas
crianas, que achava melhor eles fazerem parte de uma famlia com Hamish. E eu que me
danasse, claro. Passei a ser dispensvel. Ela decidiu bancar Deus. Mas no conseguiu
fazer muita coisa para limpar sua barra, na verdade nada. Estou pretendendo ver Vanessa
depois do seu aniversrio, na prxima semana. Mas vou ficar fora s alguns dias. Sally
falou que pode mandar Vanessa passar o Natal comigo se eu quiser.  claro que quero.
Vou ter meus dois filhos comigo. -- Matt parecia muito comovido, e Ophlie ficou
contente por ele. -- Estou pensando em alugar uma casa em Tahoe para eles esquiarem.
Voc e Pip no gostariam de ir tambm? Ela sabe esquiar?
-   Pip adora esquiar.
-   E voc? -- Ele parecia esperanoso.
- Eu esquio, mas no sou tima nisso. E detesto aquelas cadeirinhas suspensas. Tenho
medo de altura.
- Ns podemos ir juntos na cadeirinha. Tambm no sou um esquiador fabuloso. Mas
acho que pode ser divertido. Espero que voc e Pip venham. -- Ele parecia sincero, mas
Ophlie ficou preocupada.
-  Seus filhos no vo achar ruim conviver com estranhos depois de no verem voc por
tanto tempo? No quero ser uma intrusa. -- Ela era sempre cuidadosa em relao aos
sentimentos dele, como ele era com os dela, ao contrrio daqueles com quem tinham se
casado, que eram egostas ao extremo.
- Eu pergunto a eles, mas creio que no vo se
importar, especialmente depois que conhecerem
vocs duas. Falei com Robert sobre vocs no outro dia. -- Quase
deixou escapar que ele tinha visto o quadro de Pip, que seria sua surpresa de aniversrio.
A certa altura quis saber se ela iria sair na noite seguinte com a equipe de rua, como
sempre, e ela disse que sim.
- Voc teve uns dias duros. Por que no se d um tempo de folga? -- Para sempre, era o
que ele desejava. Detestava esse seu trabalho, mas ela se recusava a parar.
- A equipe vai ficar reduzida se eu no for. E o
trabalho vai me ajudar a esquecer tudo o que
aconteceu.
Os dois sabiam que ela agora tinha muito mais
para esquecer, no s a perda do marido e do filho
como tambm do casamento e da sua melhor
amiga. Era um amontoado de acontecimentos, que
tornava tudo muito pior. Mas Ophlie                                   parecia estar agen-
tando e Matt ficou aliviado. A nica coisa que no gostava era do seu trabalho nas ruas
com a equipe, especialmente agora que andava to distrada e cansada, com maior
probabilidade de risco.
Mas tudo deu certo. Ophlie teve uma noite sem problemas, como disse a Matt quando
ele telefonou na quarta-feira, e a noite de quinta-feira tambm foi tranqila. A equipe
visitou vrios agrupamentos de crianas e jovens, alguns ainda com as roupas que tinham
trazido de casa, o que lhe deixou de corao apertado. Passaram tambm por um grupo de
homens limpos e arrumados, todos empregados, mas desabrigados. As histrias eram
muito tristes. Depois veio o sbado, dia do seu aniversrio, que foi melhor do que tinham
planejado. Um verdadeiro sonho para Pip. Primeiro comemoraram em casa, depois saram
para jantar, e Pip estava to excitada que no conseguia ficar sentada. Em certo momento,
ela e Matt foram at o carro buscar o quadro, e quando voltaram Pip pediu que Ophlie
fechasse os olhos e deu-lhe um beijo. Ao ver o presente, Ophlie ficou sem ar e comeou
a chorar.
- Oh, meu Deus...  to lindo... Pip!.... Matt.. -- Ficou segurando o quadro e olhando-o
sem parar. Um aniversrio perfeito. Quando chegaram em casa, Pip bocejava. Foi uma
grande noite para ela tambm. Tinha esperado meses para ver o quadro, e sua excitao a
deixara esgotada. Ophlie ainda segurava seu presente quando Pip deu um beijo nela e em
Matt e foi para a cama, encantada de ver a me to feliz.
-  No sei como agradecer. Foi o presente mais lindo que j ganhei na vida. -- Era
realmente um presente de amor, no s da parte de Pip como dele tambm.
- Voc  uma mulher maravilhosa -- disse ele com carinho, sentando-se ao seu lado no
sof. E muito nobre, pensou, o que agora significava muito para ele, especialmente ao
pensar no que Sally fizera, e no que sabia que tinham feito com Ophlie. Ela era uma
pessoa rara, e ele tambm. Mas as pessoas que ambos amaram tinham sido especialmente
cruis.
- Voc foi sempre muito bom comigo e com Pip --
disse ela com gratido, quando ele segurou sua
mo.
Queria que Ophlie confiasse nele, e achava que
ela confiava, mas no sabia at que ponto. O que
desejava dizer exigiria muita confiana.
-- Voc merece que as pessoas sejam boas com
voc, Ophlie. E Pip tambm. -- Sentia como se elas fizessem parte da sua
famlia, e ele era a nica famlia que as duas ainda tinham. Tudo mais fora perdido.
Olhou-a, debruou-se sobre ela e lhe deu um beijo carinhoso na boca. Era a primeira
mulher que ele beijava em anos, e ela nunca mais fora tocada por um homem desde que
seu marido morrera. Ambos eram seres frgeis e cautelosos, como estrelas flutuando no
cu. Ophlie levou um susto, no esperava por aquele beijo, mas para alvio de Matt no
resistiu nem se afastou. Retribuiu o beijo com tal ardor que ambos ficaram sem ar. Matt
tinha medo que Ophlie se zangasse e ficou imensamente aliviado. Mas ela se assustou
quando ele a puxou mais para perto.
-  O que est fazendo, Matt? Isso  uma loucura. -- Mais do que nunca ela precisava
sentir-se segura. E agora a nica segurana da sua vida era representada por ele. Matt
sentia o mesmo.
- No acho loucura. Venho sentindo isso por voc h muito tempo. Mais tempo do que
eu mesmo imaginava. Mas tinha medo de voc se afastar se eu dissesse alguma coisa.
Voc j foi muito magoada.
-  E voc tambm -- ela disse baixinho, acariciando seu rosto e pensando em como Pip
ficaria contente. Sorriu e disse em que estava pensando.
-  Estou apaixonado por ela tambm. No vejo a hora de vocs duas conhecerem meus
filhos.
-   Nem eu -- disse Ophlie, feliz, e ele beijou-a de novo.
- Feliz aniversrio, minha querida.
Depois que Matt foi para casa, Ophlie considerou que fora o melhor aniversrio da sua
vida, sem dvida.


                                 Captulo             23
NA TERA-FEIRA DEPOIS do seu aniversrio,
Ophlie saiu com a equipe de rua, e Bob disse que
ela no estava tomando o devido cuidado quando
eles inspecionavam os chamados "beros", as
caixas e estruturas onde as pessoas dormiam.
Aproximavam-se dos beros, viam se havia gente
dentro acordada e perguntavam se precisavam de
alguma coisa, mas tinham de manter-se alertas
para evitar surpresas. Ophlie andava muito
distrada, e mais de uma vez deu as costas para
uns grupos de jovens que se aproximavam. Os
moradores de rua ficavam curiosos para saber
quem eles eram, de onde vinham e o que estavam
fazendo. Mas manter-se alerta e cautelosa era
vital para a equipe. As regras da selva aplicavam-
se o tempo todo, por mais amistosas que as
pessoas parecessem. Na maioria das vezes, os
sem-teto que encontravam eram gentis, bons e
gratos por serem ajudados. Mas nesse meio havia
aqueles que no queriam ajuda, criadores de caso
e predadores que roubavam o pouco que eles
tinham. Era triste constatar que de tudo que a
equipe distribua, um tero ou at mesmo a
metade era roubada por esse predadores. Um
mundo onde o cdigo de honra era a
sobrevivncia, e pouco mais. Ophlie sabia disso e
os outros tambm. Tudo que podiam fazer para
ajud-los era dar o melhor de si e esperar que isso
fizesse uma diferena.
--Ei, Opie! Tome cuidado, garota. O que est
acontecendo? -- Bob perguntou em tom
preocupado quando eles voltavam para a van,
depois da segunda parada.
Todos precisavam ter conscincia do perigo para
no se machucar. A segurana da equipe dependia
de cada um deles. Embora se soltassem s vezes,
brincassem uns com os outros e com o pessoal
que ajudavam, tinham de se lembrar com quem
estavam lidando. Tinham de prever o pior para
evitar surpresas desagradveis. Havia histrias de
guardas, voluntrios e assistentes sociais que
tinham sido mortos nas ruas, em geral por terem
feito alguma coisa que no deviam, como
trabalhar sozinhos. Sabiam que no deviam, mas
queriam sempre acreditar que no corriam perigo
e que no seriam tocados. A segurana, para
todos, dependia de manterem-se alerta.
--Desculpe. Vou tomar mais cuidado da prxima
vez -- prometeu ela, prestando mais ateno,
porm, pensando em Matt.
-- bom tomar cuidado. O que est havendo com
voc? Parece que est apaixonada.
Bob conhecia essa atitude porque estava
apaixonado pela melhor amiga da sua falecida
esposa. Ophlie olhou para ele sorrindo quando
entrou na van. Bob tinha razo. Ela tinha estado
ausente a noite toda, pensando em Matt. E o dia
todo tambm. O beijo da noite anterior a
encantara e mobilizara. Era tudo que queria, de
certa forma e, de outras, o que no queria, de
forma alguma. Vulnerabilidade. Abertura. Amor.
Dor. Tudo isso a deixara arrasada quando Ted
morreu e quase a matou quando encontrou a carta
de Andrea. Agora, mais do que nunca, estava
entorpecida, tentando entender o que sentia. A
respeito de Ted, de Andrea, de si prpria e agora
de Matt. Era muita coisa para absorver e tentar
compreender. E ao mesmo tempo era tentador
deixar-se cair nos braos e na vida dele.
--No sei. Talvez -- respondeu com sinceridade,
quando se dirigiam para Hunters Point.
Era tarde da noite, quando em geral ficava mais
seguro l. quela altura muitos causadores de
briga j estavam dormindo e a vizinhana tinha se
acalmado.
-- alguma novidade? -- perguntou interessado.
Tinha aprendido a respeit-la e a gostar muito dela
depois dos quase trs meses que trabalhavam
juntos. Ophlie era uma mulher inteligente,
honesta, slida, verdadeira, sem artifcios ou
arrogncia. Sua simplicidade e seriedade haviam
conquistado seu corao.
--Espero que seja um bom sujeito. Voc merece --
disse com sinceridade.
--Obrigada, Bob -- falou Ophlie, sorrindo.
No parecia inclinada a falar no assunto e ele no
quis for-la. Os dois tinham um relacionamento
fcil e uma compreenso slida sobre os ritmos
mtuos. s vezes conversavam sobre questes
srias. Outras vezes, no. Pareciam parceiros da
polcia, eram compatveis, respeitavam-se e
confiavam completamente um no outro. Suas
vidas dependiam disso. Ophlie voltou a prestar
mais ateno e ficou "atenta s suas costas",
como ele disse, na prxima parada e durante o
resto da noite.
Mas ao voltar para casa naquela noite percebeu
que estava preocupada com Matt. Com o que ela
estava fazendo, e com a porta que tinha aberto.
Mais que tudo, no queria pr em risco a amizade
deles se aquele romance no desse certo. No
queria arriscar, por ele, por ela e, mais importante
ainda, por Pip. Se ela e Matt se envolvessem e o
romance no funcionasse, tudo estaria perdido, e
essa era a ltima coisa que ela queria.
At mesmo Pip notou que a me estava quieta e
pensativa no dia seguinte quando a levou de carro
para a escola.
--Alguma coisa errada, mame? -- perguntou,
quando ligou o rdio e Ophlie estremeceu com o
volume da msica, como sempre acontecia. Era
uma forma estridente de comear o dia. Pip
andava menos preocupada com o humor da me
atualmente. Qualquer coisa que acontecesse, ela
parecia recuperar-se mais rpido. Embora no
tivesse conhecimento do que acontecera no Dia de
Ao de Graas, sabia que era alguma coisa
relacionada a Andrea. Sua me tinha lhe dito que
no iriam mais manter contato com ela. Pip ficou
chocada, mas Ophlie recusou-se a dar qualquer
explicao. E quando perguntou se era para
sempre, Ophlie confirmou. Para sempre.
--No, eu estou bem -- respondeu Ophlie, de
modo pouco convincente. Tinha de concentrar-se o
dia inteiro no Centro. At mesmo Miriam, da mesa
da recepo, comentou sobre sua distrao. E
quando Matt telefonou, percebeu tambm.
--Voc est bem? -- perguntou, preocupado.
--Creio que sim -- ela respondeu com sinceridade,
mas sem conseguir convenc-lo. Seu modo vago
causara aflio.
--Como assim? Devo entrar em pnico?
Ela sorriu com a pergunta.
--No entre em pnico, acho que estou s
assustada. -- No tinha certeza se precisava de
tempo para se ajustar ou se era alguma coisa mais
profunda.
--Est com medo de qu? -- Ele queria conversar
sobre isso para que ela se sentisse melhor.
Tambm estava flutuando no ar desde o momento
em que a beijara no aniversrio dela. Era
exatamente o que queria, mas no sabia. J h
algum tempo tinha conscincia dos seus
sentimentos por ela, que no eram de forma
alguma to simples quanto ele fingia ser.
--Est brincando? Estou com medo de voc, de
mim, da vida, do destino, de coisas boas, de coisas
ruins... de haver decepo, traio, medo que voc
morra, que eu morra... quer que eu continue?
--No, isso j basta. Pelo menos por enquanto.
Pode guardar o resto para quando se encontrar
comigo. Podemos passar o dia todo falando disso.
-- Depois da brincadeira assumiu um tom srio.
Tinha pena de ela sentir tanto medo e queria
compartilhar seu sentimento de confiana com ela.
-- O que posso fazer para tranqilizar voc? --
perguntou gentilmente com um suspiro.
--No sei. Preciso de um tempo. Acabei de perder
as iluses sobre meu casamento. No tenho
certeza se consigo lidar com muito mais que isso.
Talvez no seja a hora certa.
O corao dele afundou ao ouvir essas palavras.
--Pelo menos vai nos dar uma chance? No tome
decises ainda. Temos direito de ser felizes. No
vamos jogar tudo fora antes de comear. D para
fazer isso?
--Vou tentar. -- Era o mximo que ela poderia
fazer. No fundo do corao, achava que ele ficaria
melhor com outra pessoa. Algum mais simples,
que no tivesse sido to brutalmente magoada
como ela, e recentemente magoada de novo. s
vezes sentia-se muito machucada. Mas com ele
sempre se sentia em paz, inteira e segura, o que
era muito importante.
Naquele fim de semana Matt foi  cidade e jantou
com ela e com Pip, e no domingo as duas foram 
casa dele na praia. Robert tinha vindo de Stanford
e Matt estava ansioso para apresent-lo. Ophlie
ficou muito impressionada. Era um rapaz
encantador, e apesar dos anos que tinham ficado
afastados, ele tinha muita coisa de Matt. Como em
geral ocorre, os genes tinham vencido, e nesse
caso para melhor. Ele falou com toda a franqueza
sobre a maldade da me, e estava nitidamente
perturbado com o que ela fizera. Mas pareceu
aceit-la e at mesmo am-la assim mesmo. Seu
corao sabia perdoar. Mas disse que Vanessa
estava furiosa e no falava com a me desde que
descobrira tudo.
Quando Ophlie e Pip voltaram para a cidade,
Ophlie sentia-se melhor de novo. Matt ps o
brao em volta dela vrias vezes e lhe deu a mo
enquanto caminhavam pela praia, sem pression-
la em deixar bvio para Pip que alguma coisa
estava acontecendo. Queria dar um tempo para
Ophlie ajustar-se. O relacionamento deles,
passado, presente e futuro, era de importncia
vital para ele, e tinha de ser tratado com cuidado,
queria lhe dar todo o tempo e espao que ela
precisasse para encontrar um lugar para ele no
seu corao.
Estava pensando em telefonar para ela na
segunda-feira  noite quando o telefone tocou.
Esperava que fosse ela. Ophlie estava feliz e
relaxada no dia anterior, e parecia bem quando ele
ligou no domingo  noite. Queria lhe dizer que a
amava, mas no disse. Queria dizer isso pela
primeira vez pessoalmente, no por telefone. Mas
no era Ophlie, nem Pip. Era Sally, ligando de
Auckland, e ele sentiu-se mal quando ouviu sua
voz. Ela estava chorando. Matt pensou no mesmo
instante na sua filha, e ficou apavorado que
alguma coisa tivesse acontecido.
--Sally? -- Mal dava para saber quem era, mas
mesmo depois de tantos anos conhecia aquela voz
muito bem. -- O que houve? Alguma coisa errada?
-- S conseguiu entender "morreu... na quadra de
tnis...", e com um alvio quase pecaminoso
percebeu que ela estava falando do marido, no
da filha.
--O qu? No estou conseguindo entender. O que
aconteceu com Hamish? -- Por que ela estaria
ligando para ele?
Sally deu um soluo profundo, depois soltou as
palavras no telefone.
--Ele est morto. Teve um ataque cardaco h uma
hora na quadra de tnis. Tentaram ressuscit-lo,
mas ele... j tinha ido embora.
Comeou a soluar de novo e Matt ficou ouvindo e
olhando para o espao, enquanto os dez ltimos
anos da sua vida passavam em flashes pelos seus
olhos. Ela dizendo que ia embora, depois
mudando-se para Auckland. A descoberta de que
ela estava tendo um caso com seu amigo e que o
deixara para se casar com ele... depois se
mudando para Auckland com os filhos... "Hamish e
eu vamos nos casar, Matt", aquela bala de canho
atirada contra seu peito, ele indo  Austrlia
durante quatro anos para ver os filhos, e ser
cortado do convvio deles nos ltimos seis anos... e
agora ela telefonando para dizer que Hamish
estava morto. No queria nem saber o que sentia
pelo antigo amigo que se tornara um traidor... por
ela... ou por si prprio... no podia nem imaginar.
--Matt? Est me ouvindo? -- Sally falava sem
parar e chorava ao mesmo tempo. Falou dos
preparativos do enterro, dos filhos, disse que
achava que Robert devia comparecer ao enterro,
pois Hamish sempre fora muito bom para ele...
que os filhos que tinha com Hamish eram muito
pequenos ainda... Matt sentiu-se esgotado.
--Estou aqui, sim. -- Depois pensou em seu filho.
-- Quer que eu telefone para Robert? Se achar que
vai ser muito duro para ele posso ir at Stanford
dar a notcia pessoalmente. -- Era estranho o que
o destino fazia s vezes. Um pai acabara de entrar
na vida de Robert logo antes do outro
desaparecer. Era estranho como essas coisas
aconteciam.
--J telefonei para ele -- disse ela secamente, sem
pensar muito nos sentimentos do filho. Sally era
assim.
--Como ele reagiu? -- Matt estava preocupado.
--No sei. Ele era louco pelo Hamish.
--Vou ligar para ele -- disse Matt depressa,
ansioso para desligar.
--Voc quer vir ao enterro? -- Sally perguntou,
sem considerar a distncia, o tempo envolvido ou
os sentimentos dele, como sempre. No mnimo,
Hamish o tinha trado e quase destrudo sua vida,
com a ajuda dela.
--No -- respondeu direto.
--Talvez Vanessa e eu passemos o Natal a com as
crianas -- disse, num tom melanclico. -- Acho
que voc no devia vir v-la nesse fim de semana,
a no ser que v ao enterro conosco.
Ele tinha planejado ir a Auckland encontrar-se com
Vanessa na quinta-feira, depois de seis anos
longos, interminveis e vazios sem seus filhos. Mas
essa no era obviamente uma boa hora.
--Eu espero. Vou assim que as coisas acalmarem,
a no ser que voc a mande para c. -- Disse
"mande" e no "traga". No queria que Sally fosse
junto. No tinha nenhum desejo de ver a ex-
mulher de novo. -- Voc tem outras coisas em que
pensar agora. -- Um enterro a ser planejado, um
marido para enterrar, decises a tomar, vidas
novas para destruir. Seus sentimentos com relao
a ela no eram nada amistosos depois que sua
traio foi desvendada com a volta de Robert. Ele
sabia que nunca a perdoaria pelo que tinha feito.
--No posso nem imaginar o que vai acontecer
com a nossa empresa -- disse queixosa. Tinha
sempre o trabalho na cabea, sempre teve. Nada
mudara.
-- duro, eu sei -- disse Matt, num tom amargo,
mas ela no ouviu. -- Venda tudo, Sal. Eu vendi.
No  nada demais. Voc vai encontrar outra coisa
para fazer. No adianta se prender a isso. -- Eram
palavras quase idnticas s que ela dissera dez
anos atrs. Porm no se lembrava mais. Por mais
incrivelmente insensveis e destruidores que
fossem seus comentrios, ela nunca se lembrava
nem assumia a responsabilidade mais tarde. Senti-
mentos e bem-estar dos outros no apareciam na
tela do seu radar.
--Acha mesmo que devo vender? -- ela perguntou
sria, parecendo interessada, mas tudo que Matt
queria era desligar o telefone para falar com o
filho.
--No tenho idia. Preciso desligar agora. Sinto
muito pelo Hamish. Minhas condolncias s
crianas. Eu aviso quando for a ver Nessie. Diga
que vou telefonar para ela mais tarde.
Ligou para Robert e pegou-o no quarto em
Stanford. Ele no estava chorando, mas parecia
muito triste e um pouco desamparado.
--Sinto muito, fdho. Sei que voc o amava. Eu
tambm sempre gostei dele. -- Antes de ele
destruir minha vida, pensou Matt.
--Eu sei que ele sacaneou seu casamento com a
mame, mas sempre foi muito bom conosco. Estou
com pena da mame. Ela parecia acabada ao
telefone.
Mas no to acabada que no pudesse discutir o
destino da sua empresa. Ela no perdia tempo,
pensava sempre em si mesma.
Sally era assim, sempre fora assim. Na poca,
Hamish era um melhor negcio para ela. Tinha
mais dinheiro, mais casas, era mais divertido,
ento ela jogou fora o marido e seguiu em frente.
Ainda era difcil pensar nessas coisas, e Matt sabia
que sempre seria. O preo fora muito alto, tudo o
que ele amava na vida. Sua esposa, seus filhos,
uma perda que no poderia nunca ser substituda,
e a empresa, em grau menos importante. Dez
anos da sua vida de sofrimento profundo.
--Voc vai ao enterro? -- Matt perguntou, e Robert
hesitou.
--Devia ir por causa de mame, mas estou
fazendo as provas finais. Conversei com Nessie e
ela acha que mame no vai se importar se eu no
for. Tem muita gente  sua volta.
E mais sete filhos. Quatro do Hamish, Vanessa e
dois deles. Um grupo bastante considervel, mas
ele sabia que Robert era importante para ela
tambm.
--O que voc acha, pai?
--A deciso tem de ser sua. No posso decidir por
voc. Quer que eu v para Stanford? -- Matt
parecia e estava muito preocupado com ele.
--No precisa, pai. Eu estou bem. Foi um
choque..., mas no totalmente. Ele teve dois
ataques cardacos e colocou duas pontes de
safena. E no tomava muito cuidado. Mame
sempre dizia que isso um dia iria acontecer. -- Ele
fumava, bebia e estava acima do peso h anos.
Tinha 52 anos de idade.
--Posso ir a na hora que voc quiser.  s
telefonar. Seria bom a gente fazer alguma coisa
nesse fim de semana se voc no estiver
estudando.
--Tenho grupo de estudo no fim de semana todo.
Eu telefono. Obrigado, pai.
Matt ficou quieto um instante, pensando em tudo
aquilo, depois ligou para Ophlie. No sabia por
que, mas estava triste com a morte de Hamish,
talvez porque afetasse seus filhos ou talvez pelo
fato de terem sido amigos no passado. Ele sentia
menos por Sally do que por ele.
Contou a Ophlie o que acontecera e disse que
estava preocupado com Robert. Durante um
momento tipicamente feminino ela se perguntou o
que a viuvez de Sally significaria para Matt. Ele a
amara apaixonadamente e chorou por ela nos
ltimos dez anos. Agora ela estava livre. No era
provvel que alguma coisa acontecesse entre eles,
mas nunca se sabia. Coisas mais estranhas tinham
acontecido. Ela tinha apenas 45 anos, e estaria
procurando um novo marido. E tinha amado Matt o
suficiente para casar-se com ele e ter filhos.
--Ela disse que talvez traga Vanessa para passar o
Natal aqui e ver Robert -- Matt informou. -- Espero
que no venha. No quero ver Sally, s meus
filhos. -- Ele ficou desapontado de no ir a
Auckland ver Vanessa naquela semana. Mas
obviamente no era uma hora apropriada. Com a
morte de Hamish, Vanessa estaria presa com a
famlia de Hamish, sua me e as outras crianas.
No teria tempo para passar com ele, com toda a
razo. Matt compreendia. Depois de seis anos
sabia que podia esperar mais uma ou duas
semanas. Era melhor assim.
--Por que ela vem tambm? -- Ophlie perguntou,
preocupada.
--S Deus sabe. Talvez para me aborrecer -- disse
rindo. Mas tinha sido difcil falar com ela no
telefone e ouvi-la chorar. No se sentiu mais perto
dela, s se lembrou de como ela o fizera infeliz
durante tantos anos. No tinha idia de que
Ophlie se preocuparia com Sally e a veria como
uma ameaa potencial ao romance florescente
deles.
O resto da semana foi agitado para os dois. As
coisas estavam difceis nas ruas com a
proximidade dos feriados. As pessoas se drogavam
e bebiam mais, perdiam os empregos, e a
temperatura estava baixando. A equipe encontrou
quatro mortos em uma noite nos beros checados.
Como sempre, um trabalho duro.
Matt foi a Stanford ver Robert, e falou com
Vanessa pelo telefone. E por nenhuma razo que
ele pudesse imaginar, apesar de tudo que tinha
para fazer, Sally telefonou vrias vezes para
conversar. Matt no queria ser seu melhor amigo,
e comentou isso com Ophlie.
O nico momento de paz para todos foi uma tarde
ensolarada de domingo na praia, quando ela e Pip
foram ver Matt. Robert no pde ir, pois ainda
estava estudando para as provas, o Natal chegaria
em menos de duas semanas.
Os trs fizeram uma longa caminhada na praia e
Matt disse a Ophlie que tinha alugado a casa em
Tahoe para os feriados de Natal e ano-novo. Ia
passar esses dias com Robert esquiando, e
esperava que Vanessa viesse tambm da
Austrlia.
--Sally ainda est pensando em vir? -- Ophlie
perguntou, tentando parecer despreocupada. Ela
prpria estava surpresa que o aparecimento da ex-
mulher dele a afetasse tanto. Particularmente
agora que estava viva tambm. Mas percebia que
era mais parania da sua parte que uma
possibilidade real. Matt no parecia de forma
alguma interessado nela, mas nunca se podia
saber. Coisas estranhas aconteciam. Muito mais
estranhas ainda. Como seu marido ter um filho
com sua melhor amiga, o que alterara todos os
seus pontos de vista.
--S Deus sabe. Para mim tanto faz. Se Nessie vier
vou arranjar algum para lev-la de carro at
Tahoe. No pretendo ver Sally, caso ela venha. --
Ophlie sentiu-se mais tranqila. -- Gostaria que
voc e Pip fossem tambm. O que vo fazer no
Natal? -- Era um assunto doloroso para ela
naquele ano, mais ainda do que fora no ano
anterior.
--No sei ainda. Nossa famlia parece estar ficando
cada vez menor. No ano passado festejamos com
Andrea. -- Ela estava grvida de cinco meses na
poca. S de pensar nisso Ophlie estremeceu,
sabendo que o beb era de Ted e que a amizade
de Andrea era falsa. -- Pip e eu no vamos fazer
nada. Talvez a gente aparea em Tahoe no dia
seguinte. Acho melhor ficarmos sozinhas no dia de
Natal.
Ele concordou, sem querer se intrometer entre ela
e Pip. Sabia como ela se sentia a respeito disso, e
era uma data difcil, cheia de lembranas que
precisavam ser respeitadas por mais dolorosas
que fossem.
--Ser bom termos uma expectativa agradvel
para o dia seguinte. -- Ela sorriu, e como Pip
estava muito longe na praia, os dois se beijaram.
Matt sentiu um choque eltrico percorrer seu
corpo, mas se controlou. Queria mais dela, porm
muitas coisas tinham acontecido nas ltimas
semanas e ele no tinha inteno de passar dos
limites nem de assust-la. Estavam procedendo
com grande cautela, e sem pressa. Ele sabia que
Ophlie ainda estava muito indecisa em relao ao
seu envolvimento com ele. No tinha certeza se
desejava ir adiante. Ele s a beijara algumas vezes
at agora, e estava disposto a esperar o tempo
que fosse necessrio. Mas tinha conscincia de
que a paixo que sentia por ela o perturbava.
Tinha tambm conscincia de todos os traumas
pelos    quais    ela    passara,     em   especial
recentemente. Apesar disso, percebia que ela
sentia desejo por ele tambm. Quaisquer que
fossem suas reservas, parecia cada vez mais
prxima dele.Falaram com Pip sobre o programa
em Tahoe quando ela voltava pela praia, e Pip
adorou a idia. Antes de irem embora, Ophlie
concordou com o programa. Ento Matt tentou
extrair mais uma promessa dela.
--S quero um presente de Natal seu -- disse
srio, quando se sentaram na frente da lareira da
sala antes de voltarem.
--O que ? -- perguntou sorrindo.
Pip j tinha comprado um presente para ele, e
Ophlie ainda ia comprar.
--Quero que voc desista do trabalho com a
equipe de rua.
Falou srio e Ophlie suspirou ao olhar para ele.
Matt significava muito para ela, mas ainda no
sabia o que fazer a respeito disso, nem quando.
Estava muito encantada com ele, mas seus
sentimentos viviam em constante conflito com
seus medos. Mas Matt no estava pedindo
respostas nem promessas. Nunca a pressionara a
no ser sobre isso, e era uma presso
permanente.
--Voc sabe que no posso fazer isso, Matt, 
importante para mim. E para eles. Sei que  a
coisa certa para mim. Alm do mais,  difcil
conseguir gente para trabalhar na equipe.
--Sabe por qu? -- ele disse, com ar infeliz. --
Porque a maioria das pessoas tem inteligncia
suficiente para saber que  muito arriscado.
Ocorreu-lhe mais de uma vez que talvez uma das
razes de Ophlie fazer esse trabalho fosse um
certo desejo suicida subliminar. Mas, quaisquer
que fossem suas razes, ele estava determinado a
vencer essa resistncia com o tempo e fazer com
que ela parasse. No se importava com seu
trabalho no Centro, s no queria que ela desse
atendimento nas ruas. No era uma questo de
no respeit-la, mas de salv-la de si prpria e de
suas idias que no a deixavam pensar em si
mesma.
--Ophlie, estou falando srio. Quero que voc
desista, para seu bem e pelo bem de Pip. Se essa
gente  maluca o suficiente para sair nas ruas, que
saiam, voc pode ajudar os sem-teto de outras
formas. Voc deve isso a si mesma.
--Nada d tanto resultado quanto o trabalho que
essa equipe faz nas ruas. Eles descobrem onde os
desabrigados esto e lhes do o que precisam. As
pessoas com casos realmente desesperadores no
tm condies de nos procurar para pedir ajuda.
Ns temos de ir at eles -- ela disse, sempre
tentando convenc-lo, como ele tentava com ela.
Era uma luta sem fim entre os dois, e ela no abria
mo da sua opinio. Mas ele continuava tentando
e pretendia continuar. -- O que voc no percebe
 que os moradores de rua no so maus sujeitos
nem criminosos. So tristes, carentes, destitudos
de tudo, precisando demais de ajuda. H no meio
deles crianas e velhos. No posso virar as costas
e imaginar que outra pessoa v fazer meu
trabalho. Se eu no fizer, quem far? Muitos so
realmente decentes e eu me sinto de certa forma
responsvel por eles. O que mais voc quer de
Natal? -- ela perguntou, nem tanto para mudar de
assunto como para ouvir umas sugestes, mas ele
apenas balanou a cabea.
--S quero isso de voc. Se voc no me der,
Papai Noel vai colocar uns gravetinhos na sua
meia de Natal.
s vezes Matt pensava se ela tinha razo e ele
estava exagerando. Ophlie era muito persuasiva,
mas ainda no o convencera. Ela riu do que ele
disse, sem saber que seu presente j estava
embrulhado e guardado h muito tempo. Ele
esperava que ela gostasse. E com sua permisso
tinha comprado uma linda bicicleta para Pip usar
no parque na cidade e na praia quando fosse
visit-lo. Estava satisfeito porque era uma espcie
de presente de pai, uma coisa que uma me no
pensaria em dar. Ophlie tinha comprado roupas e
jogos para ela. Pip estava numa idade difcil, entre
brinquedos que no usava mais e presentes para
meninas grandes, que comeava a desejar. Aos 12
anos, estava exatamente nesse limite. Matt
escondeu a bicicleta na garagem da praia debaixo
de um lenol, e Ophlie garantiu que ela adoraria.
O presente que Matt no queria foi o que recebeu
na semana anterior ao Natal. Um telefonema de
Sally dizendo que estaria chegando no dia
seguinte com Vanessa e seus dois filhos menores.
Os quatro filhos de Hamish iam passar as festas
com a me, e ela decidiu ir para So Francisco "v-
lo", como disse. Ele s queria ver a filha, estava
animadssimo em encontr-la, mas no a ex-
mulher. Sally estava planejando ficar no Ritz. Matt
telefonou para Ophlie para se queixar assim que
desligou o telefone. Ela estava se aprontando para
sair com a equipe de rua.
-- O que vou fazer? -- ele disse, num tom irritado.
-- No quero ver Sally. S quero ver Nessie. A boa
notcia  que ela vai para Tahoe comigo. Nessie,
no Sally -- corrigiu.
Ophlie preocupava-se de qualquer forma, mas
no deixava transparecer. Estava muito ligada a
Matt agora para no ser afetada pelo fantasma da
sua ex-mulher. E se ele se apaixonasse por ela de
novo? Se tinha se apaixonado uma vez, isso
poderia se repetir, apesar do que ela lhe fizera. A
chegada iminente de Sally deixou-a nervosa de
repente. Tinha um sexto sentido de que ele iria v-
la, e isso mexeria com seus antigos sentimentos.
Os homens eram ingnuos para esse tipo de coisa,
e considerando a insistncia de Sally de v-lo era
bvio que ela tinha segundas intenes. Ophlie
tentou adverti-lo da forma mais delicada possvel.
--Sally? No seja ridcula. Isso no existe mais. Ela
s est entediada, sem saber o que fazer consigo
prpria, e est tentando decidir o que fazer com
sua empresa. Ophlie, voc no tem razo para se
preocupar. Eu sa dessa h dez anos. -- Estava
obviamente tranqilo a respeito disso, mas
Ophlie ficou em alerta.
--Coisas estranhas tm acontecido -- ela observou
com bom senso.
--No comigo. Isso acabou h anos para mim e h
mais tempo para ela. Sally me deixou, no se
esquea. Por um sujeito com mais dinheiro e mais
divertido -- disse, ainda com uma ponta de
mgoa.
--Agora ela tem dinheiro e ele se foi. Est com
medo de ficar sozinha. Pode crer. Voc no sabe o
que se passa na cabea dela.
Mas Matt discordou veementemente. At ela
chegar no Ritz e lhe telefonar uma hora depois.
Sua voz era pura meiguice, e ela o convidou para
tomar um ch. Disse que estava exausta da via-
gem, com um aspecto horrvel, mas queria muito
estar com ele. Matt ficou to espantado que no
soube o que dizer.
As    advertncias     de    Ophlie   lhe   vieram
imediatamente  cabea, mas ele as afastou. Sally
estava s tentando ser amvel, pelos velhos
tempos, mas nem mesmo assim se animou. Longe
disso, depois de roubar meus filhos de mim.
Racionalmente ele a detestava, mas outras partes
suas respondiam instintivamente  lembrana. Era
uma atitude que o deixava to irritado consigo
mesmo quanto com ela. Era a forma de Sally
tortur-lo, para ver se ainda poderia dar as cartas,
como nos velhos tempos.
--Onde est Nessie? -- ele perguntou direto, louco
para v-la, no para ver Sally. Tudo que queria era
ver sua filha assim que pudesse.
Nessie est aqui. Est muito cansada tambm.
--Ela pode dormir mais tarde. Vou encontr-la no
saguo daqui a uma hora. Fale para ela estar l. --
Ficou to excitado que quase desligou o telefone
na cara de Sally. Ela prometeu dar o recado a
Vanessa, que ficou tambm muito animada para
encontrar-se com o pai.
Matt entrou no chuveiro, barbeou-se, vestiu um
blazer e uma cala cinza, e estava muito bonito
quando entrou no saguo do Ritz-Carlton, olhando
ansioso em volta. E se no reconhecesse Vanessa?
Se ela tivesse mudado muito... se... ento a viu.
Parecia uma pequena cora, o mesmo rosto que
tinha quando era menina num corpo de mulher,
cabelo comprido louro e liso. Eles se atiraram nos
braos um do outro em prantos. Vanessa enfiou o
rosto no seu pescoo e beijou-o quando ele a
segurou. A crueldade da longa separao era
aparente na avidez com que se abraaram. Matt
no tinha vontade de larg-la, mas forou-se a
solt-la para poder olhar para ela. Olhou-a
amorosamente, e quando os dois notaram
estavam rindo entre lgrimas.
--Oh, papai... voc est igual... no mudou nada...
--- Ela no conseguia parar de chorar e rir, e ele
nunca tinha visto ningum to linda quanto sua
menina. Seu corao s faltava pular do peito
quando olhava para ela, e ele constatou como
aquele longo distanciamento da sua vida tinha
sido desesperador. Tudo que se forara a no
sentir durante seis anos veio  tona naquele
momento.
--Mas voc mudou,  claro! Puxa!
Seu corpo era espetacular, como o da me quando
jovem. Usava um vestido cinza curto, salto alto,
maquiagem suficiente para ficar glamourosa sem
parecer vulgar, e brinquinhos de brilhante nas
orelhas, um presente de Hamish provavelmente.
Ele sempre foi generoso com os filhos de Matt.
--O que voc quer fazer? Tomar um ch? Ou ir a
algum lugar? -- Ele s queria estar com ela.
Vanessa pareceu hesitar um instante, e Matt os viu
a distncia por trs dela. No tinha percebido
ningum mais no momento em que ps os olhos
na filha. Sally estava no meio do saguo, com uma
mulher que parecia uma bab e dois meninos. Os
anos tinham sido generosos com ela, continuava
uma mulher bonita, s um pouquinho mais gorda
do que era. E os meninos eram lindos, com 6 e 8
anos. Em vez de mandar Vanessa encontr-lo
sozinha depois de todos esse anos, meteu-se entre
eles, exatamente o que Matt no queria. Mostrou-
se aborrecido quando ela se aproximou e Vanessa
lanou um olhar furioso para a me. Sally usava
um vestido preto curto, caro, sapatos sensuais e
um casaco de vison, e seus brincos de brilhantes
eram bem maiores que os de Vanessa, sem dvida
outro presente do seu falecido marido.
--Desculpe, Matt, espero que no se importe... no
pude resistir... e queria que voc conhecesse meus
meninos. -- A ltima vez em que ele os vira, em
Auckland, um tinha 2 anos e o outro, poucos
meses. Por mais engraadinhos que fossem, ele
queria ficar com a filha, no com Sally e as
crianas. Ela o maltratara muito. Ele s queria
agora que ela desaparecesse.
Deu um al para os meninos com um sorriso
caloroso, fez um carinho no cabelo deles e meneou
a cabea gentilmente para a bab. No era culpa
das crianas a atitude imprpria da sua me, mas
ele quis ser bem claro com ela.
-- Vanessa e eu gostaramos de ficar sozinhos um
pouco. Ternos muita coisa para pr em dia.
-- claro, eu compreendo -- ela disse jovialmente,
mas no compreendia. No tomava o menor
conhecimento das necessidades de ningum,
muito menos das dele. E ignorou absolutamente o
olhar de fria da fdha. Ela ainda no perdoara a
me por afastar Matt deles durante seis anos, e
jurou que nunca perdoaria. -- Prometi aos meninos
ir at o Macys ver o Papai Noel e dar uma parada
no Schwarz. Achei que poderamos jantar todos
juntos amanha, se voc no tiver outro
compromisso -- disse, com o sorriso que o
estonteara na primeira vez em que a viu, porm
no mais agora. Ele sabia que por trs daquele
sorriso vivia um tubaro, que o ferira muito
profundamente, mas no o atingiria mais.
Qualquer outro a teria achado charmosa e bonita,
e amvel com ele. Mas ele no estava nada
interessado no que ela queria dele.
--Eu aviso -- disse vagamente, e foi com Vanessa
para o canto do saguo onde serviam ch. Um
instante depois viu Sally, a bab e os meninos
passarem pela porta giratria e entrarem em uma
limusine. Ela era uma mulher rica agora, mais rica
do que antes. Mas na opinio dele isso no lhe
dava mais charme. Nada daria. Sally tinha tudo
que se podia querer -- beleza, inteligncia,
elegncia, tudo enfim --, menos corao.
--Desculpe por tudo, papai -- disse Vanessa
baixinho quando se sentaram. Ela compreendia e
admirava o pai pela forma nobre com que tinha
lidado com o problema. Conversou por telefone
com seu irmo sobre o que acontecera e estava
muito menos disposta a perdoar que Robert, que
sempre encontrava desculpas para a me e dizia
que ela no compreendia seu efeito sobre as
pessoas. Vanessa a detestava com toda a energia
de uma menina de 16 anos, e com razo nesse
caso. -- Eu odeio a mame, pai -- disse
abruptamente, e ele no discordou dela mas
tambm no estendeu o assunto. Tentou ser
discreto para o bem de Vanessa. Mas no havia
explicao. Ela afastara os filhos do pai, para seu
prprio bem, durante seis anos. Quase a metade
da vida deles, e lhe parecia ainda mais que isso.
Tudo que eles queriam fazer era aproveitar sua
companhia agora. -- Voc no tem que jantar com
ela amanh. Eu quero ficar sozinha com voc. --
Vanessa compreendia tudo, era bem madura para
seus 16 anos de idade. Tinha passado por muita
coisa tambm.
--Tambm prefiro ficar com voc -- ele disse
honestamente. -- No quero uma briga com sua
me, mas tambm no vou fazer fora para ser
seu melhor amigo. --J bastava ser delicado com
ela.
--Tudo bem, papai.
Ficaram conversando umas trs horas no saguo
do Ritz. Matt explicou-lhe de novo o que ela j
sabia, por que tinha ocorrido essa separao de
seis anos. Depois comeou a perguntar sobre seus
amigos, sua escola, sua vida, seus sonhos. Era
uma delcia estar com a filha, e ele absorveu tudo
o que ela dizia. Ela e Robert iam passar o Natal em
Tahoe com ele, sem a me. Sally ia para Nova York
ver uns amigos com os dois filhos pequenos.
Parecia no ter aonde ir, estava  procura de
alguma coisa. Se ele no tivesse tanta raiva dela,
teria sentido pena.
Sally telefonou de novo no dia seguinte para falar
do jantar, e tentou convenc-lo a ir com eles.
Porm Matt resistiu com pacincia e falou sobre
Vanessa, com elogios.
--Voc fez um bom trabalho com ela. Vanessa 
maravilhosa -- disse com generosidade.
--Ela  uma boa menina -- Sally concordou. Disse
que ia ficar em So Francisco uns quatro dias, mas
Matt estava ansioso para ela ir embora. No tinha
vontade de v-la. -- E voc, Matt? Como est sua
vida? -- Era um assunto que ele no queria discu-
tir de forma alguma com ela.
--Vai bem, obrigado. Sinto muito por Hamish. Vai
ser uma grande mudana para voc. Est
pretendendo continuar em
Auckland? -- Queria limitar a conversa a negcios,
casas e filhos. Mas ela no.
--No tenho idia. Decidi vender a empresa. Estou
cansada, Matt. Est na hora de parar para
aproveitar o perfume das rosas.
Era uma bela idia, mas conhecendo Sally ele
sabia que era mais provvel que ela quisesse
esmagar as rosas e pr fogo nas ptalas. Ele tinha
passado por isso.
-- uma idia sensata. -- Limitava-se a respostas
curtas e inexpressivas. No tinha inteno de
baixar a ponte levadia, e esperava que os jacars
do fosso a devorassem se ela tentasse tomar o
castelo.
--Ouvi dizer que voc continua pintando, voc tem
muito talento -- disse de forma elogiosa. Depois
hesitou um instante, e falou de novo num tom
infantil e triste. Uma ttica que usava que ele
quase esquecera, mas s por um instante. --
Matt... voc ficaria muito chateado em jantar
comigo hoje  noite? No quero nada de voc. S
acabar com essa hostilidade. -- Mas ela o esfa-
queara pelas costas anos antes, e a faca
permanecera no local, inflamando a rea. Retir-la
agora s tornaria as coisas piores, ele sangraria
at morrer ao longo do processo.
-- um belo sentimento -- disse, com ar cansado.
Ela o deixava esgotado. Tinha sempre vrios
planos. -- Mas no acho que seja uma boa idia
jantar com voc. No adianta. Vamos deixar as
coisas como esto. No temos realmente nada a
dizer um ao outro.
--Eu quero dizer que sinto muito. Devo muitas
desculpas a voc, no ?
Falava num tom suave e parecia to vulnervel
que Matt quase sentiu pena. Teve vontade de
gritar para ela no fazer isso. Era fcil demais
lembrar tudo que ela tinha sido para ele no
passado, tudo ao mesmo tempo. Mas no podia.
Isso o mataria.
--Voc no precisa dizer nada, Sally -- ele falou,
parecendo o marido que fora um dia, o homem
que ela conhecera e amara, e que quase destrura.
No importava o que tinha acontecido nesse meio
tempo, eles continuavam os mesmos e se
lembravam dos bons tempos e tambm dos ruins.
-- Isso tudo ficou para trs.
--Eu s quero estar com voc. Talvez possamos
ser amigos de novo -- disse com ar esperanoso.
--Por qu? Ns temos amigos. No precisamos um
do outro.
--Ns temos dois filhos. Talvez seja importante
para eles haver um elo entre ns de novo. --
Espantoso isso no ter lhe ocorrido nos ltimos
seis anos. S agora. Servia ao seu propsito do
momento, qualquer que fosse e, qualquer que
fosse, Matt sabia que seria bom para ela e
certamente no para ele. Seu narcisismo sempre
foi sua tnica. S importavam suas necessidades e
as de mais ningum.
--No sei... -- Ele hesitou. -- No vejo vantagem
nisso.
--Perdo. Humanidade. Compaixo. Ns fomos
casados 15 anos. No podemos ser amigos agora?
--Ser muita grosseria lembrar que voc me
largou pelo meu melhor amigo, mudou-se para um
pas a milhares de quilmetros de distncia com
meus filhos e no permitiu que eles tivessem con-
tato comigo nos ltimos seis anos?  muita coisa
para engolir, mesmo entre "amigos", como voc
diz. Que amizade  essa?
--Eu sei... eu sei... cometi muitos erros -- ela
disse, passando para um tom confessional,
exatamente o que ele no queria. -- Se servir de
consolo, Hamish e eu nunca fomos felizes. Tnha-
mos muitos problemas.
--Sinto muito em ouvir isso -- disse, com um
calafrio. -- Sempre tive a impresso de que vocs
eram muito felizes. Ele foi muito generoso com
voc e seus filhos. -- Hamish era basicamente um
bom sujeito. At fugir com Sally, Matt gostava
bastante dele.
--Generoso, sim. Mas no tinha aquele algo mais
que voc tinha. Era um sujeito divertido, mas
bebia demais e acabou morrendo por causa disso
-- falou, sem nenhuma tristeza. -- Ns no
fazamos sexo.
--Sally, por favor... pelo amor de Deus. No me
venha com esses comentrios agora. -- Matt
parecia horrorizado e chocado.
--Desculpe, esqueci como voc  puritano. --
Socialmente, talvez, mas nunca na cama. E ela
sabia bem disso. Sentiu falta dele. Hamish contava
as piadas mais sujas do planeta e gostava de olhar
para peitos e bundas, mas dava no mesmo ir para
a cama com um vdeo porn e uma garrafa ou com
ela.
--Por que no pra por aqui? Isso no leva a nada.
No podemos voltar atrs. J acabou. Fim da
histria.
--No acabou. Nunca vai acabar. E voc sabe
disso. -- Tinha tocado num ponto sensvel, que
ainda lhe causava dor. Era o que ele vinha
escondendo h uma dcada. Por pior que ela
tivesse feito, ele sempre a amara. E ela sabia.
Podia sentir isso ainda. Era um tubaro com radar
e instintos infalveis.
--No importa. J acabou -- ele disse com rispidez.
E o tom da sua voz, meio rouca, passou a mesma
qumica para ela, como sempre tinha passado.
Sally nunca o esquecera tampouco. Tinha cortado
a vida deles como se fosse uma perna que no
quisesse mais, porm todos os nervos em volta
ainda continuavam sensveis, pulsantes e vivos.
--No jante comigo ento. Vamos s tomar um
drinque. S quero que voc me veja, pelo amor de
Deus. Que diferena faz? Por que no pode fazer
isso? -- Porque ele no queria se magoar mais,
disse a si mesmo, mas sentiu um impulso
irresistvel de v-la e se odiou por isso.
--- J vi voc ontem no saguo do hotel.
--No. Viu a viva de Hamish com os dois filhos e
a sua filha.
--Mas voc  a viva de Hamish, no ? -- disse,
sem querer ouvir uma resposta diferente dela.
--No para voc, Matt. -- O silncio entre eles era
ensurdecedor. Ela o deixava louco. Sempre
deixara. Mesmo depois que o largou. Conseguia
fazer sempre isso com ele. Sabia onde estavam
todos os seus nervos expostos, e gostava de tocar
neles.
--Tudo bem, tudo bem. Por meia hora. No mais
que isso. Vou ver voc ento. Vamos acabar com
essa hostilidade e voltar a ser amigos, depois saia
da minha vida antes que eu enlouquea, pelo
amor de Deus. -- Ela conseguira atingi-lo. Sempre
conseguia. Era o castigo da vida dele. O purgatrio
no qual tinha vivido, ao qual ela o condenara
quando o abandonou.
--Obrigada, Matt -- disse com voz suave. --
Amanh s seis da tarde? Venha  minha sute. L
poderemos conversar em sossego.
--At mais tarde ento -- ele disse com frieza,
furioso por ter cedido. Tudo que ela podia fazer era
rezar para que nas prximas 24 horas ele no
cancelasse o compromisso. Sabia que se o visse,
ainda que por meia hora, tudo poderia mudar. E o
pior de tudo  que Matt tambm sabia diso,
quando desligou o telefone.

                  Captulo 24
MATT FOI PARA A CIDADE s cinco horas no dia
seguinte e chegou 15 minutos adiantado.
Atravessou o saguo do hotel a passos largos, e
precisamente s seis horas tocou a campainha da
sute de Sally. No queria estar ali, mas sabia que
tinha de enfrentar isso de uma vez por todas. Caso
contrrio, seria perseguido por essa dvida para
sempre.
Sally abriu a porta com um ar srio. Vestia um
conjunto preto elegante, meias pretas e salto alto,
com o cabelo comprido louro to bonito quanto o
da fdha. Ainda era uma mulher espetacular.
-- Oi, Matt -- disse, apontando-lhe uma cadeira e
oferecendo-lhe um martni. Lembrou que ele
costumava gostar desta bebida, e, embora ele no
gostasse mais, aceitou, por gentileza.
Sally preparou um para si prpria e sentou-se no
sof em frente. Os primeiros minutos foram
inevitavelmente tensos, mas os martnis ajudaram.
Como era de prever, sentiram a qumica entre eles
agir. Ou pelo menos ela sentiu, pois a sensao de
Matt foi ligeiramente diferente. No podia
identificar a diferena ainda, mas sabia que de
alguma forma seus sentimentos por ela tinham
mudado um pouco, e ficou aliviado.
--Por que voc nunca se casou de novo? -- ela
perguntou, brincando com a azeitona em seu
drinque.
--Voc me curou -- disse ele com um sorriso,
admirando as pernas dela. Continuavam bonitas
como antes, e a saia curta deixava-as bem de fora.
-- Tenho vivido como um ermito nos ltimos dez
anos. Sou um recluso... um artista. -- Disse isso
sem a inteno de faz-la sentir-se culpada. Sua
vida era assim agora, e lhe dava prazer. Na
verdade, preferia esse tipo de vida do que a que
eles levavam no passado.
--Por que faz isso com voc? -- ela perguntou,
parecendo preocupada.
--Eu gosto realmente dessa vida. Fiz tudo que
queria no mundo. Experimentei tudo que queria
experimentar. Agora moro em uma praia, pinto
quadros... e converso com crianas que passam e
com cachorros. -- Sorriu ao pensar em Pip, e de
repente lembrou-se de Ophlie, que a seu modo
era muito mais bonita que Sally. As duas eram
infinitamente diferentes sob todos os aspectos
possveis.
--Voc precisa viver, Matt -- disse Sally,
carinhosamente. --J pensou em voltar para Nova
York? -- Ela andava pensando nisso, nunca tinha
gostado de Auckland e da Nova Zelndia e agora
estava livre para fazer o que quisesse.
--Nunca. Nem por um instante -- respondeu com
sinceridade. -- J morei l. Isso acabou. -- Pensar
em Ophlie, mesmo por um minuto, ajudou-o a
dominar-se e a manter-se distante dela.
--E que tal Paris ou Londres?
--Talvez. Quando me cansar de ser vagabundo de
praia. Mas ainda no me cansei. Se isso acontecer,
talvez me mude para a Europa. Mas como Robert
vai viver aqui durante os prximos quatro anos,
tenho mais motivao para ficar. -- Vanessa tinha
lhe dito que estava pensando em estudar na
Universidade da Califrnia dentro de dois anos, ou
talvez em Berkeley. Ele no se mudaria para lugar
algum no momento. Queria ficar perto dos filhos.
Foi afastado deles por muito tempo, agora queria
aproveitar todos os momentos que podia.
--Estou surpresa de voc no ter se cansado de
tudo isso, Matt. Viver como um recluso. Voc era
bem animado antigamente. -- E diretor de arte da
maior agncia de publicidade de Nova York, com
um monte de clientes poderosos e importantes.
Ele e Sally alugavam avies, casas e iates para
entret-lo. Mas h uma dcada no sentia mais
prazer em nada disso.
--Acho que amadureci. Isso acontece com todos
ns.
--Voc no parece nem um dia mais velho. --
Sally tentou outra ttica, pois essas no estavam
funcionando. No conseguia ver a si mesma
vivendo num barraco de praia com ele, preferia
morrer.
--Mas me sinto mais velho. Mesmo assim,
obrigado. Voc tambm no envelheceu. -- De
fato ela estava melhor que nunca, uns quilinhos a
mais tinham lhe feito bem, seu corpo ficou
ligeiramente mais voluptuoso. Ela era muito magra
antes, mas ele gostava. -- E voc, o que vai fazer
agora? -- Matt perguntou.
--No sei. Estou tentando descobrir. Tudo
aconteceu muito de repente. -- Ela no tinha
nenhum ar de viva sofrida e no estava sofrendo
mesmo. Parecia mais uma criminosa liberta. Ao
contrrio de Ophlie, que ficara destruda com a
morte do marido. Os contrastes entre as duas
eram enormes. -- Andei pensando em Nova York
-- disse, olhando-o com um ar tmido. -- Sei que 
uma idia louca, mas imaginei se... -- Seus olhos
olharam dentro dos dele, e ela no terminou a
frase. No precisava. Ele a conhecia. Esse era o
problema. Ele a conhecia.
-- Se eu gostaria de ir com voc, tentar por algum
tempo, ver onde as coisas vo parar... se
poderamos comear tudo de novo, girar o relgio
para trs e nos apaixonar de novo... Meu Deus,
que idia, no ? -- Olhou para Sally, pensativo, e
ela meneou a cabea. Ele a compreendeu. Sempre
tinha compreendido. Melhor do que ela pensava.
-- O problema ... que eu queria isso h dez anos.
Eu no me torturava diariamente, voc estava
casada com Hamish, no havia esperana para
ns... mas no est mais, ele morreu... e o
engraado, Sally...  que percebo agora que no
conseguiria fazer isso. Voc  bonita, to bonita
quanto sempre foi, e com mais dois martnis eu
iria para a cama com voc e imaginaria que tinha
morrido e estava no cu... mas e depois? Voc 
voc... e eu sou eu... e todas as razes que
provocaram nossa separao continuam a existir e
sempre existiriam... voc provavelmente me
achava um chato. E a verdade  que por mais que
eu a ame, e talvez ame para sempre, no quero
mais viver com voc. O preo foi alto demais para
mim. Quero viver com uma mulher que me ame.
No tenho certeza se voc me amava. O amor no
 um objeto, uma compra, uma venda,  uma
troca, um presente que a gente d e recebe...
Quero um presente na prxima vez... Quero
ganhar e dar um presente... -- Sentiu-se em paz
ao dizer isso a ela. Teve a chance que desejava h
anos, e descobriu que realmente no queria mais
nada disso. Era uma sensao incrvel de
libertao e ao mesmo tempo de perda... de
decepo, vitria e liberdade.
--Voc sempre foi muito romntico -- disse Sally,
ligeiramente irritada. As coisas no estavam
saindo como ela queria.
-- E voc no -- Matt falou sorrindo. -- Talvez
fosse esse o problema. Eu acredito em todas essas
bobagens romnticas. Voc quer se dar bem.
Enterrar um sujeito e desenterrar outro. Para no
falar no que fez com nossos filhos. O problema 
que voc quase me matou, mas meu esprito est
flutuando em algum lugar, est livre agora... e
acho que gosta de ficar assim...
--Voc sempre foi meio maluco -- disse Sally,
rindo. Mas Matt nunca se sentira to centrado na
vida, e sabia disso. -- E se a gente tivesse um
caso? -- Estava tentando fazer um acordo, e ele
sentiu pena dela.
--Seria uma bobagem e uma grande confuso.
No acha? E da? No h nada que eu gostaria
mais do que ir para a cama com voc. Mas  a
que comea o problema. Eu me envolvo. Voc no.
Outra pessoa pode aparecer, e eu vou bater com a
cabea na parede. No  exatamente minha forma
preferida de diverso. Dormir com voc  um
esporte perigoso, pelo menos para mim. Tenho
muito respeito pelo meu limite de dor. Acho que
no poderia fazer isso. Na verdade, sei que no
poderia.
--E agora? -- Sally estava frustrada e com raiva, e
serviu-se de outro martni. O terceiro. O de Matt
ainda estava pela metade. Ele se libertara disso
tambm. O gosto no era mais to bom quanto
costumava ser.
--Agora ns faremos o que voc disse que
faramos. Passaremos a ser amigos, nos
desejaremos boa sorte, nos despediremos e vamos
cuidar da vida. Voc vai a Nova York, se diverte,
encontra um novo marido, muda-se para Paris,
Londres ou Palm Beach, cria seus filhos, e eu vejo
voc no casamento de Robert e de Vanessa. -- Era
tudo que ele queria. Nada mais.
--E voc, Matt? Vai ficar apodrecendo na praia?
--Talvez. Ou talvez me transforme em uma rvore
velha, crie razes e aproveite a vida com as
pessoas que se sentaro debaixo dessa rvore,
sem querer sacudi-la a cada dez minutos nem
cort-la. A vida calma pode ser muito boa.
Esse conceito era inteiramente estranho para ela.
Sally gostava de animao. No importava o que
tivesse de fazer para criar isto.
--Voc no  to velho para pensar assim. Tem s
47 anos, pelo amor de Deus. Hamish tinha 52 e
agia como se tivesse metade da sua idade.
--E agora est morto. Talvez no tenha sido uma
idia to boa. Talvez a gente deva viver um meio
termo. Mas, de todo jeito, seu caminho e o meu
seguiro direes diferentes para sempre. Eu
deixaria voc maluca, e voc provavelmente me
mataria. No  um belo quadro.
--Voc est com algum?
--Talvez. Mas no  esse o problema. Se eu
estivesse apaixonado por voc deixaria qualquer
coisa para segui-la para sempre at o fim do
mundo. Voc me conhece. Um tolo romntico,
toda essa coisa que voc acha incrivelmente
idiota. Mas eu faria isso. O problema  que no
estou apaixonado por voc. Pensei que estivesse.
Mas acho que desci do trem no meio do caminho e
no sabia. Amo nossos filhos, nossas lembranas,
e uma parte antiga minha, louca e perdida, amar
voc para sempre. Mas no o suficiente para
tentar de novo, Sally, nem para seguir voc para
sempre. -- Com isso, levantou-se, beijou-a no alto
da cabea, e ela no se mexeu quando ele se
encaminhou para a porta. No tentou det-lo.
Sabia que no adiantava. Matt tinha sido
absolutamente sincero. Sempre fora e sempre
seria. Ficou parado ali, olhando-a pela ltima vez
antes de sair da sua vida para sempre.
--Adeus, Sally. -- Sentia-se bem como no se
sentia h anos. -- Boa sorte.
--Eu odeio voc -- falou Sally, meio bbada,
quando Matt fechou a porta.
Para ele o feitio se quebrara finalmente. Estava
acabado.


                 Captulo 25
MATT JANTOU NA casa de Pip e Ophlie na noite
anterior  vspera de Natal para dar e receber os
presentes. A rvore estava decorada e Ophlie
insistiu em preparar um ganso para ele, conforme
a tradio francesa. Pip detestava ganso e ia
comer um hambrguer, mas Ophlie queria ter um
Natal de verdade. Matt nunca lhe parecera to
bem quanto naquela noite.
Os dois andavam atarefados e mal tinham se
falado na semana anterior. Ele no comentou que
se encontrara com Sally, nem sabia se comentaria.
Era um assunto particular, e ele no estava pronto
para compartilhar com Ophlie. Mas sem dvida
aquele encontro o libertara, e embora Ophlie no
soubesse o que acontecera podia sentir alguma
coisa. Como sempre, Matt foi extraordinariamente
gentil e carinhoso com ela.
Estavam planejando distribuir os presentes
naquela noite, mas Pip no conseguiu esperar at
a hora do jantar. Insistiu em dar o dela e pediu que
Matt o abrisse imediatamente quando ele amea-
ou guard-lo at o dia de Natal.
--No! Agora! -- ela disse, pulando e batendo
palmas, observando-o animada enquanto ele
rasgava o papel. Assim que viu o que era, ele caiu
na gargalhada. Umas pantufas amarelas do
Garibado, enormes e fofas, tamanho de homem,
que couberam certinho.
--Adorei! -- disse, dando-lhe um abrao. Calou as
pantufas e ficou com elas durante todo o jantar. --
Esto perfeitas. Agora ns trs podemos us-las
em Tahoe. Voc e sua me levam o Arquibaldo e o
Elmo.
Pip prometeu que levaria e ficou maravilhada
quando ele lhe deu a linda bicicleta. Ficou
pedalando pelas salas de estar e de jantar, quase
derrubou a rvore de Natal, depois saiu para dar
uma volta no quarteiro enquanto a me
terminava de fazer o jantar.
--E voc? -- perguntou a Ophlie, enquanto
tomavam uma taa de vinho branco. -- Est
pronta para receber um presente? -- Sabia que
talvez a perturbasse, mas achou que a longo prazo
ela gostaria. -- Pode me dar um minuto de
ateno? -- Ophlie fez que sim e eles se
sentaram, enquanto Pip continuava l fora na nova
bicicleta. Matt ficou contente de ter um instante
sozinho com ela. Entregou-lhe um presente bem
embrulhado que ela no imaginava o que fosse.
Uma caixa grande e achatada que no fazia
barulho.
--- O que ? -- perguntou, comovida antes mesmo
de abrir o presente.
--Voc vai ver. -- Ela rasgou o papel e abriu a
caixa. O que estava dentro vinha envolto em papel
bolha, e ela desembrulhou com o maior cuidado.
Prendeu a respirao e seus olhos encheram-se de
lgrimas no mesmo instante. Ps a mo na boca e
fechou os olhos. Era Chad, exatamente como ele
era. Matt tinha pintado ura retrato dele para
combinar com o de Pip, que Ophlie ganhara de
aniversrio. Abriu os olhos e olhou para ele, enfiou
a cabea em seu peito e comeou a chorar.
--Ah, meu Deus, Matt... obrigada... muito
obrigada... -- Olhou de novo o retrato. Era como
ver seu filho sorrindo para ela. Fazia com que ela
sentisse mais falta dele, mas ao mesmo tempo era
um blsamo para sua dor. Uma obra perfeita. --
Como voc fez? -- O retrato era absolutamente
fiel, at mesmo o sorriso era idntico ao dele.
Matt tirou um objeto do bolso e entregou-lhe. Era o
porta-retratos com a foto de Chad que ele
apanhara na sala de estar um dia.
--Desculpe. Sou cleptomanaco.
Ela riu quando ele disse isso.
--Eu procurei essa foto. No conseguia imaginar
onde tinha ido parar. Pensei que Pip tivesse
pegado, mas preferi no perguntar. Achei que ela
estava escondendo no quarto, ou em uma
gaveta... passei semanas procurando. -- Colocou o
porta-retratos em cima da mesa da sala, onde
costumava ficar. -- Matt, como posso agradecer?
--No precisa agradecer. Eu amo voc. E quero
v-la feliz. -- Ia falar mais alguma coisa quando
Pip entrou com Mousse latindo. Ele tinha corrido
todo o tempo ao lado dela.
--Adorei minha bicicleta! -- gritou, dando um
encontro em uma mesa do hall, quase jogando
outra no cho e parando bruscamente na frente
deles ao apertar o freio. Era uma bicicleta de
adulto, e obviamente ela havia gostado. Quando
Ophie mostrou-lhe o retrato de Chad, ficou em
silncio.
--Puxa... est igualzinho a ele... -- Virou-se para a
me, as duas se deram as mos e ficaram olhando
o retrato por algum tempo. Os trs tinham
lgrimas nos olhos. Foi um momento de ternura. A
certa altura Ophlie pressentiu um desastre com o
cheiro que vinha da cozinha: o ganso no s j
estava cozido como quase queimando.
--Opa! -- disse Pip quando Ophlie serviu o ganso.
Tiveram um jantar delicioso e uma noite tima, e
Ophlie esperou Pip ir para a cama para dar o
presente de Matt. Era uma coisa especial e
importante para ela, esperava que agradasse.
Quando Matt abriu, ficou to comovido quanto ela
quando viu o retrato de Chad. Era um relgio
Breguet do seu pai, da dcada de 1950. Uma linda
pea, e ela no tinha ningum para dar agora. No
tinha marido, nem filho, nem irmo. Estava
guardando para Chad, e resolveu dar para Matt.
Ele ps o relgio no pulso com reverncia e ficou
to contente e comovido como Ophlie ficara com
seu presente.
--No sei o que dizer -- falou, olhando o belo
relgio e dando-lhe um beijo. -- Eu amo voc,
Ophlie -- disse com calma.
O relacionamento deles era tudo que ele queria,
diferente do que tivera com Sally. Um
relacionamento calmo, forte e real, duas pessoas
corretas ligando-se aos poucos, de forma slida.
Ele faria qualquer coisa possvel por ela, e Ophlie
sabia disso. E por Pip tambm. Ophlie era uma
boa mulher, uma grande mulher, e ele sentiu-se
incrivelmente feliz. Sentia-se totalmente seguro
quando estava com ela, como ela se sentia com
ele. Nada poderia atingi-los dentro do crculo de
fora que compartilhavam.
--Eu tambm amo voc, Matt... Feliz Natal --
sussurrou ela, e beijou-o. No beijo estava tudo o
que sentia por ele, toda a paixo  qual vinha
resistindo.
Matt saiu naquela noite com o relgio do pai de
Ophlie e ela foi para a cama olhando o retrato de
Chad com um sorriso nos lbios. A bicicleta
vermelha estava encostada na cama de Pip. Era
realmente a magia do Natal.

A "verdadeira" vspera de Natal que Pip e Ophlie
passaram sozinhas foi muito mais difcil e
inevitavelmente dolorosa. Apesar de todos os
esforos para melhorar a situao, no havia como
no se lembrarem dos que no estavam l. A
ausncia de Andrea foi sentida, e a permanente
ausncia de Ted e Chad parecia uma constante
piada de mau gosto que nunca tinha fim. No meio
do dia Ophlie teve vontade de levantar as mos e
gritar: "Tudo bem, j chega! Podem aparecer
agora!" Mas eles no apareciam e nunca mais
apareceriam. Alm dessa ausncia, ela sentia-se
arrasada pelas memrias do seu casamento, que
lhe eram to caras, irreversivelmente sujas pelo
que aconteceu com Andrea e o beb.
Foi um dia difcil, e as duas ficaram contentes
quando terminou. Dormiram na cama de Ophlie,
e a nica coisa que as alegrou foi saber que iriam
para Tahoe ver Matt e os filhos dele na manh
seguinte. Conforme prometeu, Pip ps na mala as
pantufas de Arquibaldo e Elmo. s dez horas
estava dormindo profundamente nos braos da
sua me, e Ophlie ficou acordada durante muito
tempo, aproveitando sua filhinha.
As festas tinham sido melhores que no ano
anterior, basicamente porque elas estavam se
habituando a conviver com o fato de no terem
mais uma famlia grande. Mas, de certa forma, foi
mais difcil porque estavam comeando a perceber
que isso nunca iria mudar. A vida gostosa que
tinham antes no seio da famlia se fora para
sempre. Podiam acontecer coisas felizes de novo
um dia, mas nunca seriam as mesmas. Ophlie e
at mesmo Pip compreenderam isso.
O que as ajudava muito era falar com Matt
freqentemente. Ophlie no teve mais notcia de
Andrea nem vontade de estar com ela. Ela sara da
sua vida para sempre. Pip falou dela uma vez, mas
quando viu a cara da me nunca mais mencionou
seu nome. A mensagem de Ophlie foi alta e clara.
Andrea no existia mais para elas.
Enquanto relembrava essas coisas na cama, seu
pensamento passou para Ted e Chad, depois para
Matt. Adorou o retrato que ele fez e a forma com
que tratava Pip. Sua bondade com elas era
impossvel de medir desde que se conheceram.
Viu que estava se apaixonando, sentia-se cada vez
mais atrada por ele, mas no sabia o que queria
fazer. No tinha certeza se estava pronta para
viver com outro homem e no sabia se um dia
estaria. No s porque tinha amado Ted, como
tambm porque desde o Dia de Ao de Graas
perdera toda a f no que o amor podia significar
entre duas pessoas. Significava tristeza, decepo
e traio para ela agora, e a perda de tudo em que
acreditara e confiara. No queria passar por isso
de novo com ningum, por mais amoroso e bom
que Matt parecesse ser. Ele era humano, e os
seres humanos faziam coisas terrveis, em geral
em nome do amor. Acreditar nisso de novo e
arriscar tudo parecia demais para ela. No tinha
mais segurana, e sabia que no podia confiar em
ningum como confiava antes, nem mesmo em
Matt. Ele merecia mais do que isso, especialmente
depois do que passou com Sally.
No dia seguinte, as duas saram bem-humoradas.
Ophlie levou correntes para o carro caso nevasse
no meio do caminho, mas as estradas estavam
limpas at Truckee, e com as indicaes de Matt
chegou facilmente a Squaw Valley. Ele alugara
uma casa espetacular, com dois quartos para ela e
Pip e mais trs para ele e os filhos.
Vanessa e Roberr estavam esquiando quando elas
chegaram, e Matt as esperava na sala com a
lareira acesa, chocolate quente e um prato de
sanduches. A casa era elegante e luxuosa. Matt
estava de cala preta de esqui e um suter cinza
grosso, bonito e atraente como sempre. Era um
homem       e    tanto,    e     Ophlie sentiu-se
imediatamente atrada por ele. Fazia bem o seu
tipo, mas ela ainda tinha medo de se entregar.
No era tarde demais para voltar atrs, mas sabia
que isso o decepcionaria imensamente. Porm,
decepo poderia ser melhor para ambos que um
eventual desespero e destruio. Os riscos de
entregar-se a ele pareciam muito altos e
perigosos, mas ao mesmo tempo scntia-se muito
tendente a isso. Vivia em constante conflito a
respeito de Matt, mas sentia-se cada vez mais
prxima dele. No podia mais imaginar a vida sem
seu amor. Apesar dos seus temores, sabia que o
amava.
--Trouxe as pantufas do Elmo e do Arquibaldo? --
Matt perguntou logo a Pip, e ela fez que sim e riu.
-- Eu tambm trouxe meu Garibado. --- Antes que
os outros voltassem, os trs calaram as pantufas,
ficaram rindo diante da lareira e ele ps uma
msica. Pouco depois Vanessa e Robert entraram,
ambos muito bonitos. Vanessa fitou contente de
conhecer Ophlie e Pip, teve uma afinidade
imediata com a filha e sentiu admirao pela me.
Ophlie tinha uma suavidade que a deixou
encantada, e uma bondade quase palpvel. Viu
nela tudo o que Matt via, e disse isso a ele
enquanto o ajudava a preparar o jantar e Ophlie e
Pip desfaziam as malas no quarto.
--Entendi por que voc gosta dela, papai.  uma
mulher boa e muito gentil. Meio triste s vezes,
mesmo quando sorri. E a gente sente vontade de
abra-la. -- Matt sentia a mesma coisa. -- E
adorei Pip.  uma gracinha!
As duas meninas fizeram amizade rapidamente
naquela noite. Vanessa convidou Pip para dormir
no seu quarto, e ela aceitou com entusiasmo.
Achou Vanessa fabulosa, muito bonita e legal,
como disse para a me quando foi vestir o pijama.
Depois que a casa ficou em silncio, Ophlie e
Matt permaneceram sentados horas junto da
lareira, at acabarem as ltimas achas de lenha.
Falaram de msica, arte e poltica francesa, de
filhos e pais, das pinturas dele e dos sonhos de
ambos. Falaram de pessoas que conheciam e de
cachorros que tinham tido quando eram crianas.
Nesse processo de se conhecerem cada vez mais
no deixaram nada de fora, queriam saber tudo
um do outro. Antes de subirem para os quartos se
beijaram e demoraram para se soltar. O que
tinham aprendido um sobre o outro era uma
poderosa fora entre eles.
Na manh seguinte os cinco saram de casa juntos
e foram para a fila das cadeirinhas suspensas.
Robert queria esquiar com uns amigos da
faculdade que encontrara, Vanessa saiu com Pip e
Matt ofereceu-se para ficar com Ophlie.
--No quero ser um estorvo para voc -- disse ela
com cuidado. Usava uma roupa preta de esqui
comprada h dez anos, simples e elegante, e um
chapu de pele que Matt achou muito bonito. Mas
ela insistiu em dizer que suas aptides nas
descidas cobertas de neve no faziam jus  sua
roupa de esqui.
--Voc no vai ser um estorvo -- garantiu. -- No
esquio h cinco anos. Vim aqui por causa dos
meninos. Voc estar me fazendo um favor, talvez
tenha at de me socorrer. -- Mas um era to bom
quanto o outro, e passaram a manh esquiando
nas descidas intermedirias. Era tudo o que
queriam, e na hora do almoo foram ao
restaurante esperar as meninas, que chegaram
uns minutos depois com o rosto vermelho e
aspecto atltico. Pip parecia eufrica quando tirou
o capuz e as luvas. Estava se divertindo muito, e
Vanessa parecia feliz tambm. Tinha visto uns
garotos charmosos, que a seguiram nas descidas.
Mas s pensava em se divertir. No era
descontrolada nem sem juzo, como a me nessa
mesma idade.
As meninas esquiaram a tarde toda, mas Matt e
Ophlie voltaram para casa quando comeou a
nevar. Matt acendeu a lareira e ps uma msica, e
Ophlie preparou dois copos de chocolate quente
com rum. Recostaram-se no sof ao lado de uma
pilha de revistas e livros, e de tempos em tempos
sorriam um para o outro. Ophlie surpreendeu-se
ao ver como era fcil estar com ele. Ted era muito
mais difcil, exigente, ansioso e polmico a respei-
to de quase tudo. Ela comentou essa diferena
com Matt. O namoro deles era uma mistura de
conforto, paixo oculta e afeio profunda. Alm
de tudo, eram timos amigos.
--Eu gosto disso tambm -- ele disse, e resolveu
falar sobre seu ltimo encontro com Sally.
--Voc no sentiu nada por ela? -- Ophlie
perguntou, dando um gole no chocolate quente
com rum e observando-o. Estava preocupada com
Sally, especialmente depois que ela ficou viva.
--Um pouco menos do que esperava ou do que
tinha medo de sentir. Tinha medo de ter de lutar
para me livrar dela, na minha cabea ou em algum
outro lugar. Mas no foi assim. Foi triste e
engraado, como tudo o que sempre saiu errado
conosco. Ela tentou me manipular para conseguir
o que queria, e em vez de me sentir apaixonado,
senti pena dela. Sally  uma mulher muito triste.
Nem considerou o fato de seu marido, com quem
viveu quase dez anos, ter morrido h menos de
um ms. Lealdade no  o seu forte.
--Acho que no. -- Ophlie ficou um pouco
chocada com o descaramento dela, depois de ter
feito Matt sofrer tanto. No parecia sentir um
pingo de culpa. Sentiu-se aliviada. -- Por que no
me contou que tinha estado com ela? -- Ele tinha
contado tantas coisas da sua vida que pareceu
estranho no ter falado sobre isso.
--Acho que precisava pensar bastante sobre o que
tinha acontecido. Sa daquele quarto me sentindo
livre pela primeira vez em dez anos. Meu encontro
com ela foi das melhores coisas que j fiz. --
Parecia contente consigo mesmo quando olhou
para Ophlie, e ela sorriu.
--Que bom -- ela falou baixinho, desejando que
seus sentimentos sobre seu casamento pudessem
ser facilmente solucionados. Mas no havia
ningum com quem falar, se zangar, discutir,
chorar, ningum para lhe explicar o que tinha
acontecido ou por que ele fizera aquilo. A nica
sada era resolver sozinha, com o tempo, em
silncio.
Quando os garotos voltaram do esqui, Ophlie
preparou o jantar e todos se sentaram em frente 
lareira e contaram histrias. Vanessa falou dos
seus vrios namorados em Auckland, Pip ficou
admirando-a e Robert implicando com as duas.
Uma cena familiar confortvel que tocou o corao
dos adultos. Era o que Matt desejara durante todos
os anos em que seus filhos se afastaram, e o que
dava saudade a Ophlie com a ausncia de Ted e
Chad. Havia uma totalidade ali, uma normalidade
constituda por dois adultos rodeados de trs
filhos, rindo em volta da lareira. Como se nunca
tivessem tido isso na vida, mas sempre desejado.
--Bom, no ? -- Matt sorriu para Ophlie quando
se encontraram na cozinha para pegar uns
biscoitos para os filhos e tomar uma taa de vinho.
--Muito bom -- disse ela, sorrindo.
Pelos padres do mundo, e at mesmo deles, era
um sonho que se realizara. E Matt queria que
durasse para sempre. Sabia que ela tinha
problemas para enfrentar e medos para superar,
como ele tambm, mas queria que ambos
chegassem      s mesmas concluses e se
encontrassem no finai. Mas tinha de ser muito
cauteloso com ela. Sabia como Ophlie era arisca.
Mais do que qualquer pessoa. Porque ele sabia,
pelo menos tanto quanto ela, o que Ted tinha feito.
Quase to ruim como se tivesse lhe rogado uma
praga, ou a amaldioado ou condenado 
desconfiana para o resto da vida. Ningum sabia
melhor que Matt que praga era aquela. Mas pelo
menos estavam livres no momento, naquele seu
mun-dinho seguro de Tahoe.
Foram jantar em um restaurante vizinho na
vspera do ano-novo, depois pararam em um hotel
para assistir  festa. Todos usavam roupas de
esqui e suteres largos e brilhantes, e alguns,
como Ophlie, usavam pele. Ela estava muito
chique, com um macaco de veludo preto e um
casaco preto de pele de raposa por cima, com um
chapu combinando.
--Voc parece um cogumelo preto, mame --
disse Pip com ar desaprovador.
Mas Ophlie teria usado aquela roupa de qualquer
forma. Era impermevel  estilstica conservadora
de Pip, e Matt adorava seu modo de vestir.
Qualquer coisa que usasse, ou por melhor que
falasse ingls, Ophlie era sempre muito francesa.
Notava-se isso por uma charpe, uns brincos ou
uma bolsa velha Hermes a tiracolo que ela usava
desde os seus 19 anos. De certa forma, as peas
que tirava do seu guarda-roupa, e a forma como
as usava, sempre denotavam sua nacionalidade.
De acordo com suas origens e a atmosfera do
ambiente, deixou Pip tomar uma taa de
champanhe na vspera do ano-novo. Matt fez o
mesmo com Vanessa, e embora Robert no tivesse
idade para beber, ofereceu-lhe um vinho, j que
ele no ia dirigir. Robert pareceu bastante 
vontade, e Matt tinha certeza que ele tomava seus
drinques em Stanford, sendo legal ou no, como
todos os outros. Com moderao.
Estavam no hotel quando o relgio bateu meia-
noite e todos se beijaram e se desejaram um feliz
ano-novo. S quando chegaram em casa e os
meninos foram dormir, uma hora depois, Matt
beijou Ophlie com mais paixo. Estavam sozinhos
na sala, aninhados em frente a um fogo quase
extinto, mas que ainda aquecia o ambiente. A
noite tinha sido tima. Especialmente para os
meninos, que pareciam se dar extremamente
bem, assim como eles. Matt nunca fora to feliz na
vida, e Ophlie sentia-se em paz. Apesar de tudo
que passara nos ltimos meses, e no ano anterior,
percebia que as cargas que pesaram sobre ela
durante tanto tempo comeavam a ser aliviadas,
uma por uma.
-- Feliz? -- Matt perguntou, se aproximando.
Estavam sussurrando na sala escura, iluminada
apenas pelo fogo, certos de que todos os demais
dormiam quela altura. Pip tinha ido de novo para
o quarto de Vanessa. As duas haviam se tornado
boas amigas. Pip considerava Vanessa a irm mais
velha que nunca teve e gostaria de ter tido.
Vanessa s tinha irmos, um mais velho e dois
mais moos, portanto ganhou uma irm tambm.
-- Muito feliz -- Ophlie respondeu com voz suave.
Sentia-se sempre feliz ao lado dele. Protegida,
segura e amada no seu mundo. Tinha a sensao
de que nenhum mal poderia lhe acontecer
enquanto estivesse com Matt. E tudo que ele
queria era proteg-la, evitar agonias como as que
ela tinha passado e curar suas dores. Essa
perspectiva no o assustava.
Beijou-a de novo e eles se acariciaram, como
nunca tinham feito antes. Quando ela sentiu
aquelas mos passando lentamente sobre seu
corpo, percebeu que o desejava muito. Como se a
mulher adormecida dentro dela nos ltimos 14
meses, desde a morte de Ted, estivesse voltando
 vida aos poucos pelas mos de Matt. Ele
tambm estava tomado de desejo por Ophlie.
Permaneceram sentados durante longo tempo,
depois deitaram-se no sof com os corpos
entrelaados, at que ele finalmente sussurrou:
--Vamos criar um problema se ficarmos aqui muito
mais tempo. -- Ela sorriu, como se fosse uma
garotinha de novo depois de anos. Matt muniu-se
de coragem para fazer uma pergunta que dessa
vez parecia finalmente vlida para os dois. -- Quer
ir para o meu quarto? -- falou baixinho em seu
ouvido. Ela fez que sim e o corao dele quase
explodiu de alvio. Fazia tempo que queria isso,
que a desejava, mais do que admitia a si prprio.
Matt levou-a pela mo at seu quarto, na ponta
dos ps para no fazer barulho. Ophlie quase riu;
era uma situao engraada esconder-se dos
meninos, mas todos estavam dormindo. Assim que
entraram no quarto de Matt, ele trancou a porta,
ergueu Ophlie do cho e levou-a at a cama nos
braos, com cuidado. Um instante depois estava
deitado ao seu lado.
--Eu amo voc muito, Ophlie -- sussurrou, com a
luz da lua entrando no quarto. Os dois sentiram-se
aconchegados e quentes quando se beijaram e se
despiram, e em segundos estavam debaixo dos
lenis. Carinhoso como sempre, Matt juntou seu
corpo ao dela. Podia senti-la tremendo ao seu lado,
desejava faz-la feliz e lhe dar todo o seu amor.
--Eu tambm amo voc, Matt -- disse ela
baixinho, com voz trmula. Ao perceber como ela
estava amedrontada, ele puxou-a para bem perto
e manteve-a assim durante algum tempo. -- Est
tudo bem, querida... voc est segura comigo...
nada de mau vai acontecer com voc, prometo...
--Estou to assustada, Matt... -- E ele sentiu as
lgrimas escorrendo-lhe pelo rosto quando a
beijou.
--No fique assim, por favor... eu amo voc
muito... nunca vou mago-la.
Ela acreditava nele, mas no mais na vida. A vida
a magoaria de novo, havendo oportunidade.
Coisas terrveis ocorreriam se ela abrisse a guarda
e o deixasse entrar completamente no seu mundo.
Poderia perd-lo, ou ele poderia tra-la, abandon-
la ou morrer. Nada mais era seguro, ela sabia bem
disso. No podia confiar em ningum e em nada,
nem mesmo nele. No to intimamente. Percebeu
ento que tinha sido tola em pensar que poderia.
--Matt, eu no posso... -- disse, com angstia na
voz. --Estou assustada demais. -- No podia fazer
amor com ele, no podia deixar que ele
penetrasse na sua intimidade. Era assustador
demais am-lo tanto, e depois que ele entrasse na
sua vida, na sua alma, no seu corpo e no seu
corao, nada mais seria seguro. Possuiria tudo
isso, e os demnios que arruinavam a vida das
pessoas as possuiriam.
--Eu amo voc -- Matt falou com calma. --
Podemos esperar... no temos pressa... Eu no vou
embora. No vou deixar, magoar ou amedrontar
voc... tudo bem. Eu amo voc. -- Definiu o
significado dessa palavra como nenhum outro
homem fizera antes, nem mesmo Ted. Muito
menos Ted. Ophlie sentiu-se muito mal
desapontando Matt. Mas sabia que no estava
pronta, e que talvez nunca estivesse. Era
impossvel dizer. S sabia que no podia ir adiante
naquele momento. Seria muito apavorante deix-
lo entrar na sua vida. E ele estava disposto a
esperar.
Matt ficou abraado a ela durante longo tempo
naquela noite, colado ao seu corpo gracioso,
impregnado de desejo, mas feliz com o que
tinham. Se s podiam chegar at aquele ponto
agora, era o bastante. Estava clareando quando
Ophlie finalmente saiu da cama e se vestiu. Tinha
cochilado aninhada nos seus braos durante toda
a noite. No se sentiu encabulada de deitar-se nua
ao seu lado. Ela o desejava, mas no o suficiente.
Matt beijou-a quando ela foi para seu prprio
quarto. Ophlie dormiu imediatamente durante
duas horas, e quando acordou sentiu aquele peso
conhecido no seu peito. Mas dessa vez era
diferente. No era o peso por Chad ou Ted, mas
pelo que no tinha conseguido fazer com Matt
naquela noite. Como se o tivesse trado. E
detestou-se pela decepo que lhe causara.
Tomou uma ducha e vestiu-se, aflita para v-lo,
mas assim que olhou para ele compreendeu que
estava tudo bem. Matt sorriu do outro lado da sala
e ps o brao  sua volta para tranqiliz-la. Era
um homem incrvel, e ela teve a estranha
sensao de que fizera amor com ele. Estava
ainda mais  vontade na sua presena agora do
que antes. E sentiu-se tola por ter entrado em
pnico. Mas grata por ele ter esperado.
Os dois esquiaram juntos no dia de ano-novo sem
fazer meno  noite anterior. Esquiaram,
conversaram e divertiram-se juntos, e naquela
ltima noite jantaram com os trs filhos. Vanessa
ia voltar para Auckland no dia seguinte, para
tristeza de Matt, mas ele iria v-la no prximo
ms. Pip e Ophlie iam para casa de manh, pois
no outro dia Pip teria de voltar s aulas. Robert
tinha mais duas semanas de frias e ia a Heavenly
esquiar com uns amigos. Matt voltaria para a
praia. Os feriados tinham terminado, mas foi uma
semana maravilhosa. Nada ficou resolvido entre
Ophlie e Matt, mas ambos sabiam que tinham
seu prprio ritmo. E ela sabia, sem sombra de
dvida, que se ele a tivesse pressionado naquela
noite, forado ou se irritado com ela, at mesmo a
esperana de um romance teria desaparecido.
Matt foi muito sbio, e ela o amou ainda mais.
Separaram-se na manh seguinte sem promessas,
sem certezas, s com amor e esperana. Era muito
mais do que os dois tinham quando se
conheceram, e suficiente para ambos.


                 Captulo 26

MATT PAROU PARA ver Ophlie e Pip depois de
deixar Vanessa no aeroporto. Estava triste com a
partida da filha e tomou uma xcara de ch com
Ophlie antes de voltar para sua vida solitria na
praia. Constatou, mais que nunca, que a vida que
tinham vivido juntos na ltima semana era o que
ele queria. Mas por enquanto no havia outra
opo. Ophlie no estava pronta para mais do
que tinham: uma amizade com promessa de
paixo e romance no futuro. No estava pronta
ainda para mais do que isso. No havia escolha
seno esperar e ver o que acontecia entre eles, se
 que acontecia alguma coisa. Se ela no fosse
capaz de entrar em sua vida, ele pelo menos
poderia ser amigo dela e de Pip. Sabia que era
uma possibilidade tambm. No havia garantias
na vida. Ambos tinham ampla prova disso.
Ficou contente de ver, quando entrou na casa
dela, que os retratos de Pip e Chad estavam
pendurados na sala em um lugar de honra.
-- Eles esto lindos, no ? -- disse Ophlie,
sorrindo orgulhosa e agradecendo-lhe mais uma
vez. -- Foi tudo bem no embarque de Vanessa? --
Tinha se apegado muito a ela e a Robert. Eram
timos meninos, de bom corao e boa formao,
como o pai. Tinha gostado muito mesmo deles.
--Ela ficou triste de ir embora -- respondeu,
lutando para afastar a lembrana da noite que
passara com Ophlie nua na cama. Gostaria que
tivesse confiado nele, mas esperava que isso
viesse com o tempo, se tivesse sorte. -- Daqui a
umas semanas vou visit-la em Auckland. Vanessa
adorou voc e Pip.
--Ns tambm gostamos muito dela -- disse
Ophlie com gentileza. Quando Pip subiu para
fazer o dever de casa, olhou para Matt com
tristeza. -- Desculpe o que aconteceu em Tahoe.
-- Foi a primeira vez que o fato foi mencionado.
Ele no queria desconcert-la referindo-se a isso,
nem pression-la. Optou por deixar a coisa como
estava. -- Eu no devia ter feito isso. Em francs,
chama-se uma allumeuse. Acho que em ingls a
palavra  muito menos atraente. Mas no  uma
atuao bonita. Eu no estava tentando provocar
nem enganar voc. Acho que enganei a mim
mesma. Pensei que estivesse pronta, mas no
estava.
Matt no queria falar sobre o assunto, tinha medo
que esse tipo de conversa a levasse a concluses
extremas. No queria fechar as portas entre eles.
Pensava em deix-las bem abertas para que
Ophlie aparecesse quando estivesse pronta.
Quando isso acontecesse, se acontecesse, ele
estaria esperando. Nesse meio-tempo, restava a
ele am-la muito, mesmo com um relacionamento
limitado.
-- Voc no estava enganando ningum, Ophlie.
O tempo  uma coisa engraada. No pode ser
definido, no pode ser comprado, no se pode
prever seu efeito sobre as pessoas. Alguns pre-
cisam de mais tempo, outros, de menos. D a si
mesma o tempo que precisar.
--E se eu nunca chegar l? -- ela perguntou num
tom triste. Tinha medo de no conseguir. A
profundeza de seus temores, que a deixaram
paralisada, assustou-a.
--Se nunca chegar l, vou amar voc da mesma
forma -- ele garantiu.
Era tudo que ela precisava ouvir. Como sempre,
ele transmitiu segurana, sem pression-la nem
apress-la. Estar com Matt era como uma
caminhada longa e tranqila pela praia.
Descansava a alma.
--No se torture. Voc j tem bastante coisa para
se preocupar. No me acrescente a essa lista. Eu
estou bem. -- Sorriu, debruou-se sobre a mesa
para beij-la na boca, e ela no ofereceu
resistncia. Ao contrrio, gostou do beijo. No fundo
do corao, Ophlie o amava, s no sabia o que
fazer com isso ainda. Se amasse algum, e se
resolvesse viver de novo, sabia que esse algum
seria Matt. Mas reconhecia a possibilidade de Ted
ter anulado para sempre sua capacidade de ser
mulher. Ted no merecia ter esse poder sobre ela,
mas por mais que detestasse admitir a si mesma o
poder se mantinha. Ele destrura alguma parte
essencial dela que no conseguia mais encontrar
nem resgatar. Como uma meia perdida. Uma meia
cheia de amor e confiana, que ela no tinha idia
de onde estava. Parecia ter se evaporado. Ted a
jogara fora. Ophlie vivia imaginando o que ela
significara para ele, se ele a amava quando
morreu. Ou se algum dia a amara. No sabia quais
eram as respostas. S lhe restavam as perguntas.
--O que voc vai fazer hoje  noite? -- Matt
perguntou antes de sair.
Ophlie ia responder, mas hesitou quando seus
olhos se encontraram. Pela cara dela Matt soube
qual era a resposta, e detestou a idia.
--Vai trabalhar com a equipe de rua?
-- Vou -- disse ela simplesmente, pondo as xcaras
dentro da pia. No queria discutir com ele.
--Meu Deus, eu gostaria que voc parasse com
isso. No sei mais o que fazer para convencer
voc. Um dia desses, Ophlie, alguma coisa
horrvel vai acontecer. S espero que no seja com
voc. Eles tem tido sorte, mas no podem ter sorte
para sempre. Voc se expe muito, sai para as
ruas duas vezes por semana, tem grande
probabilidade de enfrentar problemas.
--Eu me cuido -- disse ela, tentando tranqiliz-lo,
mas sem convenc-lo.
Matt saiu s cinco horas, e um instante depois
Alice chegou para fazer companhia a Pip. J se
tornara uma rotina. Ophlie trabalhava com a
equipe de rua desde setembro e sentia-se plena-
mente confiante, embora Matt tivesse constantes
pressentimentos de um desastre. Ela no pensava
assim. Conhecia bem a equipe, sabia que eram
todos muito capazes e cautelosos. Eram caubis,
como diziam, mas caubis que sabiam onde
podiam andar nas ruas, e sabiam que no podiam
dar as costas para ningum. Ophlie aprendera a
agir como eles. No era mais uma iniciante.
s sete horas estava com Bob em uma van, e Jeff
e Millie estavam em outra. Levavam mais
provises para suas visitas: alguns alimentos,
suprimentos mdicos, roupas quentes, preser-
vativos e uns casacos que eram doados com
regularidade. J tinham carregado as vans, e a
noite estava muito fria. Bob disse com um risinho
que ela devia ter usado ceroulas.
--Como vai? -- perguntou no tom amistoso de
sempre. -- Como foi o Natal?
--Mais ou menos, o dia foi difcil. -- Os dois tinham
passado por muita coisa, e ele compreendeu. --
Mas fomos a Tahoe na manh seguinte esquiar
com uns amigos. Foi divertido.
--Ns fomos a Alpine no ano passado. Quero levar
as crianas l esse ano, mas  muito caro. --
Ophlie reconheceu mais uma vez que tinha sorte
de no ter essas preocupaes. Bob tinha trs
filhos e muito pouco dinheiro. E fazia tudo o que
podia para eles. -- A propsito, como vai seu
namoro? -- Eles conversavam muito a noite
inteira, ambos tinham filhos e eram vivos. Troca-
vam conselhos e informaes, e tinham mais
chance de conversar do que se fossem colegas de
escritrio. Aquele trabalho no era burocrtico.
--Que namoro? -- perguntou com ar inocente, e
ele lhe deu uma cutucada.
--No banque a inocente. H dois meses voc tem
um brilho nos olhos como se tivesse sido atingida
por Cupido... o que aconteceu? -- Ele gostava de
Ophlie. Ela era uma boa mulher, de corao de
ouro e enorme coragem, como pde constatar de-
pois que comearam a trabalhar juntos nas ruas.
Nunca recuava, estava ali toda semana, noite aps
noite, ajudando-os. Os outros trs, da equipe
regular, a apreciavam muito. -- Ento, e o seu
namoro? -- ele insistiu. Tinham tempo para um
papo at chegarem a Mission.
--Sou uma covarde. Acho que  bobagem da
minha parte. Ele  um homem maravilhoso e eu o
amo, mas no consigo, Bob. Ou pelo menos ainda
no. Aconteceu coisa demais na minha vida. --
No fazia sentido falar do beb e contar que
Andrea escrevera uma carta para Ted dizendo
coisas dela com as quais ele aparentemente
concordava --- que ela era uma incompetente e
que lidava de forma abominvel com seu filho que
tinha uma doena mental, que era a verdadeira
responsvel pelos problemas dele. A mera
crueldade disso ainda a matava. Ela se perguntava
se o que Andrea dissera era verdade, se
exacerbara os problemas de Chad. Mesmo que
Andrea tivesse manipulado Ted, talvez houvesse
alguma verdade nisso. Ela se torturava sem cessar
depois que encontrou a carta, e finalmente
queimou-a para que nunca casse nas mos de Pip
como cara nas suas.
--Eu sei, eu sei. Muita merda aconteceu comigo
tambm quando minha mulher morreu.  difcil
voc acreditar agora, mas a gente acaba se
recuperando. O suficiente para organizar a vida de
novo. A propsito... -- disse, tentando parecer
indiferente enquanto olhava pela janela e no para
"Opie", como a chamavam. -- Vou me casar.
Ophlie vibrou de alegria com a notcia
inesperada.
--Que bom para voc! Maravilha. E o que seus
filhos acharam?
--Eles gostam dela... gostam muito... sempre
gostaram. Ophlie sabia que a noiva em questo
era a melhor amiga da
sua falecida esposa, o que parecia ser uma
constante entre vivos. Casavam-se com as irms
ou melhores amigas das esposas. Era uma
situao familiar.
--Quando? -- Ophlie estava contente por ele.
--Merda, no sei... ela nunca se casou, quer fazer
uma cerimnia complicada. Para mim basta ir ao
cartrio e acabar logo com a coisa.
--No seja desmancha-prazer. Aproveite. Espero
que seja seu ltimo casamento.
--Eu tambm. Ela  uma boa mulher, e tambm
minha melhor amiga.
--Isso  que  bom. --- Como o caso dela com
Matt. Pena no conseguir se refazer dos seus
prprios terrores para ter um relacionamento real
com ele. Quase invejava Bob. Mas a esposa dele
tinha morrido h mais tempo que Ted. Talvez um
dia, quem sabe, ela pudesse jogar para o alto a
cautela e o terror e fazer o mesmo que Bob.
Contornaram os limites da Mission depois fizeram
paradas em Hunters Point, sem nenhum problema.
Ophlie lembrou como eram infundados os
temores de Matt a respeito do seu trabalho de rua.
Sentia-se completamente relaxada e brincou com
Miie e Jeff quando pararam para tomar um caf
quente e comer alguma coisa. Estava gelado l
fora, e os miserveis moradores de rua eram
gratos por tudo que recebiam deles.
--Puxa, est friooooo hoje -- disse Bob quando
saram de novo.
Passaram por armazns de carga, trilhos da
estrada de ferro, passagens subterrneas e vielas,
como sempre faziam. Trabalharam nas ruas da
vizinhana, e Bob disse que no gostava daquela
rea. Havia muitos traficantes de droga, que se
sentiam ameaados e achavam que eles podiam
interferir. No valia a pena interromper as
transaes dos traficantes na rua. A equipe estava
ali para ajudar os que tentavam sobreviver, no os
que saqueavam essa gente. Algumas vezes, os
sinais podiam se confundir, jeff gostava daquele
bairro, e estava certo s vezes, havia um nmero
enorme de moradores de rua deitados nas portas
das casas e vielas cobertos com trapos e lonas
enceradas, e em caixas que eles chamavam de
"beros".
Desviaram por uma viela chamada Jess, entre a
Fifth e a Sixth, porque Millie disse a Jeff que tinha
visto duas pessoas do outro lado. Os dois
desceram da van e Bob e Ophlie esperaram, pois
eram poucas pessoas e eles poderiam dar conta
do trabalho, sozinhos. Mas Jeff fez sinal para Bob e
Ophlie trazerem casacos e sacos de dormir que
estavam guardados na van deles. Ophlie saiu da
van primeiro.
--Eu vou l -- disse por cima do ombro.
Bob hesitou, mas ela foi andando depressa pela
viela com os sacos e casacos na mo antes de Bob
conseguir sair.
--Pare! -- ele gritou, seguindo-a pela viela
deserta, onde havia s um bero na outra
extremidade. Jeff e Millie j estavam l, e quando
Ophlie se aproximava, um homem alto e magro
saiu do vo de uma porta e agarrou-a. Bob viu a
cena e saiu correndo na direo deles. O homem
segurava Ophlie por um brao, mas ela no
sentiu medo, por mais estranho que fosse. Como
aprendera a fazer instintivamente, olhou-o dentro
dos olhos e sorriu.
--Quer um saco de dormir e um casaco? --
Ophlie percebeu que o homem estava muito
drogado, mas o olhar firme dela dizia que no
estava com medo e que suas intenes eram boas.
--No, querida. O que mais voc tem? Alguma
outra coisa que eu possa querer? -- Os olhos
enormes e ferozes do homem olharam em volta.
--Comida, remdios, casacos quentes, ponchos
impermeveis, sacos de dormir, cachecis, bons,
meias, lonas enceradas, mochilas, o que voc
precisar.
--Esto vendendo essa merda? -- perguntou com
raiva, quando Bob chegou perto e entrou em cena.
--No, estamos dando -- disse Ophlie com calma.
--Por qu? -- Ele era hostil, falava depressa e
parecia nervoso. Bob no se mexeu. Pressentiu o
perigo, mas no queria fazer nada que pudesse
piorar a situao.
--Achei que vocs poderiam precisar disso.
--Quem  aquele cara ali atrs? -- perguntou,
ainda segurando Ophlie e apertando mais seu
brao. --  um policial?
--No. Ns somos do Centro Wexler. O que eu
posso oferecer?
--Pode me chupar, sua puta. No preciso de
merda nenhuma sua.
--Agora basta -- disse Bob, dando um passo 
frente, enquanto Jeff e Millie vinham andando
devagar do outro lado da viela. Sabiam que estava
acontecendo alguma coisa, mas no podiam ver
ainda, s conseguiram ouvir. -- Solte a moa --
disse Bob com voz calma, porm, firme.
--Quem  voc? O cafeto dela?
--Voc no vai querer criar caso, nem ns.
Desista, homem. Solte a moa -- disse
claramente, lastimando no estar armado. Se
tivesse uma arma, o sujeito teria recuado.
Nesse momento, Jeff e Millie chegaram. O homem
que segurava Ophlie ficou irritado e a puxou com
fora para mais perto dele.
--O que  isso? Servio Secreto? Vocs esto me
parecendo policiais.
--No somos da polcia -- Jeff gritou bem claro. --
Eu fui da fora especial da Marinha, e voc vai
levar um chute no rabo se no largar a moa.
O homem puxou Ophlie pela viela at um vo de
porta, e Bob viu mais dois sujeitos l esperando-o
com impacincia. Era a situao que eles mais
odiavam, tinham interrompido um grupo de
traficantes em ao.
--Estou cagando para o que vocs esto fazendo.
Trouxemos remdios, alimentos e roupas para o
pessoal daqui. Se no querem nada disso, timo,
mas ns temos de continuar a trabalhar. Vocs,
que continuem com seus negcios. No tenho
porra nenhuma a ver com isso.
Eles falavam grosso quando as coisas apertavam,
pois no tinham outra forma de se defender. O
traficante que segurava Ophlie parecia no
acreditar neles.
--O que ela ? Parece da polcia tambm -- disse,
apontando para Millie. Ophlie ficou quieta, Millie
tinha mesmo cara de policial.
--Ela era policial. Foi expulsa por prostituio ---
disse Jeff com uma voz forte, mas o sujeito no
entrou nessa.
--Voc est me sacaneando. Essa mulher tem
cheiro de policial, e esta aqui tambm -- e com
isso soltou o brao de Ophlie e jogou-a
violentamente para junto deles. Ela quase caiu,
pois no esperava isso, e quando recuperou o
equilbrio e levantou-se, todos ouviram os tiros.
Ningum tinha visto o homem pegar a arma. Em
uma frao de segundo ele deu uma guinada e um
pulo no ar como se fosse danarino de bal, e saiu
correndo.
Jeff correu atrs dele e Bob gritou quando os
outros dois que estavam na porta desapareceram.
Tudo aconteceu rpido demais, e a ao
concentrou-se em Jeff e no homem que ele
perseguia, mas Millie correu mais depressa e
gritou para Jeff tambm. Eles no estavam
armados, no adiantava continuar a perseguio.
Se pegassem o homem, no poderiam fazer nada
a no ser arriscar-se a levar um tiro enquanto
rolavam no cho com ele. Bob achou melhor cair
fora dali. Mandou Ophlie correr para a van, e s
ento viu que ela no saa do lugar e que havia
sangue por todo lado. O homem tinha atirado nela.
--Que merda, Opie... o que voc foi arrumar? --
disse, ajoelhando-se para tentar levant-la. Queria
tir-la dali, esperando que fosse um ferimento
superficial. Mas viu logo que era mais grave e ela
no conseguia se mexer, ento ficaram parados
ali. Havia muito trfico de drogas naquela rea.
Atravessar a viela tinha sido m idia.
Bob gritou o mais alto que pde, e Millie foi a
primeira a ouvi-lo. Ele fez um sinal, e ela chamou
Jeff. Quando os dois viram Ophlie no cho nos
braos de Bob voltaram correndo. Jeff, com o
celular na mo, j estava chamando a emergncia.
Chegaram junto de Bob e Ophlie em poucos
segundos. Bob parecia em estado de choque, e
Ophlie estava inconsciente, o pulso ainda batia,
mas ela mal respirava.
--Merda -- disse Jeff, ajoelhando-se ao lado dela,
enquanto Millie corria para a entrada da viela para
fazer sinal para os paramdicos que estavam
chegando. -- Ser que ela vai resistir?
--A coisa no est nada boa -- disse Bob com os
dentes cerrados. Estava com raiva de Jeff. A viela
tinha sido m deciso. Era a primeira burrice que
tinham feito depois de muito tempo. E estava com
mais raiva de si prprio por ter deixado Ophlie
passar por ali sem segui-la de perto. Mas, sem
armas, no havia muita coisa que pudessem fazer
para proteger uns aos outros em situaes assim.
Tinham falado uma vez em usar coletes  prova de
bala, mas chegaram  concluso de que no era
necessrio. E at aquele dia no tinha sido
necessrio mesmo.
-- Ela  viva e tem uma filha -- Bob disse para
Jeff.
--Eu sei, homem... eu sei... porra, onde eles esto?
-- Esto chegando, estou ouvindo -- disse Bob,
observando-a, pressionando seu pescoo com os
dedos. A pulsao estava cada vez mais fraca, e os
minutos passados pareciam toda uma vida. Nesse
momento ouviram as sirenes dos carros, e um
segundo depois Jeff viu Millie acenar para os
paramdicos que chegarem correndo.
Colocaram Ophlie em uma maca depressa e um
deles tentou reanim-la enquanto a carregava.
--Quantos tiros vocs ouviram? -- perguntou o
outro a Jeff, que corria ao seu lado.
Bob foi correndo para a van a fim de seguir a
ambulncia at o General Hospital. Era a melhor
unidade de tratamento intensivo da cidade. E Bob
pegou-se rezando quando ligou a van e deu meia-
volta.
--Trs tiros -- disse Jeff, quando colocaram a maca
na ambulncia rapidamente e os paramdicos
pularam para dentro. Assim que a porta foi
fechada, a ambulncia saiu. Jeff voltou correndo
para sua van, onde Millie j o esperava atrs do
volante. As duas vans seguiram a ambulncia em
alta velocidade. Foi o primeiro incidente dessa
gravidade que aconteceu com eles, mas isso no
servia de consolo.
--Acha que ela vai resistir? -- perguntou Millie,
ziguezagueando pelo trfego, com os olhos na rua
e o p no acelerador.
Jeff respirou fundo e sacudiu a cabea.
--Acho que no -- disse com sinceridade.
--Opie levou trs tiros  queima roupa. A no ser
que a arma do sujeito fosse de brinquedo, ela vai
morrer. Ningum pode sobreviver a isso. Muito
menos uma mulher.
--Eu sobrevivi -- disse Millie num tom soturno. Ela
fora licenciada da polcia e considerada invlida,
mas depois de longo tempo sobreviveu. Seu
companheiro que foi baleado ao mesmo tempo
no resistiu. Era uma questo de sorte em
situaes assim.
Chegaram ao hospital em sete minutos, saram
das vans e seguiram a maca. quela altura as
roupas de Ophlie tinham sido cortadas, e ela
estava deitada ali seminua, exposta, e to ensan-
gentada que mal dava para se ver o que
acontecera. Em segundos, ela desapareceu na UTI,
inconsciente, com uma mscara de oxignio no
rosto. Seus trs colegas de trabalho sentaram-se
em silncio, sem saber a quem avisar, ou se
deviam avisar. Parecia um pecado telefonar para
uma criana, mas logo depois lembraram que ela
devia estar com uma bab. Pelo menos algum
tinha de saber.
--O que vocs acham? -- perguntou Jeff. Ele era o
chefe da equipe, mas era um telefonema difcil.
--Meus filhos gostariam de saber -- disse Bob
baixinho. Todos tinham uma cara pssima, e Jeff
viro u-se para Bob antes de sair para procurar um
telefone pblico.
--Que idade tem a filha dela?
--Doze anos. O nome  Pip.
--Quer que eu fale com a bab ou com ela? --
perguntou Millie, oferecendo-se para telefonar.
O telefonema de uma mulher talvez assustasse
menos. Mas como uma menina no se assustaria
ao saber que a me tinha levado dois tiros no
peito e um na barriga? Jeff sacudiu a cabea e
dirigiu-se para o telefone, enquanto os outros
esperavam ao lado da UTI. Pelo menos ningum
tinha vindo da sala para dizer que ela no resistira.
Mas Bob tinha certeza que no levariam muito
tempo para dar essa notcia.

O telefone tocou no bangal de Safe Harbour logo
depois das duas da madrugada. Matt estava
dormindo h quase duas horas, mas acordou
imediatamente. Agora que tinha filhos de novo,
nunca desligava o telefone e se preocupava
quando algum telefonava tarde da noite. Ficou
imaginando se seria Robert ou Vanessa de
Auckland. Esperava que no fosse Sally.
--Al? -- disse com voz sonolenta, depois de
tatear para pegar o telefone.
--Matt. -- Era Pip, e s de ouvir seu nome sentiu
que a voz dela estava trmula.
--Aconteceu alguma coisa? -- Mas ele sabia antes
que Pip dissesse, e foi tomado por uma onda de
terror.
--A mame levou um tiro. Est no hospital. Voc
pode vir para c?
--Vou imediatamente -- ele disse, jogando as
cobertas para o lado e pisando no cho, ainda
segurando o telefone. -- O que aconteceu?
--No sei. Telefonaram para Alice, depois eu falei
com eles. O homem disse que ela levou trs tiros.
--Ela est viva? -- Quase ficou sufocado ao
perguntar isso.
--Est -- disse muito baixinho, chorando.
--Ele contou o que aconteceu?
--No. Voc vem?
--Chego a o mais rpido possvel. -- No sabia se
ia direto para o hospital ou se parava para falar
com Pip em casa. Queria estar com Ophlie, mas
Pip devia estar precisando muito dele.
--Posso ir com voc?
Ele hesitou por uma frao de segundo, e pegou
um jeans enquanto falava com ela ao telefone.
--Sim. Vista-se depressa. Chego a assim que
puder. Onde ela est?
--No General Hospital. Acabou de chegar l.
Acabou de acontecer.  tudo que eu sei.
--Eu amo voc, Pip. At logo. -- No queria gastar
tempo tranqilizando-a. Vestiu-se, pegou a
carteira e as chaves e ligou o carro. Nem se
preocupou em trancar a porta da frente. Telefonou
para o hospital do carro. Eles no tinham mais
notcias, s sabiam que a situao era crtica e que
Ophlie estava sendo operada, mas no sabiam
como estava.
Dirigiu o mais depressa que pde pela montanha e
apertou o acelerador quando chegou na auto-
estrada. Quase voou por cima da ponte, jogou o
dinheiro para a mulher do pedgio e chegou na
casa de Pip e Ophlie vinte minutos depois de ser
chamado. Nem entrou, tocou a buzina e Pip veio
correndo, de jeans e com a parca de esqui que
encontrou no corredor. Estava branca como cera e
apavorada.
--Voc est bem? -- ele perguntou, e Pip balanou
a cabea. Estava assustada demais at mesmo
para chorar. Parecia que ia desmaiar, e ele rezou
para que ela agentasse firme. Mas rezou mais
ainda pela me dela. No comentou com Pip que
Ophlie era uma louca de sair nas ruas tarde da
noite com a equipe de atendimento externo. Era
isso que ele temia e previa todo o tempo. Mas no
adiantava pensar nisso agora. No podia imaginar
como ela sobreviveria. Pip tambm no. Trs tiros
eram demais para um ser humano, mas Matt sabia
que alguns sobreviviam.
Foram para o hospital num silncio impregnado de
angstia. Ele estacionou o carro em uma vaga
para veculos de emergncia e os dois entraram
correndo no prdio. Quando Jeff, Bob e Millie os
viram na porta perceberam no mesmo instante
quem eram, ou pelo menos quem era a menina.
Parecia com a me, s que com cabelo vermelho.
--Pip? -- Bob aproximou-se e deu uma palmadinha
no seu ombro. -- Eu sou o Bob.
--Eu sei. --- Pip reconheceu-o pela descrio da
me, e reconheceu os outros tambm. -- Onde
est mame? -- perguntou, nervosa, mas muito
contida.
Matt apresentou-se, de cara amarrada. No podia
culp-los pelo que Ophlie fazia, era escolha dela,
mas estava com raiva de toda forma.
--Esto tirando as balas agora -- explicou Millie.
--Como ela est? -- perguntou Matt, olhando
direto para Jeff, sentindo que ele era o chefe da
equipe.
--No sabemos. No nos deram nenhuma notcia
desde que ela entrou na UTI.
Todos permaneceram de p ali, at que finalmente
se sentaram.
Bob foi buscar caf e Millie deu a mo para Pip,
que se agarrou a Matt com a outra. Ficaram em
silncio, no havia nada a dizer como desculpa,
explicao ou conforto. Nenhum deles tinha muita
esperana, nem mesmo Pip, e ningum queria
mentir para ela. A probabilidade de a sua me
sobreviver era mnima.
--Pegaram o sujeito que atirou nela? -- Matt
perguntou finalmente.
--No, mas vamos tentar identific-lo. Se tiverem
fotos dele, vamos peg-lo. Eu corri atrs do cara,
mas no consegui alcan-lo, e no queria deixar
Opie l -- disse Jeff, e Matt balanou a cabea.
Mesmo que o pegassem, que diferena faria se ela
morresse? Nenhuma, nem para ele nem para Pip.
Nada iria traz-la de volta se ela morresse. Mas
pelo menos ainda estava viva.
Matt foi  recepo diversas vezes saber se havia
alguma notcia, mas s lhe disseram que ela
continuava em cirurgia. J estava sendo operada
h sete horas.
Jeff telefonou para o Centro e soube que uns
reprteres tinham ligado para a recepo, mas
felizmente ningum aparecera ainda. s nove e
meia da manh, um cirurgio finalmente veio falar
com eles. Matt estava apavorado com o que ele
iria dizer, e Pip tambm. No soltou a mo dele
desde que chegaram, qualquer coisa que ele
fizesse tinha de ser com a outra mo.
--Ela est viva -- disse o cirurgio para
tranqiliz-los. -- No sabemos ainda o que vai
acontecer. A primeira bala atravessou o pulmo e
as costas. A outra pegou na nuca, e quase atingiu
a espinha. Considerando tudo, ela teve muita
sorte, mas ainda no est fora de perigo. A
terceira bala atingiu um ovrio e o apndice, e fez
um bom estrago no estmago e nos intestinos.
Estamos trabalhando nessa parte h quatro horas.
H quatro cirurgies operando-a.  a melhor
equipe do hospital.
--A gente pode ver a mame? -- perguntou Pip
com uma vozinha quase inaudvel. No tinha dado
uma s palavra a noite toda, mas o cirurgio
balanou a cabea.
--Ainda no. Ela est na UTI cirrgica. Mas daqui a
duas horas, se seus sinais vitais permanecerem
estveis, vocs podem subir. Ela continua
inconsciente, sob efeito da anestesia, mas vamos
acord-la dentro de algumas horas. Vai ficar bem
grogue, e vamos mant-la assim por enquanto.
--Ela vai morrer? -- perguntou Pip, apertando a
mo de Matt com tanta fora que mais parecia
uma torqus, e ele prendeu a respirao para
ouvir o que o mdico diria.
--Esperamos que no -- disse, olhando direto para
Pip. -- Ela ficou muito, muito ferida. Mas
sobreviveu  cirurgia e ao trauma.  uma mulher
extremamente forte. Estamos fazendo tudo que
podemos.
-- verdade -- disse Bob, rezando para ela sair
dessa.
Pip   sentou-se    de    novo,   parecendo    uma
estatuazinha de madeira. No iria a lugar algum,
nem Matt, nem os outros. Ficaram sentados ali
esperando, e ao meio-dia uma enfermeira veio
dizer que podiam ir  UTI cirrgica. Era um lugar
assustador, e o cubculo de vidro onde Ophlie
estava era cheio de aparelhos, monitores e fios
espalhados por todos os lados. Os mdicos a
monitoravam, e cada centmetro dela parecia
coberto de agulhas, ataduras e tubos. Ela estava
mortalmente plida e de olhos fechados quando
Matt e Pip entraram no quarto.
--Eu amo voc, mame -- disse ela, ao p da
cama, junto de Matt, e ele tentou refrear as
lgrimas para que Pip no o visse chorar. Sabia
que precisava ser forte para ela, mas sua vontade
era esticar a mo e tocar em Ophlie, como que
para lhe transmitir vida. Os mdicos pareciam
estar fazendo tudo por ela. Durante todo o tempo
em que ficaram ali, ela no se moveu. J iam sair
quando a enfermeira disse que o tempo estava
esgotado. Os visitantes s podiam ficar junto do
paciente cinco minutos a cada hora. As lgrimas
rolaram pelo rosto de Pip, que estava apavorada
de perder a me. Ophlie era tudo que lhe restava.
Era a nica famlia que tinha no mundo. Como que
sentindo seu desespero, Ophlie abriu os olhos e
olhou direto para ela, depois para Matt. E como
que para encoraj-los, sorriu e fechou os olhos de
novo.
--Mame? -- Pip falou no cubculo mnimo de
vidro. -- Est me ouvindo? -- Ela balanou a
cabea. A nica coisa que no doa era a cabea.
Ela estava com uma mscara de oxignio.
--Eu amo voc, Pip -- sussurrou, olhando depois
para Matt. O olhar que passou entre eles dizia que
ela sabia o que ele teria dito. Quando caiu no
cho, a ltima coisa em que pensou foi que ele
tinha razo, depois no viu mais nada. Agora ali
estava ele, e teve medo que ele estivesse
zangado. Estava contente de v-lo com Pip, e ficou
imaginando como tinham se encontrado. Pip devia
ter telefonado para ele.
--Oi, Matt -- disse, depois fechou os olhos e
dormiu de novo. Os dois estavam chorando
quando saram, eram lgrimas de alvio, mas
tambm de desespero. Esperavam que Ophlie
conseguisse sair dessa, mas nada era certo ainda.
--- Como ela est? -- perguntaram os outros
quando os dois voltaram. Estavam ansiosos na
sala de espera da UTI, e ficaram preocupados
quando viram Pip e Matt em lgrimas. Acharam
que talvez ela tivesse morrido enquanto eles
estavam no quarto.
--Ela falou conosco -- disse Pip, secando as
lgrimas.
--Falou? -- disse Bob, chocado e animado. -- O
que ela disse?
--Disse que me ama. -- Pip parecia satisfeita. Mas
ficou claro para todos, at mesmo para ela, que
aquele perodo seria longo, delicado e traioeiro.
Sua me no estava de modo algum fora de
perigo.
Os companheiros de Ophlie foram ao Centro
naquela tarde, mas prometeram voltar  noite
quando fossem para o trabalho. Tinham de ir em
casa dormir algumas horas. E teriam de estar
presentes em uma reunio no Centro para discutir
assuntos de segurana da equipe de trabalho de
rua. A ocorrncia foi um choque para todos. Bob e
Jeff j tinham dito que dali em diante sairiam
armados, pois tinham porte de arma, e Millie
concordou. A questo agora era se a equipe de
trabalho de rua era uma funo apropriada para
voluntrios. Era bvio para todos que no. Mas
tarde demais para Ophlie.
Matt ficou a tarde toda no hospital com Pip, e
viram Ophlie mais duas vezes. Na primeira, ela
estava dormindo, e na segunda parecia sentir dor.
Assim que saram, lhe deram morfina. Matt tentou
convencer Pip a ir um pouco at em casa para
descansar, tomar um banho e comer alguma coisa.
Depois que deram a injeo para Ophlie dormir,
Pip finalmente concordou, mas com relutncia.
Matt voltou para casa com ela, onde foram rece-
bidos por Mousse, e foi fazer uns ovos mexidos
com torrada. Havia dois recados do colgio de Pip
na secretria eletrnica, querendo saber notcias
de Ophlie. Alice tinha ligado para o colgio de
manh antes de sair, e deixado um recado na
mesa da cozinha dizendo para Pip telefonar se
precisasse de alguma coisa. Deixou tambm um
bilhete dizendo que tinha voltado de tarde para
dar uma volta com Mousse.
Matt levou-o para dar outra volta antes de comer,
depois ele e Pip sentaram-se  mesa da cozinha,
parecendo sobreviventes de um naufrgio. Os dois
estavam to exaustos que mal conseguiram
comer.
--No  melhor irmos para o hospital agora? -- ela
perguntou nervosa. No queria que nada
acontecesse, nem uma coisa boa nem ruim,
quando no estivesse l, no parava quieta,
esperando que Matt terminasse de comer.
--Que tal tomarmos um banho antes de voltar? --
Matt perguntou com pacincia. O aspecto dos dois
era catico. Alm do mais, precisavam dormir um
pouco. Teriam de dormir mais cedo ou mais tarde,
e ele tentou convencer Pip a tirar pelo menos uma
soneca.
--No estou cansada -- disse ela, muito valente, e
ele no a forou.
Tomaram banho, e Pip quis voltar logo para o
hospital. Matt no discutiu. Levou-a depois de dar
outra volta com Mousse, e os dois aninharam-se
no sof da sala de espera da UTI.
A enfermeira informou que os amigos de Ophlie
tinham voltado, mas ela estava dormindo e
continuava em estado crtico. Assim que Pip
sentou-se no sof da sala de espera, caiu no sono,
e Matt sentiu-se aliviado. Ficou olhando para ela,
imaginando o que lhe aconteceria se Ophlie
morresse. No queria pensar nisso, mas era uma
possibilidade. Se fosse possvel, levaria Pip para
viver com ele ou alugaria um apartamento na
cidade. Sua cabea girava com pensamentos
terrveis quando a enfermeira voltou s duas da
manh. Tinha um ar srio, e Matt entrou em
pnico assim que a viu.
--Sua esposa quer ver o senhor -- disse baixinho,
e ele no a corrigiu.
Ajeitou Pip com cuidado no sof e seguiu a
enfermeira at a UTI. Ophlie estava acordada e
ansiosa para v-lo. Chamou-o para mais perto e
ele teve medo de que ela estivesse prevendo o
pior. Assim que se aproximou e tocou no seu rosto
com carinho, ela comeou a sussurrar, com
dificuldade de respirar.
--Desculpe, Matt... voc tinha razo... desculpe...
pode tomar conta de Pip por mim?
Era o que ele temia. Ophlie estava com medo de
morrer e queria que ele fizesse algum tipo de
acerto para Pip. Sabia que sua famlia era apenas
alguns primos distantes em Paris. Ele era a nica
pessoa que poderia encarregar-se de sua filha.
--Voc sabe que sim... Ophlie, eu amo voc... no
v embora, minha querida... fique aqui conosco...
ns precisamos de voc... voc tem de ficar boa...
-- Matt suplicou.
--Vou melhorar -- prometeu ela, depois caiu no
sono e a enfermeira fez sinal para que ele sasse.
--Como ela est? -- perguntou  enfermeira da
recepo. -- Alguma mudana no quadro?
--Ela est agentando -- disse a enfermeira.
Estava impressionada de v-lo ali com a menina o
dia inteiro e a noite inteira. Coisas assim faziam
uma diferena, eia sempre se surpreendia quando
via pessoas no se importarem com seus
enfermos. Pip e Matt no saram dali, a no ser por
umas duas horas quando foram at em casa. De
manh, quando os turnos mudaram, continuavam
na sala de espera. E Ophlie parecia um pouco
melhor.
Matt levou Pip em casa e disse que teria de
comprar umas roupas ou ir at sua casa na praia
pegar alguma coisa. Falaram sobre isso no caf-
da-manh, e decidiram ir ao Macys quando
voltassem. Era bvio que Pip no queria que ele a
deixasse, e ele no a deixou.
Finalmente teve um instante livre naquela manh
para telefonar para Robert, e combinar com Alice
para passear com o cachorro regularmente.
Telefonou para a escola de Pip e eles garantiram
que ela no precisava ir. Foram muito solidrios e
fizeram votos de que a Sra. Mackenzie melhorasse
logo. Muita gente ligou aflita do Centro Wexler,
mas ele no sentiu vontade de falar com ningum
e no retornou as ligaes.
Depois de uma rpida parada no Macys voltaram
para o hospital e continuaram a viglia junto da
UTI. Finalmente, naquela noite, Ophlie mostrou
uma pequena melhora. Bob, Jeff e Millie
apareceram para v-la e notaram isso tambm.
Depois que saram, Matt cobriu Pip com um
cobertor quente que a enfermeira lhes deu, e ela
olhou para ele.
--Eu amo voc, Matt.
--Eu    tambm      amo    voc,    Pip   --  disse
carinhosamente. Tinha comprado roupa suficiente
para uma semana. Mais cedo ou mais tarde teria
de ir at a praia, mas por enquanto planejava ficar
na cidade com Pip. Pelo visto, no voltaria para
casa to cedo.
--E ama a mame tambm? -- Ela nunca sabia ao
certo o que acontecia entre eles. Ambos eram
muito discretos a esse respeito.
--Amo, sim -- disse sorrindo, e ela retribuiu o
sorriso. -- Vocs vo se casar quando ela
melhorar?
Ele gostou de Pip ter dito quando e no se. Queria
pensar dessa mesma forma.
--Ela precisa de voc, Matt. E eu preciso tambm.
Matt quase chorou ao ouvir isso, e no soube o
que dizer. Antes de ser atacada, Ophlie no tinha
certeza do que sentia por ele, nem do que iria
fazer, mas ele tinha certeza total dos seus senti-
mentos por ela.
--Eu gostaria, Pip. Mas vamos ter de perguntar a
ela, no ? -- disse com sinceridade.
-- Acho que ela tambm ama voc. S est
assustada. Meu pai nem sempre era legal com ela.
Gritava muito, em geral por causa de Chad. Chad
era muito doente e fez umas coisas bem feias,
como tentar se suicidar. Mas meu pai no
considerava Chad doente, gritava com a mame e
achava que ela era esquisita. -- Era um relato
bastante preciso do que acontecera, pelo que Matt
sabia, mas Pip expressou-se nos seus prprios
termos. -- Talvez ela tenha medo de voc ser
bruto com ela tambm, apesar de nunca ter nos
tratado mal, mas ela pode ter medo que voc se
torne bruto depois que se casar. Meu pai era muito
rabugento e muito inteligente, mas acho que no
era bom para minha me como devia ser... ela
pode tambm ter medo que voc morra, porque
ela amava o papai apesar de ele ser rabugento e
bruto e no falar muito com a gente. O papai
estava sempre ocupado, mas acho que nos amava
do seu jeito... voc pode dizer a ela que vai ser
bom para ns? Se disser, ela vai querer se casar, o
que voc acha?
Matt no sabia se ria ou chorava, abaixou-se no
sof e deu um beijo na testa dela.
--Acho que se ela no se casar comigo, devo me
casar com voc. Voc  muito inteligente, Pip.
Essa  a minha opinio.
Pip deu uma gargalhada na sala de espera
deserta. Eram as nicas pessoas ali de novo
naquela noite.
--Voc  velho demais para mim, Matt, mas  bem
bonitinho para um cara da sua idade... como pai,
quer dizer.
--Voc tambm  bonitinha.
--Ento vai perguntar a ela? -- Pip parecia ansiosa
de novo. Tinha muita coisa na cabea.
--Vou tentar. Mas acho que devemos esperar at
ela se sentir melhor, no ?
Pip pensou bem, depois franziu a sobrancelha.
--Mas no deve esperar muito. Talvez a mame se
sinta melhor se voc disser que quer se casar com
ela. O que acha? Talvez melhore muito porque tem
uma coisa boa para esperar.
-- uma idia. -- Ou talvez morra de medo. Ele
sabia que era uma possibilidade, Pip no.
Lembrava muito bem da noite em Tahoe, quando
ela teve medo de fazer amor com ele. Casamento
talvez no fosse a soluo que Pip esperava. Mas,
como ela, ele tambm gostaria que fosse. Depois
desse papo Pip caiu no sono, satisfeita de ter
falado com ele, e Matt ficou sentado ali durante
longo tempo, observando-a e sorrindo.
Telefonou para Robert de novo, conforme tinha
prometido, e contou como iam as coisas. Robert
ofereceu-se para vir de Stanford naquela manh,
mas Matt explicou que como ele no poderia ver
Ophlie seria melhor saber dela por telefone.
Robert ficou imensamente aliviado quando seu pai
disse que ela pelo menos estava viva. Ficou
chocado quando ele telefonou a primeira vez
contando tudo.
A agresso contra Ophlie saiu nos noticirios
daquela noite, mas o hospital no permitiu a
entrada de reprteres. Eles noticiaram, com ar
sombrio, que a voluntria do Centro Wexler que
fora baleada tinha sobrevivido mas continuava em
estado crtico no General Hospital de So
Francisco.
Jeff apareceu  meia-noite para dizer a Matt que o
criminoso fora apanhado. Falaram aos cochichos
enquanto Pip dormia, e Jeff ficou contente de lhe
poder contar isso. Ele e os colegas tinham ido 
delegacia identificar as fotos do agressor. O
homem foi preso durante uma transao com
drogas a apenas trs quarteires de Jess, a viela
onde os tiros foram disparados. O suspeito ainda
estava com a arma. Eles iam tentar identific-lo
pessoalmente no dia seguinte, mas no havia
dvida de que era ele. Ficaria por trs das grades
durante muito tempo. Sua ficha criminal era
extensa. At ali as notcias eram boas. A m
notcia era que a vida de Ophlie continuava por
um fio.
Mas quando Pip e Matt a viram no dia seguinte, ela
sorriu e perguntou quando poderia voltar para
casa. Ophlie passara da condio crtica para
condio sria, e o cirurgio de planto falou que
ela estava indo bem. Ningum ficou mais aliviado
que Pip, a no ser Matt. E a prpria Ophlie lhes
disse para irem para casa descansar. Ela estava
plida, porm mais coerente e parecia sentir
menos dor. Matt ento prometeu levar Pip para
casa e voltar com ela  tarde. Quando saam da
UTI, Pip olhou-o com ar conspirador e perguntou se
ele achava que j podia falar agora com sua me
sobre o assunto que tinham discutido na noite
anterior.
--Agora? -- Ele ficou assustado. -- No acha que
devemos esperar at ela se sentir melhor? Talvez
seja mais receptiva se no estiver com tanta dor.
-- bom falar enquanto ela ainda estiver um pouco
dopada com remdios. -- Pip estava disposta a
usar todos os recursos para conseguir os
resultados desejados, e Matt riu quando saam do
hospital para pegar o carro.
--Quer dizer que ela precisa estar dopada para
concordar em se casar comigo -- disse Matt, num
tom mais jovial que no dia em que Ophlie foi
baleada. As coisas pareciam um pouco menos
precrias, e a paciente estava bem melhor. Mas
ele continuava nervoso e preocupado.
--Talvez ajudasse -- disse Pip, em resposta ao
comentrio de que sua me devia estar sedada
quando ele lhe propusesse casamento. -- Voc
sabe como ela  teimosa e como tem muito medo
de se casar de novo. Ela me disse.
--Pelo menos no vou atirar nela. Isso deve contar
a meu favor -- ele disse num tom soturno.
--Talvez -- Pip falou rindo.
Foram para casa e Mousse recebeu-os feliz da
vida. No podia compreender por que andava to
abandonado. Matt cozinhou para os trs, depois foi
se deitar um instante. Estava acordado direto h
duas noites. Pip parecia melhor quando entrou em
casa. Adorava ver Matt ali, e ele prometera ficar
com ela at Ophlie vir para casa.
Voltaram para o hospital mais tarde do que tinham
planejado, e Ophlie estava passando uma noite
difcil. A enfermeira disse que isso era esperado no
ps-operatrio, em virtude do trauma. Ela sentia
muita dor, e fora profundamente sedada com
morfina. Mas seu estado passara de srio para
estvel, apesar de tudo. Estava tendo uma
recuperao fantstica, para surpresa de todos, e
naquela noite Matt decidiu levar Pip para casa.
Disse que os dois precisavam dormir uma noite em
uma cama de verdade, e ela concordou com
relutncia. Deu um beijo de boa-noite na me
antes de sair, mas Ophlie continuava dormindo.
s nove horas estavam em casa, e meia hora
depois Pip dormia a sono solto em seu quarto e
Matt no quarto de Ophlie.
S acordaram na manh seguinte, e tomaram caf
antes de ir para o hospital. Quando viram Ophlie,
sentiram um imenso alvio. Seu rosto estava
ligeiramente rosado, e a sonda nasogstrica que a
incomodava fora retirada. Continuava em estado
estvel e comeou a queixar-se de tudo, e a
enfermeira informou que isso era bom sinal.
Ophlie sorriu quando viu Matt e Pip entrarem no
quarto.
--O que vocs dois andaram fazendo? --
perguntou, como se estivesse ali descansando e
no se recuperando dos tiros que tinha levado. Os
visitantes sorriram exultantes.
--Matt preparou umas torradas francesas para o
caf-da-manh, mame. E disse que sabe fazer
umas panquecas maravilhosas.
--Que timo. Pode trazer algumas -- Ophlie falou,
mas eles sabiam que ela teria de manter a dieta
lquida por longo tempo e ainda estava no soro.
Depois virou-se para Matt com ar srio. --
Obrigada por tomar conta de Pip. -- Ela no tinha
mais ningum a quem recorrer, e ambos sabiam
disso. O tempo, as circunstncias e Ted tinham-na
isolado de muita gente. Agora sua nica parente
era Pip. -- Desculpe pelo que aconteceu. Foi uma
burrice minha. -- Mas ela tinha gostado muito de
trabalhar com a equipe de atendimento de rua.
--No vou dizer que eu avisei, mas voc conhece
minha opinio. Jeff disse que no vo mais deixar
voluntrios fazerem esse tipo de trabalho, o que
me parece certo. Era uma idia maravilhosa, mas
muito perigosa.
--Eu sei. Aconteceu tudo muito depressa naquela
noite. Eu nem sabia o que tinha me atingido
quando ca no cho. -- No adiantava pensar no
que podia ter lhe acontecido, e conversaram
algum tempo sobre isso. Pip ficou fazendo sinais
para Matt, e ele tentou no rir. Na hora do almoo
discutiu a idia com ela de novo.
--No posso pedir sua me em casamento com
voc ali ao lado.
--Mas  melhor pedir logo -- disse Pip num tom
ameaador, rindo depois.
--Por qu? Ela no vai a lugar algum. Qual  a
pressa?
--Porque quero que vocs se casem -- disse,
pronta para bater o p.
--E se ela no aceitar?
--Ento eu me caso com voc mesmo sendo to
mais velho. Nunca vi uma pessoa to devagar! --
disse, num tom de repreenso. Na prxima vez
que ele foi visitar Ophlie, Pip lhe disse para ir
sozinho, com um ar srio.
--No estou prometendo nada -- Matt falou. --
Vou ver como ela est se sentindo. -- No queria
desapontar Pip, nem a si prprio. No queria
pressionar Ophlie, no importava o que Pip
pensasse. Tinha de confiar nos seus prprios
instintos, no nos de uma criana de 12 anos,
embora sua idia fosse certa e seu corao
estivesse no lugar certo, e ele a amasse.
--Voc  a pessoa mais covarde que conheo! --
disse Pip de forma acusadora, e ele saiu rindo.
Quando entrou no quarto, encontrou Ophlie
tranqila.
--Onde est Pip? -- perguntou preocupada.
--Dormindo no sof da sala de espera -- mentiu,
sentindo-se ridculo e perguntando-se de repente
se Pip no tinha razo. Talvez aqueles tiros
tivessem mudado tudo. A vida era curta, era real,
e eles se amavam. Talvez fosse hora de unir seu
corao ao dela. Valia a pena arriscar.
--Desculpe criar problema para tanta gente --
disse Ophlie, com ar culpado. -- Nunca pensei
que isso pudesse acontecer. -- Sua voz continuava
cansada, ela ainda tinha muito pela frente.
O mdico informou que a recuperao seria longa,
o que no era de surpreender dado os estragos
causados pelas balas. Mas podia ter sido muito
pior, e quase foi.
--Eu tinha medo que isso acontecesse -- disse
Matt com sinceridade.
--Eu sei que tinha. E estava certo.
Matt segurou sua mo e acariciou-lhe o cabelo.
--Estou certo sobre muitas coisas, e errado sobre
outras.
--Voc no erra muito -- disse Ophlie, olhando-o
com gratido, o que era confortante ouvir.
--Que bom que voc pensa assim.
--Graas a Deus Pip conheceu voc na praia --
falou, e os dois riram.
--Segundo me lembro, voc no ficou muito
animada com isso.
--Pensei que voc fosse um pedfilo. Estava
errada de novo.
--Deu um sorriso e fechou os olhos, mas abriu-os
logo depois e olhou para ele. Parecia incrivelmente
em paz, considerando tudo que tinha passado.
Ophlie era uma mulher valente, e ele a amava de
todo o corao.
--E o que pensa agora? -- ele perguntou com
carinho.
--Sobre voc? Que  o melhor amigo que j tive...
e que eu amo voc... -- acrescentou com cuidado,
olhando dentro dos seus olhos. -- Muito,
realmente. -- Mais do que ela imaginava. Achava
que no merecia Matt, especialmente depois de
todo o trabalho que causou a Pip, a ele e a si
prpria. Foi um choque para todos eles.
--Eu tambm amo voc, Ophlie... --Teve medo
de fazer a pergunta, mas ao pensar em Pip
cobrando de novo sorriu e criou nimo. -- Voc me
ama o suficiente para casar-se comigo?
Ela olhou-o em estado de choque.
--Ser que ouvi bem ou estou muito dopada?
--As duas coisas. O que achou da pergunta?
Ophlie olhou-o com os olhos cheios de lgrimas,
sentindo-se ainda receosa mas no tanto quanto
antes. Quase perdera tudo quando foi baleada.
Quanto mais poderia perder? Tinha tudo a ganhar
com ele.
--Parece uma boa idia -- disse num sussurro,
com uma lgrima rolando no rosto. -- Mas voc
no pode morrer. Prometa, Matt... no ouso passar
por isso de novo...
--No vou morrer -- prometeu, inclinando-se para
beij-la. -- Pelo menos no to cedo. E gostaria
que voc se esforasse para no levar outro tiro.
No fui o nico a entrar em desespero aqui. Eu
morreria se perdesse voc, Ophlie... Amo voc
demais... - acrescentou num tom srio.
--Eu tambm.
Enquanto ele a beijava, a enfermeira entrou no
quarto e disse que o tempo estava esgotado. Os
pacientes da UTI no podiam receber visitas por
mais de cinco minutos, dez no mximo, mas
aquele tempo foi suficiente para ambos
descobrirem o que precisavam saber.
-- oficial ento? -- perguntou antes de sair. --
Quer se casar comigo? -- Queria ouvir a resposta
dos lbios dela.
--Quero -- Ophlie respondeu baixinho, mas com
sinceridade. Estava pronta agora. A hora chegara.
--Posso contar para Pip? -- perguntou, quando a
enfermeira fez sinal para ele sair.
--Pode -- disse, sorrindo de ponta a ponta e
olhando para a enfermeira. -- Estou noiva.
--Pensei que voc fosse casada -- disse ela,
surpresa.
--Sou... mas no sou... bom, eu era... e quase
sou... vou ser -- explicou. Estava atordoada de to
animada. Precisou levar trs tiros para resolver
isso. Um preo baixo a pagar.
--Meus parabns -- disse a enfermeira, tirando
sua temperatura. Matt foi para a sala de espera e
Pip olhou-o tentando adivinhar se ele fizera a
pergunta.
--Amarelou de novo? -- perguntou num tom
acusador e olhar preocupado.
Ele sacudiu a cabea, tentando ocultar a excitao
para no se trair.
--No.
--Perguntou a ela? -- Os olhos de Pip se
arregalaram.
--Perguntei.
Pip mal podia se conter, nem ele.
--O que ela disse? -- Prendeu a respirao, e ele
sorriu e ps os braos  sua volta. Pip era quase
dele.
--Disse que sim -- falou, com lgrimas nos olhos
de novo. Tinha sido um dia muito cheio de
emoes.
--Verdade? Ai, meu Deus! Uau! Ns vamos nos
casar com voc! Ai, meu Deus! Matt! -- Ps os
braos em volta dele e Matt rodou-a pela sala. --
Voc conseguiu! Voc conseguiu!
--Ns conseguimos! Obrigado pela idia, pela
coragem e pelo impulso que me deu. Se no
tivesse me pressionado, eu provavelmente teria
esperado mais um ano.
--Talvez tenha sido bom ela levar esses tiros,
talvez ela tenha... bom... voc sabe... -- disse Pip
pensativa.
--No acho no. Se ela fizer uma coisa assim de
novo, eu me mato.
--E eu tambm -- concordou Pip, quando se
sentaram lado a lado, parceiros do crime. Tudo
tinha sado exatamente conforme planejado,
graas a Pip. S restava agora marcar uma data.
--


                 Captulo 27

OPHLIE PERMANECEU no hospital por trs
semanas, e Matt ficou em casa com Pip todo o
tempo. Ela voltou para o colgio uma semana
depois da internao da me, mas ia visit-la toda
tarde. Matt passava as manhs no hospital, depois
pegava Pip no colgio e a levava para ver a me.
Criaram uma rotina durante quase trs semanas.
Quando Ophlie voltou para casa, Matt carregou-a
para seu quarto no andar de cima. Ela precisaria
de mais seis semanas de repouso.
Seu pulmo foi preservado, o estmago operado e
os intestinos no dariam problema, segundo os
mdicos. Perdeu um ovrio, mas poderia ter mais
filhos se quisesse, e o apndice foi extirpado. Sua
sorte foi fantstica, e Louise Anderson do Centro
foi se desculpar com ela por t-la deixado correr
aquele risco. Mas Ophlie tinha dito repetidas
vezes que era isso que queria fazer. A escolha foi
dela. No haveria mais voluntrias na equipe de
atendimento de rua, o que para Ophlie no fazia
diferena agora, embora tivesse adorado trabalhar
com eles. Prometeu voltar a trabalhar no Centro
dentro de uns meses, se Matt concordasse. Ele
agora tinha voz ativa, e no sabia ao certo se
queria que ela trabalhasse. A seu ver, devia ficar
em casa com Pip e com ele.
Matt dormia na antiga saleta de Ted depois que
Ophlie voltou para casa. Queria estar l caso
precisassem dele, e ela ficou contente com isso.
Ainda precisava mesmo de ajuda, e Matt lhe
transmitia segurana. Pip estava feliz.
Os planos para o casamento estavam caminhando.
Tinham combinado casar-se em junho, quando
Vanessa     poderia     participar   tambm.   Matt
telefonou para Auckland para contar a novidade e
ela ficou feliz pelo pai. Robert ficou sabendo
quando foi ao hospital visitar Ophlie.
-- Ns vamos ser uma famlia de novo -- Pip disse
 sua me com um grande sorriso quando ela
voltou para casa. Era bvio que tinha adorado a
idia, e Ophlie tambm. Levou bastante tempo
para chegar l, tempo demais provavelmente, mas
se sentia bem agora com sua deciso. Ela e Matt
falaram em passar a lua-de-mel na Frana, e
talvez levar os filhos. Pip adorou a novidade.
Ophlie ficava sempre descansando na cama
enquanto Matt buscava Pip na escola. J fazia seis
semanas que tinha sido baleada e sentia-se mais
forte, embora ainda no pudesse dirigir e s
tivesse sado de casa poucas vezes. Estava
ansiosa para jantar no andar de baixo com os
outros.
A equipe de atendimento de rua a visitava com
certa freqncia em casa. Ophlie estava
pensando neles quando o telefone tocou e ela foi
atender. A voz do outro lado da linha era familiar,
mas no bem-vinda, e parecia muito fraca. Era
Andrea, e ela pensou em desligar. Ao perceber
isso, Andrea lhe pediu que no desligasse.
--Por favor... quero falar s um instante com
voc...  importante. -- Sua voz estava estranha
quando disse que tinha ouvido falar do ataque e
ficado horrorizada. -- Queria escrever para voc,
mas eu tambm fui hospitalizada. -- Sua forma de
falar fez com que Ophlie no desligasse o
telefone.
--Voc sofreu um acidente? -- perguntou
friamente, ainda que preocupada. Afinal, elas
tinham sido muito amigas durante anos.
--No, eu estou doente -- disse Andrea.
--Como assim doente?
Fez-se uma pausa interminvel. Andrea queria
ligar para ela h meses, mas no teve coragem. E
Ophlie precisava saber.
--Estou com cncer. Descobriram h dois meses,
mas acham que j estou doente h muito tempo.
Tive dores de estmago durante um ano, mas
achei que eram por causa de estresse. Ao que
parece, o cncer comeou no ovrio, atingiu os
pulmes e agora os ossos. Est progredindo
rapidamente. -- Ela parecia resignada, mas triste.
Ophlie ficou chocada. Por mais raiva que tivesse
da amiga, no lhe desejava isso de forma alguma,
e ficou com os olhos marejados de lgrimas.
--Est fazendo quimioterapia?
--Por enquanto estou. Fiz duas cirurgias e vou
fazer radioterapia depois da quimioterapia, mas
acho que no... acho que no vou durar at l --
disse com sinceridade. -- Parece que a coisa est
feia... sei que voc provavelmente no quer me
ver, mas preciso saber de uma coisa... Voc cuida
de Willie para mim? -- As duas estavam chorando
quando ela pediu.
--Agora? -- perguntou Ophlie atordoada.
--No -- ela falou com voz triste --, quando eu
morrer. No sei se vou durar muito. Talvez alguns
meses.
Ophlie estava soluando. A vida era muito
imprevisvel, muito injusta, muito errada. Como
isso acontecia com as pessoas? Com Ted, com
Chad... e agora com Andrea. Ao pensar nisso, ficou
ainda mais grata por ter Matt, mas no conseguia
deixar de tremer depois que ouviu a notcia. Por
pior que Andrea tivesse agido, no merecia isso,
mas aparentemente ela prpria no pensava
assim.
--Talvez seja o castigo de Deus pelo que fiz com
voc, Ophlie. Sei que dizer "sinto muito" no
resolve nada, mas eu sinto muito mesmo. Tive
bastante tempo para pensar sobre isso... Sinto
muito... voc cuida de Willie? -- pediu de novo, e
Ophlie voltou a chorar. Era tudo muito cruel.
--Cuido, sim -- disse entre lgrimas. Lembrou do
carinho que Matt teve com Pip durante sua
internao, apesar de s conhec-la h oito
meses, quase nove. Sabia que Andrea no tinha
mais ningum a quem recorrer, no tinha outra
escolha. Ela era madrinha de Willie, apesar de ele
ser filho de Ted. No era culpa do beb. -- Onde
ele est agora? Algum est ajudando voc com
ele?
--Eu contratei uma bab permanente -- disse
Andrea, com voz cansada de novo. -- Quero Willie
perto de mim at o fim. -- Falou como se fosse
uma coisa certa. Era terrvel. Inacreditvel. Andrea
tinha 45 anos, e seu filho nunca conheceria os
pais.
Matt entrou enquanto Ophlie ainda falava com
ela, e ficou intrigado. Ao ver que ela estava
chorando, saiu do quarto, pois no queria se
intrometer. Achou que ela lhe contaria mais tarde.
--Posso fazer alguma coisa por voc agora? --
perguntou Ophlie com tristeza. No queria que
restasse nenhuma animosidade, especialmente
agora, embora soubesse que seria difcil
atravessar o abismo que fora criado entre elas.
--Gostaria de ver voc de novo -- Andrea falou
baixinho. -- Mas me sinto muito fraca o tempo
todo. A quimioterapia  um horror.
--E eu no posso sair ainda. Mas assim que puder
vou visitar voc.
--Vou preparar um novo testamento deixando
Willie com voc, se for do seu acordo. Tem certeza
de que vai conseguir cuidar bem dele, que no vai
odi-lo pelo que eu fiz?
--Eu no odeio voc -- disse Ophlie calmamente
--, s fiquei muito triste ao saber do que
aconteceu. Fiquei muito magoada. -- Mas quando
ouviu a voz de Andrea, sabia que a perdoara. E ela
no tinha agido sozinha, fez tudo em parceria
comTed. Essa foi a parte mais difcil para ela. Mas
muita coisa aconteceu depois.
--Vou me manter em contato para dizer como
estou passando -- disse Andrea num tom prtico.
-- Vou colocar seu nmero nos meus formulrios
de emergncia. -- O nmero j estava l, mas
depois do que aconteceu entre elas foi retirado. --
E vou dar o nmero para a bab tambm, caso
acontea alguma coisa e eu no tenha chance de
telefonar.
--Voc vai ter de reagir, Andrea. No pode desistir.
-- Estava profundamente chocada com tudo que
ouvira e com a voz de Andrea, e teve pena de no
poder lhe ajudar. Sabia que ver Andrea de novo
seria muito difcil para ela. Era ainda muito cedo
depois de tudo o que acontecera. -- Eu telefono.
Ligue para dizer como est.
--Eu ligo -- disse ela, chorando abertamente. --
Obrigada. Sei que voc vai cuidar bem de Willie.
--Prometo que sim. -- Decidiu falar sobre Matt,
pois achava que Andrea tinha direito de saber. --
Vou me casar em junho com Matt.
Fez-se um longo silncio e Ophlie ouviu um
suspiro. Como se Andrea se sentisse absolvida de
alguma forma por no ter destrudo totalmente a
vida de Ophlie.
--Estou muito contente. Ele  um sujeito legal.
Espero que sejam muito felizes -- disse com
tranqilidade.
--Eu tambm. Vou telefonar para voc em breve.
Cuide-se, Andrea.
--Eu amo voc... e sinto muito -- disse num
sussurro, e desligou.
Ophlie colocou o telefone no gancho com
cuidado, e, nesse momento, Matt voltou para o
quarto.
--O que houve? -- perguntou, preocupado.
Ophlie estava nitidamente transtornada.
--Andrea -- disse, olhando direto para ele.
-- a primeira vez que fala com ela? -- Ophlie
assentiu.
--Telefonou para pedir perdo? Devia mesmo. --
Ele ainda estava chocado com o que ela e Ted
tinham feito, e s ento ocorreu a Ophlie que
devia ter lhe perguntado se aceitaria ficar com o
beb antes de dar uma resposta final. Mas como
poderia se recusar? Achava que no podia, nem
devia. Afinal de contas, ele era meio-irmo de Pip
e filho de Ted.
--Ela est morrendo.
--O que aconteceu? -- ele perguntou, pasmo.
--Descobriu h dois meses que tem cncer de
ovrio, com metstase nos pulmes e ossos. Acha
que tem poucos meses de vida e me pediu para
ficar com o beb. Ns... -- Decidiu deixar clara a
situao imediatamente. -- Eu disse que ficaria. O
que acha disso? Contei que amos nos casar, ainda
posso dizer que no temos condio de ficar com o
beb, se voc for contra. Mas ela no tem mais
ningum a quem recorrer. O que voc acha?
Matt sentou-se no p da cama por um instante
para pensar. Era certamente um grande acrscimo
 sua vida, que ningum esperava, mas podia ver
a importncia do caso. Seria difcil recusar, e de
certa forma mais difcil ainda para Ophlie, pois o
beb era de Ted e meio-irmo de Pip. Uma
situao bastante peculiar.
--Nossa     famlia   parece     estar    crescendo
espontaneamente, no ? No vejo como voc
possa dizer no a Andrea. Ser que ela vai morrer
mesmo?
--Parece que sim. Sua voz estava pssima.
--Creio que no temos muita escolha. Pelo menos
o beb  lindo -- disse, inclinando-se para beij-la.
Matt era realmente uma tima pessoa. Os dois
combinaram no dizer nada a Pip por enquanto.
Era uma notcia muito deprimente e ela tinha
passado por muitas dificuldades quando a me foi
internada. No precisava saber que Andrea estava
morrendo. Era coisa demais.
Andrea mandou um bilhete uns dias depois
agradecendo, mas no telefonou mais. Ophlie ia
telefonar, mas como estava muito cansada e fraca
ficou adiando, pois isso ainda a deixava perturba-
da. Matt levou-a  praia duas semanas depois,
com Pip e Mousse. J parecia vero, mas ainda era
maro. Deram uma volta curta e sentaram-se ao
sol, conversando sobre os planos do casamento.
Tinham decidido fazer uma cerimnia simples na
praia, s com os filhos, e um padre que Matt
conhecia em Bolinas. Parecia o bastante para eles.
No queriam um grande acontecimento social.
Dois dias depois de terem levado Pip  praia,
voltaram sozinhos l em um brilhante dia de sol.
Ophlie disse que o ar marinho lhe fizera bem e
ele concordou, mas tinha uma coisa em mente.
Prepararam uma cesta de piquenique na cidade,
pois no tinham nada para comer em casa. Assim
que entraram em Safe Harbour, Matt colocou a
cesta na mesa e ps uma msica. Ophlie tinha
uma ligeira idia do que ele estava pensando, e
sentiu-se pronta dessa vez. Tinham esperado
muito tempo, tempo demais. Era o que devia ter
acontecido em Tahoe, e no aconteceu.
Assim que pisaram na casa, Matt ps os braos em
volta dela e a beijou, e Ophlie olhou para ele.
Muito antes de toc-la ela j era dele, e queria ser.
Seguiu-o at o quarto, ele tirou suas roupas com
carinho e colocou-as em cima da cama, tomou-a
nos braos e os dois ficaram aninhados debaixo
dos lenis at a paixo tomar conta deles e
carreg-los suavemente para longe. Era a ligao
de duas vidas, duas pessoas, dois coraes, dois
mundos, tudo que desejavam que fosse. Era o que
tinham esperado e com o que tinham sonhado. E
juntos nos braos um do outro, em Safe Harbour, o
grande sonho realizou-se finalmente.

                  Captulo 28

OPHLIE PLANEJAVA telefonar para Andrea desde o
dia em que ouviu sua voz duas semanas antes.
Mas estava sobrecarregada, tentando organizar as
coisas que haviam se empilhado enquanto
permaneceu no hospital. Teria de comparecer a
uma audincia preliminar com referncia ao
ataque que sofrera, pois o advogado de defesa
queria evitar que ela tivesse de testemunhar no
julgamento. Depois de uma exaustiva manh no
tribunal, acompanhada por Matt, o pedido da
defesa foi negado. E ela continuava cansada.
Alguma coisa sempre interferia quando pensava
em telefonar para Andrea. Tinha se prometido
finalmente ligar naquela tarde, antes que Pip
voltasse do colgio. Quando ia discar o nmero, a
bab de Andrea telefonou.
-- Eu ia mesmo ligar para a -- disse Ophlie,
gentilmente. -- Como ela est? Que bom que voc
telefonou.
A voz do outro lado parecia estranha, com
dificuldade de dar a notcia.
--Andrea morreu hoje de manh, perto do meio-
dia. -- Ophlie teve a impresso de que tinha
levado um soco no estmago.
--Ah, meu Deus... Sinto muito... eu no sabia...
achei que... ela disse que teria uns meses de
vida... no tinha idia de que seria to rpido.
A morte nem sempre vem dentro dos horrios, ou
dos planos. Alis, nunca vem. Ophlie s
conseguia pensar, parada ali, que h menos de um
ano tinha assistido ao parto de Andrea. Foi uma
ocasio muito excitante e alegre, e muito
comovente, e ao pensar nisso percebeu que era
assim que queria se lembrar dela. De repente ficou
contente de no t-la visto doente. Depois de
quase vinte anos de amizade tinham se desligado,
mas talvez as coisas tivessem de ser assim.
Andrea tinha um caminho a seguir que no inclua
mais Ophlie. Cometeu um erro terrvel que a
magoou profundamente, e o resultado foi o
nascimento de uma criana que iria agora morar
com ela. Todos os estranhos desencontros e
viradas da vida nunca levavam aonde se esperava.
Era impossvel prever o destino de algum.
--Vai haver um enterro? -- Ophlie perguntou,
imaginando se ela  quem deveria organizar. Que
estranho isso tambm, elas falavam sobre
casamentos e casos amorosos, e Ophlie tinha
dado uma festa no batizado de Willie porque era a
madrinha. Agora teria de organizar um enterro
para a me dele. Mas a bab explicou que no era
isso que Andrea queria. J tinham ido busc-la
para ser cremada, e suas cinzas seriam jogadas no
mar. Sem cerimnia, sem acompanhantes de
enterro, sem tmulo em algum lugar, s na
lembrana das pessoas. Dessa vez Ophlie
concordou. Dentro das circunstncias, era menos
doloroso para todos assim.
A prpria Andrea organizara as coisas, desfazendo-
se do apartamento e dos seus pertences. Deixou
tudo para Willie. A bab ofereceu-se para lev-lo
para a casa de Ophlie mais tarde naquele dia.
Portanto, Ophlie teria de contar logo para Pip.
Esperou-a na cozinha quando ela chegou da escola
com Matt. Pip no mesmo instante percebeu o olhar
diferente da me. Matt j sabia de tudo. Ophlie
telefonara para seu celular quando ele estava indo
para o colgio. Ele disse que faria tudo que
pudesse para apoiar as duas.
--Aconteceu alguma coisa? -- Pip ainda se
lembrava da ltima vez em que vira a me com
aquele mesmo olhar assustador, embora muito
pior. Teve medo que ela e Matt tivessem desistido
de se casar, porm Ophlie garantiu que estava
tudo bem com eles, mas que tinha notcias tristes
para dar.
--Alguma coisa com Mousse? -- Ela no o tinha
visto quando entrou em casa. Ophlie sorriu. Alm
de Matt, no lhes restava mais ningum.
--No, foi Andrea. Ela morreu hoje. -- Pip ficou
chocada de incio, depois triste. -- Andrea estava
muito doente. Telefonou para mim h duas
semanas mas eu no queria contar por enquanto.
--Voc ainda estava com raiva dela? -- Pip
perguntou, observando a expresso da me.
--No. Fizemos as pazes quando ela telefonou
dizendo que estava doente.
--O que ela fez para voc? -- Ophlie olhou para
Matt e ele imaginou o que ela diria, e aprovou a
explicao.
--Eu conto um dia, quando voc crescer, mas
agora no.
--Deve ter sido uma coisa muito ruim -- disse Pip
solenemente. Conhecia sua me o bastante para
saber que ela teria perdoado Andrea mais cedo ou
mais tarde e visto a amiga de novo.
--Para mim foi. -- Pip tambm precisava saber um
dia que Willie era seu meio-irmo.
--O que vai ser de Willie? -- Pip perguntou com
voz triste. Ele era rfo agora. Uma idia terrvel,
mesmo para ela.
--Ele vem morar conosco -- disse Ophlie
calmamente, e Pip arregalou os olhos.
--Vem? Agora?
--Hoje. -- Pip ficou contente, e Matt sorriu. Era
uma seqncia estranha de fatos que tinham
ocorrido porque tinham de acontecer, como tudo
na vida. Ento percebeu como a vida era estranha.
Se as coisas tivessem sido diferentes, Ophlie
poderia ter morrido por causa dos ferimentos. No
entanto, estavam se casando, e o beb de outra
mulher, que tambm era de Ted, vinha viver com
eles.    A    vida   e     seus    acontecimentos
extraordinrios,   em    geral   complicados,    e
inesperados.
A bab chegou com Willie e todos os seus
pertences no final da tarde, e Ophlie e Pip
estavam     esperando-o.     Foi  um     momento
emocionante para Ophlie, pois o beb era no
apenas de Ted como de Andrea, e as duas tinham
sido amigas durante 18 anos. Willie crescera
muito, elas no o viam h quatro meses. Ophlie
perguntou  bab se ela gostaria de ficar
trabalhando com eles, e o convite foi aceito. A
casa ficava mais movimentada e mais cheia a
cada minuto. E Ophlie ainda no estava pronta
para cuidar pessoalmente do beb, seria um
trabalho em horrio integral. Como j tinha Pip e
Matt para cuidar, precisaria de ajuda para criar o
beb, caso contrrio no teria tempo nem energia
para eles.
Teve uma idia naquele momento e contou para
Matt, que disse que concordaria se Pip
concordasse tambm, e ela sabia que Pip
concordaria. Ento pediu que Matt se mudasse
para seu quarto, j que iam se casar em breve. A
saleta de Ted, onde Matt estava dormindo, passou
para o beb e a bab. Por enquanto esse esquema
funcionaria. O quarto de Chad ainda era
considerado um lugar sagrado e fora dos limites.
Mas Ophlie era da mesma opinio de Matt de que
precisariam logo de uma nova casa. Queriam ter
um quarto de hspedes para Robert e Vanessa
tambm. Como as coisas estavam, Vanessa teria
de dormir com Pip quando viesse visit-los, o que
encantou Pip, e isso era bem possvel. A casa
comeava a ficar superlotada. E Safe Harbour, com
apenas um quarto e uma sala aconchegante, seria
um refgio romntico para Matt e Ophlie, o que
no parecia m idia.
Tarde da noite, depois que o beb e a bab tinham
sido instalados e Pip j estava na cama com
Mousse aos seus ps, Matt foi dormir na cama com
Ophlie e virou-se para ela com um sorriso.
--As coisas esto mudando depressa por aqui, no
, meu amor?
--Nem me diga. E imagine se eu ficar grvida! --
Estava s brincando. Com a chegada de Willie, a
famlia parecia grande o suficiente, e ela no tinha
inteno de aument-la, nem naquele momento
nem mais tarde. Antes de dormir, agradeceu a
Matt por ele ter aceitado tudo to bem.
--A gente nunca sabe o que vai acontecer por aqui
de um dia para o outro -- ele disse feliz. -- Estou
comeando a gostar disso.
--Eu tambm. -- Aconchegou-se a ele, e uns
minutos depois todos os moradores da Clay Street
dormiam profundamente.


                 Captulo 29


O DIA DO CASAMENTO deles em junho amanheceu
com um sol brilhante. Um dia perfeito, ensolarado
e com uma brisa suave. Havia poucos barcos de
pesca no horizonte, e a praia parecia ter sido
varrida de to limpa. Safe Harbour nunca estivera
to bonita.
O padre chegou s 1 lh30 e o casamento estava
marcado para meio-dia. Ophlie usava um vestido
simples de renda branca at o tornozelo e levava
um buqu de lrios brancos. Os vestidos de
Vanessa e Pip eram de linho branco. Matt e Robert
estavam de cala e blazer. E Willie, nos braos da
bab, usava uma roupinha azul e branca de
marinheiro. Estava comeando a andar e era a
primeira vez que calava sapatos. Ophlie no
pde deixar de notar que ele era igualzinho  me,
o que lhe deu certo alvio. Se fosse o contrrio,
seria difcil explicar, embora ele se parecesse um
pouco com Pip. Seu ar era definitivamente familiar.
Quando comentavam isso, Pip ficava satisfeita.
No tinha idia, e Ophlie esperava que to cedo
no tivesse, de que Willie era de fato da famlia,
mas no da famlia da sua me.
Estavam todos felizes, e iam partir para a Frana
no dia seguinte. Passariam uma semana em Paris
e dois dias em Cap d'Antibes, em Eden Roc. Uma
lua-de-mel extravagante, Matt insistira em
convidar todos porque, segundo disse, fazia anos
que no gastava um centavo. Estavam todos
ansiosos para ir. Assim que voltaram para a
cidade, Ophlie e Matt decidiram que procurariam
uma nova casa para morar. A casa de Clay Street
estava abarrotada de gente.
Robert foi o padrinho, Vanessa a madrinha e Pip a
dama-de-honra. Tinham pensado em Willie para
carregar as alianas, mas seus dentes estavam
nascendo e ele levava tudo  boca, ento tiveram
medo de que ele as engolisse.
O padre falou de forma breve e comovente sobre o
reencontro de famlias, a ressurreio do esprito e
a cura das tristezas do passado. Falou de
esperana, alegria, compartilhamento e famlia, e
do tipo de amor e bnos que juntava e mantinha
todos juntos. Enquanto Ophlie ouvia o padre,
seus olhos vagaram pela praia e pararam no lugar
preciso em que Matt trabalhava quando Pip o
encontrou, exatamente um ano antes. Era
impossvel no pensar na casualidade, no destino
e na sorte que os unira. Tudo por causa de uma
menininha que passeava pela praia com seu
cachorro.
Matt viu os olhos de Ophlie voltados para a praia
e pensou exatamente a mesma coisa. Quando se
virou para ela, seus olhos se encontraram. Foi uma
verdadeira sorte o encontro deles. Porm foi
preciso mais que sorte, incidentes felizes e at
mesmo amor. Foi preciso sabedoria e coragem
para juntar suas vidas e firmeza de esprito para
buscar e manter essa unio. Teria sido muito mais
fcil no tentar, virar as costas e esconder-se para
proteger mgoas antigas. Mas eles ousaram,
andaram por caminhos escuros e frios, desafiaram
os demnios, enfrentaram os terrores e se
recusaram a fugir. Era mais que um ato de amor
que celebravam naquele dia, era um ato de
coragem, de f, de esperana e de crena. Todos
os fios se juntaram, fios finos e soltos de incio e
agora cuidadosamente entrelaados para formar o
tecido da nova vida deles. Os dois fizeram, acima
de tudo, uma escolha: no ceder  morte e
abraar a vida. E isso no tinha sido assim to
fcil. Ophlie e Matt andaram na corda bamba,
com um equilbrio delicado, at chegarem em
segurana ao outro lado. Encontraram o que
desejavam e lutaram para chegar a um porto
seguro, escapando finalmente das tempestades.
Quando o padre perguntou a Ophlie se ela
aceitava aquele homem como seu legtimo esposo
para o resto da sua vida, Pip sussurrou junto com a
me: "Aceito."
